Escrever ou não escrever diariamente?

Existe muitas regras de escrita por aí. Prefiro chamar de conselho, mas, efetivamente, é a mesma coisa: uma recomendação. “Não use advérbios”, “anote tudo”, “escreva sobre o que você sabe”, “leia sem parar” e, claro, a maior, e mais polêmica de todas, escreva todos os dias. Na primeira aula do curso Escreva sua História, falei sobre ela e incentivei os alunos a seguirem esse conselho. Por duas razões: 1) escrever todos os dias cria uma rotina e incentiva a prática, coisa que muito iniciante precisa com urgência; 2) como lembrete de que a vida de escritor envolve muito trabalho, então, se a pessoa quer fazer isso profissionalmente, é bom compreender o volume de trabalho envolvido.

Aí vem a pergunta: é obrigatório escrever todos os dias para ser um escritor? Não. Essa recomendação normalmente vem de escritores profissionais, que publicam mais de um livro por ano, fora contos e organizações de antologias que fazem, logo, para esses caras, escrever diariamente é sim obrigatório. Afinal, se não escrever, não recebe e sem um emprego fixo, não há muita alternativa. Claro, quando o sujeito faz sucesso, os cheques de direitos autorais pingam com certa frequência, mas, mesmo assim, é o trabalho do cara, logo, ele escreve. Por conta do jornalismo, dos roteiros e traduções, estou nesse mesmo barco e essa prática faz a diferença. Inevitavelmente, escrevo todos os dias. Isso quer dizer que mexo nos meus trabalhos literários diariamente? Não. Mas estou exercitando as ferramentas fundamentais para escrevê-los:

1) Mente

Não paro de pensar no que vou escrever e isso, de certo modo, integra o ato de escrever. É mais fácil sentar e colocar no papel aquilo que você já imaginou, resolveu os problemas, recitou para você mesmo tantas vezes. O texto sai rápido e aí acelera o processo de revisão, que, em muitos casos, se transforma numa adequação rápida.

2) Dedos

Com isso, a velocidade de digitação aumenta. Fiz datilografia e isso ajuda muito, os anos em redações de jornais e revistas também, mas é a prática que me mantém digitando cerca de 69 palavras por minuto. É bastante e faz a diferença conforme o deadline se aproxima ou quando há projetos paralelos em andamento. Nos três romances que escrevi, senti o aumento claro na produção conforme o miolo se aproximava e tudo já estava meio encaminhado, pois, no fim das contas, é só continuar contando a história da forma que acho melhor – ou até onde estou preparado – naquele momento.

3) Idioma

Conheço muita gente que estudou inglês, computação, datilografia, atuação, gerência de restaurantes e por aí vai… e nunca exercitou. Resultado: ou esqueceu tudo ou demora muito para reencontrar o ritmo, seja lá qual for a área. A gramática e o estilo são o equivalente disso na vida de quem escreve. Quanto mais se escreve – corretamente, devo enfatizar – mais se aprende as regras, onde podem ser quebradas, quais são suas falhas e pontos fracos e, por conta da prática, para sempre acertar, você acaba estudando no meio do caminho e isso afia sua habilidade. É simples assim. É como se continuássemos a estudar, mas, nesse caso, com um objetivo bastante definido: escrever melhor. E, acredite, sempre dá para melhorar. É por essa razão que eu quase não releio o que escrevi depois de publicado. Vou achar coisas estranhas, vou achar que podia ter feito melhor, vou ficar p. da por não ter sido mais criativo aqui e ali. Mas textos são assim e, eventualmente, precisam ir pra vida. Não dá para segurar para sempre. Bem, não se você quiser ser publicado. Conheci um cara uma vez que escrevia demais, mas queria “ser descoberto depois que tivesse morrido”. Vai entender.

Para algumas pessoas, a meta diária funciona muito bem. Tem gente que gosta da pressão, da organização máxima, de ver o progresso diário. Faz bem para esse pessoal ver as páginas aumentando constantemente. Não sou tão fixado nas metas, mas entendo a sensação. Gosto disso. Agora, por outro lado, tem gente que escreve um bocado em um ou dois dias e fica semanas sem encostar no material, vai viver a vida, deixa rolar. Funciona também, claro. É um progresso diferente. Se você escreve rápido, não trava na hora de começar a digitar e tem prática, talvez consiga fechar um romance em cerca de 5 ou 6 meses. Isso é ruim? Dependendo do objetivo, não. Alias, um dos problemas de se escrever diariamente é o esgotamento. Quando ainda não existe a prática de pensar, estipular e solucionar o problema em questão, pode ser um pouco problemático se propor a fazer isso tantas vezes seguidas e por obrigação. E nesse ponto concordo com os críticos à regra: escrever por obrigação precisa ser uma consequência de um hábito que o escritor constrói aos poucos. Escrever por escrever, bem, não é a melhor das coisas, pois um texto sem alma não agrada ninguém.

O que soa bizarro é transformar essas duas situações em desculpa para esperar a inspiração chegar. Isso nunca funciona bem. Phillip Pullman e Stephen King batem forte nisso quando dizem que “os outros esperam a inspiração, escritores sentam e escrevem”. E escritor, nesse caso, vai além do romancista e do contista. É quem escreve, quem vive disso ou precisa de uma dose de redação todos os dias. Esses caras acabam sendo os mais produtivos – em princípio, em quantidade – e vai dar mais saltos qualitativos se tiverem a dose certa de autocrítica. Sejamos sinceros, de que adianta escrever um monte se, no meio disso tudo, você não se preocupou a aprender estrutura, a ser criativo com suas construções e, acima de tudo, de encontrar a própria voz? Ou seja, basicamente, se bateu 300 páginas sem aprender nada novo? Cada texto precisa ensinar algo novo ao autor. Ponto. Ursula K LeGuin manda uma ótima a esse respeito quando ela detona o “escreva sobre o que você sabe”, pois, para ela, cada texto ensinou demais pelo fato de ela ter precisado aprender sobre os assuntos, descobrir seus temas, para criar clássicos. Ela está coberta de razão.

No fim das contas, escrever todos os dias é como ir para a “Faculdade de Escritores”. Você vai para a aula, encontra o problema – se tiver tempo, assiste uma palestra ou lê material didático sobre o assunto – soluciona o problema e avança para a próxima página. A diferença é que esse curso é feito em casa, o pagamento é a sua dedicação e o resultado não vem numa nota, mas sim na sensação de realização e, eventualmente, na publicação. Claro, às vezes, você não está afim de aparecer na sala, vai pegar um cinema ou ler um livro, e viver a vida… veja só, tudo isso faz parte do curso. O importante é saber canalizar tudo isso na hora de escrever.

Logo, não gosto de ir contra essa recomendação, pois ela tem muita utilidade e traz bons frutos. Pode até ser um caso de faça o que eu digo, não faça o que eu faço, mas, assim como você, estou ouvindo o que caras que eu admiro dizem e fazem. Nesse processo todo, encontro meu jeito de fazer as coisas. O máximo que consegui no esquema das 10.000 palavras por dia do King foram 7 dias em sequência. Aí a vida entrou no meio da jogada e quebrei o ritmo. Hoje em dia, acabo trabalhando na história por uns dois ou três dias sem bater uma linha, talvez anotando no caderninho ou apenas conversando com a minha esposa ou amigos. Quando a história ganha forma, sento e castigo o teclado. Meu último texto foi assim. Duas semanas de elucubração e 5 dias de redação, ah, em inglês. Resultado: 9.700 palavras e uma história que me deixou orgulhoso. A produtividade foi mais baixa pois fiquei aterrorizado com fato de escrever literatura em inglês pela primeira vez. Roteiros são diferentes. Mais simples. Dessa vez, senti o baque. Mas, uma vez iniciado o processo, fui até o fim. Que é o que importa.

Escreva, mesmo que seja só com a mente, mas não deixe de escrever. Você é um escritor por se portar como escritor, por concluir textos, por trabalhar com ideias, por transformar a vida dos outros. 😉

Quer saber mais sobre técnicas de escrita ou ouvir um podcast novinho feito por escritores e para escritores?
Inscreva-se no “Escreva Sua Historia” e escute o “Gente que Escreve“.

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

    Saiba mais sobre mim:
  • facebook
  • googleplus
  • linkedin
  • twitter
  • youtube

13 comentários sobre “Escrever ou não escrever diariamente?

  1. Muito bom, e eu me considero “escrevendo” enquanto durmo, pois quando fico o dia todo com a ideia na cabeça, e a desenrolar a história, meu cerebro agarra isso com furia kkkk e transmite tudo em meus sonhos, um de meus contos que ainda prefiro manter no fundo da gaveta para revisar depois surgiu assim…. Depois de uma noite muito bem dormida.

    1. Dormir não conta, Fran! =D Afinal, você não controla o processo. Ele ajuda, mas os sonhos são lugares perigosos para ideias. Elas costumam ganhar asas muito loucas ali dentro. 🙂 Dormir faz bem e ajuda, mas é preciso ter o mínimo de controle, e registro, do processo para que ele seja “escrever”. :p

  2. Fábio, excelente post sobre várias das dicas que ajudam bastante alguém interessado a iniciar neste mundo – como eu estou nos últimos tempos. Estou tentando botar em prática esta dica da escrita diária, mas ainda encontrando uma certa dificuldade. Percebo o quanto é difícil tirar algo da cabeça e estruturar uma ideia no papel ou mesmo no computador, mas acredito que, como em outros ramos, a prática leve ao amadurecimento.
    Agradeço muito por todos os materiais que você disponibiliza visando auxiliar os que desejam ingressar neste mundo, seja como profissional ou como amador.

  3. Obrigado Fábio por essa grande iniciativa, se um dia for escritor vou te agradecer muito! O grande problema para começar a escrever é a vasta e ilimitada quantidade de coisas/ideias que vc pode escrever numa história. Digamos que quero escrever a história de uma mosca em Marte. Ela pode estar sozinha, com família, com amigos, pode ter até zumbi, ET’s… pode-se ter tanta coisa numa ideia que é aparentemente tão simples que eu me perco e nem sei pra onde ir. Entendeu esse drama? Nunca sei qual o melhor caminho. E se minha escolha é a melhor.
    É bem complexo.

  4. “Escrever diariamente” é um dos meus objetivos atuais no que se refere a melhorar a escrita… Embora esteja tendo dificuldade em aplicar, tentando encontrar um bom formato que se adeque as minhas condições de uso do tempo disponível (quero tornar o tempo para escrever regular e não “escrever no tempo livre”)… Estipular uma ou duas horas diárias ou uma quantidade de palavras por dia, etc. Está difícil aplicar, mas eu chego lá.

  5. Essa com certeza foi uma das dicas mais importantes para o meu processo de formação como escritora, antes eu apenas escrevia quando tinha vontade e isso me atrapalhou muito, perdi muito tempo e claro, algumas ideias.
    Quanto a essa questão de não parar a mente, tenho exercitado muito ultimamente e funciona bem! hahaha
    Parabéns pelo texto.

  6. Ao terminar de ler esse artigo é difícil não ficar animado e partilhar a rotina de escrita. Porém, antes devo agradecer ao Fábio pelos novos ensinamentos aonde destaco a seguinte frase que me fez abrir um largo sorriso “Você é um escritor por se portar como escritor”. Li isto é já comecei a retomar o meu dia-dia: Filmes, Livros, Quadrinhos, Séries, Internet, Uma caminhada, Games e tudo mais. Enxergo essas diversas opções de entretenimento como escritor? Vejo estrutura e até mesmo literatura em todas elas? Na maioria das vezes sim.

    Tento escrever todos os dias, mas há dias em que simplesmente não dá para se dedicar no romance. Não sei qual a justificativa para isso e já desisti de encontra-la. Sendo assim, comecei a pensar em algumas alternativas: Fazer uma resenha sobre algo que li ou até mesmo caprichar em algum comentário em um post interessante na internet (exatamente o que estou fazendo agora). De início a auto cobrança via como uma martelada “Você não está se dedicando ao seu romance, logo vai perder o seu tom, sua voz e seu ritmo”. Essa punição se perdeu com o tempo a partir do momento em que o mundo ao meu redor me fornecia ideias. Como o Fábio bem disse “Trabalhar/Pensar sua história”. Nesse processo a felicidade era completa quando surgia uma frase para dar inicio a um diálogo ou uma imagem que poderia se transformar em uma cena.

    Aproveitando a oportunidade, gostaria de fazer uma pergunta para um monte de pessoas. Para o autor do artigo e para todos os companheiros escritores. Vocês têm o costume ou experimentaram a escrita à mão?

    1. Wesley, sou escritor iniciante e escrevo à mão a primeira versão do texto (o rascunho). Daí o transcrevo para o editor de textos, momento no qual faço a edição – “corto” uns trechos, acrescento outros, verifico a pontuação, etc.

      E você, escreve a mão ou digita seu texto logo no início?

  7. Fábio,
    seus textos, seus ensinamentos, sua inspiração realmente fazem a diferença na vida dos entusiastas pela escrita e futuros criativos das palavras.
    Tudo se torna possivel…. viável em meio de tanto obstaculo.
    Obrigada por expor sua imensa experiencia em prol de nos ajudar a desenvolver nossas habilidades e corrigir erros infantis ou mesmo ignorados.

    O futuro aí está….. quem sabe nao surgirão palavras nossas que farão seus olhos brilhar de orgulho e satisfação….

  8. Escrever todo dia é uma ótima dica e teoricamente fácil de por em prática, afinal, depende apenas de nossa determinação. Mas, digo, teoricamente, pela minha própria incapacidade de dar continuidade e/ou terminar um projeto, acredite ideias não me faltam, tempo pode ser negociado ou roubado de algum lugar, mas, a nuvem negra de fracasso que ronda a minha cabeça sempre que começo a digitar é sem sombras de dúvidas a pior coisa que pode acontecer.

  9. Fábio, obrigado pelo texto.

    Minha maior dificuldade para escrever todos os dias é conciliar meu trabalho atual (do qual também gosto e paga as contas), o acesso a textos/vídeos/podcasts sobre técnicas para escrever, a leitura de outros livros literários (também útil para o processo criativo) e o ato de escrever em si.

    Por essa razão não consigo escrever diariamente. Em geral, leio outros textos (e fatos cotidianos) de segunda a quinta e escrevo às sextas, sábados e domingos. Isso é um problema? Se sim, o que sugere para quebrar essa rotina?

    Obrigado desde já.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *