Se correr, a véia pega…

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… se ficar, o véia amaldiçoa! Sam Raimi retorna ao terror, apavora na abertura e arranca boas risadas ao longo de Arrasta-me para o Inferno.

Arrasta-me para o Inferno é o que acontece quando alguém deixa os irmãos Raimi inventarem histórias. Sam e Ivan bolaram esse terror, com boas doses de humor, no meio de uma crise de criatividade. Anos mais tarde, Sam aproveitou a história para retornar a seu gênero predileto e apavorar o público. Apavorar mesmo, com direito a criatura mulambenta saída do Inferno, maldições ciganas e um singela história de amor entre Alison Lohman e Justin Long.

Se há uma mensagem de conduta presente em Arrasta-me para o Inferno é essa: nunca maltrate velhinhas ciganas. É uruca da brava, na certa! A partir daí, o filme aposta em tudo de bom do terror. Sustos estão por todos os lados, começando por uma das aberturas mais aterrorizantes e desesperadoras que o cinema “mainstream” já produziu até hoje. Embora não seja blockbuster, teve orçamento respeitável [US$ 30 milhões] e conta com a expectativa pelo “retorno” de Sam Raimi ao terror de raiz, depois de anos trabalhando com TV [Xena – A Princesa Guerreira e Hércules] e no cinemão, dirigindo a série do Homem-Aranha. É uma espécie de The Evil Dead com mais verba, embora Bruce Campbell faça falta.

No roteiro, a Lamia, uma criatura ancestral sai dos quintos dos infernos, vem até a Terra e leva almas amaldiçoadas. O nome foi escolhido ao acaso, sem nenhuma pesquisa, assim como sua história. Tudo criada pelos irmãos Raimi. “Estávamos escrevendo um roteiro complicado, não vinha mais nenhuma idéia nova, aí pensamos: por que não escrever um conto de terror?, comenta Sam Raimi em entrevista exclusiva à Sci-Fi News/SOS Hollywood, em Los Angeles. “Foi tudo muito espontâneo e rimos muito enquanto escrevíamos, mas ainda demorou um pouco para o bloqueio criativo ir embora (risos)”. Sam Raimi é um sujeito curioso. Vestindo terno completo, cortes e atencioso, o diretor não aparenta sua fama ou carreira de sucesso. Comportamente cada vez mais raro na indústria da aparência.

Claro que a comédia está presente, não tão descarada e escraxada, mas é um elemento que aproxima esse longa do gênero do Terrir de Ivan Cardoso. A onda dos remakes aposta no bom-humor para aliviar seu conteúdo e mostrar que não se leva a sério, mas essa modalidade é dominada com perfeição pelos Raimi. “Algumas pessoas apostam em fórmulas, ou tendências, para os filmes de terror, mas se esquecem do principal: acima de tudo, a história faz você [diretor] rir? Se a resposta for sim, o público vai embarcar”, argumenta Sam. “Mas tenho noção de que meus seguidores não são centenas de milhares, então delírios de grandeza não fazem parte do meu repertório (risos).”

Arrasta-me é um filme honesto. Assusta, tem momentos memoráveis – tanto no aspecto do terror, quanto da comédia – e traz um Sam Raimi tranqüilo na direção. A maior surpresa fica por conta de Lorna Raver, uma atriz, locutora experiente e de simpatia ímpar, que se transforma num ícone imediato do terror. Ô velha maldita! Ela acaba com a vida do jovem casal formado por Alison Lohman e Justin Long. “Fazer uma personagem como ela é ótimo, pois posso exagerar o tempo todo e, o melhor de tudo, ninguém me reconhece sem a maquiagem! (gargalhadas)”, descontraí Raver, veterana em narração de audiobooks e do teatro.

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Quem mais sofre na história toda é Alison. Ela sai no tapa com a cigana maluca, leva todo tipo de susto, é assombrada, enfrenta uma mosca demoníaca e disputa uma luta homérica com um corpo, dentro de uma cova! Desgraça pouca é bobagem, mas sempre há esperança. Pelo menos na visão de Sam. “Ele sempre me disse para acreditar na salvação da personagem… quem persiste sempre alcança, não é? (risos)”, profetizou Alison. Mas ela quebrou a cara, pois o poço sempre pode ficar mais fundo para sua personagem. Dá dó, mas alguém tem que sofrer para o público dar risadas, certo? E dá-lhe cena nojenta e nauseante para cima da mocinha.

Sam Raimi não tem dó de seus personagens. E também não liga para comentários da indústria. “Ter dirigido tanta coisa ‘maior’ me deu a chance para bancar esse filme e escalar Justin Long, por exemplo. Muita gente insiste em nomes de bilheteria garantida, preferi escolher um ator bom. É bom ter independência, às vezes”, diz Raimi. Por conta disso, Arraste-me para o Inferno é um filme sólido, reflexo de uma mente criativa e sossegada, que irrombe na telona com obrigatório.

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Fábio M. Barreto

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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10 comentários sobre “Se correr, a véia pega…

  1. Excelente matéria! Eu sempre achei o Sam Raimi meio esquisito com esses ternos dele…
    Estou ansiosa pra ver o filme, mas na verdade não sei se me agradará essa idéia de misturar o terror com comédia (tirando aqueles filmes trash). Eu levo bem a sério os filmes de terror, gosto de me assustar de verdade!! Daqueles de ficar com medo de dormir depois! hehe
    Mas vou conferir, com certeza.

  2. Quero muito ver Arrasta-me para o Inferno, e já me assustei só vendo o trailer. O filme deve estar ainda mais assustador. Sabe,esse gênero, terror mesmo, era meu preferido na infância. rs

    Uma coisa que me chamou a atenção quando li pela primeira vez sobre o filme, foi o elenco, porque é como ele disse, não é um elenco conhecido do grande público. Eu gosto disso…

    Ótima matéria Fábio! Adoro ler coisas novas por aqui.

    Abraço!

  3. “É uma espécie de The Evil Dead com mais verba”
    🙂
    XARÁ, conferirei com toda certeza, pois sou fã do RAIMI desde os tempos de EVIL DEAD, com BRUCE “THE CHIN” CAMPBELL.
    Aproveitando a deixa, seria bem legal se todas as sequências do referido filme fossem lançadas em DVD.
    A ALISSON é gata e considero o JUSTIN um ótimo ator, espero que a química entre os dois atores tenha dado certo.
    Saudações,

  4. Pingback: Pablo de Assis
  5. Acabei de chegar do cinema e simplesmente amei Arrasta-me para o inferno. Não conheço outros filmes do Sam Raimi, a exceção dos aranhas, mas fiquei maravilhada com esse. Fui com grandes expectativas e posso dizer que fiquei satisfeitíssima. Sem pretensões de ser levado a sério, o filme conquista com seu jeito trash, humor irônico e bons sustos. Genial.

  6. Barreto, tô conhecendo seu site agora, muito legal. Tem só o que interessa. Curti demais esse Arraste-me pro Inferno. Algumas cenas me lembraram o Evil Dead. Agora Barreto, queria que você falasse sobre o filme Los Angeles Cidade Proibida. Um “Noir” de primeiríssima qualidade. Abraço e parabéns pelo trabalho.

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