A Queda do Jornalismo

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Intrigas de Estado enfia o dedo na ferida da crise da imprensa e amplia ainda mais a discussão levantada pela série homônima da BBC: para onde caminha a imprensa mundial?

Há muito tem se falado sobre problemas no jornalismo. Redações cortando pessoal, anunciantes preferindo apostar em campanhas “virais” na internet e, claro, leitores deixando de pagar por exemplares e ler tudo de graça na internet. Enquanto a imprensa [maior interessada no problema] se recusa a discutir seus erros e pontos fracos, o cinema faz sua parte e expõe alguns aspectos desse problema. Por isso, Intrigas de Estado (State of Play) merece atenção redobrada num momento de tão intensa crise.

Inspirado numa fabulosa série de TV da BBC, Intrigas de Estado usa uma investigação envolvendo assassinato e jogatina política no Senado norte-americano como pano de fundo para discutir os papéis da imprensa no mundo atual. Qual aspecto mais relevante: manchetes bombásticas capazes de vender mais exemplares, mas embasadas em meias verdades? Ou investigação a fundo, com todos os lados da história e bases factuais? Ou seja, hoje em dia, vale mais ser comercialmente viável ou ético e confiável? A pergunta não tem resposta fácil e nem é o objetivo do longa-metragem de Kevin Macdonald [O Último Rei da Escócia e escalado para dirigir O Fim da Eternidade, de Isaac Asimov], estrelado por Russell Crowe, Ben Affleck, Rachel McAdams e ainda tem Helen Mirren dando um show no elenco.

Crowe [veterano do jornalismo impresso] e Rachel [novata editora de um blog oficial do jornal] se vêem trabalhando lado a lado para descobrir quem matou uma pesquisadora do Senado. A vítima tinha um caso amoroso com o personagem de Ben Affleck, amigo de faculdade do repórter de Crowe. Amizade, investigação e uma grande cortina de fumaça se misturam nessa trama, um relato próximo do dia a dia de milhares de jornalistas ao redor do mundo. São dois lados e, no meio das versões conflitantes, a verdade, que raramente vai a público. Quantas versões diferentes foram relatadas, por exemplo, do caso da família Nardoni, recentemente no Brasil? Óbvio, nenhuma concluiu absolutamente nada, afinal, quem decide é o júri popular. A imprensa está cheia de histórias assim, mas sua incidência cresce assustadoramente conforme as vendas e anunciantes caem.

Intrigas de Estado propõe um casamento entre dinamismo e responsabilidade. A mídia se recusa a aceitar essa revisão inevitável. Russell Crowe é uma versão mais nova de Woodward e Bernstein [os jornalistas do Caso Watergate] e vê apenas o lado negativo da reportagem online, sempre desesperada por fatos momentâneos e em busca de mais e mais hits. Rachel McAdams idolatra Crowe, mas enxerga suas limitações e descobre sua dependência vital por fatos confirmados. Um aprende com o outro e o leitor ganha. Mas essa é a versão romantizada. No mundo real, é cada um por si. E o jornalismo impresso tem perdido a guerra. “O mundo nunca pode deixar o formato impresso de lado, seria um erro”, comenta Ben Affleck em entrevista exclusiva ao SOS Hollywood. “Essa busca pela notícia quase simultânea é perigosa; é necessário ter certeza antes de se relatar ou discutir algum assunto. Da mesma forma, não imagino um diretor realizando um filme em uma semana ou filmando um roteiro escrito em cinco minutos. Tudo tem o tempo certo e apressar tem seus riscos”.

Essa derrota temporária é numericamente contrastante. Em termos de leitores e seriedade, o jornalismo impresso ainda ganha com larga vantagem. A Internet cria a ilusão de relevância e abrangência com seus milhões de cliques, mas atinge uma pequena camada da população que, basicamente, repercute o conteúdo dentro da própria internet. Apesar de defender um novo formato mesclando as duas mídias, Intrigas de Estado chega a uma conclusão: seja jornalista ou blogueiro, informação é uma só e tratá-la com cuidado é fundamental. E essa lição, os “jornalistas virtuais” ainda precisam aprender a averiguar, revisar e reportar, em vez de “postar”.

A crise ainda está distante de acabar, seu desfecho está nas mãos dos leitores – afinal, é deles a escolha pelo formato e tipo de produto – e resta ao cinema, e outras mídias, levantar essa discussão, especialmente enquanto parte da imprensa continuar fazendo vista grossa. “Acredito num futuro no qual a tecnologia seja aliada 100%, não arauto de problemas como os downloads ilegais ou essa crise do jornalismo. Quem cria e usa a tecnologia somos nós, logo, ela deve ser uma ferramenta, não um pacote de regras a ser seguido”, finaliza Affleck.

Fábio M. Barreto

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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9 comentários sobre “A Queda do Jornalismo

  1. Pingback: SOS Hollywood
  2. O filme é muito foda, um dos melhores do ano sem dúvida. Quanto à discussão sobre o jornalismo, o personagem do Crowe, como aquele tipo clássico de jornalista, era o que eu queria ser quando criança, mas com o tempo eu fui aprendendo sobre a realidade e o vício do jornalismo atual, e sua mafia de venda de manchetes em busca de sua sobrevivência, e os colunistas vendidos para figuras nefastas preocupados apenas com a destruição de biografias.
    Mas confesso que ainda vejo a necessidade da existência de proficionais dispostos a viver para retratar as notícias da forma mais real possível, que a internet permite uma participação maior no debate ela permite, mas ainda acho necessário a existencia de redações para poder filtrar, pois se uma pessoa a partir do twitter pode fazer parte da história ao retratar uma manifestação ou revolução, ela também pode retratar só assuntos corriqueiros, a sociedade de consumo atual ainda só se interessa por fofocas e notícias mundanas!

  3. Como estudante de jornalismo, o filme não poderia me afetar mais. A discussão toda faz com que eu ainda tenha calafrios ao receber minhas notas: enquanto a galera não está nem aí para o “tal do diploma”, eu ainda não aprendi a escrever com a nova ortografia. E me cobro por isso. E continuo achando que isso é o principal e o pior dos defeitos das pessoas: ninguém mais liga pra nada.

    Como garota de 20 anos e “blogueira”, eu ainda sou meio velha: não consigo considerar jornalismo. Meus colegas de sala todos fazem fila para mostrar, assim, “sem querer”, seu blog super opinativo para o professor, louco pra dar pitaco polêmico no twitter. Não sei se sou tão a favor da democratização assim: não sou tão fã da opinião alheia. É muito fácil se eximir de responsabilidade quando você é um conjuntinho de pixels.

    E, como cinéfila, tenho medo desse filme: se for usado da mesma maneira que as versões de Watergate são, pelas faculdades de jornalismo, vai dar merda das grandes. Vão ser milhares e milhares de resenhas pretensiosas de aspirantes a jornalistas, loucos pra mudar o mundo, e que não são capazes nem sequer de se preocupar com a nota de Antropologia porque, bom, não importa.

    Hoje em dia todo mundo pode ser qualquer coisa, e ninguém liga pra nada – é isso que me assusta. Se eu pudesse escolher, pelo menos, teria Russel Crowe de chefe 😉

    PS: o site está lindo, os textos cada vez melhores. Ainda, alguma coisa, me dá orgulho – e vontade de continuar.

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