Escreva Melhor / Crédito: Melina Souza

[CRIE] Escrever com Emoção

Quando trabalhamos com escrita narrativa, sempre existe algum tipo de emoção. Os níveis e a intensidade variam de acordo com a história, mas ela existe. Os leitores esperam por isso, é a razão de lerem: para sentir algo diferente (ou mais divertido que a monotonia do dia a dia), para vivenciar outra experiência, outra perspectiva, etc. Aliás, se você escreveu algo do tipo e não entendeu porque ninguém reagiu bem ao texto, agora você sabe! Escrever com emoção é fundamental.

Mas, como tudo na escrita, usar a emoção tem suas vantagens e perigos.

A vantagem é fácil. Com a emoção usada adequadamente, o leitor cai de amores pelo seu texto e você vai ficar famoso, rico, aquilo tudo. Sério. É como o David Mamet diz sobre o jiu-jitsu, “há cinco movimentos básicos, se você executar cada um deles com perfeição, você é imbatível”. Carga emotiva é um dos movimentos básicos da escrita. Por ser tão básico, e necessário, a gente acaba não dedicando muito tempo à prática da ferramenta e cada um usa “como acha” que deve. E isso faz sentido, afinal, a emoção do autor serve de inspiração direta ou filtro e/ou condutor para fontes externas.

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Aí mora o problema. Ninguém sabe, exatamente, como a pessoa do outro lado da página vai reagir a uma determinada combinação entre tipo, nível e intensidade emotiva. Qualquer um pode ler o livro ou texto na internet, qualquer um pode ser exposto às suas ideias, e se tentar antecipar as reações do público imediato de um texto já é difícil, imagina daquele leitor eventual ou acidental?

A solução ideal pode estar no parágrafo anterior: escrever para um público específico.
Muitos autores fazem isso e escrevem para uma pessoa, por exemplo. Isso ajuda a manter o foco, a definir a linguagem e, no caso da emoção, simular reações daquela pessoa. Por exemplo, se resolvo escrever algo emotivo para afetar a minha mãe, não adianta falar de modo muito amplo como uma causa (fome em áreas de conflito ou refugiados, etc), preciso dar algo próximo ao mundo dela. Então, seria preciso usar alguma referência próxima, algo ligado aos amigos dela na igreja, de preferência envolvendo abandono ou morte precoce. Ela responderia a um texto assim, pois é o que funcionaria para ela.

Porém, é hora de falarmos dos riscos. Aí pergunto: e quem não reage como a minha mãe, como fica? Não dá para saber. Mas podemos estipular os resultados mais típicos do “erro” no uso da emoção.

1) Nicho demais

Resolvi escrever este texto pois, semana passada, passei no Skoob para minha dose mensal de flagelação voluntária (também conhecida como “vou lá ler as resenhas de ‘Filhos do Fim do Mundo’ por livre e espontânea vontade de sofrer) e tinha alguém ofendendo uma das passagens do livro. [Aqui cabe um parágrafo: não considero ataques gratuitos baseados em “ah, tal coisa é boba e feia” nem como opinião, muito menos resenhas. O Skoob é uma espécie de muro das lamentações, um lugar onde algumas pessoas vão para extravasar as frustrações, pois não há outra explicação para tanta raiva concentrada].

Porém, como tento ser um Pokémon evoluído quando possível, tiro algumas lições oriundas do ódio alheio. A pessoa encasquetou com a emoção da história – acontece direto, alias – e com a cena da Filha do Governador, onde ela diz ter interrompido a leitura. [Outro adendo: sou igualmente suspeito com mensagens de endeusamento; sou extremamente crítico ao meu livro, sei dos problemas dele, do meu momento quando o escrevi, e que digo para quem quiser ouvir: poderia ser muuuito melhor, não me orgulho tanto assim do texto, gosto do argumento, mas não teve boa edição e eu errei na escolha de editora, paciência.]

Pois bem, a Filha do Governador. Na cena, uma garotinha perde algo insubstituível para ela (pronto, sem spoilers) e foi uma cena feita de caso pensado. Ela tinha um objetivo: incitar a reação de angústia tanto no leitor quanto no Governador, o personagem-chave daquele capítulo. Ele precisava sentir de verdade a perda das outras pessoas. Eu poderia ter matado a Filha, causado um acidente para matar a Primeira Dama, mas optei por encontrar algo compartilhado por toda a família.

Para a semi-leitora (ela não terminou, então perde o título de leitura) enraivecida, isso foi exagerado, clichê e forçado demais. Dentro da linha de raciocínio deste texto, não duvido do julgamento dela. Na cabeça dela, as minhas escolhas constituíram algo visto como óbvio ou forçado por conta da referência dela. Na minha, não parecia ser assim. Porém, eu escrevi pensando em algo muito específico, num nicho de pessoas que se importa com aquele tipo de relação. Com esse público, acertei em cheio. Com outros, nem tanto.

Então, esse é o problema ao se focar demais no público-alvo. Você acerta nele, mas pode incomodar audiências mais distintas ou que vivem em outras realidades. Ah, neste caso, o problema foi conceitual. A ideia desagradou. Às vezes, o problema é o texto em si.

2) Texto enfeitado (purple prose)

Alguns escritores iniciantes sofrem com ideias erradas reforçadas ao longo dos anos, seja por professores sem muito interesse, seja por filmes ou mesmo por preconceitos sociais em relação a escrever. Ou seja, a gente tem mania de achar que escritor “escreve bonito e cheio das palavras legais” e isso ferra muita gente. Um dos problemas é o excesso de floreios e enfeites no texto emotivo.

Um exemplo para facilitar: “Romilda mal conseguia respirar depois da ligação do hospital. Era como se toneladas de concreto pesassem sobre seu peito, a ação de uma mão amaldiçoada e invisível vinda dos deuses irados, numa sala onde até o ar parecia pesado e opressivo. As paredes perderam a cor. O sol depressivo estava pálido. O ar tirou férias. Ela sentia o peso e o desespero ao saber do acidente da filha”.

Neste exemplo, parece que o autor tenta chamar atenção para tudo, amplia todas as ideias por algum tipo de obrigação pessoal. O sintoma mais claro é o excesso de advérbios e modificadores no texto, além de frases longas demais.

Em contraponto ao exemplo, que tal: “Romilda desligou o telefone e não tirou a mão do aparelho. Um raio de sol iluminava a pele enrugada, mas menos sofrida que o rosto assustado. Observou as partículas flutuando enquanto a mente conturbada procurava alguma alternativa. A fantasia ganhou e ela permaneceu imóvel. Enquanto o sol a iluminasse, Mariana teria uma chance de sobreviver aos ferimentos causados pelo acidente”.

Note que o texto ficou maior, porém, a troca de figuras pouco naturais por ações e o foco em apenas uma emoção deu mais força ao texto. E isso serve de gancho para o próximo problema.

3) Transições rápidas

Em vários casos, autores exageram nos eventos, ações e emoções de um determinado parágrafo. Você já deve ter lido algo assim: “O nariz de Marcelo coçou enquanto ele piscava para Cintia, sem tirar as mãos do bolso, e virando a cabeça para olhar o carro que se aproximava atrás dela sem boas intenções”.

Calma, lá! Quantas coisas aconteceram aí? O que é importante na frase? O que está acontecendo? Por que estou lendo tudo isso? É um exagero, e olha que o exemplo é simples. Já vi textos nos quais o personagem fazia 4 movimentos impossíveis e simultâneos (“abriu a porta piscando para a namorada, pensando na saudade da mãe, e segurando a sandália que ficou presa no assoalho”) e precisei ler várias vezes até desempacotar a coisa toda.

Isto é resultado de textos tentando ditar o ritmo e comandar a ação. O ideal é nobre e incentivado, mas a execução peca e tudo fica bagunçado. A solução é um tanto simplória, mas efetiva: encontre uma, ou duas, ações capazes de representar o momento e controle o ritmo destes dois itens. Assim, o texto ganha em movimento sem correr o risco de perder a atenção do leitor.

Contraponto: “Marcelo piscou na direção de Cintia. Ela ficou sem jeito com o gracejo, e sorriu. O motorista do carro viu o sinal e acelerou. Marcelo deu um passo para o lado, Cintia não”.

4) Mão Pesada

Se uma personagem está passando por um momento traumático, sentimental e aterrorizante, muitos autores têm a tendência de descrever cada uma destas emoções com profundidade e diversas vezes, só para martelar na cabeça do leitor aquilo que ele deve sentir. Em tese, cenas assim devem ser construídas de modo a permitir que a sequência de acontecimentos construa as emoções, não a presença manifesta do autor. Em outras palavras, quando a gente decide explicar uma emoção, significa trabalho mal feito na construção daquele momento.

Exemplo: digamos que Lúcia vê a filhinha de 1 ano imóvel no berço e precisa correr para o hospital com ela. Quando a mão pesada se manifesta, o autor opta por descrever a sensação de angústia, a insegurança, o desespero, como ela encontrou a filha e, num erro clássico, pode até mudar de ponto de vista dentro da cena para expor a “visão” da garota.

O resultado pode soar dessa maneira, “Lúcia gritava no quarto cercado por brinquedos que nunca seriam tocados caso Júlia estivesse morta. A garotinha não se movia. Não respirava. O corpinho clamava por ajuda como um mergulhador luta pelos últimos segundos de oxigênio no tanque vazio. Lúcia continuava gritando, finalmente arriscando encostar na filha e sentindo a dor da perda iminente e da tragédia sem razão. O coração dela se destruía a cada segundo, formando um quebra-cabeças que nunca mais seria montado, pois a peça principal faltava. Júlia parecia estar morta, um golpe fatal para qualquer mãe”.

É como se o texto enfiasse a faca no coração do leitor e ficasse revirando a lâmina para forçar uma conexão, tal qual os repórteres da Globo ralando para arrancar lágrimas de entrevistados em situações trágicas. Agora, não se engane, isso vai funcionar maravilhosamente com um tipo de público, mas o resto vai renegar.

Porém, se eu me esforçar para tirar a mão pesada da cena, será que dá para melhorar? Sempre dá. A primeira coisa é identificar o foco, pensar um pouco mais na personagem, e encontrar uma forma de causar emoção sem ficar martelando com toda a força do mundo. Que tal isso aqui?

“Os punhos pálidos de Lúcia apertavam o volante de couro enquanto o sedã batia, ralava e abria espaços inexistentes pela avenida. Lúcia não sabia dirigir. Ela ignorou carros, sinalização e os poucos pedestres festejando à meia-noite enquanto dirigia até caminho do hospital. Lúcia nem percebeu quando destruiu um Papai Noel de plástico, e o gramado onde ele costumava ficar. Seus olhos, e alma, só se preocupavam com uma coisa: o espelho retrovisor. Nele, ela via uma garotinha pálida, imóvel e sem respirar. A única filha. “Você vai ficar bem, meu amor. Você vai ficar bem”, repetia sem parar, e sem a menor convicção.”

No contraponto, sabemos muito mais sobre a identidade de Lúcia, sobre o ambiente onde ela está e TAMBÉM sobre como ela está encarando a situação com a filha. Como bônus, ainda retirei a entrega do que aconteceu com a menina (incluindo uma camada de mistério e o gancho para o parágrafo seguinte). O foco aqui é o estado mental da mãe, os riscos que ela corre, quais os limites dela, ou seja, demonstrei o desespero sem precisar ficar batendo na mesma tecla. Importante ressaltar: as personagens, a cena, as razões e demandas de ambas cenas são idênticas, a única diferença é a escolha. A primeira é pesada, quase agressiva e grita “chora, infeliz!”; a segunda é direcionada e ritmada, além de fluir melhor e o leitor “sente o momento”.

Embora não exista certo e errado em termos de estilo de escrita, ninguém pode fugir da diferença entre efetivo e artificial. Ao pensar nestes quatro pontos, você tem boas chances de se aproximar de um texto muito mais efetivo e muito menos artificial.

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Obrigado e continue a escrever!

Crédito da foto: Melina Souza/Serendipity.

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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