O Sapo, a Porca e o Leão

Caco, o Sapo, fez um anúncio e, rapidamente, os norte-americanos – e a mídia – se esqueceram de Cecil, o Leão.

A última terça-feira marcou um dia historicamente triste na trajetória do entretenimento mundial. Mas não foi o anúncio do “fim do namoro” entre Caco – o Sapo – e Piggy, os astros dos Muppets. Essa foi apenas a causa. A tragédia aconteceu quando a mídia, numa mistura de tentativa de humor, falta de assunto e puro desespero, resolveu tratar o caso como se o casal, de fato, existisse, tivesse passado por uma separação difícil e os comparou a casais famosos que anunciaram a separação recentemente. Por mais que muita gente adore os Muppets, acredito que seja justo aceitar o fato de que eles sejam, bem, marionetes e não pessoas, não é? Pelo jeito, não.

Da CNN aos canais de TV locais, dos blogs do setor a colunistas especializados, a mídia norte-americana pirou – alimentada por posts nas mídias sociais, como a conta de Facebook de Caco, que anunciou a separação e o fato de que Piggy deu um fora nele, e o twitter da Piggy, que interagiu com celebridades tristes pelo anúncio – com direito a apresentadores de TV debatendo o absurdo da situação, a personalidade de Caco e Piggy e usando os dois para analisar, e criticar, as decisões dos famosos separados recentemente.

Seria um reflexo válido da cultura em relação à sociedade atual? Pode ser, claro. Afinal, essa é a função da cultura. Entretanto, o tratamento digno de seres humanos a dois personagens antropomorfizados é assustador. Estava ouvindo uma rádio de música pop aqui, e os locutores estavam brigando – mesmo – pois um defendia o namoro e outro achava que já deveriam ter terminado há tempos. E todo mundo falou sobre o assunto, todo mundo.

Noutros tempos, essa brincadeira valeria uma piadinha, naquele momento descontraído do apresentador ou um textinho engraçado no veículo de sua escolha, mas no momento polarizado dos debates incendiários, virou motivo de briga e, olha, de fanatismo. Afinal, depois de anos brigando por causa de personagens fictícios de séries, livros e até novelas, por que não transformar um símbolo tão bacana da infância em munição para a loucura online? O teamKermit, ou TeamCaco, logo surgiu e um grupo de feministas tomou as dores da Piggy. Então, pessoal, eles NÃO existem!

Sabe o pior? Quem se deu bem foi a ABC, que criou a notícia e ganhou milhões de dólares em publicidade gratuita para o novo programa The Muppets, que estreia no segundo semestre. Alias, esse foi o objetivo do “anúncio” feito por Caco. Divulgar o programa. Assim como Donald Trump tem ganhado divulgação gratuita por conta das bobagens que tem dito, a ABC conseguiu criar um fenômeno sem gastar um tostão. E funcionou muito bem. É a nova “viralização” de conteúdo, quando você transforma a grande mídia num grande blog desesperado por atenção e cliques.

São as novas regras do jogo, infelizmente. Mas muita gente enxergou além da jogadinha de marketing, entre eles o ator Alan Cumming, que disse “esperar que não passe de um engodo publicitário por conta da nova série”, no Twitter. Rapidamente, o perfil da Piggy respondeu dizendo que é verdade. Bem… verdade? Difícil aceitar o cenário, especialmente por algo tão “relevante” ter sido apenas anunciado no Facebook e não transformado em produto audiovisual. Essa separação renderia um filme, um mockumentário, sei lá, algo bem mais produtivo que um post em mídias sociais. Ou será que o eventual retorno do casal será o mote do início da nova série?

É levemente assustador ver as proporções dadas a esse tipo de informação atualmente. Lembra um pouco o bafafa gerado quando J.K. Rowling comentou a sexualidade de Dumbledore, entretanto, como o velho bruxo ainda é recente na história do entretenimento, o impacto não foi tão grande e reverberou de modo mais moderado. Basta ser algo que quase todo mundo conhece – afinal, os Muppets são marca mundial há mais de 40 anos – e cresceu assistindo e pronto, a zona está armada.

Nem chega a ser sensacionalismo, é algo diferente. Algo novo. Algo pior. A demanda para assuntos de envolvimento coletivo, em grande escala e de apelo mundial têm crescido cada vez mais e os estúdios de cinema e TV perceberam. O formato de divulgação atual está quebrado, as entrevistas por ela mesmas não funcionam e isso tem gerado muito desconforto, pois, para tirar algo diferente dos entrevistados, muitos repórteres tem optado por polemizar, perguntar coisas fora de contexto ou até constranger quem deveria ser apenas uma fonte de informação.

A informação em si, mudou de formato. Perdeu o valor monetário, por ter sido completamente democratizada. O que é bom. Mas agora, para voltar a ter valor, ela precisa estar inserida num contexto volátil e com potencial polêmico. Isso já existia, claro, mas era mascarado e relegado a poucas revistas e articulistas provocadores, entretanto essa ferramenta parece ter chegado à maturidade e ela é terrível. Há três responsáveis por essa situação: o primeiro é o público, que adora ver o circo pegar fogo e, mesmo que você não seja assim, a maioria é e os veículos de massa são feitos para a maioria. Ah, novidade: blogs são veículos de massa! Quantos blogueiros você já viu dizendo que queria ser lidos apenas por 15 pessoas? O segundo são os editores, tanto da velha quanto da nova mídia: garantir o desempenho e atrair leitores/espectadores é o maior de todos os objetivos; e, então, vem o último: os repórteres, redatores, vlogueiros e blogueiros que, em muitas ocasiões não ter outra escolha ou perdem os empregos, rendem-se ao click bait, à matéria que vai atrair a atenção seja pelo tema popular ou pelo potencial de polêmica e guerra de comentários.

Essa é uma decisão consciente tomada por quem atinge públicos gigantescos. Falar sobre um assunto menos popular, embora mais relevante, ou abordar a polêmica da hora, do dia ou da semana e perder a chance de atrair milhões de leitores? Do mesmo modo que o jornalismo clássico errou ao agarrar-se à informação como se mais ninguém tivesse o direito de trabalhar com ela, a nova mídia erra ao ser pautada pelo que vai gerar atenção, não pelo que precisa ser dito. Muito disso existe pelo fato de que, embora a nova mídia seja majoritariamente calcada na opinião, há limites para o que pode ser dito. Afinal de contas, se determinado público se sentir ofendido ou contrariado por certa declaração, ele não volta mais e o veículo perdeu essa fatia.

Soa contraditório, não? Sim, mas, felizmente, esse ainda não é o fim da linha na evolução da nova comunicação. E o fim do namoro dos Muppets é só mais um triste sintoma de uma equação desbalanceada, esquisita e sem resultados conclusivos, pelo menos até agora. E quem perde com essa incerteza é a sociedade, pois na dinâmica do extremismo, brigar em nome de um sapo e uma porca de pano demanda a mesma atenção e envolvimento do que a defesa de astros ou ideias que apenas massageiam o ego, mas não transformam – nem melhoram – o mundo. Afinal, quando Caco, o sapo, passa a ser o foco de muita gente que, uma semana antes, brigava em prol de Cecil, o leão, alguma coisa está bem errada, não é verdade?

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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