Gente Que Escreve 015 – Contos e Ficção Curta

Bem-vindos escritores, amantes da literatura e do entretenimento!

Escrever Ficção Curta, ou, como quase todo mundo chama, Contos, é normalmente o primeiro passo na vida de qualquer escritor. Sejam fan-fics ou universos próprios, falamos sobre as funções, os meios de usar esse formato aparentemente desvalorizado e os benefícios dos contos para a carreira literária no Brasil.

E, aproveitando, celebramos o lançamento do primeiro conto do Rob Gordon na Amazon Brasil: “O Dia em que a Inspiração Apareceu“. Confira! =D

Gostou do podcast? Faça uma avaliação lá na iTunes Store e recomende para os amigos! Ainda temos muito a crescer e tudo depende de você! =D

APRESENTAÇÃO

Fábio M. Barreto & Rob Gordon

EDIÇÃO

Fernando Barone

MÚSICA TEMA

Daniel Bellieny

LOGOTIPOS

André Zuil

LINKS RECOMENDADOS

Mario Cau – Ilustrador 
O Dia Em Que a Inspiração Apareceu
– Conto de estreia do Rob na Amazon
Amazon – e-books do Barreto
Championship Vinyl – Blog do Rob Gordon.
Championship Chronicles – Blog de Crônicas do Rob Gordon.
Filhos do Fim do Mundo – romance premiado do Barreto.
Escreva Sua Históriacurso de literatura contínuo, e gratuito, do Barreto
CONTE – Curso Online de Técnicas para Escritores

FEED DO iTUNES

https://itunes.apple.com/us/podcast/gente-que-escreve/id1042737562

FEED PARA OUTRAS PLATAFORMAS

http://feeds.feedburner.com/GenteQueEscreve

SIGA/CURTA AS NOSSAS REDES SOCIAIS

http://www.twitter.com/gentequeescreve
http://www.facebook.com/gentequeescreve http://instagram.com/soshollywood
https://instagram.com/robgordon_sp
https://www.facebook.com/soshollywood
https://www.facebook.com/robgordonsp
http://twitter.com/soshollywood
http://twitter.com/robgordon_sp

SUGESTÕES, CR͍TICAS E DÚVIDAS

Envie e-mails com “Gente Que Escreve” na linha de Assunto para: fmbescritor@gmail.com

Sobre 

Fábio M. Barreto é escritor e roteirista. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atua como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

    Saiba mais sobre mim:
  • facebook
  • googleplus
  • linkedin
  • twitter
  • youtube

25 comentários sobre “Gente Que Escreve 015 – Contos e Ficção Curta

  1. Fui categoricamente ignorado pelos Srs. Barreto e Gordon. Como assim ninguém fez o texto da semana passada? Eu fiz, acho que gravaram antes de eu postar, algo do tipo, estão desculpados de qualquer forma.

    Ótimo cast, é ótimo ouvir sobre o mercado por quem está dentro dele, muito instrutivo!

  2. Olá novamente Rob e Fábio. mais uma vez o cast foi ótimo. Vocês têm sido muito importantes pra mim e, acho, pra gente que quer escrever.
    Segue o exercício da semana, espero que tenha ficado legal. Abraços!
    ——-
    “- Você tem que viver a Virada. A virada é a coisa mais importante da sua vida. A Virada vai virar você pra ver o futuro, pra viver o futuro, pra ser o futuro.”
    O tom da narração nos fones do aparelho ia subindo à medida que evoluía, terminando a sentença com um tom quase épico.
    Se não fosse a música com letra de autoajuda ao ritmo de sertanejo universitário logo a seguir, talvez a intenção do narrador fosse alcançada.
    Dentro de um drone chinês com mais de oitenta anos, Fátima seguia concentrada no que ouvia. Começou a cantarolar a música baixinho, mas acabou aumentando a voz, devido à emoção.
    Uma amiga a havia apresentado à Virada e desde então, sua dedicação só cresceu.
    A Virada era uma companhia de marketing comunitário, nada parecido com os marketings de rede que graçaram no século XX e início do XVI.
    Era uma empresa preocupada com o bem estar de seus associados, bem como de suas famílias e da comunidade em que estavam inseridos. Pelo menos isso que Fátima respondia toda vez que perguntavam.
    Após ouvir as fitas cassete fornecidas pela Virada – no aparelho fornecido a preços módicos pela mesma – a mulher encantou-se com as revelações.
    Num rompante de Viradismo, tomou o tal drone para evangelizar – ou Viradizar – uma cidade onde não houvessem divulgadores – Viradores.
    As pessoas ao redor olhavam torto para Fátima. Na pequena cidade de São Paulo ninguém apreciava aquele tipo de música.
    Desde o Grande Levante há cem anos, ninguém ousava compartilhar tal gosto. As memórias ainda estavam frescas, mesmo tanto tempo depois.
    Muito disso se devia à reprodução obrigatória de flashes das passeatas na intro de qualquer vídeo do YouTube.
    Sempre que se apertava o play, podia-se ver trechos de entrevistas dos manifestantes dizendo “Nós queremos o fim de tudo isso”, “Somos contra tudo isso que tá aí”, “Chega de onomatopeias mas letras”.
    Dizem que foram essas manifestações que regrediram São Paulo ao nível em que estava.
    Após perceber os olhares, Fátima não se intimidou, pensando consigo que agora seria a sua virada.
    Iniciou um discurso inflamado buscando novos seguidores, na verdade os primeiros da sua rede, ou sua Comunidade da Virada.
    A Viradista iniciou a preleção, os demais passageiros iniciaram a expulsão da agitadora e, a pobre mulher iniciou uma queda livre que não parecia ter qualquer possibilidade de terminar bem.
    A inevitabilidade do destino imediato fez com que Fátima desapegasse de toda a esperança e foi aí que veio o milagre.
    Durante a queda, viu a seu lado algo parecido com uma tampa de lata de lixo de metal.
    A tampa caía de um jeito estranho, como se estivesse parada na horizontal sobre um apoio sólido, imperturbável e parecia crescer.
    O espanto de Fátima tomou proporções épicas quando percebeu que a tampa não crescia, mas se aproximava e, ao mesmo tempo, se abria.
    O raio trator puxou-a para dentro enquanto vencia a gravidade e rumava para o espaço sideral.
    Fátima não podia crer que estivesse dentro de um disco voador. Aquela seria a maior virada de sua vida.
    Poderia ter uma Comunidade da Virada intergaláctica, não numa cidadezinha decadente.
    – Bem-vinda à bordo.
    As vozes nos alto-falantes eram, contra toda expectativa racional, inteligíveis. Os aliens falavam português.
    A sorte definitivamente estava do lado de Fátima.
    Os tripulantes falavam em uma só voz, como uma verdadeira comunidade. Isso foi o que impactou Fátima, já que ela sequer percebeu que estava em uma espécie de compartimento de carga.
    Tomada pela excitação do momento, iniciou sua preleção sem esperar um segundo.
    Os alto-falantes pareciam indiferentes à eloquência do discurso.
    Foi nesse momento que Fátima lembrou que a proibição do sertanejo universitário se deu justamente, porque a, até então considerada, música ficava marcada indelevelmente na memória.
    Pegou seu ViradaMan da bolsa, desplugou os fones de ouvido e tocou a música que passaria a mensagem e convenceria a plateia extra-terrestre.
    No momento em que o som tomou o ambiente, uma porta se abriu sob os pés da mulher. O vácuo espacial sugou-a para fora da nave em forma de tampa de lixo.
    Assim que saiu da nave, Fátima se deu conta de que não sabia o que a Virada vendia.
    A morte dela foi rápida.
    Foi bombardeada por raios cuja existência desconhecia, asfixiou-se e depois incinerada na reentrada na terra.
    O ViradaMan foi junto e, com ele, o sertanejo universitário que ainda tocava, embora inaudível no vácuo.
    Diz-se que na invasão alienígena que ocorreu poucos anos depois, podia-se ouvir os extraterrestres cantarolando o estilo musical abolido, enquanto seguravam as próprias cabeças.
    Muitos morreram durante os rompantes de ódio inconformismo galáctico que seguiam.
    A história narra que a humanidade só sobreviveu porque a maioria dos invasores se suicidava, clamando o fim das onomatopeias.
    A partir de então a raça humana criou, e passou a utilizar, o seu Gerador Onomatopéico Sertanejo Universitário para fins bélicos.
    Tudo graças a uma mulher que ousou escutar o inescutável e praticar o impraticável.
    “Vira plaf, vira plaf, vira plaf / Vira pluf, vira pluf, vira pluf
    Com dois pluf e um plaf / Faz pluf pluf plaf
    Sua vida vai Virar num plaf pluf”

  3. Boa tarde pessoal. Só consegui escutar o programa hoje de manhã e escrevi o conto para o desafio no intervalo do almoço. Estou começando a escrever. Tenho muitas historias lutando furiosamente para saírem da minha mente. Essa é minha terceira tentativa de escrever algo e espero que gostem. Aguardo ansioso por criticas. Qualquer tipo delas. Obrigado.

    PEQUENO PRÓLOGO DE UM JOVEM ARTISTA
    por Carlos R.J.

    O jovem aspirante a escritor joga enfurecido e frustrado seu copo de plástico vazio na parede no canto do quarto
    – Droga! – Esbraveja enquanto pensa em uma nova história. – Nunca vou conseguir escrever esse conto. Mulher solteira pregadora de um futuro meio distante, espaço sideral e tampa de lata de lixo. Seria mais fácil escrever sobre um grampeador albino com problemas de autoestima e dupla personalidade do que isso. Ele pensa irritado
    Levanta, pensativo e desanimado, a procura do copo que acabara de lançar em algum lugar da bagunçada quitinete quando uma claridade terrível invade os trinta metros quadrados que ele chama de lar. A primeira coisa que ele pensa é em algum farol de carro, mas em seguida se lembra de que está no 13° andar. Nos poucos segundos enquanto se vira para olhar pela janela atrás de si sente o chão tremer e então a claridade aumenta no mesmo instante que sua janela explode inundando seu quarto de fogo, vidro e fumaça. Ele vê uma tampa de metal de alguma lata de lixo voar em direção aos seus olhos. A surpresa e pavor são tantos que ele nem percebe quando ela voa sobre ele jogando-o para o lado. O jovem aspirante a escritor, agora no chão, enxerga em seu piso o reflexo das chamas enquanto luta para retomar o controle de sua mente desorientada que agora está totalmente travada. Ele enxerga uma bota e cano longo, do tipo que já viu a polícia de choque usando, porem essas são de uma mistura de couro e metal, quase tem certeza de ver alguns circuitos e então é sacudido antes de poder terminar essa análise. Vê uma mulher, não mais velha que ele, certamente, porem com aspecto muito mais imponente e perigoso do que ele jamais teria.
    – Levante! O que você ainda está fazendo aí deitado? Rápido, eles estão vindo. Levanta garoto!
    O jovem levanta rápido, confuso, vê seu pequeno e nada aconchegante lar destruído, as chamas queimam tudo o que encontram instigadas pelo vento que entra no canto onde antes ficava sua cama e uma janela, e onde agora, enxerga a rua através do grande buraco que se abriu com a explosão.
    A jovem estranha para na beira do buraco em sua parede, parece estar analisando uma possível rota de fuga, mas desiste rapidamente se virando para o jovem aspirante a escritor.
    – Como saímos daqui? Rápido! Pergunta a garota.
    – Pela cobertura. Responde sem nem ao menos pensar a respeito. Por que eu disse isso pensa. Nunca nem fui na cobertura. Mas a garota já está se pondo a caminho e ele acha melhor segui-la de qualquer maneira. Tem a sensação que se não ficar junto a ela será morto sem sombra de dúvidas.
    – Para que lado? Ela pergunta apressada. – Vamos, acorde. Eu preciso de você. Para que lado?
    – Por aqui, a direita. Ele responde e então se coloca a caminho da escada que leva ao terraço. – São apenas dois andares. Eles sobem as escadas depressa. Primeiro lance. Segundo lance. Terceiro lance. Quarto lance. São mais que dois andares pensa. Então chegam a porta que dá para o terraço do prédio. Está trancada. Ele a força, mas sem êxito.
    – Saia da frente. Ela manda enquanto, num movimento tão rápido, que o jovem não acreditaria se não tivesse visto com seus próprios olhos, puxa uma arma estranha presa em uma espécie de coldre embaixo do braço esquerdo e atira na fechadura da porta de metal. Ela explode abrindo um buraco do tamanho de sua mão na fechadura. Faíscas de metal em brasa caem no seu braço e queimam superficialmente sua pele. Eles se deslocam rápido e chegam ao terraço onde podem ver os prédios vizinhos. O seu era o mais alto do quarteirão e dos quarteirões próximos. Eles correm até a borda e o jovem não acredita no que vê.
    Uma espécie de aranha gigante, meio animal meio maquina entrando no buraco onde antes ficava a parede de seu lar de trinta metros quadrados.
    – O que é aquilo? Quem é você? Ele pergunta horrorizado encarando a garota. Ainda não havia percebido como ela era linda. Cabelos negros presos no alto da cabeça caindo pelos ombros. Olhos de um castanho esverdeados salpicados de amarelo. Amarelo? Ele questiona. Sim amarelo. Nariz pequeno e bem delineado, feições delicadas e ao mesmo tempo perigosas. Mas agora não é momento de prestar atenção nessas coisas. Ele pensa tentando recobrar o que ainda lhe resta de consciência.
    – Preste bem atenção porque só vou falar uma vez e então vamos correr daqui o mais rápido possível. Me chamo Irulahn, irmã de Cactus. E você precisa vir comigo agora.
    – Irmã de quem? Ele pergunta confuso. Estamos no térreo. E aquela coisa está entrando. Como vamos sair daqui?
    Irulahn olha em volta, aqueles olhos analisam tudo com tanta rapidez e precisão que o jovem mal tem tempo de pensar nisso antes dela decidir o que fazer.
    – Por aqui. Ela diz e aponta para o lado do centro. Os prédios em volta são mais baixos, podemos pular e passar por eles.
    – Pular? Você é maluca. Mas antes de conseguir terminar sente o chão tremer mais uma vez e tem a certeza de que o prédio vai cair a qualquer instante. Sem pensar ele corre na direção que ela mostrou e pula. Irulahn pula logo atrás agarrando-o no ar. O de fato o ajudou, pois sem esse impulso, o jovem nada atlético e sedentário, certamente teria caído. Caem de mal jeito rolando de lado no chão duro de concreto. A jovem levanta rapidamente. Ele sente uma dor cegante em seu cotovelo direito.
    – Levante garoto. Rápido!
    O jovem levanta e eles mais uma vez estão correndo em direção ao parapeito do prédio. Jogam-se em direção ao próximo, dessa vez Irulahn não precisa ajuda-lo. A adrenalina já está fazendo seu trabalho. Ele cai desajeitado e levanta rápido ignorando a dor que agora se apodera de suas costelas. Pulam para o próximo prédio e se escondem atrás do parapeito.
    – Fique quieto. Ela manda, mas agora menos ríspida e autoritária. Quase gentil. Eles observam a criatura indo para outra direção. E então se acalmam um pouco.
    – Será que agora pode me explicar o que está acontecendo aqui. Ele pergunta novamente. Apavorado e confuso.
    – Nosso tempo é curto, portanto preste a atenção. Quando tivermos tempo contarei mais. Venha. E levanta em direção a porta que do acesso ao prédio. O jovem a segue. Ela faz menção de ir na direção das escadas, mas ele opta pelo elevador. São somente 9 andares. Enquanto estão no elevador descendo ela fala.
    – Venho de um futuro não muito distante desse. Resumidamente ferramos com o planeta e conquistamos o espaço sideral. E então ferramos com ele também e voltamos para a terra. Eu sou Irulahn, a pregadora de Nova Batente. Você terá uma neta, que eles acreditam, e aponta na direção de onde vinha a criatura, destruirá seus planos e salvara a humanidade. O que acabaria com seus lucros sobre a vida. Então mandaram alguém para eliminá-lo. O que eles não contavam e que mais alguém também acredita e está disposto a interferir. Então aqui estou eu. Salvando sua pele.
    Terceiro andar mostra o indicador digital.
    – Espere um pouco. Você é uma pregadora do futuro que viaja pelo espaço sideral e veio me salvar? Por acaso você também é solteira?
    Irulahn parece espantada e confusa com a pergunta, mas responde.
    – Sou!? Mas por que isso é importante afinal. Ela indaga irritada.
    Nada não ela responde e ela percebe a confusão em seus olhos.
    O elevador apita e abre as portas. Chegaram ao térreo. Seguem em direção a saída, mas o rapaz volta e começa a mexer na mesa do porteiro. Pegas algumas folhas de papel e uma caneta.
    – Para que você precisa disso. Ela pergunta.
    O jovem aspirante a escritor responde, com um sorriso disfarçado no canto dos lábios e olhos brilhantes e estranhamente felizes.
    – Preciso escrever um conto.

  4. Olá Srs. Fábio M. Barreto e Rob Gordon. Como vão?

    Acompanho o cast Gente que Escreve desde o começo. Excelente!

    Apesar de estar bastante atarefado ultimamente, vocês têm me motivado a realizar meus trabalhos paralelos junto com minha filha de 10 anos, que acabo deixando engavetado. Ambos somos amantes da literatura, arte, cinema. Ela pretende ser escritora. Já é um pequeno sonho dela, que já possui alguns textos que as incentivo a produzir. Eu, como hobby, quando a rotina de trabalho me permite, ilustro suas criações e a ajudo a escrever algo. Atualmente estamos produzindo dois livros ilustrados infantis para Kindle utilizando uma das ferramentas KDP da Amazon (Kindle Kids’ Book Crator), que estamos testando e que, a princípio, recomendo para quem quer se embrenhar por esse segmento.

    Tentei realizar os desafios passados, mas não consegui na ocasião. O desafio deste episódio caiu como uma luva, pois era uma ideia parecida com uma que eu já tinha em mente, e bastou apenas um pequeno “empurrão” de vocês para que ela pudesse fluir.

    Segue abaixo:
    ——————–

    A ÓRBITA

    — Preciso parecer natural. Preciso parecer natural. Preciso parecer natural, — disse Ailuj, ofegante, em frente ao seu espelho improvisado de metal polido, que em algum dia remoto havia sido uma tampa de lata de lixo — senão os Ovops não vão acreditar que Tu, Orazal, falaste comigo e que carrego a Tua palavra, ó, Verdadeiro Criador, e — completou Ailuj — Tu disseste a mim que já sou uma mulher de vinte e cinco anos, e não apenas uma criança de treze, tal como afirmam nos registros. Os Ovops nunca vão admitir que uma menina com menos de dezoito anos terá a audácia de pregar a palavra do Senhor e contar a Verdade sobre quem somos e de onde viemos. Eles poderão me enterrar viva na areia até eu morrer sufocada ou congelada. É a lei dos homens daqui! Deste maldito lugar frio e vermelho! Sabias?

    Ailuj chupou um pouco de uma das escassas pedras de líquido congelado para matar sua sede, respirou fundo três vezes, tomou coragem e saiu de sua casa, construída — como todas as outras — de sucatas pertencentes a uma era até então desconhecida.

    Para chegar à praça onde iria aclamar ou enterrar seu destino, Ailuj atravessou o rubro e arenoso caminho flanqueado por fileiras de pneus deteriorados, prédios destruídos, paredes cobertas por camadas estranhas de fósseis, latas e metais de toda classe que, provavelmente, já foram máquinas e meios de transporte, e também por outros tantos objetos pré-históricos adorados por fanáticos como sendo presentes de Orazal.

    A praça estava cheia. Afinal, era o fim de mais um longo e hostil ciclo de seiscentos e oitenta e sete dias. Os Ovops estavam enfeitando suas construções para as festividades, se é que poderíamos chamar aquelas ruínas de construções. Qualquer sucata, pedaço de pau, metal, pedra com algum formato peculiar ou plástico colorido servia como enfeite. Para Ailuj aquilo tudo mais parecia um circo dos horrores e pouco simpatizava com o estilo da decoração, apesar de gostar muito das celebrações de um ano novo melhor.

    Pactuava da mesma fé dos Ovops.

    Decidida, a criança de vinte e cinco anos parou no meio de um canteiro de pedras na borda leste da praça. Com o rosto iluminado pelo sol poente, Ailuj, num gesto expansivo, abriu os braços. Como ninguém percebeu seu ritual, ela soltou um gemido agudo que mais parecia um lamento. Praticamente todos pararam de trabalhar nos adornos da festa e olharam em sua direção.

    — Ovops! — gritou Ailuj. — Vocês precisam escutar a palavra do Verdadeiro Criador! Ele falou comigo na noite passada e me revelou a Verdade que todos nós estávamos buscando! — continuou até o momento em que foi interrompida por um senhor na outra ponta da praça.

    — Quem você pensa que é, sua fedelha, para alegar que Orazal perde o Seu precioso tempo para falar contigo? — e completou. — Você está blasfemando! — houve um burburinho e um princípio de revolta. Ailuj expandiu ainda mais os gestos e retomou a palavra.

    — Ovops! — repetiu mais uma vez o grito de ordem. — Vocês precisam escutar a palavra do Verdadeiro Criador! Ele falou comigo na noite passada e me revelou a Verdade que todos nós estávamos buscando! Nós viemos do planeta azul! Nossos ancestrais vieram de lá há mais de cem mil anos! Essas sucatas e objetos que vocês tanto cultuam também vieram de lá! Isso tudo, inclusive nós, fomos arremessados de lá durante a grande explosão solar! Sempre nos ensinaram que o planeta azul foi destruído pelas guerras, pragas, fome, poluição e que todos morreram! Mas não é verdade! Não é! — e foi interrompida novamente, só que dessa vez por uma jovem gorda bem à sua frente.

    — Cale a boca, menina! — esbravejou. — Se você não parar de nos insultar, vamos ser obrigados a te dar o Julgamento Primo! — terminou a ameaça com o dedo em riste na cara de Ailuj.

    O Julgamento Primo era uma das penas mais severas da lei, em que a pessoa condenada deveria ser enterrada viva e nua nas areias geladas da região — onde ocorria a sentença — , até que morresse sufocada ou congelada. Não havia possibilidade de reversão após a sentença ter sido declarada por mais de dois terços dos presentes. Sempre fora uma lei controversa, pois era praticamente impossível calcular um número exato e estável de cidadãos num raio de cem metros do local do crime, tal como dizia um dos seus artigos. Apesar de controversa, a lei era constantemente aplicada. Portanto, Ailuj sabia do alto risco de ser condenada e executada, mas mesmo assim não se acovardou.

    — Silêncio! — sua expressão facial e seu tom de voz tornaram-se mais sinistros. — Cala a boca você, sua infiel! — e continuou sem mais nenhuma interrupção. — Senão sofrerá a maldição dos céus! Eu não sou menina! Orazal falou comigo! Ele me disse que tenho vinte e cinco anos! Eu fui a escolhida Dele para levar a palavra da Verdade! Este livro que seguro aqui é meu portal para conversar com Orazal! Eu encontrei este livro há cinco anos, soterrado numa ruína que, aparentemente, tinha sido uma escola do planeta azul! Eu encontrei outros livros também, mas foi esse que me levou até Orazal! Este é o Livro da História da Terra! Eu sei disso! Eu pesquisei e descobri o que está escrito aqui! O nome do livro é História e Geografia! Eu descobri o seu código alfabético e li toda a História da Terra! Sabedoria! Conhecimento! Depois disso, Orazal falou comigo através do espelho da minha casa, enquanto eu olhava o meu reflexo distorcido! O meu reflexo se transformou no rosto do Verdadeiro Criador! Ele me contou tudo!

    Sem parar, frase após frase, Ailuj deixava a pequena multidão cada vez mais hipnotizada. E cada vez mais, ela mesma estava sendo entorpecida pelas suas próprias palavras. Elas se avolumavam e rolavam como uma avalanche hipnótica e sobrenatural.

    — A Verdade é essa, senhores! Nós somos do planeta azul! Essas coisas aqui sempre foram nossas! Não são presentes de Ozaral! Elas vieram para cá com nossos ancestrais durante a explosão solar! Senhores! O planeta azul não foi destruído pelas coisas que falei antes! Não foi a fome! Não foram as guerras! Não foi a poluição! Nem todo mundo morreu! Muitos morreram, sim, verdade! Mas uma parte foi arremessada de lá até aqui! Nós, os animais, as construções, os objetos, a água! Todas essas coisas e todos nós viemos de lá! Há cem mil anos! Está neste livro aqui! Estas coisas que estão descritas aqui nestas páginas são de lá! Aqui, ó! Olha só estes desenhos! Somos nós! Aqui este objeto desenhado, olha! É igual àquela sucata que está lá na esquina! Este livro termina falando que haveria a possibilidade de uma explosão solar! Dependendo do nível da explosão, o Sol poderia perder boa parte de sua massa! A explosão poderia fazer com que os três planetas mais próximos do Sol perdessem suas gravidades! Aqui, ó! Estão aqui! Os três planetas são Mercúrio, Vênus e Terra! Nós somos da Terra! A Terra é o tal planeta azul! Aqui onde estamos agora é o quarto planeta! Aqui se chama Marte! Aqui, olha! É este aqui! É este círculo vermelho desenhado aqui! Nós fazemos parte do que sobrou da Terra e estamos aqui por causa de nossos ancestrais!

    Naquele momento, os Ovops, que já estavam em estado de hipnose, ficaram totalmente paralisados. Ailuj estava conseguindo reverter o seu destino e evitar a sentença de morte. Estava há poucos minutos de ser aclamada como profeta, como a mensageira da Verdade e da palavra do Verdadeiro Criador.

    — Portanto, senhores! Eu fui a escolhida para trazer a Verdade! A partir de agora, através deste livro, podemos começar uma nova era do conhecimento! Este livro que carrego aqui é o verdadeiro livro de Orazal, o nosso Verdadeiro Criador! O livro da História da Terra! O livro das nossas origens! Portanto, o nosso livro definitivo! O Livro da Verdade! O Nosso Verdadeiro Criador nos enviou até aqui para que continuássemos nossa espécie! Nos trouxe também os animais e a água, ainda que escassa! Mas com esse conhecimento que vos transmito, podemos aprender! Nós podemos evoluir e sair do estado em que nos encontramos! Nós podemos ter um futuro melhor! Os anos seguintes poderão se bem melhores! Nós podemos aprender a produzir, a criar e a transformar! Imagine! Nós podemos voltar a ter bastante água, e em estado líquido! Nós podemos ter vapor para nos umedecer! E só seguir os ensinamentos deste livro aqui, ó! Nós podemos transformar este planeta vermelho, árido, frio e hostil no nosso antigo planeta azul de onde viemos! Nós podemos transformar tudo isso aqui num planeta úmido, vibrante e tenro! Senhores! Nós vamos transformar o planeta Marte no planeta Terra, e garantir nossa sobrevivência! Glória, ó, Orazal!

    Ailuj foi enterrada nua e viva. Nunca soubemos se morreu sufocada ou congelada.

    Até hoje, cem mil anos após o discurso na praça, e duzentos mil anos após a explosão solar, uma nova civilização surgiu. Novos cientistas e teólogos encontraram e interpretaram o tal livro da História da Terra que Ailuj proclamara como sendo o Livro da Verdade.

    Além das pesquisas, testemunhos orais sobre a pregação de Ailuj, sua condenação e execução foram passados de geração em geração, durante milhares e milhares de anos.
    Todos começaram a estudar o livro para entender sua história e saber como transformar o nosso planeta e a nossa população. Uns com objetivos científicos, outros com objetivos religiosos… E outros com objetivos políticos e econômicos. Enfim, estava nascendo uma nova sociedade sobre aquela outra — de cem mil anos atrás — dos Ovops.

    Mas a maior descoberta já realizada foi saber que, este planeta em que estamos construindo a nova sociedade — e o mesmo em que Ailuj foi executada — , não é e nunca foi Marte. Quando aconteceu a explosão solar há duzentos mil anos, os seus três planetas mais próximos não perderam suas respectivas gravidades. A Terra não foi destruída e nem teve seus seres vivos, construções e objetos arremessados até aqui.

    Ailuj chegou à metade do caminho. Por sua causa, foi descoberta a Verdade definitiva: o Sol perdeu boa parte de sua massa durante a explosão, e todos os planetas de seu sistema foram arremessados pelo espaço sideral à órbita seguinte. A órbita de Mercúrio ficou vazia.

    Mesmo que nosso planeta ainda seja árido, frio, vermelho e hostil, nós sempre fomos e sempre seremos a Terra. Porém, quando o livro foi redescoberto, suas páginas estudadas e a história da praça contada, a rebatizamos de Ailuj.

    ——————–
    O link do texto no Medium está aqui: https://medium.com/@cadu_ramirez/órbita-1b5fd8ac15e1

    Minha filha também publicou um texto dela no Medium: https://medium.com/@julitabrigante/é-a-peça-ou-sou-eu-8057a5ff5d6e

    Deem uma conferida e nos passe seus valiosos feedbacks!

    Pretendo colocar outros lá em breve.

    Obrigado!

    Abs,
    Carlos Ramírez

  5. Olá, Fabio Barreto e Rob Gordon!

    Conheci o podcast “Gente que escreve” há pouco tempo, mas já me tornei uma grande fã do trabalho de vocês.
    Aceitei o desafio de fazer a tarefa proposta . Ficarei muito feliz com comentários e críticas (positivas ou não!). Afinal, sou uma iniciante nessa maravilhosa arte de escrever e todo retorno pode ajudar no meu crescimento.
    Obrigada!
    Grande abraço,
    Verônica Alves.
    P.S.: Por favor, continuem a nos ajudar a continuar escrevendo! : )

    Segue o texto:

    A MENSAGEM

    Chegou devagar. Flutuando. Era redonda, com várias protuberâncias retangulares e uma alça de mão no centro. Um objeto bem incomum para aquela época.
    Aproximou-se dele, parecendo não querer. Mas queria…
    Ele era um planeta anão do sistema solar. Seu nome: Haumea. Possuía uma forma ovalada. Girava rapidamente e observava tudo ao redor. Mas há muito tempo não via nada além de naves gigantescas, estrelas, cometas em rápidas trajetórias e buracos de minhoca. Porém, de repente, ele percebeu aquele incrível objeto! Que formas mais belas! Não há luz própria. Mas o reflexo de outras luzes dá ao objeto uma imagem jamais vista. Que perfeição! Nunca vi algo igual! Haumea esboçou um tímido sorriso e arriscou: “Olá…”
    Ela olhou para os lados para checar se era mesmo consigo que ele falava. Percebendo que apenas os dois estavam em órbita alinhada naquele momento, respondeu: “oi”.
    – Você é diferente – diz Haumea – quem és?
    Ela responde:
    – Sou a Tampa. Venho de um planeta chamado Terra.
    – Meu nome é Haumea. Prazer em conhecê-la, Tampa. Mas por que você saiu da Terra?
    – Bem, lá eu fazia parte de um objeto chamado lixeira. Eu servia para evitar que o mundo soubesse o que havia de ruim dentro dele.
    – Como assim?
    – É que a espécie dominante nesse lugar, os humanos, produziam um coisa inesgotável chamada “lixo”, que era resultado de tudo o que eles precisavam para viver e sobreviver ou, simplesmente, aquilo que eles não queriam mais.
    – Puxa… E você encobria tudo isso?
    – Sim… Na verdade, eu era apenas uma tampa entre as milhares existentes ali… Eu encobria apenas uma parte daquela imensidão de lixo…
    – E o que aconteceu?
    – O lixo dominou a Terra. Os humanos não sabiam o que fazer com ele. Não havia mais lixeiras e tampas suficientes para escondê-lo. Uma catástrofe! Num dia cinzento houve uma grande explosão. É tudo de que eu me lembro. Então me vi no aqui, no espaço, vagando e conhecendo mundos maravilhosos, galáxias, estrelas e… planetas.
    – Isso é incrível! Há muito tempo eu estou aqui e não ouço nada tão extraordinário e triste ao mesmo tempo. Você me trouxe algo especial.. Não sei dizer o quê…
    Mal ele tinha acabado de pronunciar essas palavras e uma pequena nave lilás pousou em seu solo. A porta se abre e surge uma viajante intergaláctica. Ela se aproxima da Tampa e exclama:
    – Não acredito! Uma tampa de lixeira da Terra! Isso pode ajudar muito na minha missão.
    Então ela se aproxima para pegar a Tampa que está suspensa no ar.
    A Tampa faz um rápido movimento e se distancia:
    – Não toque em mim!
    – Caramba, você fala! Isso é incrível! Tenha calma, eu venho em paz – diz a mulher.
    – Como assim?! – grita a Tampa – vocês, humanos, destruíram a Terra! A ganância por dinheiro foi maior que a preocupação com o meio ambiente. E vocês só nos usavam para servir ao egoísmo irrefreável que tinham. Vocês não sabem o que é paz.
    Com tristeza, a mulher responde:
    – Eu te entendo… Mas nem todos os humanos tinham o mesmo pensamento. Eu e milhares de outras pessoas tentamos evitar a destruição. Só que não foi possível. A ganância falou mais alto. Mas conseguimos sair da Terra antes que tudo acabasse. E eu decidi viajar pelo espaço contando o que houve e como chegamos a um fim tão lamentável. Quero fazer a minha parte para que isso não aconteça em outros planetas.
    – Ótima iniciativa a sua – fala a Tampa – pena que não faz o tempo voltar…
    – Desculpe-nos, Tampa… Por tudo o que a humanidade fez… por nosso egoísmo. Acho que essa é uma ótima oportunidade para agradecer também. Quero agradecer a você por tudo o que fez para o nosso bem enquanto esteve na Terra.
    – Ok. Desculpas e agradecimentos aceitos – diz a Tampa, já mais calma.
    – Seria maravilhoso se você seguisse comigo e me ajudasse em minha missão – sugere a viajante.
    Haumea interrompe a conversa:
    – Olá, humana! Como você se chama?
    – Quem está falando comigo? Eu não vejo ninguém além da Tampa.
    – Eu sou Haumea, o planeta no qual você pousou.
    “Puxa, um planeta que fala…” – ela pensa – “isso também é super inusitado para mim”.
    – Olá! Meu nome é Beatriz. Sou uma peregrina espacial. Venho em paz. Visito planetas para levar uma mensagem de esperança e…
    – Não precisa repetir – interrompe Haumea com um sorriso (que dá para ser sentido pelo seu tom de voz). Eu ouvi a conversa de vocês – continua – embora isso seja um pouco contrário às regras de boas maneiras.
    – Imagina… – diz Beatriz – eu pousei sem pedir licença e isso também não é muito educado.
    – Eu e a Tampa estávamos nos conhecendo quando você chegou, Beatriz.
    – Sei… Eu também acabei de conhecê-la e fiz-lhe um convite.
    A Tampa intervém na conversa:
    – É e eu ainda não respondi…
    – Então, você vem comigo?
    – Infelizmente não, Beatriz. Ao me encontrar com Haumea eu senti algo muito especial.
    Haumea deu uma leve estremecida e disse:
    – É mesmo? Você também causou em mim um sentimento diferente. Eu gostaria muito que você ficasse e que nos conhecêssemos melhor.
    Beatriz entendeu. Afinal, embora não tivesse envolvida com ninguém, ela já havia se apaixonado várias vezes e podia sentir que ali estava nascendo um grande amor.
    – Compreendo perfeitamente, Tampa. Sei como são essas coisas… – diz Beatriz com um sorriso. Vou continuar meu caminho. O Haumea já conhece a história da Terra e sei que vocês dois podem me ajudar simplesmente transmitindo essa mensagem de esperança a algum visitante.
    – Faremos isso, Beatriz – diz Haumea.
    – Então até, quem sabe, um dia! – despede-se Beatriz.
    – Boa viagem! – diz Haumea.
    – Até breve, Beatriz – diz a Tampa.
    Beatriz entra em sua nave, aciona os motores e prossegue sua viagem. Em seu peito surge um doce sentimento de dever cumprido. E, ao mesmo tempo, uma alegria imensa por ver que o amor ainda tem formas incríveis de acontecer e se expressar.

  6. Barreto e Gordon, comecei a ouvir o podcast a pouco tempo e já virou meu principal parceiro nos treinos da academia, inclusive não aconselho ninguém levantar supino enquanto ri das piadas do podcast, o risco de acidente é altíssimo (falo por experiência própria). É maravilhoso ter um podcast voltado para escritores com assuntos e dicas, exatamente o que procurava por tempos e também agradeço por estimular a nossa criatividade com tarefas e por falar nela, segue aí a minha!

    https://www.wattpad.com/story/61785657-12-34

    Abraços e continuem escrevendo…e gravando!

  7. Olá, Fábio e Rob!
    Mal podia esperar para o podcast voltar (e os desafios, claro). O que vocês estão fazendo é de muito valor para todos nós, que as vezes nos sentimos meio perdidos nessa jornada. Ainda não ouvi os outros dois anteriores do mês de janeiro por falta de tempo (no caso do jogador número 1 também foi por medo de spoiler), mas já vou correr atrás do tempo perdido. Obrigado por dedicarem seu tempo a nós e segue ai o desafio da tampa de lixeira, espaço e pregadora.

    No silêncio do vácuo, o cruzador estelar se destacava soberano, brilhando suas incontáveis luzes como uma estrela. Em seu interior, Gal olhava a multidão curvada aos pés do altar onde ela e o majestoso objeto de sua devoção se encontravam.
    Aos poucos as cabeças foram se erguendo e a encarando com fascínio. Ela tocou o objeto circular e metálico e envolveu a misteriosa alça com sua mão, se encaixando perfeitamente.
    – Há anos, o sagrado Metalowé veio até nós flutuando no vácuo infinito do universo, aguardando o povo digno de sua benção. – Seus olhos deslizarão por todos os presentes. – Nós somos esse povo. Um povo antes desgraçado, que em sua ignorância e ganância, destruiu seu lar, seu berço, e foi obrigado a se jogar no vácuo perpétuo dentro desta gigantesca prisão de metal, sem rumo… sem esperança. Mas desde que Metalowé veio a nós, os doentes se curaram apenas ao tocar o metal frio que o compõe, e assim, os tristes se alegraram e os desiludidos se encheram novamente de esperança. – Um sorriso invadiu seu rosto. – E não para por ai, as leituras mostram a origem de Metalowé, seu longo caminho até aqui. Sim meu povo, ele veio até aqui para nos levar até sua terra prometida, um lugar onde possamos começar de novo… ter nossa redenção.
    Ela ergueu a mão fazendo um sinal para os homens que estavam na cabine de controle logo acima.
    – Vamos seguir juntos ao nosso paraíso. – Proclamou fechando os olhos e erguendo os braços para o alto. Todos ovacionaram, batendo palmas e louvando o nome de Metalowé.
    Canhões dispararam raios azuis no espaço, brilhando como velas de esperança na escuridão. Um enorme buraco de minhoca se abriu, engolindo o cruzador para sua bocarra com destino incerto.
    O túnel fazia curvas quase impossíveis, as mãos dos devotos se cruzavam umas as outras em apreensão. Gal se segurou firme a Metalowé, pedindo forças para a jornada que se aproximava. Os membros da cabine de controle olhavam para o túnel de dedos cruzados, pedindo, implorando para que tudo não fosse em vão, para que Metalowé não os abandonasse no momento em que mais precisavam.
    Finalmente o túnel chegou ao fim. O vácuo era visível novamente, com suas infinitas estrelas ao longe, tão distantes que não se sabia quais delas ainda existiam. Passaram por um planeta tão pequeno e escuro, que de certo nada crescia lá.
    Dentre os planetas daquele sistema, o que mais se destacava era, com certeza, aquele belíssimo circundado por um deslumbrante anel de asteroides, convidando a todos para sua órbita mortal. Também viram um vermelho, que lhes dava calafrios, pois os lembrava de como sua terra natal ficara.
    Mas por fim, seus olhos se deslumbraram com um planeta azul, de tanta água, os chamando logo a frente.
    – Lá está! A terra de Metalowé… nossa terra prometida. – Ela não podia conter as lágrimas de alegria. – Vamos chamá-lo de água, pois lá ela é abundante.

  8. Ótimo programa! Já ouvi todos e gostei muito da proposta. Serve não só para quem quer escrever, mas também para quem quer ler melhor, compreender melhor as possibilidades dos textos que lê.

    Vou entrar na brincadeira também Escrevia gora (de madrugada) em meia hora. Acho que vale como exercício:

    TERCEIRA PESSOA

    — Espaço Sideral.
    — Não entendi. Repete.
    — Espaço Sideral.
    — O que você quer dizer com isso?
    — Não sei. Só me deu vontade de dizer “espaço sideral”. Não pareceu estranho quando eu disse, mas agora…
    — Tudo bem… Aí a Ana me contou que o Eduardo está interessado na promoção, mas não sei se ele dá conta da responsabilidade. Ele é até esperto, mas sei lá…
    — Alfa Centauro.
    — Oi?
    — Praticamente Inofensiva.
    — Fábio, deixa de brincadeira e presta atenção no que eu tô contando.
    — Tô ouvindo, amor, pode falar.
    — Olha, se você estiver gozando com a minha cara, juro que…
    — Não, é sério. Pode continuar falando.
    — Hmmm. Certo… O Eduardo, ele…
    — Tampa de Lixeira!
    — Fábio, fala baixo. Viu, o pessoal da mesa ao lado te olhou estranho. Não encara!
    — Olha, Camila, você não vai acreditar, mas eu não tô fazendo isso pra te irritar, p…
    — Então, me dê uma boa explicação pra isso. A-GO-RA!
    — Não sei, é como se tivesse uma voz na minha cabeça dizendo pra eu falar essas coisas.
    — …
    — Não me olha assim, não pense que fiquei louco.
    — Até o fim da semana tenho que decidir quem merece a promoção e você me vem com essa história. Ou fica quieto, ou vou embora agora. Não tenho tempo pra suas palhaç…
    — Não! Juro que não vou fazer outra vez. Acredite em mim!
    — Sei…
    — Mulher solteira!
    — Quem?
    — Ela é pregadora!
    — Ela quem?
    — Vive no futuro!
    — Fábio, me poupe!
    — Espera, Camila! Por favor, eu não sei o q…
    — Me solta, Fábio! Olha o escândalo!
    — Senta aqui. Olha! Soltei… Desculpa, não sei o que me deu.
    — Fábio, eu…
    Então, sem saber de onde vinha a voz, fábio disse:
    — Vaso de Petúnia!
    — Adeus!
    — Camila, Espera! Eu… Vogon! Orca! Betelgeuse!?… Droga!…

    — Besta de Traal!
    — Não entre em pânico!
    — Até mais!

    — E obrigado pelos peixes!

  9. Fábio e Rob,

    Boa noite.

    Muito obrigado pelo programa fantástico como sempre. Fazia tempo que não ouvia. Também pudera, minha filha Sophia nasceu e ela é linda! De qualquer modo, o conto é um estilo que muito me interessa aprender. Tenho ideias na cabeça que parecem demandar brevidade. Tentei algumas vezes, mas vocês e a galera daqui são minha esperança de saber se o que escrevi é um conto ou um poema. Realmente não sei, escrevi num exercício de escrita criativa sobre uma molécula de água e saiu o texto. Refinei e editei e ficou assim.

    OSMOSE

    Estava escuro no lugar de sempre. Havia um tempo que ela já estava ali, mas também havia um quê de mistério que ela não podia identificar. A esmo, mesmo entre milhares, estava individualmente sozinha. Seus dois membros não podiam se mexer, porém. Estavam atracados a ela, como gemas se atracam à rocha; a tentativa de extração provocaria sua aniquilação completa. Ali, porém, estava a salvo disso.

    Tudo era perene quando a estranha Força começou. Quase doentia, porque inescapável. Ela não podia lutar contra aquilo. Iria junto. Também, pudera! Tudo começou com o aparecimento (não dava pra saber de onde) daqueles indivíduos diferentes. Eles chegaram, aos montes mas nem tanto, de uma vez. Vindos de cima, ou do lado, ou de baixo. Não dava pra saber. Eram alienígenas ali. Completamente… Diferentes. Múltiplos membros atracados, muita tentativa de interação com aquelas iguais a ela. Ela, contudo, estava bem, obrigado. Não carecia interagir, não.

    E com isso, trouxeram mais iguais a ela. Vieram dos Portais. (Porque havia múltiplos portais. Eles abriam periodicamente, e fechavam também. Por eles, passavam muitos Outros. As Iguais – grupo ao qual ela pertencia, óbvio – iam e vinham sempre. Em números sempre constantes. Era muito raro que as Iguais saíssem aos bocados, ou entrassem, aliás. Era um trânsito frequente em velocidade de cansaço.

    Não hoje, porém. Quando os Diferentes chegaram (provavelmente de outros Portais já fechados) tudo mudou. As Iguais eram impiedosamente atraídas por eles. E iam; e, como formigas em torno de sua rainha, desesperadamente se atracavam a eles, trocando… coisas.

    Pervertidas.

    (Verdade seja dita, ela também estava atraída ao ponto do desespero, mas tantas outras estavam no caminho que ela não conseguia chegar lá.)

    E, como sempre, boiava. Individualmente sozinha.

    Foi quando começou. A Força! Como era intensa! era impossível saber por quê ou o quê a puxava. E os Portais? Todos se abriram. Não. Se escancararam em todo o seu diâmetro. E as Iguais saíam por eles como estouro de boiada. Os Portais ficavam cada vez maiores, e cada vez mais próximos. Os Diferentes se amontoavam uns sobre os outros, horrivelmente. Pateticamente. Sem nenhuma esperança, a Força a puxou, ou melhor, a arrancou de seu posto e a arrastava para o Portal. Não adiantava lutar. Ela nem podia. Foi indo.

    Ao se aproximar de lá, podia vê-los, ou melhor, percebê-los, porque aqueles minúsculos pontinhos brilhantes, que vez por outra apareciam durante a abertura de um Portal, eram rápidos como o diabo fugindo da cruz. Dessa vez, porém, cada vez mais deles chegavam sem parar, enquanto ela chegava ao Portal. Ou o Portal chegava até ela?

    Os pontinhos, agora, cachoeiravam pelos Portais, formando, à distância, feixes como de trigo, mas luminosos. Uns vermelhos, outros azuis, verdes, de outras cores. Lindos, mas ela era incapaz de prestar atenção a isso. O Portal escancarado quase implorando para abrir além de sua capacidade, chegava. Enquanto ela apanhava de pontinhos luminosos rápidos como o diabo que foge da cruz, rodopiava em torno de si mesma, enquanto a Força a puxava.

    E então, abruptamente, ela parou, junto com outras Iguais. Era bem mais espaçoso agora. A Força cessara. E ela não fazia ideia de qual distância percorrera; não tinha como saber se era grande ou não. Mas era. E, enquanto ela voltava a ser o que sempre foi e fazer o que sempre fez, nessa nova calmaria, se alguém pudesse ver o que acontecia veria, entre as Iguais, Diferentes, em quantidades vertiginosamente maiores que aquelas outrora existentes dentro da Esfera.

    Esfera essa, aliás, que jazia amorfa, como balão murcho, próximo a um Imenso Monte de Diferentes onde não havia Iguais.

  10. Vocês ainda olham os comentários de posts tão velhos? hahaha
    Independentemente, aqui estou. Um escritor/ouvinte novo. Primeiro selecionando os podcasts mais pertinentes com o que estou querendo (ser lido hahah), mas ainda vou ouvir todos o/
    Tenho certeza que vocês ouvem bastante isso, mas nunca é demais: Caras… a IMPORTÂNCIA de vocês darem uma direção para nós é, nossa, imprescindível! Como publicar e divulgar sempre foi, de LONGE, a maior dificuldade que tenho nesse meio. E é complicado encontrar dicas boas, sucintas e objetivas para isso (até porque não existe nenhuma formula mágica haha).
    Enfim, to indo para o podcast 16 (que parece ser uma continuação direta deste) com agua na boca.
    De um escritor sem face (mas não por muito tempo, espero), vos digo obrigado o/

    PS: Não postei com o texto porque comentei assim que terminei o podcast haha

Deixe um comentário