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Drama com Angelina Jolie foi indicado a três prêmios no Oscar, mas a direção de Clint não foi lembrada para esse que foi um dos melhores filmes de 2008.

A combinação de talentos vista em A Troca (Changeling, 2008, EUA) é peculiar, e memorável. Com roteiro de J. Michael Straczynski (o criador da série Babylon 5), direção de ninguém menos que Clint Eastwood e uma atuação impecável de Angelina Jolie, o filme faz por merecer as indicações a Melhor Atriz, Fotografia e Direção de Arte e não seria surpresa ver Clint entre os diretores, porém, assim como sua formidável atuação em Gran Torino, o astro foi solenemente ignorado pela Academia em ano em que O Curioso Caso de Benjamin Button aponta como franco favorito (se Slumdog ganhar, não vai surpreender, claro).

Há tempos Angelina Jolie não impressionava pelo aspecto dramático, com quem fez as pazes em A Troca. Imbuída de todo o sentimento maternal que esbanja com sua legião de filhos, ela conseguiu entregar grande dignidade à reconstrução de Christine Collins, um ícone da luta pelos direitos civis aqui em Los Angeles. Diferente das militantes de Iron Jawed Angels, com Hilary Swank Frances O’Connor, a personagem de Jolie é uma mãe desesperada na década de 20, numa Los Angeles ainda comandada por policiais corruptos e, em sua maioria, incompetentes. É aquela realidade de Los Angeles – Cidade Proibida, mas sem Russell Crowe para salvar o dia.

O filho de Christine desapareceu e a polícia pouco faz para encontrá-lo. Meses mais tarde, um garoto é encontrado e o comando da polícia acredita ser o pequeno Walter Collins, mas estavam errados. Christine reconhece o engano imediatamente, mas a polícia não pode arcar com o erro e a inevitável crítica da opinião pública. Começava aí um drama maior ainda na vida dessa mulher que, depois de perder o filho, vê um estranho em sua casa. O machismo exacerbado daquela época impedia que uma mulher contestasse as autoridades. Mas ela não ligou para as normas, sendo castigada e hospitalizada como louca.

Se o inferno com a perda do filho era horrível, o que dizer de uma instituição médica especializada em “silenciar” mulheres que se recusavam a aceitar as agressões e humilhações de uma polícia corrupta e incapaz? A Troca é um soco no estômago de quem reclama da vida nos dias de hoje, afinal, mesmo na Los Angeles dos anos 20, ainda existia uma situação de semi-servidão social aberta.

O visual das mulheres da época caiu como uma luva para Angelina Jolie que pode se manter bonita e estilosa, enquanto demonstrava grande capacidade dramática e intensa. O espectador não pensa duas vezes antes de se envolver na trama e, claro, de compartilhar a dor da personagem. Clint fez valer sua experiência e extremo bom gosto ao compor esse longa-metragem, sem exageros e com a tranqüilidade necessária para que a história se desenrolasse.

Toda a incompetência policial, porém, tem uma exceção no papel de Michel Kelly, um investigador especializado em crianças desaparecidas que descobre um caso hediondo e histórico para a Califórnia. É o último elemento que compõe a triste história de Christine Collins. Kelly contribuiu fantasticamente para o filme e, dadas as proporções, de maneira até mais efetiva que John Malkovich, que faz as vezes de reverendo engajado na luta contra a corrupção policial.

A Troca marca por sua história impactante e verídica, grandes atuações e uma direção sempre bem-vinda de Clint Eastwood que, mesmo ignorado pela Academia, merece destaque na produção de 2008. Tudo é verossímil nesse filme e Clint soube aumentar o nível de emoção sem exagerar, coisas que poucos conseguem hoje em dia. É um filme inesquecível e com sua beleza particular. Angelina Jolie briga forte pelo Oscar e mostra quando as mulheres começaram a lutar por igualdade. E em menos de 80 anos, os homens perderam seu monopólio.

Fábio M. Barreto

Fábio M. Barreto

Fábio M. Barreto novelista de ficção, roteirista e diretor de cinema e TV. Atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e da plataforma EscrevaSuaHistoria.net.
Atualmente, vive em Brasília com a família.

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4 Comments

  1. pô, avisa e tive spoiler! =/

  2. ÓTIMO filme! Recomendo!

  3. Pô, era mais que obvio que tinha spoiler né, mas tudo bem, as vezes se não avisam o spoiler, a gente começa a ler e quando vê já terminou.

    Ah, queria tanto que a Jolie ganhasse o oscar por esse filme, queria mesmo, mas acho bem mais provavel a Winslet ganhar ou qual quer coisa assim…

  4. XARÁ, conferirei com toda certeza!
    A direção do DIRTY HARRY, a beleza da ANGELINA JOLIE, o roteiro do J. MICHAEL “RISING STARS” STRACZYNSKI e a tua crítica são suficientes para me convencer!
    Saudações,

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