[Batalha de Los Angeles] Lutar e Morrer em LA

Batalha de Los Angeles esquece política e leva uma câmera inquieta para a frente de batalha contra uma invasão alienígena sem precedentes de violência no cinema de Ficção Científica com direito a show dramático de Aaron Eckhart, um perfeccionista dedicado.

por Fábio M. Barreto, de Los Angeles.
Texto original publicado na revista Sci-Fi News, março, 2011.

Desde a estréia de O Resgate do Soldado Ryan, muita gente se pergunta – ou brinca – por que Spielberg não fez o filme inteiro no estilo dos fabulosos dez minutos iniciais da invasão da Normandia no Dia-D. Bem, não é preciso esperar mais, pois o sul-africano Jonathan Liebesman responde a pergunta com Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles, que nasce devoto à câmera na mão e trilha um complicado caminho entre o drama da Guerra e a luta contra o extermínio alienígena da Ficção Científica. A indecisão sobre o gênero poderia ser catastrófica, não fosse Aaron Eckhart, soberano em cena e capaz de guiar o espectador em meio a tanta correria, explosões, mortes e sacrifícios na vida da eterna bucha de canhão dos norte-americanos, os Fuzileiros Navais.

Baseado em fatos reais – calma, não fomos invadidos por alienígenas e você não ficou sabendo! -, Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles (originalmente chamado apenas Batalha de Los Angeles, ou Battle LA, no inglês) tem suas raízes na noite de 25 de fevereiro de 1942, quando as defesas antiaéreas dos Estados Unidos foram acionadas para repelir um aparente ataque japonês. Sirenes alertavam a população, canhões de luz dançavam pela noite e focavam num objeto enquanto o exercito iniciava evacuações dos moradores do litoral e as rádios pediam a todos que se protegessem embaixo de mesas ou abrigos. Pearl Harbor havia sido atacado três meses antes e submarinos inimigos haviam sido interceptados na região. Por várias horas, as baterias atiraram para tudo quanto era lado na esperança de abater um objeto aparentemente imune aos, pelo menos, 1430 projéteis. Orson Wells nem precisou ser convidado para a festa, logo os primeiros rumores começaram a surgir: alienígenas! Provavelmente culparam os marcianos, afinal, dizer “foram os incas venuzianos” sempre soou meio esquisito. Fato é: mais de um milhão de pessoas presenciou o tal vôo do objeto não identificado.

A linguagem de Batalha de Los Angeles é dinâmica, atual e beira o pseudo-documentário ao amplificar o drama de um pequeno grupo de fuzileiros destacado para resgatar civis e conter o avanço de alienígenas avançados, bem organizados e, pelo jeito, interessados nos nossos recursos naturais. Numa ótima sacada do roteiro de Christopher Bertolini, a água tem um papel fundamental na trama em diversos níveis, ditos ou subentendidos. Por esse aspecto, o filme de Liebesman é mais Guerra que Ficção Científica, pois basta trocar os inimigos por qualquer ameaça do nosso planeta e as relações se mantém. “Esses caras [os fuzileiros] são a linha de frente dos Estados Unidos; não importa o tipo de enrascada, eles são enviados primeiro e acabam apanhando muito mais do que qualquer outro setor das Forças Armadas”, explica Liebesman em entrevista exclusiva à Sci-Fi News, em Los Angeles, ao lado dos principais astros de seu filme. “Muito além dos filmes de guerra, acabei assistindo a diversos documentários sobre os conflitos atuais e também vi o tipo de reportagens e filmes feitos pelos próprios soldados em zonas de combate”. Essa escolha se reflete imediatamente na natureza inquieta do longa-metragem que, embora tenha algumas cenas filmadas em tripés, tem a maior parte de suas cenas filmadas com câmera na mão. “Tripés são caros, cara!”, brinca o diretor, que teve acesso a um orçamento estimado de US$ 100 milhões e, mesmo assim, precisou tomar todos os cuidados para não exagerar. É seu primeiro filme grande.

Seu colega mais próximo, Distrito 9, com quem será comparado por questões de qualidade, relevância e origem social por conta de os dois diretores serem sul-africanos, precisou se conter mais ainda, especialmente na questão da criação dos alienígenas. Gastar demais na pré-produção e no desenvolvimento pode ser um problema sério para esse tipo de filme. “Essa ameaça precisava ser aceitável e condizente em termos militares, pois se o inimigo for forte demais ou surreal demais, lutar contra ele pode parecer uma bobagem. É uma guerra, não um extermínio… embora a Humanidade leve a pior no primeiro contato”, defende Liebesman, que já está filmando a continuação de Fúria de Titãs 2010, batizado como Wrath of the Titans (tradução livre: Ira dos Titãs). Um dos principais percalços para Batalha de Los Angeles foram as adaptações dos extraterrestres quando eles deixaram o papel e entraram no computador, pois alguns modelos não ficaram interessantes nos moldes 3D ou pareceram descartáveis quando inseridos no contexto final. “Algumas coisas ficam lindas no computador e perdem totalmente o sentido dentro do filme. Esse tipo de cuidado exige muito do orçamento e do tempo de equipe, mas vale a pena quando você precisa ter um inimigo digno de ser combatido”.

E essas batalhas são importantes, não apenas para fazer jus ao nome do filme, mas para garantir veracidade ao principal cenário desse longa: o front de combate. São diversas situações de confronto, inúmeros cenários urbanos repletos de tensão e, inevitavelmente, explosões e inimigos e, além de tudo, fazem as vezes de condutor para o desenvolvimento do elenco. Os fuzileiros acreditam e reagem à altura, logo, o público acredita. Entretanto, na vanguarda de toda essa fé está Aaron Eckhart. Com rosto de herói ideal – quadrado, obstinado, furo no queixo e tudo mais – e metodologia profissional similar à dos militares, ele, ao mesmo tempo, criou um paralelo de sua vida com Batalha de Los Angeles e resumiu o cerne desse filme. “Se estou indo para o centro da Terra ou liderando soldados contra alienígenas superavançados, vou acreditar em cada uma dessas coisas; se eu não fizer assim, como posso esperar que o público acredite?”, explica o ator à nossa reportagem. Eckhart comanda um elenco jovem, mas claramente empolgado, com grande habilidade e devoção inquestionável. Nenhum de seus close-ups é desnecessário ou inexpressivo, suas emoções não são ensaiadas, pelo contrário, elas se mostram imprescindíveis a cada nova curva ou revés. Seus soldados dependem dele da mesma forma que o espectador precisa de seus sinais para ficar tenso, sentar na pontinha do assento ou respirar aliviado. “Desconheço qualquer outro método de trabalho justo comigo e com o público”.

Justo é um termo aplicável a Batalha de Los Angeles, que foi filmado em locações na Louisiana. “Incentivos fiscais são maravilhosos!”, delira Liebesman. Sem pretensões intelectuais ou mesmo reverberações sociais inspiradoras e grandiosas no mundo proposto por seu roteiro – sobreviver é a coisa mais importante naquele momento – o filme apresenta duas dinâmicas, e as cumpre de forma simples e direta: a realidade dos fuzileiros e uma invasão alienígena de forma bruta e sem frescura. Independence Day teve suas naves pairando pelas cidades; Distrito 9 explorou o espectro social e seus possíveis desdobramentos; Guerra dos Mundos continua seminal com seus Tripods, mas depende de sua construção dramática até o surgimento dos primeiros veículos. A raça em questão levou ao pé da letra, e de forma acelerada, as palavras de César, promovendo um veni, vidi, vici em fastforward, ou seja, cheguei, já tinha visto e estou conquistando. Sem enrolação política, sem viés religioso, e nenhuma grande descoberta científica ou bactéria salvadora. A proposta é militar, assim como seus desdobramentos. Exceto por poucos momentos dedicados ao estabelecimento dos personagens, o filme existe pelo e para o combate. Isto posto, nota-se que a Ficção Científica fica em segundo plano. De fato, porém, ajuda a reforçar alguns conceitos valiosos e manter paralelos em perspectiva. Robert A. Heinlein dissociou os papéis do cidadão militarizado e do civil alienado ao processo político em Tropas Estelares, mas misturou pouco esses dois mundos criando uma visão mais ideal que real por conta da falta de perspectiva e comparação. Batalha de Los Angeles joga esses dois grupos num mesmo barco promovendo uma troca constante de expectativas, comportamentos e decisões arriscadas. Isso sem contar o fato de sua essência ser um gigantesco “e se”, questionamento constante nos quadrinhos, por exemplo. Talvez inspirados pelo modelo de H.G. Wells, muitos dos diretores envolvidos com o tema respiraram bem antes de mergulhar no caos. O maior “e se” de Batalha de Los Angeles não é a invasão em si, mas “e se fosse tão de repente que não desse tempo para fazer absolutamente nada?”.

A única opção é se envolver com os dramas apresentados e torcer pelo final feliz. “Qual o mal em nos sentirmos bem no cinema?”, pergunta Eckhart, dono de interpretações marcantes em O Cavaleiro das Trevas e Obrigado por Fumar. “O cinema tem ficado tão cínico e desiludido que parece crime sequer ponderar a idéia de levantar o astral no final da projeção. Felicidade nunca foi sinônimo de pieguice ou, pior, burrice”. A referência a O Resgate do Soldado Ryan é merecida, mesmo sem esse filme ter o impacto e valor histórico da obra de Spielberg, mas ele oferece uma experiência acima da média tanto entre filmes do gênero quanto produções de ação no começo de 2011. Sem dúvida, é o melhor exemplar desse estilo até agora e utiliza bons truques possíveis com as já famosas câmeras digitais RED – preste atenção na definição das imagens mesmo durante corridas extremamente tremidas, tão interessantes quanto os de Zona Verde. Entretanto, isso não o livra de momentos de repetição pela dinâmica “atire, corra, encontre cobertura, atire, corra encontre cobertura”, um claro ponto negativo para não entusiastas desse gênero. Spielberg não se estendeu por uma boa razão, já Liebesman entrou de corpo e alma.

Como o título diz, essa foi apenas uma batalha de uma grande guerra. Invasões ocorreram ao redor do globo, incluindo duas incursões na costa do Brasil, provavelmente Rio de Janeiro e São Paulo – adeus Praia Grande! – e é inevitável pensar continuações. “Quem sabe?”, desconversa o diretor, mas uma coisa afirma, pelo menos por enquanto: “Nada de 3D, o pessoal ficaria louco com tanto movimento e tantas câmeras, fora a questão do custo”.

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Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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5 comentários sobre “[Batalha de Los Angeles] Lutar e Morrer em LA

  1. Um filme de guerra, que traz uma invasão alienígena como pano de fundo.

    É bom no que se propõe a fazer.
    Traz uma trilha sonora caprichada, várias belíssimas cenas de ação com câmera à lá Jason Bourne, efeitos sonoros absurdamente caprichados (os efeitos visuais também não deixam a desejar) e um roteiro feito nas cochas, o que dá ao filme um vigor fora do comum quando falta a história, mas nos faz sentir mais cansados do que o comum, ao final da corrida.

    Definitivamente esse é um filme para ver no cinema!

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