Lopez Tonight: Orgulho e Exageros

Lopez Tonight é o primeiro talk show diário apresentado por um latino, George Lopez, mas é tão desinteressante e útil quanto seus concorrentes “caucasianos”.


George Lopez
é uma figura conhecida, respeitada e influente nos Estados Unidos, principalmente na comunidade latina. É o comediante latino mais bem-sucedido do país; odeia Eric Estrada, que estereotipou os latinos; estrelou uma sit com latina por alguns anos e, hoje, depois de ter gravado especial de stand up comedy para a HBO, e aparecer no especial Latino in America, da CNN, é o primeiro apresentador latino de um talk show, o Lopez Tonight, exibido pela TBS. O termo latino foi repetido diversas vezes nesse parágrafo da mesma forma como Lopez o utiliza ‘como se fosse vírgula’ em seu linguajar.

Tudo é latino: o jeito de ser, de falar, as piadas e, claro, a platéia composta por mulheres maquiadas de forma exagerada e, por vezes, grosseira [as ‘chola girls’] e homens capazes de rir histericamente do ‘boa noite’ do apresentador. O orgulho perde as estribeiras e o exagero desregrado entra em cena. É o estilo George Lopez – sempre cheio de caretas e piadas escatológicas -, que tem certeza de sua fam e conceitos, mas não consegue se diferenciar positivamente de David Letterman, Jay Leno, Connan O’Brien e Cia. Ao longo das primeiras semanas de exibição, o programa Lopez Tonight entrou com força em termos de convidados. Lopez é bem relacionado, ajudou muita gente em sua carreira e merece elogios por sua comédia. Batalhou e venceu. Qualitativamente, parece ter jogado a cartada errada com seu talk show. Ou não, basta olhar com os olhos ‘latinos’.

Uma das características desses programas são as entrevistas fúteis [o elenco de Lua Nova ou mesmo a última visita de Bill Murray ao programa de David Letterman, por exemplo], às vezes surpreendentes [Joaquin Phoenix, também no David Letterman]; a abertura engraçadinha; e a banda ao vivo. Lopez Tonight tem tudo isso, mas com o sabor latino (impossível passar um parágrafo sem usar o termo, é quase mnemônico). Dançarinas latinas – há! – passam o programa todo sendo sensuais num mini-pódio, enquanto as câmeras fazem questão de prestigiar a “beleza latina” da platéia. Se a saída das high schools já é um festival de estilo exagerado, muita maquiagem, roupas esquisitas e mechas, imaginem quem as mães dessas meninas resolvem se produzir? É quase um baile de carnaval. Ratinho morreria de inveja.

Todos ali para prestigiar o espírito latino e, claro, para ouvir as piadas latinas de George Lopez. E ver os famosos, claro. Seus entrevistados são de calibre invejável: Kobe Bryant (que dificilmente participa desse tipo de programa), Eva Langoria, Charlie Sheen, Jamie Foxx, Slash, Demie Lovato e Sandra Bullock são alguns dos exemplos. Até Carlos Santana participou com sua guitarra latina. Lopez não surpreende e pouco agrega com suas conversas, normalmente focadas na relação do apresentador com seu convidado ou, claro, algo envolvendo latinices.

Se você leu até aqui e não se irritou com tanta repetição do termo latino [incidência muito menor que no programa, aliás], entenda a principal razão disso: latino é considerado etnia nos Estados Unidos. Em muitos casos, os brasileiros são considerados latinos por conta da cor da pela, ou seja, se não é claramente causasiano de pele clara, as chances de você ser chamado de/considerado latino até mesmo em repartições públicas ou pela polícia são gigantescas. Há diversos relatos de brasileiros que são obrigados a preencher documentos oficiais como “latino” em vez de caucasiano pelo simples fato de termos nascido na América do Sul. É uma guerra interna, dos imigrantes latinos contra os brancos e negros. Todo mundo é envolvido, passiva ou ativamente. Sem exceções.

Isso explica a insistência de Lopez ao enfatizar sua postura sócio-política, mesmo quando faz piada sobre o fato dos burritos de verdade – aqueles feitos no México, logo, latinos – te fazerem peidar logo na primeira mordida e criticar os “wraps” norte-americanos. Ser latino é coisa de raiz para Lopes – mesmo ele não sendo imigrante direto – e levado muito a sério. Ele não faz muito segredo sobre seu desejo de ver sua raça comandando o país. E tem razões para pensar assim: os números populacionais impressionam; o espanhol é a segunda língua mais falada; a base da força de trabalho é latina; e, claro, seu programa está no ar. Como duvidar esse tsunami sócio-cultural?

Os talk shows noturnos costumavam variar de acordo com faixa financeira, afinal, cada um dos apresentadores mirava num tipo específico de público. Agora, não existe mais a diferenciação entre as piadas de Jimmy Kimmell e as piadas de Jay Leno; Lopez trouxe a raça para a mesa de negociações e aposta na população latina para se manter no ar. As chances são grandes de que dê certo, afinal, só mesmo os latinos para atirarem tantas piadas internas e a repetição do bendito nome.

Enquanto brasileiros do Twitter reclamam da “maldita inclusão digital”, Lopez abraça o fenômeno e o utiliza abertamente. Na semana passada, ele recebeu Sandra Bullock e a atriz foi ridicularizada numa “brincadeira” com a mulher do vídoe abaixo (a tal de Chola Girl, gíria para “maloqueira latina”), uma desbocada mal-educada – basicamente uma pessoa chula e sem noção – que ofendeu o estilo visual da atriz e a “transformou” numa latina. Claro que Sandra concordou, mas não precisava bancar a ridícula na semana de estréia do melhor filme de sua carreira – The Blind Side.

Veja o vídeo:

3 comentários em “Lopez Tonight: Orgulho e Exageros”

  1. Pingback: SOS Hollywood

  2. Vejo pelo seguinte ângulo, os próprios latinos querem se “americanizar” e acabam por criar um estereótipo. Eu trabalho na IBM Brasil, tenho um companheiro de trabalho mexicano que mora em USA, que não gosta dos latinos, ele faz de tudo para se sentir mais americanos e renega a própria origem. Pelo pouco que vi desse George Lopez, ele tenta deixar um pouco mais suave essa convivência dos americanos com o povo latino. Somos e seremos sempre vistos como “O mau que assola os Estados Unidos”. Em tempos de terrorismo e guerras civis um pouco de humor pode deixar as coisas um pouco melhores … para todos.

  3. Me assusta os latinos não se verem manipulados e selecionados como público alvo de um programa tão esteriotipicador enquanto que, aquilo do qual mais reclamam, é o fato de serem vistos pelos norte-americanos como esteriótipos

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