[Análise] Os Mercenários

“É um tipo de filme simples e que está em falta, como disse: um bando de caras, uma trama simples, uma missão; eles vão até lá e resolvem a parada” – Sylverster Stallone, diretor e roteirista de Os Mercenários.

Por sua natureza duradoura e influente, constantemente, a cultura cria gerações de pessoas que gostariam de viver em outras Eras. Verdadeiros anacronismos cada vez mais gritantes especialmente com a velocidade do avanço tecnológico e também dos estilos de linguagem escrita e audiovisual. São pessoas saudosas por uma época que não viveram, idólatras de shows que não assistiram, guerras que não lutaram, mulheres que não amaram. Logo, a cada oportunidade, tentam recriar seus grandes marcos. Woodstock tentou e falhou miseravelmente, o Rock’n Rio se transformou numa franquia anos-luz de distância de seu original, felizmente, ninguém resolveu reencenar a Segunda Guerra Mundial, mas os videogames suprem essa demanda e, quando se fala em anos 80, ou apela-se para o DVD, reality shows com os astros daquela época ou, no mais recente revival, Os Mercenários (The Expandables, 2010), escrito e dirigido por Sylvester Stallone, que tem estréia mundial hoje. É a celebração máxima do cinemão da pancadaria corpo-a-corpo, de um gênero superado pela tecnologia fadado à manutenção da assustadora carreira de Steven Segall, por exemplo.

Os Mercenários pode ser bem resumido pelo Coringa, de Heath Ledger. É um filme de gosto simples, que usa punhos, dinamite e gasolina para atingir seu objetivo. Assim é Sly, cuja fama e fortuna lhe permitem transpor suas idéias para telona sem precisar mendigar para os grandes estúdios. Ligou pessoalmente para cada um de seus colegas de cena: Dolph Lundgren, Jason Statham, Steve Austin, Randy Coulture, Jet Li, Terry Crews, Eric Roberts e, por último, mas não menos importante, Mickey Roarke. Isso sem contar no trio de ferro que, finalmente, se reuniu: Stallone, Bruce Willis e Arnold Schwarzenegger. A cena é curta, mas memorável. Os três maiores astros da ação reunidos, fazendo piadas internas e realizando um sonho. “Quando mudei o roteiro, pensei em fazer algo cheio de machões mesmo. Faz tempo que não vejo um filme desses; pode ser um desastre ou algo muito interessante”, diz Sylvester Stallone ao SOS Hollywood, em Los Angeles, semanas antes de fazer a famosa piada do macaco, na Comic-Con. “Não precisamos ensaiar nem nada desse tipo, só discutimos um pouco a cena antes, cada um definiu o que falaria e filmamos; Bruce achou estranho a gente fumar charuto dentro de uma igreja, mas ninguém estava ligando muito”.

Stallone nega que Os Mercenários seja o Álamo do gênero que o consagrou. “É um tipo de filme simples e que está em falta, como disse: um bando de caras, uma trama simples, uma missão; eles vão até lá e resolvem a parada, em situações que poderiam acontecer na vida real, sem gente escalando prédio ou vestindo roupa colada (risos)”, comenta Sly. A jornada desse grupo de mercenários altamente treinados os leva a uma amizade incomum, recheada de cicatrizes e desentendimentos, tomando suas vidas pessoas e os transformando em párias cheios de dinheiro e doidos para encher alguém de porrada. É o que acontece com o personagem de Dolph Lundgren, o gigante sueco de voz suave e eloqüente que, mesmo dedicado à carreira de diretor e vivendo na Espanha, ainda atua de vez em quando [participou da série Chuck, recentemente] e discordou do chefe. “Vejo esse filme como uma mensagem direta àquela época sim [os anos 80 e início dos 90], pois muita gente se esqueceu do que fizemos e, acima de tudo, de como fizemos”, diz.

Com a segunda parte, Stallone concorda: “nossa geração foi mano-a-mano, nada de efeitos, nada de atirar há 50 metros, nada de tela azul; tudo acontecia realmente e precisávamos participar da ação”. Pensando assim, Sly encarou cada segundo do racha com Steve Austin com tanta seriedade que foi parar no hospital, recebeu ordens estritas para não filmar mais e jogou tudo para alto em nome do filme. É Stallone heroicizando sua própria trajetória com o filme sobre o sujeito que resolve colocar a vida em risco para salvar um ideal, representado pela personagem de Giselle Itié, disposta a morrer pela pátria – uma república de bananas inventada por Stallone, com o clichê do ditador militarizado e controlado pela CIA, filmada nas matas do Rio de Janeiro.

A relação com as mulheres é inusitada em Os Mercenários. Bem, nem tanto, afinal, é coisa para Macho com M maiúsculo. Stallone está bem resolvido nesse aspecto e o único valentão que ainda morre de amores é Jason Statham, um romântico incompreendido, que não consegue conquistar o amor de Charisma Carpenther [desaparecida desde que Buffy e Angel acabaram], que continua bonita, mas não melhorou nem um pouco na atuação. Nesse filme, elas são assumidamente coadjuvantes, servem para motivar, mesmo sem os brucutus precisando.

Seguindo o pensamento de Stallone, tudo é autêntico, desde a pancadaria até as explosões. É uma outra escola de produção, uma quase arte no mundo do computadorizado e 3D. Enquanto pensamos em cenários giratórios de Christopher Nolan, vôos rasantes em mundos imaginários de James Cameron e o mergulho tecnológico proposto por Tron – O Legado, Sly e seus amigos saem no braço. Literalmente. A combinação é fantástica no papel e, até certo ponto, se traduz para a tela, especialmente na dinâmica entre Sly e Statham, que ainda arrisca no aspecto dramático. Para um ator de ação, o inglês faz bonito. Em terra de cego, quem tem um olho é rei, não é mesmo?

Se o roteiro é simples e a pancadaria é fundamental, o mesmo nível de complexidade pode ser esperado da montagem. É uma viagem visual no tempo, com aqueles rostos e aquele estilo repetitivo em suas explosões, com vários ângulos a cada boom, e a grandiosa cena de batalha no final. Sly conhece seus limites e, depois de endeusar seu poder de superação em Rocky, resolveu aceitar a realidade da idade em Os Mercenários. Talvez a maior surpresa desse filme seja um de seus duelos. “Se acredito num mundo real para o filme, com coisas que realmente acontecem, para que forçar a barra onde pareceria mais absurdo”, questiona o diretor.

Claro que é divertido, mas, obviamente, desnecessário na época em que se espera tudo de Scott Pilgrim, o herói raquítico e relapso da geração alternativa. Falha em sua promessa de ser grandioso, especialmente quando Stallone opta por transformar cada cena de ação em algo maior, mais barulhento e mais épico que a anterior; e quando tudo é épico, nada mais é. Pecado compreensível perante o potencial de seu elenco, com direito a luta de David e Golias entre amigos, e a assinatura obrigatória dos bons filmes porrada: tudo vai explodir, o espectador vai dizer “uau”, e o vilão dança no final.

Assistir a Os Mercenários é como comprar aquele vinil do qual você gosta muito. O ruído da agulha, os intervalos de silêncio enquanto o disco roda e a sonoridade das caixas de som te transportam a outro momento, quando tudo era mais simples, as explosões eram de verdade e Sly ainda era o grande herói. Sobreviveu aos tempos, é respeitado e idolatrado, mas, assim como seu filme, é um homem simples; de gostos simples; com idéias simples e divertidas. E um título sem pé nem cabeça.

por Fábio M. Barreto, de Los Angeles

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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25 comentários sobre “[Análise] Os Mercenários

  1. Caramba Barreto!!! Que puta análise meu. E como tu escreve bem. Ilustrar o início da matéria com a frase do Heat Leadger foi genial. Sobre o filme, ainda não vi, mas acho que é como tu falou mesmo, é uma coisa simples, “dispensável” mesmo, como é o próprio título do filme traduzido, apenas pra nos lembrarmos de como as coisas eram (ou pareciam) simples à três décadas atrás. (Caramba, é bastante tempo hein).

  2. Sou do tipo que gostaria de ter vivido em outras épocas. Woodstook, Rock In Rio. E se ainda não inventaram a máquina do tempo, que eu pelo menos possa tentar entender ao menos que um pouco como foi aquela época pelas histórias e olhos de alguém. Ainda me pergunto para onde foram as comédias simples dos anos 90 ou se elas simplesmente não tem mais graça no século 21. O texto me deu vontade de assistir o filme, mesmo que explosões nunca tenham sido o meu forte. Filmes em que não há a obrigação de um final inovador por alguém que não precisa mais reafirmar sua história. Sem análises mirabolantes, apenas diversão.

    1. Eu gosto da nossa geração. Gosto de ter todas as influências culturais que a gente teve. Filmes, desenhos animados, séries, programas de TV.

      Hoje a nossa geração está segurando as rédeas do mundo, gente da nossa idade produz hoje o que a próxima geração vai ter como influência. E vendo o que é produzido hoje eu vejo muita referência ao que a gente viu quando criança.

      Esse filme é meio que um: “Olha só, era assim que se fazia antes, molecada. Vê se aprende direito, hein?”

      E eu também sinto falta das comédias dos anos 90… Bons tempos.

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  6. Sinto falta da simplicidade no cinema, onde PESSOAS faziam a diferença, não milhões de dólares em efeitos visuais e especiais.

    Cresci vendo filmes do Stallone, vendo explosões e corpos voando. Nasci numa época em que guerra fria ainda assustava e soldados eram heróis que impediam os caras maus de tomar todo o mundo. Vi a guerra do golfo ainda novo e não entendia nada do panorama político mundial.

    Conheci a guerra dos filmes, onde good guys sempre derrotavam os bad guys, Onde o preto e o branco eram preto e branco, sem tons de cinza.

    E sinto falta disso, sinto falta da simplicidade do meu mundo de criança, por isso to doido pra ver Os Mercenários, pra ver o que não se vê mais. Pra sentir nostalgia de uma época em que tudo parecia mais simples, da época em que o MEU mundo era mais simples em que minhas preocupações eram estudar, brincar e ver filmes com heróis musculosos que usavam metralhadoras e bombas pra destruir tudo o que era mau.

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  10. Fábio,

    Eu e alguns amigos – todos sobreviventes dos anos 80 – assistimos juntos numa sessão de estréia que nomeamos “Sessão Brucutus”. Foi ótimo ver um filme que nos transportou de volta àquela época onde os efeitos especiais não eram a grande atração, mas a diversão era garantida!

    Parabéns pelo excelente post! Você conseguiu descrever como todos nós (eu e meus amigos pelo menos) nos sentimos ao final da sessão…

    Quanto ao título – The Expendables (Os Dispensáveis na tradução literal) – acho que tem a ver com o primeiro filme do Rambo quando ele está no vietnã com a mulher que ele salvou, conversando enquanto descem o rio de barco e ele fala para ela que ele é dispensável (expendable) se referindo à como o governo dos EUA o trata: “faz o trabalho, mas se ele falhar/morrer mandamos outro”…

    Um grande abraço e mais uma vez, parabéns!

  11. Pingback: SOS Hollywood
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  13. Barreto,

    o Stalone marcou uma época em minha vida com seus filmes e independente de este seu filme for simples ou complexo, idolatrado ou odiado, eu vou assistir.

    E só o encontro de Stalone, Arnold e Bruce já vale! (se era isso que ele pretendia, conseguiu! 🙂

    Um abraço e ótimo texto! Parabéns!

  14. Pingback: SOS Hollywood
  15. “Claro que é divertido, mas, obviamente, desnecessário na época em que se espera tudo de Scott Pilgrim, o herói raquítico e relapso da geração alternativa.”

    HAHAHA

    Espera-se tudo, menos um fracasso absoluto HAHAHA

    Scott Pilgrim = FAIL

    Stallone destroi os cults/alternativos/emos HAHAHA

  16. Prezado Fábio
    Ainda não assisti o filme,mas a sua introdução comparando os tempos distintos foi muito interessante,usando importantes elementos das citadas gerações,eu estou com quase 30,sei bem do que você está falando,embora muitos da atual critíca destacam o velho Sly como um ator fraco,acredito que nós que recebemos em primeira mão títulos como RAMBO,ROCKY,FALCÃO…e muitos outros,realmente fomos marcados por esta época,mas acredito ser um filme dentro do esperado,nos moldes anos 80,simples e proveitoso,é legal ver artigos feitos e comentados por gente da nossa época falamos a mesma língua,aliás pensava que era fora de moda ser nostálgico,mas estou vendo que minha nostalgia de 80 e 90 é muito comum.

  17. Assisti Os Mercenários em Blu-ray. O filme é ruim. Mas o problema maior é a qualidade de imagem, que além de estar em formato diferente do original, não tem uma qualidade satisfatória para Blu-ray. E o áudio no original é DTS HD 7.1, e no Brasil foi colocado Dolby Digital. Oh, California Filmes, quanta incompetência !!!

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