Muita gente pergunta: por que os atores americanos sempre se metem a cantar, pintar, dirigir e etc? A resposta é simples, quanto mais qualificado, mais trabalho pela frente, especialmente se você foi aluno da Juilliard, de Nova Iorque! Para entender a relevância desse processo, entrevistei Rosário Dawson, Julie Andrews, Nelsan Ellis e Morena Baccarin!

por Fábio M. Barreto, de Los Angeles

Olhando a grade de programação da TV norte-americana, existe um ponto em comum entre os destaques na atuação das melhores séries, sejam elas inéditas ou veteranas: versatilidade dos atores e atrizes. Para citar alguns exemplos, Nelsan Ellis e Rutina Wesley (True Blood), Morena Baccarin (V) e Laura Linney (The Big C) tem um trunfo em comum no treinamento que receberam na Escola Juilliard, de Nova Iorque. Esse celeiro de talentos tanto de Hollywood quanto da Broadway é um dos principais elementos que permite à maioria dos atores norte-americanos navegar tão bem entre gêneros, estilos e até se dar bem tanto na música quanto nos palcos.

Não há exagero quando se fala da Juilliard, pois mesmo entre atores de sucesso, mas que não passaram por seu processo, existe grande respeito e valor. Ontem, conversando com Rosário Dawson – que nunca estudou atuação e aprendeu tudo na prática – falamos sobre o modo como o mercado recebe os profissionais e como isso influencia na escolha de papéis. “Muita gente duvidou que eu conseguiria alguma coisa por não ser treinada, mas aí descobriam que eu já atuava desde os 10 anos de idade, então as coisas mudaram um pouco”, diz a belíssima estrela de Unstoppable, com Denzel Washington e Chris Pine, dirigido por Tony Scott, ao SOS Hollywood. Preparação é fundamental por aqui e, cada vez menos, existe espaço para pessoas “descobertas” no meio da rua, nos shoppings e em situações cotidianas.

E é aí que essa geração treinada pela Juilliard entra em cena. Eles atuam no teatro, no cinema e na TV. Sabem cantar com habilidade e dançam bem, conseguindo sucesso na Broadway e em Hollywood, quando alguém encara o desafio de fazer um musical; e, em muitas vezes, despontam como coadjuvantes fundamentais para seus projetos. Essa é uma das razões pelas quais essa versatilidade pode ser vista na atuação norte-americana, que não é apenas limitada a Hollywood. Aliás, os espetáculos da Broadway e off-Broadway são responsáveis pela maior quantidade de talentos revelados que as câmeras de Los Angeles. A razão é simples: embora custoso e, muitas vezes luxuoso, teatro ainda é infinitamente mais barato de se produzir que o cinema, especialmente quando se fala na produção dos Estados Unidos

O ator norte-americano precisa ser multitarefa, ou perde chances e, rapidamente, desaparece. Vez por outra Hollywood surpreende com um ator principal cantando na trilha sonora – sempre gosto de lembrar de Fever Dog, cantada por Jason Lee, em Quase Famosos e do fabuloso trabalho de Joaquin Phoenix [antes do surto] e Reese Whiterspoon em Johnny & June. É um formato que precisa ser seguido e, convenhamos, garante bons resultados para o público. É a capacidade de adaptação, de ser artístico em diversos aspectos do entretenimento e, acima de tudo, fazer isso bem. Até por falha pessoal e pouco contato com o cinema nacional, coisa que piorou desde que assumi o cargo aqui em Los Angeles, tenho apenas uma boa recordação dessa mescla de música com cinema, que foi o filme Os Desafinados. É uma peça rara na nossa produção, pelo menos pelo que sei. Rodrigo Santoro sempre me surpreende [ok, exceto Red Belt, que é fundamentalmente ruim e nada se salva].

Essa natureza valoriza muito o trabalho do ator que, embora continue sendo o sujeito que entrega os diálogos e os interpreta, pode executar suas tarefas com mais complexidade. “Cantei e atuei muito no teatro e, por sorte, meus trabalhos de TV foram mais focados na ficção científica; nada de devoção ao gênero ou coisa parecida”, diz Morena Baccarin, agora com cabelo totalmente tingido de loiro, que trabalhou com Joss Whedon na série Firefly e agora é a alienígena Anna, em V. “Os trabalhos mais populares acabam exigindo apenas fidelidade de roteiro, mas quem pagou as contas por muito tempo foram papéis dramáticos e musicais em Nova Iorque”.

Quem mais tira proveito dessa supercapacitação é a TV, que consolidou sua posição como meio de qualidade e relevância incontestável. Com o cinema cada mais circulando em torno de nomes veteranos confiáveis como Denzel Washington ou sujeitos rentáveis como Shia LaBeouf. Sempre com pilotos a serem filmados, minisséries e a constante produção de filmes para TV [curiosamente, a HBO pode ter os filmes mais marcantes, mas o SyFy Channel é um dos que mais investe com seus longas-metragens B; Dean Cain que o diga, pois é onde ele consegue emprego atualmente] e propagandas esse meio pode assimilar parte dessa força de trabalho com mais facilidade que o cinema.

Países como Inglaterra e Austrália também apostam muito nessa dinâmica. Inclusive, os europeus levam vantagem na briga. O último Oscar principal para um musical foi de Marion Cotillard, por Piaf; a última americana a ser premiada com algo similar foi Jennifer Hudson, anos antes por DreamGirls, mas como coadjuvante. Por falar em Oscar, Hugh Jackman cantou na festa e sabia o que estava fazendo, especialmente por sua boa experiência com musicais no início da carreira. E chega a ser óbvio citar exemplos clássicos como Julie Andrews, de A Noviça Rebelde. “Mesmo os musicais no cinema caíram um pouco de qualidade e ritmo”, diz a veterana à nossa reportagem. “O último que me marcou foi Moulin Rouge [de Baz Luhurman], gosto de pensar na habilidade musical como uma ótima ferramenta de trabalho, pois, no meu caso, ela ajudou a viabilizar muitos sonhos, inclusive o meu lado escritora de livros infantis”, explica. “Ser artista é se expressar da forma mais bela que você conhece, do melhor modo possível. Todos somos capazes de fazer quase tudo, mas encontrar força para ser flexível e efetivo é quase um dom; adoro ouvir novas vozes”.

Dom ou trabalho duro, não importa, pois, na prática, diretores de elenco e os comandantes dos projetos querem gente apta e dinâmica tanto no ramo prioritário do produto em questão, mas também capacitada para tentar maluquices como um episódio musical [cada vez mais comum na TV, especialmente depois do fenômeno supervalorizado de Glee] ou alguma transformação cômica e com surtos dramáticos como Nelsan Ellis, de True Blood, cuja terceira temporada termina hoje, nos Estados Unidos. “Não há mais espaço para atores de um estilo único. Cada vez mais, ouvimos diretores exigindo diversidade e inovação”, diz Ellis. “John Wayne sempre dizia que ele tinha apenas um personagem: John Wayne; e que os diretores queriam ver aquele sujeito, entretanto, hoje em dia, o público exige muito mais. Por exemplo, se Lafayette manter o mesmo comportamente por muitos episódios, as pessoas perdem o interessente, então, manter a reinvenção acontecendo e sempre estar aberto a novas descobertas sobre ele é fundamental. Muito mais para o público do que para o ator.”

Definitivamente, é o modelo a ser seguido por qualquer mercado disposto a se tornar uma potência cinematográfica.

Alguns famosos que se formaram pela Juilliard:
Robin Williams (O Homem Bicentenário)
Kevin Spacey (K-PAX)
William Hurt (A.I.)
Laura Linney (John Adams)
Bradley Whitford (The West Wing)
Eric La Salle (E.R.)

(texto feito em resposta à pergunta da leitora Sarita, no Pergunte ao SOS Hollywood!)

Fábio M. Barreto

Fábio M. Barreto novelista de ficção, roteirista e diretor de cinema e TV. Atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e da plataforma EscrevaSuaHistoria.net.
Atualmente, vive em Brasília com a família.

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3 Comments

  1. Adoro a Julie Andrews, principalmente em Marry Poppins, filme que mistura musical, animação e ótima interpretação. Um belíssimo filme.

    Quanto a cantar, dançar, dirigir… parece que no Brasil há um pouco preconceito com artistas que querem atuar em várias áreas. Dizem “quem quer fazer tudo acaba não fazendo nada direito”. (Se bem que há também os que sabem uma coisa e se metem a fazer outra sem nenhum preparo apenas porque já estão no meio). Mas lentamente parece estar mudando.

    Aqui no Japão também é muito valorizado o ator versátil. O ator Kimuya Tamura que vai protagonizar Space Battleship é também cantor e dancarino de uma das mais famosas bandas pop japonesas e seus outros 5 integrantes também são atores, apresentadores de TV…. e não são poucos os casos.

  2. Texto excelente, conversava outro dia com a minha irmã sobre essa “habilidade” dos atores e atrizes americanos que cantam, dançam e atuam, e do diferencial que isso acaba conferindo ao produto final – seja na TV, no Teatro, ou no Cinema. Quem sai ganhando é sempre o público, que pode se deparar com atuações surpreendentes e que, muitas vezes, aumentam consideravelmente o valor da série, da peça teatral ou do longa metragem.

  3. Obrigada! Adorei a matéria. Li em voz alta pra minha mãe(ela também gostou).

    Lafayette é melhor coisa de True Blood, o ator que o interpreta é incrível.

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