A Fauna Brasileira no Consulado Americano

Mico

Além do mico que precisamos passar para conseguir o visto de entrada nos EUA, precisamos aturar o povo que quer impressionar os cônsules. É hilário de tão ridículo!

Hoje foi o último dia da maratona que começou na semana passada com a viagem para o Brasil e esse pequeno período de “férias”. Mas embora tenha encerrado o ciclo, não quer dizer que foi fácil. Mas, sem dúvida, foi altamente divertido, afinal, foi minha segunda visita ao Consulado dos Estados Unidos em São Paulo em menos de 5 meses, o que mantém a memória bem viva sobre algumas características daquele lugar e de como nossos coleguinhas se comportam para conseguir o visto. Tem brasileiro que faz cada presepada.

Tudo começou às 5 da madruga. Minha entrevista estava marcada para as 7h40, ou seja, precisava estar lá às 6h. Felizmente, Sampa foi boa comigo e não encontrei transito na Marginal Pinheiros e cheguei bem rápido. Claro, ter feito o caminho no dia anterior e decorar ajudou E MUITO (como eu sempre digo, quem é amigo do Master, é amigo do Master! Valeu, Nando!).

Bom, cheguei no horário e passei logo pela pequena fila formada na parte de fora, mas é ali que a graça começa. Vem gente de todo canto de São Paulo, muita gente de Minas Gerais e, agora com dificuldades de agendamento no Rio, vários cariocas se infiltram nas fileiras. O primeiro aspecto que pode ser notado é a falta de informação sobre os procedimentos e como as coisas funcionam lá dentro, na temida entrevista com a equipe consular.

O mais engraçado são as pessoas, ou melhor, os pavões que vão tirar o visto. Grupos reviram formulários e discutem as “melhores respostas” para garantir a aprovação. Todo mundo tem uma teoria, uma história que alguém contou ou que leram na internet. Aí os primeiros pavões aparecem. Quem são esses pavões? Normalmente famílias, cujas mulheres se perfazem facilmente com a idéia de viajar “pros States”. Enquanto o maridão fica meio que preocupado com a eventual negação do visto, a patroa comporta-se como se já estivesse DENTRO de um shopping na Florida. O filho(a) sempre é o must: só faltam as orelhas do Mickey! A camiseta com a bandeira americana, a jaqueta importada e o boné de algum time ou mesmo da Disney completam o figurino.

Esse povo é deslumbradão. Acha que demonstrar “proximidade” com o país vai gerar alguma facilidade lá na frente, mas não é bem por aí. Hoje vi um gordinho que eu podia jurar ser a encarnação de Eric Cartman na terra, se ele abrisse a boca sairia alguma frase do desenho. Aposto! O moleque tinha tanto logotipo e coisas Disney que parecia uma árvore de natal na manha nublada em Sampa. Será que o pessoal acha que tem loja do Mickey lá dentro? Algum tutorial sobre NBA? Lavagem cerebral? Humm, pensando bem, lavagem cerebral não precisa para quem entra no clima.

A mãe do coitado ficava explicando como ele deveria responder as perguntas de acordo com a “estratégia” da família e etc. Detalhe: quando famílias fazem a entrevista, apenas um dos pais responde as perguntas e pronto. A cada nova explicação da mãe, o gordinho suava e tentava disfarçar, mas as perninhas tremendo mostravam que o “terrorismo” materno estava funcionando. O moleque não olhava para o lado de medo das câmeras e dos microfones que escutavam tudo que a gente falava. Hilário de tão absurdo!

Aliás, se você já foi, precebeu que muita gente não conversa enquanto está ali dentro? Ficam ali, compenetrados, pensando na entrevista. Com medo de terem o pedido rejeitado. E não conversam, afinal de contas, “se aquele cara tiver o pedido negado, não quero ser visto falando com ele”. Rola um medo coletivo no lugar, o que faz pouco sentido se pararmos para pensar na principal razão das pessoas ali: tirar férias. Tudo começa com estresse? Ali é o de menos se comparado ao risco da entrevista da Imigração, quando você pisa em território gringo. No Consulado você tem documentos, pode conversar e se explicar, na imigração a coisa é muito mais simples e rápida. Sim ou não. Se o cara não gostou da justificativa, mesmo com o visto aprovado, nada feito. E lá o agente não fala português. Enfim, o povo pira nessa história.

Enfim, depois deles, vêm os engravatados fakes. É fácil descobrir se um sujeito trabalha mesmo como executivo ou se está fazendo onda para impressionar. Sabiam que tem gente que viaja de termo para tentar ser mais bem tratado? É um barato! Voltando, o sujeito aparece todo engomado, pasta 007 que só falta ter controle de voz, mas faz tudo errado, tenta botar banca pra cima do pessoal da triagem e já solta aquele inglês macarrônico na hora da entrevista. Detalhe: tem cônsul que faz a entrevista em português, afinal, eles decidem, ou seja, nego já começa errado.

Outro grupo distinto são os “caras do congresso”. Das três vezes que fui tirar o visto, encontrei um grupo de pessoas que não faz muita idéia do que está fazendo ali, não tem nada preenchido e é acompanhado por uma funcionária do Consulado. Esses não estressam, eles simplesmente vão fazendo o que pedem e nem percebem quando a coisa toda acaba. Hoje fiquei curioso e perguntei a razão do tratamento especial: são grupos de pessoas com habilitação técnica, mas sem muita noção de línguas ou procedimentos burocrácitos, que grandes empresas envolvem em congressos internacionais para demonstrar equipamentos ou outras técnicas no exterior. Ou seja, o Brasil manda um monte de Hommers apertar botões nos States, enquanto o palestrante mostra as maravilhas do nosso know-how. Biito, né?

Todo esse processo é chato mesmo. Eles não deixam nem I-Pod entrar na área do consulado, metem a faca nos custos burocráticos e ainda ficam com o passaporte – que só vai pelo Sedex, sem chance querer ir retirar. Agora, tentar ser o que não é e inventar história? É por isso que muita gente tem o pedido negado, tenta dar cambau no processo e cai em contradição. Que nem a mãe explicando a estratégia para o filho. Tem estratégia melhor do que entrar lá, contar a razão pura e simples da solicitação de visto e pronto? Se contando a verdade já existe o risco de fecharem a porta, imagine enrolando? E, para isso, ninguém precisa se perfazer de “americano”, engravatado ou ricaço.

E um cara ainda veio me perguntar se eu era doido de ir pedir o visto de calça jeans e camiseta. Bom, eu trabalho assim em LA, para que seria diferente no meu País? Gente doidaaaaaaaaa!

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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14 thoughts on “A Fauna Brasileira no Consulado Americano

  1. Bom texto Barretão.
    Interessante isso.
    Principalmente a parte que fala dos que vão engravatos e talz, esperando ser mais bem tratados.

    Se um dia for pra lá.
    Peço uma discas pra tu. =D

  2. Realmente é muita falta de noçao… todos os funcionarios que estao ali estao preparados pra ver se eh enrolacao ou eh a real…

    Quanto a consulado nao sei se em L.A. tem… mas em NY eu fui no consulado brasileiro por conta de uns rolos da epoca q tava prestando exercito… pra quem está fora do Brasil é praticamente um abraço da mãe… fila?? não pros Brazukas… soh pros gringos… e todo mundo te recebendo com um sorriso de orelha a orelha na primeira palavra em portugues

    Se se sentir solitário aí nos U S & A inventa alguma coisa e vai no consulado (se tiver) e vê.

  3. Bom é a primeira vez que posto aqui.
    Adoro sua forma de escrever, seus textos são ótimos.
    Já tinha ouvido falar sobre essas entrevistas no consulado americano, mas jamais imaginei que fosse essa neura toda, as pessoas pagam um King Kong enorme. É bem o que você disse, não existe critério, não existe formula secreta. Eu nunca fiz essa entrevista mas acho que se deve ser natural, e contar com um pouco de sorte.

  4. Não podemos esquecer que, mesmo o pior atendimento de um Consulado dos Estados Unidos, é 1.000.000 vezes melhor, do que o atendimento, de qual quer repartição publica brasileira.

  5. Caramba Barretão, eu sempre passo por aqui, apesar de não comentar, mas agora vc tocou num assunto q tá me deixando encucada ultimamente: eu tenho entrevista na embaixada do Rio daqui há duas semanas. Ninguém chegou com nenhuma história cabeluda pra me falar, só disseram pra eu ir nos trinques e só responder as perguntas. E eu não pretendo ir com roupas fazendo média pros (borat)US and A(/borat)…

  6. Quando as meninas foram renovar o visto, a americana que tirava as impressões digitais estava irritada com o povo que não entendia o “indicador direito, indicador esquerdo” que ela falava em um português até que razoável. O negócio era tão baba que, se ela falasse inglês dava para entender mas, o pessoal estava tão apavorado que não entendia nem em português. Quando as meninas chegaram, ela percebeu que eram gêmeas e comentou consigo mesma em inglês. Quando ela percebeu que nós entendíamos, ela começou o maior papo com a gente e o pessoal da fila ficou de boca aberta porque praticamente ninguém que vai pedir visto fala inglês suficiente para manter uma conversa básica que não seja pedir comida ou perguntar onde é o banheiro. Para as meninas foi uma festa, nem precisaram de entrevista porque era renovação de visto de turismo. E é bom ir arrumadinho mas sem exagero. Jeans e camiseta são muito bem aceitos por lá e o principal quando tem entrevista é provar que você não vai para ficar e sim para passear. Nós nunca tivemos problema com visto nem no consulado nem na imigração dos EUA. Mas lá na terra dos gringos,cara a cara com os agentes, falar e, principalmente entender inglês, ajuda muito mesmo.

  7. Muito engraçado! O olhar que você teve sobre este cenário se parece muito com o que eu tive e tenho sempre que viajo para qualquer lugar, afinal isso não acontece só no consulado dos EUA.
    A única coisa que não gostei no que vc disse é da sua narrativa carregada de um certo ar de superioridade que não sei se funcionaria em qualquer mesa de imigração do mundo com o seu passaporte brasileiro, porque em diversas situações, independente de ser palhaço, relaxed ou serious businessman, eles nos tratam como simples vermes, por simples preconceito.

  8. @André
    Não é superioridade não, é apenas a certeza de acreditar na honestidade como moeda de troca. Sou péssimo mentiroso, então, nunca consigo inventar esse tipo de história. Justamente por isso eu defendo que a verdade é a melhor estratégia. Se isso é soar superior, paciência. Nao gosto de ficar inventando lorota.

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