[Análise] O Discurso do Rei

O Discurso do Rei é favorito ao Oscar com atuações impecáveis, orçamento médio e resultado final muito distante do mainstream norte-americano. O longa inglês pode não ser o mais emotivo da temporada, mas tem seus diferenciais relevantes.

por Fábio M. Barreto, de Los Angeles

Acompanhar a pequena caminhada subjetiva da câmera de Danny Cohen, com seus ruídos visuais saudosistas dos tempos pré-filme digital, é o suficiente para determinar os princípios fundamentais de O Discurso do Rei (The King’s Speech, Tom Hooper, 2010, UK), um dos favoritos ao Oscar de Melhor Filme nesse ano. Por trás da descoberta da amizade tratada abertamente pelo filme, está a busca pela segurança, seja ela pessoal ou nacional, numa época de incerteza, transições pesadas e inevitáveis e, acima de tudo, violentas. Essa trajetória só se torna atraente e relevante graças à ligação improvável, mas real, entre os dramas da Família Real Britânica e seus súditos, os dois extremos do império que já foi um dos maiores do planeta. E tudo começa com um príncipe gago.

No início da década de 30, duas figuras antagônicas começavam a ser esmiuçadas pela imprensa européia. Na Alemanha, Adolph Hitler subia ao poder como Chanceler em 1933 e acelerava as maquinações que resultariam na Segunda Guerra Mundial, enquanto isso, na Inglaterra, a sucessão do Rei George V se tornava preocupante. De um lado o playboy Príncipe Edward, do outro o gago Duque de York, Príncipe Albert.

Começava ali o embate entre uma nação certa de si contra um superpoder vacilante. E mais inseguro que o Albert (Colin Firth, em interpretação irreparável) não existe. Segundo na fila para o trono, gago e, normalmente, motivo de piadas, no fim das contas, ele precisou ser o líder da nação em seu pior momento. De certa forma, o paralelo se faz válido também para sua trajetória cinematográfica, que o insere entre os dez melhores filmes do ano no Oscar, onde representa o cinema mais tradicional – ao lado de O Vencedor – frente a devaneios sonhadores, transformações soturnas e ótimas viagens visuais.

Essencialmente um buddy movie, ou seja, focado na amizade entre dois homens, O Discurso do Rei retrata uma época exaustivamente retratada no entretenimento por meio de seus personagens. Os cenários ingleses permanecem imutáveis, obviamente, logo, apostar em atores competentes e figurino adequado é mais que suficiente para promover essa viagem no tempo. Sem grandes cenas públicas ou efeitos complexos, os embates dramáticos entre Colin Firth e Geoffrey Rush – que formam o principal núcleo narrativo – assim como as demais dinâmicas de atuação soam como uma luxuosa montagem teatral beneficiada pela meticulosidade e edição sempre bem-vinda do cinema.

Mas sem obviedades, tanto que Tom Hooper foi criativo o suficiente para disfarçar uma montage no segundo ato, intercalando momentos da vida pública do príncipe com seus sessões de terapia, sem parar o filme para demonstrar evolução acelerada. O efeito é o mesmo: vemos a efetividade do tratamento. Entretanto, seu modo sutil evita a obviedade da construção. Quem disse que o cinema não pode ser inventivo?

Os personagens são constantemente inseridos em cenários internos ricos em cores em contraste com o cinza londrino, seja na vistosa parede laranja da casa de Lowe (Rush) ou os tons desgastados de seu consultório. O mundo lá fora é assustador e exigente, tanto para o Príncipe quanto para o seu súdito australiano; do mesmo modo, dentro de casa, suas vozes… ou melhor, suas emoções podem vir à tona por conta do número menor de máscaras que são forçados a usar. Por mais paradoxal que soe, Firth precisa lutar para vestir uma máscara. Enquanto a Hollywood moderna e o mundo da música pop pregam a busca pelo diferencial e a necessidade pelo extraordinário com seus super-heróis e ídolos mais visuais que relevantes, O Discurso do Rei empurra todo mundo na contramão com o sofrimento de um homem que precisa cumprir um papel, incorporar uma persona desprovida privacidade e, em vários aspectos, individualidade.

Com esse inusitado, e único, objetivo, vemos Firth sofrer, explodir, retrair, questionar e, inevitavelmente, dar um basta em sua aparente auto-sabotagem num roteiro sem pontas abertas e cheio de propósito. O final é conhecido, mas menos óbvio do que aparenta. Não estamos em Hollywood, não se trata de um blockbuster – embora, em menos de 12 semanas já se aproxima da marca limite dos US$ 100 milhões nos cinemas norte-americanos para alcançar tal classificação; já faturou cerca de US$ 181 milhões no total, incluindo mercados internacionais –, logo, não sofre de seus vícios e demandas dos executivos de estúdios. Isso sem contar o principal fator que permitiu a narrativa limpa: trata-se de um filme pequeno, com custo estimado em US$ 15 milhões, mais um ótimo exemplar dessa geração de filmes baratos presentes no topo qualitativo do cinema em 2010. Cisne Negro e 127 Horas estão na mesma faixa, mas é impressionante notar o baixíssimo custo de Namorados para Sempre (Blue Valentine, US$ 2 milhões) e Inverno da Alma (Winter’s Bone, US$ 1 milhão!!!!).

É a vitória do bom senso cinematográfico, não necessariamente autoral, mas devoto a um produto final mais longevo que o sucesso descartável do verão. Trata-se de um filme autoconsciente de sua função, sem tendências megalomaníacas e, assim como deseja seu protagonista, simples. Mas nem por isso fraco ou desmerecedor do título de franco-favorito à estatueta. Difícil se esquecer dos lampejos de liderança de Albert, da triste insegurança (e inerente desespero) ao se mostrar incapaz de contar uma história de ninar para as filhas – entre elas, Elizabeth II, atual regente da Inglaterra – e o carisma e ousadia de Lowe, o homem que ousou confrontar o Rei. Grandes cenas, resultantes de um power trio irresistível: Firth, Rush e Helena Bonham Carter, sempre mais contida e eficaz longe das alucinações do marido. Menção honrosa para Timothy Spall, um coadjuvante de luxo com uma interessante versão para Winston Churchill, pouco parecido visualmente, mas fiel em postura e presença de espírito. Boa, mas não comparável ao trabalho definitivo de Brendan Gleeson em Into the Storm. Vale notar que o Rei George VI aparece no telefilme da HBO, porém, não demonstra sua gaguice.

Colin Firth deve levar o Oscar de Melhor Ator e, como de costume, Geofrey Rush merece ser reconhecido, entretanto, não suplanta o ápice da carreira de Christian Bale em O Vencedor, sem dúvida, o mais emocional dos concorrentes. O Discurso do Rei vale o ingresso, firma-se como pilar da atuação da nova década e já nasce como filme de referência, ganhando Oscar ou não – já levou o BAFTA –, missão cumprida. O Príncipe Albert começou sozinho, enfrentando seus medos, mas, diferente de Hitler, terminou coroado e acompanhado por um amigo.

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Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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13 comentários sobre “[Análise] O Discurso do Rei

  1. É dentre os 10 indicados, um dos mais fracos, talvez só melhor do q “Inverno da Alma” e “Minhas Mães e Meu Pai”.

    O roteiro é raso e sem graça, e a direção é apenas eficiente, logo o q vale é a quimica entre Firth e Rush.

    Um filme descartável, esquecível assim q termina a sessão, e só será lembrado pelos prêmios injustos q receberá, assim como “Shakespeare Apaixonado”.

  2. Claro que O Discurso do Rei é um filme histórico, sobre personagens reais, em um contexto que todo mundo já conhece. Mas não deixou de me admirar uma qualidade tão importante aos filmes do tipo: conseguir desvencilhar a imagem grandiosa e congelada das figuras do livro de História e dar a elas uma aura mais humana. E por isso que, mesmo consciente do trabalho competente de Tom Hopper, não consigo deixar de enxergar O Discurso do Rei como um filme de atores. E isso foi o que mais me encantou.

    Se Colin Firth, como você disse, está irreparável, Geoffrey Rush, na minha opinião, vai um pouco além. Ele supera a acuidade dos elementos técnicos de um trabalho de ator, e eleva sua performance um tom acima. A cena do embate entre Lowe e Albert antes do ensaio da coroação é magnífica. Principalmente se entendermos a sequência como um paralelo do trabalho do ator, com Rush dirigindo a cena de Firth, sentado ao trono.

    Incrível. Terminei com vontade de ver de novo. E a sua análise está ótima e completíssima, como sempre, querido.

    Beijos!

  3. De nada também não Fábio…rs

    Acho até q a direção tem algum crédito, especialmente nas cenas com Firth e Rush, onde cada um deles ocupa um lado diferente do enquadramento, não ‘misturando’ realeza e plebe, e no final já não é assim, qdo eles ‘se igualam’.

    A produção de “O Discurso do Rei” é pobre, parece telefilme da BBC…Hooper mostrou algo melhor em reconstituição de época em “The Damned United” e dizem q seu trabalho na minissérie “John Adams” é ótima, então imagino q esse seja um filme de produtores e q ele não teve liberdade pra fazer nada, e se teve, foi bem fraco, nem merecia estar indicado e muito menos levar o DGA.

    Firth está bem, mas acho q tanto Eisenberg como Franco estão melhores do q ele, q deve vencer mais por compensação pelo extraordinário trabalho em “A Single Man”.

    Sou fã do Rush desde “Shine” mas ele pode levar o Oscar por hype tbm, pq não teve coadjuvante esse ano melhor do q Bale, q sempre foi talentoso e merece ser premiado pelo ótimo trabalho num filme um pouco acima da média.

    Mas já estou preparado pra vergonha q será esse filme ser premiado, já q é quadrado e agrada ao público q adora ver algo q não precise pensar depois, pq muitos filmes de 2010 foram milhões de vezes melhores do q ele, especialmente “A Origem” e “A Rede Social”, q merecia maior reconhecimento, mas eu sei q o Oscar nem sempre premia o melhor, acompanho a premiação há mais de 20 anos e entendo como funciona.

  4. A montage de Discurso me botou cantando Gonna Fly Nowww o dia todo. Se já nao existir algo assim prepararei a edicao pro Youtube. 🙂

    No geral é um filme extremamente bem realizado de uma história chata, irrelevante e previsível em todos os seus momentos. Derepente pros juris é o que basta, né?

    Alias, conclui com esse filme e seu hype incompreensível pra premios, que pra nós nerds filme foda é aquele te provoca mindfucks. Qt mais mindfucks, mais foda é o filme, e Discurso tem o índice zero absoluto desse quesito daí o “incompressível” acima.

    Enquanto isso, o filme com o maior indice de mindfucks do ano segue aí levando uns premiozinhos de categorias técnicas… :-((

  5.      O Discurso do Rei é um filme minimalista que tem talvez como maior êxito expor uma verdade que ha muito tempo tem abandonado a mente da maioria da humanidade: os grandes ídolos, líderes e mestres que formam os rumos da história tantas vezes, são, sempre foram e sempre vão ser pessoas normais, ordinárias e tão cheios ou até com mais de defeitos do que qualquer outro ser-humano!
         A mistificação daqueles que estão no comando ou destaque por uma população ou indivíduos deve-se a aura de poder que envolve determinada personalidade mas que na maioria das vezes é apenas ilusão de um enorme número pessoas que precisam de um norte para se orientar.
         E uma história tão rica e grande como a do príncipe Albert certamente é a exemplificação perfeita de que os grandes nomes só são formados pelas responsabilidades que lhes são atribuidas e não por um dom superior que vem dos deuses ou algo parecido. O exemplo de suporte obtido, superação e grandiosidade do duque enchem a tela com momentos memoráveis e apaudíveis em termos de atuação, diálogo, roteiro, etc…
         A atuação de Colin Firth como nunca foi vista antes, nos leva a encarar a história com seriedade, sendo contraposta apenas pelo humor envolvendo seu brilhande contraposto interpretado por um também brilhante Geoffrey Rush! Ainda falando de Colin este nos mostra um personagem extremamente deficiente em caráter não apenas como homem mas como um dos grandes sucessores do trono, transformando um simples problema de gagueira em algo agonizante para os olhos e ouvidos do espectador! Basta olhar para seus trejeitos e compulsões tão ilustramente transpostos pelo ator para perceber que se está diante de um personagem que carrega fardos pela vida e está a  ponto de explodir em agonia. Não se esquecendo também de mensionar uma eficiênte Helena Bohan Carter que mostrou muito mais de sua capacidade desconhecida ao interpretar uma esposa dedicada e (em comparação a outras personagens da atriz), extremamente normal.
         O Discurso do Rei é uma experiencia completa que deve ser admirada por gerações e que trás o melhor do cinema nos tempos atuais. Realmente muito bom!
         
         

  6. Gostei do filme.

    Mas concordo em partes com alguns colegas em relação a premiação. Acho legal reconhecer o filme indicando-o, mas vê-lo ganhar de A rede social, Cisne Negro, Origem e Toy Story 3 pra mim é imcompreensível. Mas enfim, não vou ficar diminuindo o filme comparando com os indicados ao Oscar, premiação duvidosa.

    O filme tem méritos. Apesar de formuláico, faz bom uso da linguagem de câmera, utilizando enquadramentos que isolam o protagonista. Também gosto das grandes angulares curtas, que distorcem o mundo que ele vive. Mas não gosto quando o enquadramento desloca o Jeoffrey Rush em uma cena que ele está só. Ali ela perde o sentido para mim, que é o de isolar o Colin Firth.
    Não gosto também da caricatura feita do Churchill.
    A montagem é eficiente, mantém o bom ritmo e equilibra bem o humor, o drama e a mudança do personagem ainda que em algumas cenas (como a do “shit shit shit fuck fuck fuck”) soem um tanto quanto exageradas a meu ver.
    A trilha é linda, e a direção de arte, figurino e luz um luxo. Não vou acrescentar mt mais.

    A atuação é o forte do filme. Colin Firth tá perfeito passando impônencia apesar da insegurança causada pela sua deficiência (que ele reproduz muito bem) e em ótima química com o cativante Jeoffrey Rush.

    é isso.

  7. Eu achei um filme uma bela surpresa. Costumo desconfiar um pouco de filme que recebem um certo atestado da crítica e/ou da mídia. Comecei “ressabiada” e terminei encantada. Para mim, todos os elementos do filme, muito bem executados por sinal, chegam a se apagar frente a atuação de Geofrey e Colin. O último merece todos os prêmios possíveis. O trabalho corporal dele está impecável, as mudanças de estado de humor também forma feitas com bastante sutileza e eficácia. Geofrey está maravilhoso, imprimindo um um toque discreto de humor ao filme. é ao lado dele que Colin consegue algumas de suas melhores cenas. Sem dúvidas os embates entre Lionel e Bertie são um show à parte. Helena Boham Carter, como você mesmo disse, muito bem. Conseguiu passar um ar austero que muitos se esquecem que ela pode imprimir a um personagem de “cara limpa”. Enfim, filmaço. Vale muito à pena.

    p.s.: Amei teu etxto! xD

  8. Na boa esse Tom Hooper não merecia ganhar por direção. Achei bem razoavel o trabalho, diferente de filmes como A Rede Social, A Origem e 127 Horas que se ve espetaculos. Alias como pode um filme levar todos os premios de categoria tecnica e o cara que dirigiu tudo isso não estar ao menos indicado a melhor diretor?
    Acho Discurso do Rei um filme bem legal e tal mas não é pra tanto, os dialogos inteligentes e divertidos (para a epoca) e a atuação dos atores são praticamente 90% do filme.

  9. comprei o livro, mas tenho uma curiosidade… devo ler o livro primeiro ou assistir o filme?

    os filmes que eu assisto que são adaptações de livros eu fico decepcionado, mas tenho impressão de que com esse vai ser diferente, ouvi falar muito bem do filme. alguém já leu o livro e assistiu o filme também? o que acharam?

    abraços,
    rodrigo

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