Um Olhar do Paraíso

Adaptação de livro homônimo coloca Peter Jackson em contato com seu lado espiritual, deslumbra com um visual surreal e pessoal e confronta o público com uma história horrível, mas necessária.

Rotular Peter Jackson é um erro. Suas origens nérdicas estão presentes e sempre serviram como base, mas o diretor neozelandês aproveita cada oportunidade para mergulhar em filmes relevantes tanto para a sociedade, quanto para ele mesmo. Esse é o caso de Um Olhar do Paraíso (The Lovely Bones), adaptado do romance de Alice Sebold, no qual a vida da jovem Susie Salmon (Saoirse Ronan) é descrita após sua morte. O assassino: um vizinho sociopata (Stanley Tucci, indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante e vencedor Globo de Ouro pelo papel).

Distante das habituais obras repletas de mistério e reviravoltas, Um Olhar do Paraíso não se prende ao assassinato de Susie ao permitir que suas impressões do pós-vida – sejam elas sentimentais ou visuais – norteiem o filme enquanto ela vê sua família desmoronar e seu algoz continuar impune. Enquanto Tucci e a irlandesa Saoirse [pronúncia: Sârxia] chamam a atenção em cada uma de suas intervenções, a dinâmica entre Mark Wahlberg e Rachel Weisz, como os pais da garota, fica a desejar. Tudo é intenso demais para as limitações dramáticas de Wahlberg que, conseqüentemente, mina a sempre habilidosa Weisz. A falha é conjunta. Felizmente, Peter Jackson tirou o peso da auto-sabotagem provocada pelos pais e transferiu o foco da narrativa para Susie e, quando era hora de mostrar a família, optou por reforçar a presença de Susan Sarandon – num papel exageradamente divertido, como a avó tresloucada.

“Gosto desses filmes que arriscam visualmente sem ofender o espectador”, comenta Susan Sarandon, em entrevista a este repórter, em Los Angeles. “Coisas como O Curioso Caso de Benjamin Button me incomodam, pois tentam simular algo improvável; fiquei muito irritada com esse filme”. A visão de Sarandon é bastante definida sobre esse assunto e, mesmo depois de ter criticado duramente Speed Racer, cuja forte assinatura visual chama mais atenção que a história em si, a atriz contextualizou sua crítica ao filme de Brad Pitt: “Speed Racer deixa claro, logo de cara, que se trata de um desenho animado, então vale tudo de certo modo; não gosto quando tentam simular a realidade desse modo, por isso, ver esse paraíso de Susie é algo belíssimo, pois não se trata do nosso mundo; é outra coisa, outro lugar, outra sensibilidade”.

E é nesse tom que Um Olhar do Paraíso se desenvolve. Testando a sensibilidade do espectador por meio da visão de Susie, cujo lar agora é um lugar entre a Terra e o Paraíso, um limbo pessoal e paradisíaco. “Ela precisa confrontar seus medos e sua nova realidade para poder sair dali e, só então, seguir seu caminho para seu destino, seja lá qual for”, comenta Peter Jackson. Assim como o romance, o filme não toma partido de nenhuma religião. A jornada é o que importa. “E o visual é reflexo disso, a alma de Susie criar seu mundo baseado no que ela viu, viveu e sentiu”. Tudo é simbolismo, misturando leitura de sonhos com elementos new age e a delicadeza de uma garotinha.

Esse é um lado da história.


O outro é visualmente neutro. Hermético. Premeditado e sem cor. É o mundo do Sr. Harvey (Stanley Tucci), um sujeito atormentado por desejos terríveis e uma habilidade assustadora na hora de aplacá-los. É tensão latente, tão agressiva que Stanley Tucci relutou – e muito – para aceitar o trabalho e só o fez depois que Peter Jackson garantiu que seu visual seria diferente o suficiente para que ele próprio não se reconhecesse. O resultado é uma versão maligna do personagem de Tom Cruise em Trovão Tropical. “Nunca vou deixar meus filhos chegarem perto desse filme, pode apostar”, avisou o ator, muito respeitoso em relação às possíveis indicações por seu trabalho. “Embora a honraria seja válida, esse é o tipo de cara pelo qual não gostaria de ser lembrado”.

Um Olhar no Paraíso apontava como um filme extremamente dramático e deprimente, revelou-se espiritual e sonhador. Tudo por conta do ótimo trabalho de Saorsie Ronan (Desejo e Reparação), capaz de transmitir as emoções de Susie de maneira convincente, seja nos momentos apaixonados ou nos confrontos mais assustadores. É agradável travar contato com esse além no qual as almas não tem necessidade de “resolver algo pendente” no mundo dos vivos a la Melinda Gordon, tendo apenas responsabilidade com seus próprios desejos e problemas. Ela foge da hora de sua morte [momento detalhado no livro, mas propositalmente ignorado pelo roteiro], entretanto, permanecerá para sempre sozinha caso não faça sua escolha: superar o ódio nutrido contra o Sr. Harvey ou encontrar conforto no amor de sua família?

Soa óbvia, mas nem por isso fácil. Como cobrar algo assim de uma garota apaixonada cuja vida foi interrompida tão cedo e de forma tão violenta? Pelo argumento de Alice Sebold e roteiro de Peter Jackson, Fran Walsh e Philippa Boyens o tempo é o melhor remédio. “Uma das coisas que mais me impressionou foi o fato de o amor da família voltar a existir com o passar dos anos, enquanto o desfecho do Sr. Harvey é solitário e inexpressivo. A memória dela sobrevive, a dele desaparece. É irônico, mas justo”, interpreta Saorsie. Peter Jackson é um diretor de muitos estilos, capaz de ser emocional e belo sem precisar salvar o mundo, ou a Terra-Média, no processo. É o seu olhar do paraíso que faz desse longa uma obra diferenciada e bem-vinda.

Por Fábio M. Barreto,
de Los Angeles

* Artigo originalmente publicado na Sci-Fi News, nas bancas!
**Para ler a entrevista com Peter Jackson, confira a revista MOVIE. Já nas Bancas.

3 comentários em “Um Olhar do Paraíso”

  1. Gostei muito, no meio ele fica um pouco longo, mas no geral é um filmão, quero velejar num navio, em uma garrafa em meio aos rochedos, achei fantastico o visual, muitas loucuras de um local que ninguem conhece, mas um dia vai conhecer….
    O limbo do Peter Jackson era quase um céu! só faltou o Robin Willians e flores feitas de tinta.
    Abraço!

Comentários encerrados.

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