[Análise] Bravura Indômita

Esnobado pelo Globo de Ouro, mas reconhecido tanto pelo Oscar quanto pelo SAG, Bravura Indômita corrige a linha temporal do cinema e reconcilia o mainstream com a distante realidade na qual faroestes caíram em desuso.

por Fábio M. Barreto, de Los Angeles

Quando perguntei a Jeff Bridges o que significava ter “bravura indômita”, o true grit do título original, ele respondeu sem pensar: “é ter determinação suficiente para levar uma coisa até o final”. Encerrar as coisas. Não deixar nada pela metade. Melhor descrição impossível para o Velho Oeste, época imortalizada pelo cinema com seus duelos, pistoleiros renegados, conflitos com índios e onde o Bem e o Mal era claramente definidos. Muitas interelações são tratadas quando se está diante do novo filme de Joel e Ethan Coen, responsáveis por uma nova leitura do livro de Charles Portis, que inspirou uma versão cinematográfica em 1969, dando o único Oscar de Melhor Ator a John Wayne. Um ano depois de receber sua própria estatueta, Jeff Bridges aparece no mesmo papel em Bravura Indômita, como se buscasse corrigir um erro histórico. Ele integrou o elenco de O Portal do Paraíso (Heaven’s Gate, 1980), exagero anti-faroeste de Michael Cimino responsável pelo enterro simbólico do gênero na Hollywood moderna. Se Os Indomáveis (3:10 to Yuma, 2007) foi o tubo de ensaio para esse retorno sólido, Bravura Indômita encerra a questão. Os faroestes podem, e devem, voltar.

Desde sua gênese, os faroestes mostraram a Hollywood – bastante acostumada aos estúdios e às locações californianas – a força da natureza, sempre diminuindo o homem e suas mesquinharias perante montanhas imponentes ou desfiladeiros eternamente desafiadores. O trabalho de câmera de No Tempo das Diligências (Stagecoach, 1939) fez do Monument Valley, em Utah, um personagem tão obrigatório quanto Ringo (John Wayne) ou Dallas (Claire Trevor), impressionante mesmo com fotografia em preto e branco. O gênero foi explorado à exaustão no cinema em cores, porém, pouco viu das maravilhas das câmeras 4K e a altíssima definição. O Velho Oeste ficou guardado para o atual estado de desenvolvimento tecnológico. Jeff Bridges honra o personagem emblemático – adaptado diretamente do livro de Portis, não do filme de Wayne – e permite a erupção de um talento nato: Hailee Steinfeld, como a obstinada Mattie Ross. É dela a bravura indômita do título, é dela a responsabilidade de mediar a onda proativa de Matt Damon com a calmaria, por vezes excessiva, de Bridges, um leão esperando para estraçalhar sua presa. Entretanto, o maior mérito de Bravura Indômita está nas mãos dos Coen, profundos conhecedores do ambiente a sua volta. É como se eles fizessem faroestes há décadas e dominassem totalmente aquelas palhetas de cores. A assinatura visual de Onde os Fracos Não Têm Vez pode ser reconhecida ali.

Paul Thomas Anderson foi explícito ao anunciar que “haveria sangue” em seu Sangue Negro, talvez a melhor plataforma da década na preparação para esse público mais apto a receber Bravura Indômita, cinematográficamente falando; Os Indomáveis impressionou, mas concentrou esforços em Christian Bale e Russell Crowe; enquanto Appaloosa ficou indeciso entre entregar a responsabilidade a Viggo Mortensen ou a Ed Harris (também diretor do longa) e obteve um resultado mais ameno, pouco atraente ao público do cinemão. Os Coen deixaram a paisagem trabalhar, permitindo que Bridges, Hailee e Damon levassem sua perseguição a seus recônditos como intrusos ousados, sempre garantindo aquela sensação de urgência perante o desconhecido. Cada curva pode revelar algo novo, seja um cadáver enforcado no meio do nada, ou vilões prontos para dar o bote.

Numa dinâmica de meias verdades – na qual Rooster Cogburn é tão justiceiro quanto agente federal, de acordo com seu humor ou teor alcoólico no dia – existe apenas uma certeza: a morte é inexorável e irrelevante no Velho Oeste. Paradoxal ver o gênero construído ao redor do homens da lei, responsáveis por civilizar a fronteira mais romântica da sociedade norte-americana se revelar tão descontrolado e à mercê de políciais cuja melhor definição seria a de caçador de recompensa. Claro, havia o sentido de impor a justiça, mas nada acontecia sem o interesse pessoal. Bravura Indômita traz dois elementos memoráveis: Rooster, que pode, facilmente, ser apontado como a gênese dos dois maiores papéis de Jeff Bridges até o momento – o Cara, de O Grande Lebowski, e o oscarizado Bad Blake, de Coração Louco; e um festival de cenas belíssimas, seja pelo visual do Oeste ou pela simplicidade de sua essência – como o tiroteio final – utilizados com consciência e valor dramático. O embate entre Tom Chaney (Josh Brolin) e Mattie ganha força pelo cenário inusitado, um vau paradisíaco. Embora não exista construção direta para a tensão do encontro, suas condições são expostas desde a abertura, quando, aos poucos, a lente vai ganhando foco e revela a fatídica noite em que o pai de Mattie foi morto por Chaney. Nada é gratuito nessa composição.

Esse novo Bravura Indômita fecha uma trinca de respeito. Distante da alcunha de remake do filme de 69, o longa-metragem promove um novo modo de se olhar para aquele período histórico. Nada nada, são 42 anos de distância e evolução social entre as duas adaptações, logo, o modo de se pensar cinema mudou e é aí que o irmão mais novo entre com critério, mérito e sem grandes rompantes de sátira social dos Coen. É um retrato de época. Com sua natureza bela e rude. Falha e destemida. Mas, para todo os efeitos, movida muito mais pela obstinação do que pela honra e o brilho da estrela do xerife ou o desejo por um Oeste livre dos foras-da-lei.

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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10 comentários sobre “[Análise] Bravura Indômita

  1. Por mais interessante que pareça, acho que tanto filmes de faroeste como filmes de guerra não tem apelo emocional com as mulheres. Esses dias eu assisti Guerra ao Terror e apesar de achar interessante não é algo com o qual eu me identifique. A mesma coisa acontece com filmes de faroeste. Por mais interessante que as pessoas digam ser, não é algo prende a minha atenção. Para o público masculino há essa identificação?

    1. Isso é verdade! Filmes de guerra já tiveram minha preferência, mas já vi muitos. Agora os de faroeste me conquistaram. Mas não vejo a mesma coisa com minha esposa. Apesar de ficar deslumbrado, ela simplesmente diz que gostou, e só!!
      Só fico com o coração apertado quando tenho oportunidade de ver um filme desses mas cedo a vontade dela de ver comédias românticas…
      Acho que esse tipo de filme mexe com o sentido de masculinidade. Coisa de gênero mesmo! Poderia até arriscar que a decaída desses filmes resultou dos movimentos feministas nas décadas anteriores.

  2. Grande Barreto! Gostei da análise… Assisti há pouco e já tinha adorado. Mas essa sua análise sobre o nome do filme me despertou algo que não tinha notado, realmente o título está se referindo a Mattie Ross e não ao personagem de Bridges! Algo tão sutil, mas só por isso, fez com que eu gostasse ainda mais do filme.

    A propósito, o longa conta com ótimos personagens! O trio principal tem uma química bem legal e os vilões são ótimos, mesmo esses últimos tendo tão pouco tempo em tela…. Mas isso não é algo ruim, pelo contrário! Porque como nós estamos centrados na visão dos “mocinhos”, a gente nunca vê os vilões direito. Estamos sempre na cola deles, perseguindo os seus rastros. Muito interessante essa ótica.

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