Trilogias ou Cinesséries?

Se pararmos para pensar, as trilogias acabaram. Agora o legal é fazer novas cinesséries explorar o assunto até o público cansar.

Começo, meio e fim. Introdução, desenvolvimento e conclusão. Nascimento, vida e morte. A idéia de contar uma só história em três partes obviamente não saiu da cabeça de Hollywood, mas o conceito teve início no cinema graças à ambição de Francis Ford Coppola em fazer de O Poderoso Chefão I e II praticamente um filme só num intervalo de apenas dois anos de produção durante a década de 70. Naquela época, a Parte III da saga dos Corleones nem estava nos planos do diretor, porém, um de seus amigos, George Lucas, aproveitou o amadurecimento dos estúdios em relação à idéia para fazer uma aposta ousada.

Antes de continuar a análise, é bom explicar: As cinesséries já existiam, claro, como 007 e Dirty Harry, assim como as seqüências (Operação França II). Mas não estamos falando de continuações. Falamos de trilogias – três filmes para contar apenas uma história. Na verdade, uma saga em três partes, que só se completa no terceiro e último ato. Estamos entendidos? Então vamos lá.

Lógico que a grana faturada pelo primeiro Guerra nas Estrelas, de 1977, ajudou George Lucas em seu caminho. Steven Spielberg, que dirigiu Os Caçadores da Arca Perdida logo depois, com produção de Lucas, começou a moldar as três aventuras clássicas de Indiana Jones nos anos 80. Mas cada filme de Indy tem sua própria história. Um não depende necessariamente do outro, mas os marketeiros dentro e fora de Hollywood, fãs e não-fãs, chamaram Indiana Jones de “trilogia” assim mesmo. Era um termo cool para ganhar uma boa grana em cima do produto. Mas trilogia mesmo, depois de Guerra nas Estrelas, foi De Volta Para o Futuro, com direção de Robert Zemeckis e produção de Spielberg (olha ele de novo). As aventuras no tempo de Marty McFly (Michael J. Fox) foram pensadas por Spielberg, Zemeckis e o roteirista Bob Gale em dois filmes, mas ganhando um terceiro (começo, meio e fim). Mas como a idéia ainda era ousada demais, todo e qualquer estúdio precisava avaliar o retorno financeiro nas bilheterias para pensar no desenvolvimento de uma cinessérie. Ou uma trilogia. Hoje, nem isso importa mais. Todo mundo já assina contrato para possíveis três (ou mil) filmes.

Como o mercado mudou, assim como as exigências do público (e a falta de criatividade de Hollywood), as últimas trilogias do cinema que honraram o conceito original foram O Poderoso Chefão, Matrix e O Senhor dos Anéis. Err… Será que Austin Powers entra nessa? E Mad Max? Ah, deixa pra lá. Mas até a Trilogia Bourne, que foi concluída brilhantemente por Paul Greengrass deve ganhar um quarto filme em breve. Hollywood nem quer saber mais se Bourne foi baseado em “somente” três livros de Robert Ludlum. Até Piratas do Caribe, que fechou a saga iniciada em A Maldição do Pérola Negra, já tem um quarto episódio engatilhado.

Agora, veja outros exemplos de cinesséries em três partes e não exatamente trilogias fechadas que continuaram: O diretor Sam Raimi já confirmou Homem-Aranha 4 e 5, Duro de Matar já está na quarta parte, Indiana Jones encontrou a caveira de cristal, Rambo voltou a matar, e O Exterminador do Futuro, que nem era pra ter chegado ao 3, já ganhou um 4. Tudo isso, sem citar as “reinvenções”. James Bond recomeçou suas aventuras como uma espécie de Jason Bourne loiro na pele de Daniel Craig, em Cassino Royale e Quantum of Solace, enquanto o Homem-Morcego arrebentou nas mãos do diretor Christopher Nolan, em Batman Begins e O Cavaleiro das Trevas (cuja terceira parte começa a ser filmada em 2010).

Ironicamente, a culpa (ou não) do fim das trilogias, mas ao mesmo tempo do renascimento das cinesséries (reinventadas ou não), cai nas costas do Sr. George Lucas – como nas trilogias, mitologias, enfim, Hollywood também é um ciclo. O cineasta voltou no tempo para contar a saga de Darth Vader e a indústria cinematográfica entendeu que prequels de grandes sucessos também significavam dinheiro no bolso.

E um dos gêneros que entrou na dança foi o terror, ao contar o que aconteceu cronologicamente antes de clássicos como O Exorcista e O Massacre da Serra Elétrica. Com o sucesso de Jogos Mortais, que já alcança seu quinto episódio e só deve parar lá pelo número 33, o importante agora não é mais a condução narrativa, mas sim as novidades em termos de mortes e sadismo.

Mas a verdade é que a opção pelas prequels é normalmente ruim para a nova geração de cinéfilos, uma vez que muito da força de personagens impactantes como Darth Vader ou o Padre Merrin se perde durante a “reconstrução”. Convenhamos, ninguém precisa saber como foi o primeiro dia de trabalho de Norman Bates em seu motel. Mas conhecendo Hollywood, nada é impossível.

Voltando ao culpado por tudo isso, levando em conta a batida influência de Joseph Campbell (escritor-referência em mitologia) na criação de George Lucas, não foi dali que saiu a idéia para os três filmes originais de Star Wars – o fã mais radical vai defender o roteiro gigantesco que renderia nove filmes, mas que foi reduzido para seis (o resultado final depois de 30 anos) e que começou pelo meio, no Episódio IV. Entendeu?

Bom, tudo isso está certo, mas a estrutura dessa primeira trilogia tem um pezinho nos livros de J.R.R. Tolkien e seu O Senhor dos Anéis, que fornece um dos melhores guias para se contar uma história em três atos, incluindo dilemas de personagens, virada de mesa a favor dos caras maus no segundo episódio e um renascimento milagroso para salvar o dia na parte final. Isso só mostra que o pensamento em três episódios estava por ali quando Lucas criou seu filho predileto.

O investimento maciço nas cinesséries acaba sendo a evolução natural para o sucesso das trilogias nos anos 80, uma vez que a nova realidade das bilheterias (que faz Hollywood ser a única indústria do mundo não afetada pela crise econômica) e a experiência com o mercado de home entertainment, fazem com que uma série de filmes com investimentos normalmente menores a cada novo episódio, garanta bom retorno financeiro primeiro nos cinemas e depois no lançamento direto para DVD. Voltemos, então, a citar exemplos como A Profecia, que já tem cinco filmes em seu acervo, isso sem contar os intermináveis Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo. E será que o Harry Potter do cinema termina mesmo no sétimo filme? Ops, a Warner já decidiu dividir o episódio final em dois filmes. Ou seja, não interessa se a fonte original, a autora J.K. Rowling, escreveu “apenas” sete livros.

Tudo isso expõe dois sintomas claros: Hollywood está mesmo passando por uma crise criativa, que se arrasta há dez anos, e há muito medo entre os executivos na hora de ousar. Ninguém é imbatível ali – vide os irmãos Wachowski que emplacaram Matrix, a última grande trilogia original, ousaram em Speed Racer e o filme ficou aquém do esperado. Esse temor existe quando é necessário criar algo, mas quando se tratam de continuações, com públicos definidos (como no caso de Jason Bourne, um personagem que deu certo) e sucesso garantido, tudo pode acontecer. E quando alguma coisa funciona, a overdose é inevitável.

Essa overdose pode vir com efeitos negativos em alguns casos. Vejamos o terceiro filme da “trilogia” d’A Múmia, com Brendan Fraser. As aspas tem função aqui, pois embora três filmes principais componham a série, há o spinoff do Escorpião Rei, além de um desenho animado envolvido na brincadeira. Dez anos separam o primeiro filme de sua conclusão em A Múmia – Tumba do Imperador Dragão, que perdeu uma das principais chaves da série: Rachel Weisz, substituída após dispensar o papel. Mas o diretor picareta Rob Cohen alega que precisava de alguém mais sexy. Ok. De qualquer forma, Rick O’Connell (Fraser) é um bom herói de ação, mas cinematograficamente não oferece novidade. Como as bilheterias são boas, algum engravatado de Hollywood grita: “Oba, vamos aproveitar ao máximo!”

Mas o sinal de cansaço afeta até mesmo o herói. Em entrevista ao SOS Hollywood, em Londres, Brendan Fraser confessou um certo cansaço e demostrou incerteza a respeito de um quarto filme. “John Hannah poderia ir para a América do Sul sozinho, talvez”, disse por conta da sugestão feita pelo comediante inglês ao final do último filme de A Múmia.

No meio de tudo isso, temos crossovers (Alien Vs. Predador, Freddy Vs. Jason), remakes, além de um excesso de adaptações de livros, quadrinhos, games, e os já citados spinoffs (Wolverine, Elektra, Escorpião Rei) e reinvenções. Vale tudo para criar uma cinessérie lucrativa. Reinventaram Bond, Batman, recuperaram a imagem do Hulk com o último filme da Universal e agora é a hora de recomeçar Jornada nas Estrelas, agora, devidamente renomeada como Star Trek. Na 11ª aventura da cinessérie, J.J. Abrams entra na dança e reinventa a origem de James T. Kirk, Spock e Cia. (embora essa história nunca tenha ido parar no cinema, a origem da lendária Enterprise já foi tema da série de TV, que não foi muito bem, aliás). Muito mistério cerca o lançamento do filme, que já foi adiado uma vez, mas se Abrams conseguir recuperar o respeito de Jornada nas Estrelas, há muito marcada por filmes similares a longos episódios, podemos ter certeza de que a franquia renascerá e, pelo menos, mais dois filmes com essa mesma “tripulação” serão encomendados [atualização: e ele conseguiu!].

Como você já sabe, Hollywood é um ciclo. Para conquistar diferentes gerações, a indústria tenta se manter e prosperar ao longo dos anos se reinventando algumas vezes e se repetindo de tempos em tempos. Depende de cada época e da necessidade de cada geração. Assim caminha a Humanidade.

Fábio M. Barreto e Otavio Almeida*

* Otavio Almeida faz sua primeira participação no SOS Hollywood. Além de grande amigo e companheiro de batalhas nos tempos de assessoria de imprensa, Otavio manja muito de cinema, tem um dos melhores textos da internet brasileira e consegue pensar fora do habitual quando cuida de seu blog, o Hollywoodiano. Informação importante e indispensável: flamenguista até a última célula!

Texto originalmente publicado em outubro de 2008.

7 comentários em “Trilogias ou Cinesséries?”

  1. Pingback: Pablo de Assis

  2. Não havia lido isso antes, mas tenho dois comentários:

    – Jornada nas Estrelas é uma cinessérie com uma trilogia dentro dela. Não foi pensada originalmente como uma, mas os episódios 2, 3 e 4 têm uma história completa, em três partes, que só acaba no final do quarto. Há estrutura também diferente, com a “morte” no primeiro, “renascimento” no segundo e “vida” (ou uma nova chance para ela) no terceiro filme. É um exemplo interessante. Ou não?

    – Eu gostei de Speed Racer. Acho que tem o espírito do animê….

  3. Nem tem muito o que debater, vocês disseram tudo…
    Mesmo para os fãs mais ardorosos do gênero, a falta de criatividade de Hollywood está cansando… e vou mais além… não só de Hollywood, mas também do universo literário.
    Se estabeleceu um padrão: fantasia & ficção dá dinheiro, vamos explorar até a última gota!
    Vide Eragon e Crepúsculo, que não são nenhuma obra prima, mas vendem como água entre a garotada. E mal começaram a vender nas prateleiras, Hollywood já comprou a idéia.
    Para os adolescentes pode ser uma festa e tanto… mas para cinéfilos e leitores mais maduros que já aturam isso há uns 10 anos [quando os tais adolescentes só tinham entre 2 e 7 anos], a crise de criatividade se torna gritante! Até os eventos andam repetitivos, exceto pelo fato que há cada vez mais adolescentes e desconhecidos [para aqueles que frequentaram desde o início].

    Algumas das adaptações, releituras e etc… citadas foram bem sucedidas… como Batman e Star Trek. Atraiu um público novo, que talvez antes não gostasse dos mesmos [EU!] e ao mesmo tempo fez os fãs antigos se agitarem de novo.
    Porém outros já não foram tão felizes… e, na verdade, eu chamaria de desperdício mesmo.

    E temos também as continuações de filmes que foram bem sucedidos. Por mim A Múmia podia, e devia, ter parado no 2º… pois o 3º foi fraco e sem graça. Extremamente decepcionante! Piratas, também deveria parar por aí… vai começar a ficar forçado. Aliás, o 2º já foi forçado, o 3º foi o que salvou a “cinessérie”.

    O que me assusta, como público, não é o excesso de produções do gênero F&FC, mas a quase inexistência de roteiros originais. Praticamente tudo que se vê pode ser encontrado numa livraria, numa banca de jornal ou em uma lan house. Mais da metade do público já sabe o que vai acontecer. A expectativa recai exclusivamente sobre o ponto de vista do diretor para contar aquela história e onde eles vão errar [partes importantes subitamente limadas, deixando a metade leiga presente na sala de cinema “boiando”].

    E é por tudo isso que tenho muito medo de “O Hobbit” que está por vir… Aliás, nem mesmo Tolkien escapa… Embora SdA seja uma trilogia fechada, também é recheado de “spinoff” – por assim dizer: O Hobbit, Silmarillion, Contos Inacabados, Cartas, etc… Não que tenha sido a intenção do Professor… Mas mostra que, afinal, nenhuma trilogia é completa e perfeita! rs.

    Xi, falei demais pra variar…

    Um Abraço,
    Cris

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  7. Sou obrigada a concordar com vocês e com a Cris, cansa não ter novidades, caras novas, mesmo que os roteiros sejam releituras. Parece que a imaginação e a capacidade de criar de escritores e roteiristas acabou.
    Tenho a impressão de que nesse caldeirão de refilmagens e continuações só o Tim Burton continua capaz de inovar suas viagens psicodélicas e, mesmo assim, algumas coisas nele são totalmente previsíveis.

Comentários encerrados.

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