Team Barreto – “It’s the dream, isn’t it?”

Num dia de ansiedade, lágrimas, mudanças repentinas e surpresas felizes, começamos a jornada da Família Barreto – e especialmente da Ariel, a arqueira mais jovem do clã – no Tiro com Arco, ou Arco e Flecha, como você deve conhecer o esporte. Lágrimas? Pode apostar. Mas, como este é o primeiro texto de uma série que, idealmente, vai se estender por pelo menos 8 anos, comecemos pelo lugar mais óbvio: o começo.

A Fagulha Olímpica

Durante os jogos olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, aproveitei a transmissão ao vivo da NBC para acompanhar as rodadas de Tiro com Arco, coisa que, sinceramente, nunca havia feito. Sempre participei de competições – fui Campeão Paulista Universitário e Medalha de Bronze no Campeonato Brasileiro Universitário no auge da minha breve carreira –, mas nunca assisti com afinco às provas internacionais. Porém, eu não sou o foco disto tudo. Bem, pelo menos não o único foco. Afinal, provavelmente já tenho mais primaveras atrás de mim do que pela frente, mas algo reavivou toda a chama e a paixão pelo arqueirismo: Ariel.

Ela acompanhou muitos dos meus treinamentos e sempre teve curiosidade, mas nunca pode por conta da idade. O mínimo adequado para a prática do Tiro com Arco é 8 anos, mas o ano passado foi conturbado e por eu mesmo ter parado de praticar (o campo de tiro [Range] onde eu treinava, Rancho Park, foi fechado para reconstrução graças a uma doação milionária da Easton Foundations), acabei perdendo a janela. Porém, enquanto eu assistia à cobertura, Ariel viu e começou a imitar os arqueiros e falar sem parar sobre o que cada um fazia. Aí surgiu aquela fagulha capaz de ligar a luz do Professor Pardal. Seria a hora?

Durante alguns dias, falamos sobre o assunto e ela ficou triste por ter perdido as duas horas inicias de uma das eliminatórias, mas fomos salvos pelo replay da NBC. Depois de 3 horas assistindo a mais de 40 disputas, sem parar, começava a ficar claro o interesse. Curiosamente, ela nunca se interessou assim por nenhum esporte. Tentamos karatê, natação, ginástica olímpica e outros, mas só o Tiro com Arco gerou uma reação deste tipo. Aí veio a bomba.

Havíamos visto o Desfile das Nações (Parade of Nations) na Abertura dos Jogos Olímpicos do Rio. E eu disse: “Já pensou se você começasse a treinar e estivesse ali daqui 8 anos?”, e ela respondeu: “E se nós dois estivéssemos no desfile, juntos?”. Eu desabei, primeiro pela fofice da minha filha e daqueles olhos de cachorro pidão que ela faz em momentos fofos e meigos como aquele, depois pelo vislumbre da situação, de ver que ela estava pensando longe. E por causa de um esporte.

Tudo isso pode ser o calor do momento olímpico? CLARO. Vai ser só isso? Só o tempo dirá. Minha função como pai é dar condições, lutar ao lado dela e fazer o possível para não ser apenas um sonho, a dela é encontrar um modelo constante e longevo para este início de paixão. Porém, como uma unidade familiar, a tarefa dos três – afinal a Dona Lu vai batalhar junto – é acreditar e lutar como uma equipe.

 

Coração Partido

Quando alguns dias passaram e o interesse continuou, resolvemos dar o primeiro passo. Fui atrás de alguma estrutura adequada para iniciar o treinamento – e espero que este aspecto torne este canal muito útil para jovens arqueiras e arqueiros no Brasil, ou se você quer saber como treinar arco e flecha em Los Angeles – e encontrei várias opções, afinal, os Estados Unidos investem pesado, especialmente se comparado ao esforço brasileiro, na formação das categorias de base da maioria dos esportes.

Por exemplo, sou técnico de futebol na AYSO, que prepara jovens jogadores de futebol – feminino e masculino – há décadas e por onde a maioria das jogadoras da atual seleção norte-americana passou no início. Enfim, por conta do investimento na restauração do range do Rancho Park [uma estrutura construída para treinamento de arqueiros durante os Jogos Olímpicos de 1984, em Los Angeles. Olha isso, mais de 20 anos em operação e subsidiada pela prefeitura e empresas privadas, ou seja, de graça para os arqueiros iniciantes] cheguei até a Easton Foundations.

A Easton é uma das fabricantes de material esportivo para Tiro com Arco e compete com outros monstros como Hoyt, Win&Win, Cartel, PSE e SF Archery, entre outros, e também tem linhas de golfe e baseball. O braço Foundations é responsável por uma série de academias espalhadas pelos Estados Unidos e também pelo subsídio a tantas outras instalações dedicadas ao esporte, além de iniciativas criadas para difundir o esporte em escolas e etc. Estou puxando o saco da Easton? Não. Tudo isso são fatos e atividades realizadas por eles que, sob o ponto de vista de alguém vindo de outro país com uma cultura de não-incentivo, parece um paraíso. Aí, lemos todas as informações no site deles e recebemos a recomendação, que fazia muito sentido, de levar a Ariel para uma aula de iniciação. A Safety Class, ou seja, Aula de Segurança, mostra os princípios da prática do esporte:

  • identifica se o arqueiro é destro ou canhoto (muitas pessoas são destras na hora de escrever, mas atiram como canhotas, e vice versa);
  • ensina a etiqueta da linha de tiro (para evitar acidentes e etc);
  • explica a base da ancoragem (até onde o arqueiro puxa a flecha);
  • explica a base do tiro, já com mira (quando comecei no Brasil, a mira só era introduzida meses depois, pois a base era construída na chamada mira instintiva, que funcionava com memória muscular e postura e sem auxílios mecânicos)

Por que tudo isso é necessário? Usando uma analogia ao esporte bretão, imagine alguém que nunca viu uma partida de futebol dentro de um campo. Alguém precisa dizer como funcionam as linhas laterais, como se deve chutar a bola e que é perigoso chutar a cara do adversário com as travas da chuteira.

Logo, é a Introdução, o básico do básico. Então, a Easton indicava o Woodley Park Archery Range para a realização da Safety Class. A estrutura do Woodley Park para iniciantes é bem semelhante à do Rancho Park, com uma exceção imensa: eles têm um campo de tiro outdoor, que inclui as medidas Olímpicas – de 70 metros de distância, entre 5m e 90m. O lugar é lindo. Mas também pode partir corações.

Tudo começou com lágrimas

Chegamos lá 45 antes do início da aula, cheios de esperança e empolgação e fomos recebidos por uma placa: Newcomer Class Full; aula para iniciantes está cheia. Até tentei argumentar com o pessoal, mas se uma coisa que americano faz na vida e não arreda o pé é seguir ordens. Se está cheio, está cheio. Fiquei meio chateado, mas quem desabou foi a Ariel. Na cabeça dela, o destino está definido e ela vai competir nos Jogos, então, como assim esse povo não vai deixar ela dar o primeiro passo? Foi frustrante, bem frustrante.
Mas há duas coisas boas aí:

  • 1) O interesse pelo esporte está em alta (28 pessoas aguardavam pela aula, de crianças curiosas a adultos ainda vestindo metade da roupa social do trabalho, e estamos falando de uma aula com início às 17h numa quarta-feira);
  • 2) Gostamos da estrutura, que é oferecida gratuitamente, como eu mencionei, depois que você faz essa aula. Sim, eu também preciso fazer. Não é questão de experiência, é lei. O range precisa ter um formulário garantindo que você foi instruído e sabe operar de acordo com as normas do local.

Mesmo assim, tínhamos um problema. Minha filha estava triste, queria saber se era mesmo tão legal assim e viu os sonhos dela desmoronarem com um não. Pelo lado da experiência de vida e do próprio esporte, foi bom, pois ela vai errar muita flechada, vai perder muito campeonato e vai sofrer muitas frustrações ao longo do trajeto. Por outro, poxa, era a primeira vez e só queríamos que fosse especial. E, como todo problema gera oportunidades, explorei as cartas na mesa. E adivinha onde fui parar? No ponto de partida: a Easton.

Eles queriam incentivar os jovens arqueiros a terem uma base mínima antes de aparecerem na academia, mas não era uma obrigatoriedade. Acabei optando pela Safety Class do Woodley para poder praticar um pouco ao lado da Ariel. Como não foi possível, decidi deixar a frustração de lado e corremos até a Easton Foundations que, por sorte, ficava bem perto do parque. E aí tudo deu certo!

Um técnico, uma bola azul e o sonho voltou

Quando entrei no archery range da Easton Foundation bateu até uma emoção. É um hangar gigantesco construído sob medida para a prática do Tiro com Arco. Nada de prédio reaproveitado ou puxadinho adaptado, o lugar nasceu com aquela finalidade (postarei várias fotos ao longo do treinamento) e você sente isso de cara. Em poucos minutos, Ariel foi recebida por um dos treinadores e fizeram um teste com ela para ver em qual nível ela entraria. Independente do resultado, eu pediria para ser no Iniciante 1. Ela precisa de uma base sólida se tem aspirações olímpicas. E foi isso mesmo. A curva de aprendizado pareceu alta pelo desempenho no teste e, imediatamente, ela já foi inserida numa turma que estava começando a fazer o aquecimento. Uma das atividades envolvia uma bolona azul, que era jogada de um jogador para o outro, para estimular senso de direção, aquecer a musculatura e gerar umas boas risadas.

Enquanto ela aquecia, fui conversar com June Montenegro – o técnico principal daquela instalação, atirador profissional da Easton e duas vezes campeão mundial, tá bom, né? – e começamos a traçar um plano de treinamento para ela. E para o velho gordo aqui também.

Para fechar o dia com chave de ouro, ela teve a primeira aula com instrutora dedicada – uma moça bem legal chamada Jen – e já recebeu toda a instrução inicial, dentro de um templo dedicado ao arco, e se divertiu muito. Por um bom tempo, onde as flechas acertam o alvo não será importante, mas há um medidor de validade de todo esse esforço: o sorriso da Ariel.

Enquanto ela atirava, notei que ela estava se divertindo, brincava e conversava com a instrutora e sorria o tempo todo. Disse a ela: “no momento em que não for mais divertido, perde o sentido”. Bom, começamos bem. E ela até acertou um 10! 😀

Quando entramos no carro, depois da aula de 1h30, perguntei a ela: “Agora que você testou, o que acha? Vai treinar aqui para ser arqueira ou vai querer continuar na natação?”. A resposta da minha jovem arqueira arrancou uma lágrima, mas também lembrou da responsabilidade de pai, arqueiro e apoiador eterno. “It’s the dream, right?” (É o sonho, não?).

Sim, é o sonho. Mas, antes dele se tornar realidade, temos muito trabalho pela frente. O Team Barreto está apenas começando!

 

Depois de um tempão, retomamos o treinamento. Acompanhe.

1 comentário em “Team Barreto – “It’s the dream, isn’t it?””

  1. Fábio, meus parabéns por esse incentivo tão bonito que faz pela sua filha, e claro, desejo sorte para ela nesse caminho. É motivador ver que você luta não só pela ajuda com a escrita, transmitindo seu conhecimento, mas também nota-se uma paixão pelo esporte. Você é um apoiador de sonhos, e pessoas assim são exemplos que eu levo pra vida toda.

Comentários encerrados.

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