Abri um arquivo para voltar a escrever neste espaço e percebi que tudo havia mudado. Eu aqui dentro, as pessoas ao redor, o mundo à nossa volta. As décadas de trabalho para construir uma imagem esvaíram-se em meio às transformações da internet. As pessoas esquecem. Também pudera, eu optei por sumir, por parar de produzir, por viver sem a dependência do conteúdo e da manutenção da imagem.
Mas se a imagem ruiu, por outro lado, construí outras realizações, outros aspectos da vida. Especialmente como pai, como pessoa. Encontrei refúgio no sorriso dos meus filhos, na alegria da minha esposa e, em escala bem menor, afinal, ela é arredia, nos carinhos da nossa gata. Na escrita. Nos poucos amigos que ainda me restam. Sim, sumir da internet significou perder relevância e o interesse da maioria das amizades online.
São pequenas conquistas, momentos efêmeros na grande escala das coisas, momentos vividos e não registrados. Não compartilhados. Momentos meus, nossos. Memórias.
Seria certo dizer que escolhi viver? Pode ser. Faz sentido. Subliminarmente, foi a escolha. Era o objetivo. Mas também foi reflexo do trabalho em Brasília. De volta ao Ministério da Saúde, cada vez mais, preciso fazer escolhas entre o trabalho fixo e o trabalho criativo. Obviamente, o fixo ganha a maior parte das batalhas. Mas como diz o ditado, cuidado com o que deseja.
Tudo tem um preço
Essa vida mais pacífica e menos online cobrou o preço do outro lado. Como já mencionei, perdi relevância, embora mantenha o mesmo conhecimento, as mesmas experiências, o mesmo texto (até um pouco melhor, quem sabe). Cometi o pecado contra o qual sempre fui alertado pelo Borbs e pelo Jurandir Filho: sumi. Com resultado, tudo sumiu.
Livros pararam de vender, cursos pararam de atrair alunos, meu nome caiu no esquecimento, como Gollum se escondendo nas Misty Mountains, longe da luz do Sol e da vida em comunidade.
Tudo isso se encaixa na ideia de ciclos. Um ciclo se encerrou, outro começou. Agora que estou voltando à ativa, olho para os escombros do que um dia foi uma viva vibrante, ativa e cheia de realizações. Vejo um lago cheio de memórias, do garoto que editava o fanzine Intrepid e criou a JediCon, do jovem que levou a família para o exterior e entrevistou a elite de Hollywood por 11 anos e liderou a Revista Sci-Fi News em sua melhor fase, do homem de família que se mudou para Brasília e começou a trabalhar com comunicação governamental.
Também encerro um ciclo que me incomodava: Filhos do Fim do Mundo. De publicação conturbada e problemas que, felizmente, graças à perspectiva do tempo, já não passam de detalhes, o livro volta ao mercado pela AVEC Editora na versão impressa e em e-book pela SOS Hollywood Productions. É um retorno digno que me permite, depois de 13 anos, dizer: compre meu livro, você vai gostar e eu vou receber por isso.
Com essa nova realidade, todo mundo ganha. E isso tira um peso imenso das minhas costas. Um peso que só eu sentia. Um peso que importava.
Um peso transformado em orgulho de relançar o livro em plena Bienal do Livro de São Paulo, no dia 12 de setembro de 2026. Aliás, fica o convite!
Nesse meio tempo, escrevi um conto muito bom, “Rio Seco”, que está procurando um lar para ser publicado. E comecei a escrever um novo romance, “Cápsula 7”, que fica pronto ainda em 2026.
Ou seja, não fiquei parado, só escolhi trabalhar com a porta fechada, como diria Stephen King.
Chegou a hora de destravar a fechadura e voltar a compartilhar. Sejam trabalhos, lançamentos ou ideias. Tudo com muito controle. A energia também mudou, está mais canalizada. Digamos que sai o Fábio faz tudo e entra o Fábio especializado.
Volto para falar e fazer o que amo e, sinceramente, isso já basta. Obrigado pela sua companhia e vamos nessa!

