Gente Que Escreve 007 – Como Escrever Profissionalmente?

Bem-vindos escritores, amantes da literatura e do entretenimento!

Nesse episódio do Gente Que Escreve, falamos sobre a realidade, os benefícios e os problemas da vida de quem escreve, e como deve se comportar, quem quer escrever profissionalmente. Comentamos sobre modos de entrar no mercado, como se comportar profissionalmente, questões sobre o atendimento e lido com os clientes e etc. Nós também respondemos ao desafio de Chuck Palahniuk sobre “não usar verbos de pensamento” e explicamos como isso pode melhorar seus textos!

APRESENTAÇÃO

Fábio M. Barreto & Rob Gordon

EDIÇÃO

Fernando Barone

MÚSICA TEMA

Daniel Bellieny

LINKS RECOMENDADOS

Artigo de Chuck Palahniuk (traduzido para o Português) sobre “não usar verbos de pensamento” – Pausa para um Café
Championship Vinyl – Blog do Rob Gordon.
Championship Chronicles – Blog de Crônicas do Rob Gordon.
Filhos do Fim do Mundo – romance premiado do Barreto.
Amazon – e-books do Barreto
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SUGESTÕES, CR͍TICAS E DÚVIDAS

Envie e-mails com “Gente Que Escreve” na linha de Assunto para: fmbescritor@gmail.com

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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32 comentários sobre “Gente Que Escreve 007 – Como Escrever Profissionalmente?

  1. O Fim da Rebelião
    Na rebelião ocorrida no dia 10 do mês passado, os presos queimaram todos os colchões e fizeram os carcereiros e outros presos de reféns. Eles subiram no teto e ameaçaram com facas e pedras todos. Eles pediam atendimento de algumas reivindicações. Dentre elas, o retorno da visita intima, a melhoria das instalações e da alimentação.
    O governador do Estado avisou “não negocio com bandidos e algo pode acontecer se os reféns não forem liberados”. Após tais palavras, a tropa de elite chegou ao local fortemente armada e com um helicóptero. Os prisioneiros tacaram mais fogo nas instalações e entraram na cadeira para fugir das balas de borracha atiradas pela polícia.
    “A situação está controlada e daqui a pouco a polícia vai entrar para restabelecer o controle do local”. Disse o Comandante da Polícia Militar(PM).
    Os policiais entraram e nenhum tiro foi disparado. Pouco tempo depois saíram. Metade vomitou em frente à prisão.
    A PM isolou todo o local.
    O Comandante se pronunciou: “Todos estão mortos. Ainda estamos investigando os motivos.”

    “Polícia mata prisioneiros”, “A chacina da Prisão de Itapemirim”, “Polícia mata injustiçados”, “O Estado mata novamente”, “Comandante da PM é culpado” noticiavam os jornais nos dias posteriores.

    Duas semanas depois, o Comandante libera uma gravação de um capacete de um dos policiais. A polícia entra com espingardas na mão e não efetuam nenhum disparo. Todos os bandidos estão mortos. Não com tiros. Os corpos estavam esmagados como se fossem esmagados por cobras. As paredes estavam sujas com círculos de sangue e triângulo.
    Nunca mais ninguém comentou.
    O assunto também morreu.

  2. Olá meninos! Tudo bem?
    Ótima aula!
    Segue um texto curtinho com o tema proposto.
    Obrigada e abraços!

    A Célula
    Todas as câmeras apontavam para o juíz Alberto Balatuchi, presidente da comissão do Tribunal Superior em Brasilia. A leitura da sentença dos 25 réus da operação Águia da Polícia Federal, chegava ao fim. Todos absolvidos. Ninguém iria para a prisão. Gritos, choros e vaias tomaram conta da grande sala, com a capacidade lotada naquela ocasião.
    Miguel permanecia sentado no mezanino lateral do tribunal, teclando em seu celular. Em meio a todo o caos, levantou-se e caminhou devagar até a escadaria de acesso à saída. Os ex-réus, abraçados por seus parentes e advogados, percorriam apressados em direção aos carros, passando em meio à imprensa e à multidão enfurecida. Ouviu-se um primeiro disparo, e em seguida outros três. O homem engravatado caiu sobre o veículo, deslizando até o chão em uma poça de sangue. Tudo estava sendo transmitido ao vivo aos telespectadores brasileiros.
    No mesmo instante, mais de 80 pessoas liam a mensagem de Miguel em seus celulares.
    “O primeiro foi meu. Cuidem dos outros. Chegou a hora de ativar todas as células. O Brasil muda nessa data. Vistam-se bravos brasileiros. A revolução começou.”

  3. Olá senhores.
    Mais um exercício feito!! A experiência de escrever TODOS OS DIAS tem sido ótima!
    Grande abraço!!!

    A libertação
    Isaura andava se um lado pro outro sem saber o que fazer.
    Há dias estava presa e nenhum de seus planos surtiu efeito.
    -Só quem está presa sabe a agonia que é.
    Tentara de tudo em vão.
    Com o canto do olho divisou a substância libertadora.
    Sem poder suportar mais o cárcere, sorveu a pasta esbranquiçada com pequenos pedaços escuros.
    -Os efeitos são lentos, mas garantidos. – disseram-lhe
    Tomou a substância às escondidas por dias. Já nem sentia mais o gosto ou a textura.
    Após dois dias começou a sentir um pequeno desconforto abdominal.
    -Vai valer à pena, qualquer coisa é melhor do que esse inferno.
    Uma semana depois veio a libertação.
    Meio barulhenta e felizmente solitária.
    Isaura livrou-se da prisão de ventre.

  4. Olá pessoal,

    Estou curtindo seu podcast e mesmo ainda no começo, já trouxeram para mim dicas valiosas sobre como escrever melhor. Eu reconheço que minha escrita tem muito que amadurecer e vocês não tem noção do quanto estão me ajudando nesse eterno processo de evolução. Espero ansiosamente pelo o próximo cast e deixo um texto para o último desafio.

    Grande Abraço

    A escolha final

    O estrondo quase me ensurdeceu. Levantei me da minha “cama” e apoiei naquela parede imunda e gélida. Os infelizes ziguezagueavam feito baratas. Peguei o pequeno espelho pendurado na parede, aproximei da grade e através do reflexo, eu via as celas sendo abertas, uma a uma, por homens encapuzados.
    A sinfonia de vozes graves ecoava pelo o corredor.
    Não demorou para meus companheiros serem libertos. Todos saíram correndo, no entanto, um parou e me encarou.
    – Não vai fugir velhote? Se não se mexer, os canas vão te alcançar sem esforço nenhum.
    – Pode ir atrás da sua liberdade, lá fora, não tem mais nada para mim.

  5. OUVIDO!
    Quando mencionaram o desafio, me veio no mesmo momento uma canção do extinto (INFELIZMENTE) grupo nordestino, Cordel do Fogo Encantado.
    Vou postar aqui a letra, cumpre rigorosamente todas as regras do desafio.
    Ahh, é bem dificil escrever sem os “que”, só agora me dei conta do quanto são viciantes. Mas, vamonos a melhorar!

    Tlank
    Cordel Do Fogo Encantado

    A prisão é sinistra, amarga e feia
    Dum velório tem pouca diferença
    Não conheço quem vá pedir licença
    Pra entrar no portão duma cadeia
    Só à noite, depois que a lua alteia
    Aparecem sinais de claridade
    Uma sombra distante oculta a grade
    Limitando a visão do indeciso
    Uma gota de pranto molha o riso
    Quando o preso recebe a liberdade

  6. Excelente exercício. Foi bem divertido.

    Bromilda

    O sol começa a avançar para o centro de cela. Como se não bastasse a falta de água, privada e informação.
    – O Doutor vai ter tratamento especial. Disse o único vigilante da delegacia ao me receber ontem. – Se precisar de algo é só chamar.
    Pois bem, estou aqui há nove horas sem conversar com ninguém. Lá fora recomeça a agitação, cidade pequena adora uma confusão . Nisso entra apressado o vigilante com ar esbaforido.
    – Até que enfim. Por quê sumiu? Vocês não podem me manter aqui. Tenho meus direitos.
    – Olha Doutor, direito todo mundo tem. O mais importante para o senhor agora é o direito à vida, porque o povo tá todo lá fora querendo fazer justiça com as próprias mãos.
    – Justiça? Você só pode estar brincando? Passei de jurado à julgado em menos de um dia?
    – Pois é, Doutor. Aqui, no interior, concurso canino é levado a sério. Devia ter pensado melhor ao dar nota 6 pra Schnauzer do prefeito.
    – Mas o concurso já terminou. Não posso alterar a nota. Vou ficar aqui até a a confusão acabar?
    – A questão não é a nota, mas o coraçãozinho partido da Bromilda. Isso não sara em nove horas. Em alguns casos, não passa nunca.

  7. Hoje é o dia.
    Me levanto lentamente do beliche para não fazer barulho, tiro a faca improvisada de seu esconderijo atrás da privada e olho mais uma vez para o buraco na parede, o senhor bigodes está lá me encarando com seus pequenos olhinhos pretos brilhantes, sua vozinha de rato ecoa em minha cabeça me preenchendo com um objetivo. Olho para a cama de baixo do beliche, ele está lá, dormindo como uma criança inocente… tão inocente quanto um criminoso pode ser…
    Cubro sua boca com uma mão, e com a outra começo a golpear a faca repetidas vezes, primeiro na barriga, depois subo para as costelas tomando cuidado para não atingir nenhum osso, e finalmente vou para a garganta. Quando atinjo a artéria carótida o sangue espirra como uma mangueira de bombeiro me lambuzando inteiro, mas tudo bem, não é a primeira vez que isso acontece mesmo… eu até gosto.
    Ele se debate por um tempo como um peixe fora d’água, mas logo vai perdendo as forças até finalmente ficar imóvel… agora sim está dormindo de verdade.
    Senhor bigodes está feliz, posso notar pelo seu narizinho se movendo rapidamente, farejando, ele sempre faz isso quando está feliz. Ele se enfia novamente na escuridão do buraco na parede, não ouço mais sua vozinha aguda.
    A cela está úmida e sombria, mas, pelo menos, está quieta agora… ele finalmente me deixou em paz….

  8. Do alto do prédio, ela conseguia enchergar toda a cidade. Seus olhos buscavam fitar o local mais distante do horizonte onde conseguia distinguir alguma coisa. O vento era forte e gelado, e seu corpo estava arrepiado, mas não tremia. Escalou o parapeito do prédio, até que seus pés sentissem a borda do parede alta. Virou-se de costas e se deixou cair.

    A resistência do ar pressioava sua pele, seus olhos fitavam o azul celeste. Recusava-se a fechá-los. Em seus lábios um leve sorriso. Nada disso era real. Estava livre.

  9. Demorei mas finalmente terminei o conto seguindo as regras. Ficou um pouquinho pesado, mas acabei olhando para meu Lolita e o caso da menina do Master Chef. Qualquer problema com o tema, podem apagar.

    Pequeno Grilhão
    Nabokov saiu de entre Barrie e Carroll e entreguei-me às suas folhas. Caro Vladimirovich, como esculpiste meu irmão, meu gêmeo, sangue deste sangue, de forma tão perfeita? Ria-me com Humbert dias afinco, uma de minhas poucas companhias. Tanto ele, quanto Alice, Peter [Pan] e Dolores, haviam sido concedidos por uma mistura de bom comportamento e um curso superior. Passava o dia contemplando-os, sozinho, não dividia cela. O dono isolou-me dos crápulas, talvez arrumasse confusão ou me tentassem violentar. Alguns crimes não são vistos com bons olhos – nem mesmo por carcerários.
    Não frequentava o pátio, porém dispunha de toda a prisão – corredores, refeitório, celas alheias. Debaixo da cama cultivava uma coleção particular de livros adquiridos e objetos furtados de companheiros – celulares, duas facas e uma vagina de plástico, com a qual sempre tinha pesadelos. O livre ofício de roubar ladrões.
    Pois dado momento, comigo perdido em devaneios, uma borboleta da cela assenhoreava-se. Eu, bom servo, ao vê-la, pus-me a segui-la. Tonteou pelo quarto, driblou-me e saiu. Acompanhava-a assim como ela às frestas de luz solar pelos corredores. Tropeçava, tentava pegá-la entre as mãos e ria. Ria tal e qual só fizera fora deste inferno, quando estava com ela, vinte anos atrás, ma raison d’être.
    A bruxa consumiu-se na mais repentina fogueira. Arregalei os olhos, assustado, perdido. Olhei a volta e lá estava ela. Não a borboleta, mas a menina. A menina parada, a menina de pé, na frente de uma das celas – a Menina! Escorreguei alguns passos e lágrimas até ela, ajoelhando e abraçando-a como se faz ao ter o amor da sua vida salvo de um prédio em chamas. Estava ali, viva, novamente ao auge dos seus doze anos! Eu habitava ao lado do deus mais misericordioso e amoroso, sequer um ser humano imaginara dos prazeres que gozava; até me empurrar. Sorriu e me empurrou. Afastou-me. A audácia contorceu minhas entranhas e realocou diversos amargos de meu corpo. Regurgitei em bom tom, a voz rasgada e a jugular mostrando-se.
    – Por que me abandonou, sua pirainha?! Eu te amo! Por que me trancou aqui, porra?!
    Soquei a parede atrás dela para não a desmontar o rosto. Não senti dor. Anestesiei-me de ódio e ela riu. A vagabunda riu! No apogeu de minha loucura, ensiná-la-ia a não caçoar de seu único e maior amante! Peguei o braço e puxei, foi ao chão. Despenhei contra, uma mão ao ombro e a outra a levantar o pequeno vestidinho. Minha garota sangrava. Afastei-me, o coração parou por segundos, arrancou digno do maior dos esforços, arremessava-se contra minhas costelas, tentava fugir. Minha cueca também molhava a sangue.
    Aquela noite desgraçada. Íamos consumar nosso amor e ela me abandonou. Sangrou por entre as pernas e me abandonou.
    Tateei em falso e arrastei-me para trás. Cruzei a prisão em via-crúcis, carreguei a cruz de Agnes, a coroa de espinhos a esmagar meu crânio e a multidão clamando a Pôncio Pilatos: “Crucifique-o! Crucifique-o!” Pereci na cama, aos soluços, com as lágrimas rasgando o rosto. Buscava ar e Humbert para me consolar.
    Antes pudesse me recuperar, a cela fechou, o som do ferro a me ninar nos braços. O carcereiro indagou:
    – Por que não saiu hoje?

  10. Difícil o desafio, tentei uma continuação do paragrafo anterior.

    Ontem o demônio saiu para brincar, sim, o meu demônio pessoal, a criatura quando a vi estava suja com o sangue daquela mulher, aquela da minha visão de todos os dias. A menina linda de longos cabelos vermelhos parada na janela olhando para fora, olhando para mim.
    Hoje posso ver seus olhos a hora que quiser, aqueles belos olhos azuis. Agora não mais no rosto de minha musa e sim ao lado de muitos outros nos potes de conserva dispostos enfileirados na estante escura do meu porão. Minha outra persona deixou sua prisão escura no fundo da casca de pessoa comum onde ela vive sem quase nunca se revelar.

  11. Parabéns pelo cast!! Segue o exercício:

    – O Retorno.

    Meus pés já não queriam mais andar em frente então eu os empurrava. Assim como um tango, eu avançava sem querer, de forma melancólica, sempre em frente, mas querendo voltar. Meus algozes puxavam minhas correntes com a força de estivadores experientes. Meu corpo cedia enquanto minha alma relutava.
    Eu já estive aqui antes. O piso frio de cimento, as celas escuras, as barras de ferro cheirando a sangue fresco. Nada mudou. Nossa fuga havia sido magistral. O interno chamado 06 havia furtado uma colher do refeitório e por quatro meses a usamos como uma pá. Fomos pacientes e metódicos, revezando dia e noite sob uma das camas de pedra. Chegando ao pátio oposto nos agarramos sob o chassi do caminhão de carga e esperamos até a aurora. Os caminhões saíram pela manhã como sempre faziam para buscar mais internos. Só poderíamos nos soltar quando estivéssemos longe o bastante. Logo a paisagem de rocha se transformou num furor de fauna e flora e eu arrisquei. Meu corpo bateu forte contra a pista e lá permaneci. Não arriscaria ser visto pelo retrovisor. Quando já não mais ouvia o rugido de motores eu me levantei e caminhei. Livre.
    Mal sabíamos aonde ir primeiro. Uma semana se passou e estávamos dormindo em um paiol abandonado. Ao estômago impaciente respondíamos com frutas de dia e pequenos animais a noite. Quando a poeira abaixasse Iríamos nos separar e cada qual procurar seu lar, porém uma tarde de chuva grossa não nos permitiu ouvir a chegada dos carros e dos caminhões. Eram eles. Fomos tomados de assalto, sem chance de reação. Apanhamos muito. No caminhão éramos apenas cinco. Arrumaram outra cela para mim, uma solitária. Paredes de pedra maciça. Coisa fina. Mas vou fugir de novo. Eles não sabem como. Nem eu.

    Abraços!

  12. Caríssimos! Estou adorando seu podcast. Suas dicas são valiosas, tenho aprendido muito ouvindo suas opiniões e experiências. Certamente que continuarei acompanhando. Parabéns e muito obrigado pelo seu belo trabalho.
    Também estou adorando seus desafios. Ainda não pensei nos outros propostos nos podcasts anteriores, mas aqui está o desafio deste. Como não foi mencionado que tipo de prisão se trata, e isso foi a primeira cosia que me veio à mente, escrevi algo mais metafórico.

    Libertação em três atos

    [1]
    – Mas que porra é essa, Júlia?
    Ângelo segurava furioso um pequeno pedaço de papel, no qual estava esboçado um simples desenho em tons cinzas.
    Júlia tremia. Inspirou profundamente e tentou falar com voz equilibrada.
    – Ângelo, é apenas um desenho.
    – Pro caralho com esses estúpidos desenhos! Vá fazer minha janta, estou morrendo de fome. Uma vagabunda dessas, não faz nada que preste nessa casa!
    – Não me chame de vagabunda!
    Júlia recuou ante o olhar de ódio do homem. Não deveria ter falado aquilo e agora todo seu corpo temia.
    – É vagabunda sim! – Rasgou o papel em vários pedaços.
    – Não!
    Jogou os pedaços no chão.
    – Limpe esta porra agora e faça minha janta.

    [2]
    – Júlia, que é isso?
    – Hã?
    – Isso!
    Lara apontou um hematoma no rosto de Júlia.
    – Não é nada. Escorreguei no banheiro.
    – Ah, não, Ju! De novo não com essa história. Te conheço há treze anos, desde o ensino médio e você vai mentir pra mim?
    – Não é nada, já disse.
    Lara segurou seu braço.
    – Ju, isso que você faz não é certo. Vamos numa delegacia, denunciar esse filho da puta. Você não merece esse canalha.
    Júlia hesitou:
    – Eu… eu. Não, Lara. Tenho medo.
    – Estou aqui contigo, Ju. Vai ficar tudo bem.
    Lara envolveu-a com seus braços e o abraço foi demorado e quente.

    [3]
    – Sabe, Lara, já se passaram sete meses e nunca te agradeci pelo que fez comigo.
    Júlia não olhava para a amiga, apenas se concentrava em sua criação. Lara terminou de tomar um gole de sua água.
    – Não precisa, Ju. Só de ver você feliz já basta.
    Ela espiou por cima dos ombros de Júlia e vislumbrou o desenho que ela fazia, em aquarela, colorido e sublime.
    – Você melhorou muito sua técnica.
    Júlia parou, fitou o rosto de Lara e voltou a se concentrar em seu trabalho.
    – Quando vivia com Ângelo, sentia como se meu mundo fosse cinza. Como se estivesse presa dentro de um mundo de agonia. Eu tinha medo. Precisei matar o demônio dentro de mim e libertar minha inspiração. Por isso melhorei minha técnica. Meus desenhos são reflexo de minha alma. Ela agora é livre para viver plenamente.

  13. Texto sobre prisão sem verbos mentais
    O elemento não aguentava mais tanto mal estar, suas pernas tremiam, sua testa constantemente úmida do suor frio da situação. Seu estômago virado e as dores abdominais cada vez mais fortes. Desde que ele entrou nesta situação, por mais que pareça um clichê, ele começou a contar os dias, não com os famosos riscos na parede, mas não importava o que ele estava fazendo ele estava sempre mentalizando: “1 dia”, “2 dias”, “3 dias ”; e assim por diante.
    O incômodo era tão grande que ele passou a questionar seus atos passados: “O que eu fiz para merecer tal castigo? ” Mas o incômodo já não era maior que a dor física, ela crescia a cada minuto, a cada segundo e já passava assombrar sua visão cada vez mais turva. Com o passar dos dias perdeu o sono, já não confiava em mais ninguém, sempre olhando para os lados com medo que algo mais grave acontecesse. O tempo passava lentamente levando também a fome. Ele literalmente estava com a sensação ode que ia explodir a qualquer momento.
    Até que enfim ele consegue. 6 dias e 18 horas depois ele finalmente vai ao banheiro e resolve sua prisão de ventre.

  14. A Caixa

    Quando a grade se fechou atrás de Fabrício Alves, algo dentro dele se mexeu e um gosto acre subiu-lhe à boca. As lembranças de como era o mundo lá fora não deveriam durar muito mais. A prisão de segurança máxima seria, talvez, sua última morada. E sua estada lá não seria longa se logo não aprendesse a sobreviver nessa nova sociedade, com suas próprias regras, hierarquias, costumes e tradições.

    Levava consigo uma pequena trouxa com roupas de cama, papel higiênico, escova, macacão e blusa branca. O caminho era silencioso, a não ser pelos ocasionais gritos, bater de chaves e passos de borracha. A cada passo o cimento dentro de seu estômago pesava mais e mais. Aquilo estava errado, ele não deveria estar ali, foi um acidente. Num piscar de olhos ele viu a mulher na cama com o irmão e um segundo depois os dois estavam mortos.

    Fabrício não estava consciente. Não devia estar ali. Na audiência o advogado alegou um surto psicótico e a sentença deveria ser por homícidio culposo, seu cliente deveria ir para uma instituição mental, não pra segurança máxima. A mídia porém havia montado seu circo e o judiciário não precisava de mais um caso assim.

    Estava difícil colocar um pé na frente do outro, Fabrício tremia. O guarda abriu a cela e ordenou a entrada do condenado. Mais uma vez ele ouviu grades se fechando atrás de si.

    “Não deveria estar aqui.”

    As luzes se apagaram.

  15. Opa! Esse papo do “queismo” me acertou em cheio. Lembrei até de uma professora de redação da época da escola. Ela escreveu isso nos comentários de um texto meu na época. hahaha
    Mandei hoje por email o texto do episódio 005 sobre anjo e elevador. Contei uma média de dois por parágrafo. Não está tão ruim assim vai…
    Já estou treinando e nesse comentário já rescrevi algumas frases pra não usar nenhum “que” (ops!).
    Mais uma vez parabéns! Eu sou editor freelancer (de imagem) e já vivi muitas situações chatas mas graças a Deus nunca levei calote. E a tendência é sempre evoluir e fugir das “roubadas”.
    Abs!

  16. Olá!

    Fiz o “Para Casa” mas os ‘ques’ estão presentes. Mas acho que os ‘ques’ que usei são ‘ques’ que não são para almentar uma ideia. Acho…

    Mas ai vai o testo sobre Prisão co a tentaviva de não usar verbos de pensamentos e evitamdo ao maximo o ‘queismo’:

    Argumentações finais

    A tensão entre os familiares do réu é quase palpável em contraste com a aparente tranquilidade da família da vitima ao passo que o julgamento chega ao seu clímax. Júri e Juiz aguardam a ultima parte, o que alguns consideravam mera formalidade.
    Com toda a pompa que os anos de experiência lhe proporcionam, Dr. Dario Alves se levanta com desenvoltura, se dirige aos jurados fazendo um rápido contato visual com alguns deles e começa seu sua apresentação:

    “Um assassino covarde. Uma alma sebosa que merece o peso correspondente a cada silaba da lei que infligiu. Este é o exemplo perfeito de um covarde que merece passar cada hora, cada minuto de sua vida miserável pagando pelos atos hediondos que cometeu!
    “Este, bandido; esse escamoso privou uma família de pai. Sim; seus filhos irão crescer somente com a parca lembrança. Esse escamoso privou um trabalhador de ver os frutos de seu árduo trabalho gerar um futuro para os seus. Este homem – em quanto saia de perto da bancada do júri apontava espalhafatosamente para o réu – se é que podemos chamar um covarde de homem; repito: Merece cada minuto da sentença que peço como castiço por seus atos!”
    Dr. Dario fez uma pausa olhando novamente para os jurados. Mal pode conter o sorriso ao ver vários deles concordando com seu apelo a família. Contente ele prossegue já com ar de vitória:
    “Vamos nos ater aos atos abomináveis que levou um pai, um marido e um trabalhador ao triste fim. E irrelevante qualquer inteiração passada.
    “Esse ser desidioso fez com um infante acompanha-lo até a barca e quando estava no meio da viagem; no meio rio Oiapoque ele – novamente aponta para o réu – furtou a arma do policial que também estava fazendo a travessia, atirou contra a vítima, e por pura incompetência, devo ressaltar; atingiu a vitima de raspão!
    “Digo que foi incompetência porque o réu tivesse matado a vitima, teria poupado da agoniante morte por afogamento. Uma vez que por estar próxima a borda, no susto ele caiu no rio.
    “É provável que não ouve premeditação. Mas porque este homem estaria na balsa da vitima, num horário que era certo que a vitima estaria trabalhando?!
    “Ele procurou mais uma oportunidade para causar constrangimento para a vítima, mas ágil de forma inconsequente que resultou na morte de um homem e em sete pessoas feridas pela confusão que este homem criou ao sacar a arma e atirar numa balsa lotada.
    “Pelos crimes de furto, corrupção de menores, uso de arma e fogo, lesão corporal e assassinato peço encarecidamente que tire esse homicida das ruas. Peço justiça! Peço que condenem o Réu!
    O homem parecia realizado. Era sua prateia; sua casa. Aqui ele dita as regras. Ao voltar para sua cadeira ele da uma piscadela marota para o advogado de defesa.

    Dr. Renato era novo, todos as anos da sua vida não dava metade dos anos de advocacia do Dr. Dario. Por um longo momento, um longo e incomodo momento, Dr. Renato espera. Quando toda a atenção estava realmente voltada para o que ele iria dizer, Dr. Renato inicia a argumentação final da defesa:

    “Gosto dos livros de Agatha Christie, mas não sei se todos sabem, ela trapaceia. Ela esconde fatos de nos, leitores. Fatos essenciais que leva a conclusões equivocadas. E quando os fatos são finalmente revelados nos notamos o quanto estamos errados. Outra coisa que Agatha faz e dar fatos parciais. Hoje tivemos um exemplo de como construir um argumento para livros policiais. Mas não podemos estar mais longe da verdade.
    “A acusação apresentou os fatos como Agatha apresentaria, mas agora – Dr. Renato se levanta e com gestos bem mais contidos que o Advogado de acusação continua sua argumentação – agora apresento os fatos em sua totalidade. Porque as inteirações anteriores são a chave para entender os atos de meu cliente.
    “O que a acusação quer é que esquecemos que oito testemunhas vieram aqui para atestar a integridade desse homem. A acusação quer que vocês esqueçam que meu cliente foi ameaçado pela vitima, não uma ou duas vezes, mas dezessete vezes documentas com boletins de ocorrência que foram apresentados aqui como prova.
    “Vou recapitular; mas vamos usar TODOS os fatos:
    “Durante os altos foi bem estabelecido a vitima e meu cliente já tinham uma relação conturbada. Porem vamos nos focar no dia em questão. Meu cliente por culpa de uma emergência familiar precisou usar a barca. Infelizmente a única barca disponível era a de propriedade da vitima.
    “É claro que esse fato ascendeu a preocupação de meu cliente. Ele temia por sua própria vida! Mas ele tinha que ir, não precisamos esconder qual era a crise familiar. Sua esposa estava em trabalho de parto no Amapá.
    “Para evitar que qualquer coisa acontecesse, afinal meu cliente temia por sua vida, ele convidou um conhecido seu, para acompanha-lo na viagem de barca. Como prevenção adicional, ele se posicionou ao lado de um policial que também se seguia na barcaça.
    “Mas meu cliente tinha medo. A vitima – fez o sinal de aspas com as mãos – já o havia ameaçado antes. Ameaçado a vida do meu cliente. Mesmo assim este homem – aponta para o réu – este homem enfrentou seu medo para ver sua esposa e sua filha que ainda esta por nascer.
    “Agora vamos ao fato especifico, que acusação tão eloquentemente já nos brindou com cada detalhe; aos olhos da vitima claro – Seus olhos reviraram enfatizando o sarcasmo da voz.
    “Mas o homem sentado ali, no banco dos réus, estava começando uma família, e para que este começo fosse perfeito, ele tinha que estar no hospital ao lado da sua esposa, quando sua primeira filha, que hoje tem três anos, nascesse. Vamos rever agora os fatos sob a ótica deste homem!
    “Depois de algum tempo de viagem meu cliente vê “a vitima” andar na direção dele. Estava com a mão dentro da camisa, como se estivesse pegando uma arma.
    “Agora vamos exercitar um pouquinho a imaginação – imitando ao advogado de acusação, Dr. Renato procura fazer contado visual com alguns membros do júri. Acha um jovem com mais ou menos a mesma idade de seu cliente e o líder do júri um homem de meia idade, provavelmente já teria filhos. Resolve se focar neles, mas é claro que suas palavras podem ter efeito em outros membros.
    “Você tem um inimigo declarado. Este inimigo mais de uma vez jurou que iria te eliminar. Daí você o encontra em um lugar de onde você não poderia fugir. Um local onde seu desafeto poderia forjar cada passo da sua historia para que o assassinato fosse legitimo. Era o campo do seu arquirrival. Mesmo com dezenas de pessoas a bordo a vitima poderia fazer o que quisesse.
    “Mas você precisava fazer a viagem. E aqui ocorre o fato que meu cliente e culpado. Ele decidiu mal. Poderia ter esperado duas horas por uma nova embarcação. Mas a ansiedade de ter sua esposa internada em trabalho de parto lhe turvou os pensamentos e ele decidiu mal.
    “ Sob esta ótica, debaixo destas circunstâncias, o que você faria? – Dr. Renato perguntou olhando diretamente para o Líder do Júri.
    “Você poderia tentar correr, mas para onde? Você esta no meio do rio, muna barca que a vitima conhece completamente. Não há onde se esconder. Também poderia pedir ajuda do policial ao seu lado, mas não há tempo hábil! Do seu ponto de vista o tempo é limitado. Meu cliente teve uma misera fração de segundo para considerar tudo que expus ate aqui para agir. Não sei o que vocês fariam senhoras e senhores do júri, sinceramente não sei o que eu faria! Mas aquele homem, naquele momento decisivo, optou pela vida! Por ver sua filha que ainda não conhecia crescer! Em tão sim ele sacou a arma do policial e deu um tiro. Um único tiro na direção do agressor!
    “Sim, não posso chamar aquele homem de outra coisa a não ser um agressor. Ele era um agressor que tornou vitima das suas próprias ações contra meu cliente. Um homem que tinha fama de violento, brigão e tantos outros adjetivos que nem preciso citar aqui! Este homem foi pintado pela Acusação como um coitado. Porque ao morrer todo e qualquer homem é, ironicamente é homem é bom! Mas em vida ele era um verdadeiro demônio e com um gosto especial para atormentar meu cliente.
    “Agora que estamos com quase todos os fatos devidamente repassados vamos nos concentrar nas acusações absurdas que já detiveram meu cliente por três anos. Três anos que ele não viu sua filha crescer. Três anos em que sua família vive de favor por não ter seu principal provisor.
    “Pelo crime de corrupção de menores, eu pergunto: que crime? O homem convidou um amigo para ir ao hospital conhecer sua primeira filha! Peço que este crime seja retirado das acusações.
    “Os crimes de Furto e disparo de arma de fogo, solicito que retire também essas acusações. Afinal ele ágil em legitima defesa ante a uma situação de provável agressão!
    “Referente a lesão corporal, foi testemunhado pelo legista, sentado naquele banco, sobe juramente que – ele remexeu em suas anotações – “seria um insulto chamar aquele aranhão de ferimento a bala” e “este ferimento poderia ter sido feito ao cair da barca ou ate mesmo ao ser retirado da água”. Portanto como poderíamos provar que ouve leão corporal?
    “E referente ao assassinato, novamente sito a acusação de salientou a agonia do afogamento como causa da morte. A suposta vitima caiu no rio, e se debateu por um tempo. Logo depois ele foi avistado nas margens do rio Oiapoque, porem foi no povoado de St. Georges, no lado da Guiana Francesa, onde foi retirado da água ainda com vida mas não resistiu e veio a óbito, em território Europeu! A “vitima” se é que ainda demos base para chamá-lo assim, morreu fora do país, de uma causa não teve a ver com o tiro deflagrado por meu cliente. Tiro esse que pode nem ter atingido a vitima.
    “Aqui não há crime! Aqui não há o que castigar! Peço justiça! Peço que inocentem réu!
    “Já o privamos de contato com sua filha por três anos; por crimes que não aconteceram. Não deixe que esta injustiça se estenda por mais 30 anos.
    “Vocês estão de posse de todos os fatos, de todos os laudos e de todos os depoimentos apresentados aqui nos últimos dias. Como disse o único crime de meu cliente foi tomar uma decisão errada. Não condene por isso. Não o condene por um afogamento que ocorreu na França! Façam a coisa certa. Salvem a vida daquele homem.

    Dr. Renato termina sua Argumentação. Acena com a cabeça para seu cliente e devolve a piscadela para um Dr. Dario visivelmente incomodado.
    O juiz da por encerrado a sessão, dizendo que o júri irá se reunir e batendo o martelo. Agora as partes envolvidas terão que aguardar. A sorte está lançada!

  17. Tema: Presídio. Condições: Texto sem “que” e com, no máximo, 5 verbos de pensamento.

    O Bisturi

    As horas passavam depressa por entre os dedos de Matias enquanto tentava salvar a vida de Emília. O tic tac do relógio pendurado sobre a soleira da porta atrás dele lembrava o contrabaixo tocado por ele na sua antiga banda do colégio onde, por algum motivo, ainda permanecia preso.
    Crescera.
    Seus instrumentos agora eram um pouco mais afiados embora continuassem afinados. De todos, o bisturi se tornara o seu predileto, transformando-o num especialista na arte de cortes milimetricamente precisos.
    No Hospital onde trabalhava ficou rapidamente conhecido por sua habilidade cirúrgica, pelo número de vidas salvas e por sua timidez impenetrável. Alguns enfermeiros até tentaram, mas não conseguiram quebrá-la.
    Não estava lá para conversas nem futilidades, isso ficava para quando estivesse em casa entre familiares e seus raros amigos; no trabalho, seu único objetivo era preservar a vida humana, além, é claro, de passar despercebido. O médico se concentrava nos sons ao seu redor; o bisturi rasgando a fina pele, a voz auxiliar da enfermeira, a sirene anunciando a chegada de mais vítimas, o coração do paciente – ou seria o seu? – pulsando contra o tempo tictacqueando no relógio, balançava a cabeça amputando pensamentos perturbadores e dedilhava seu instrumento favorito.
    Emília entrou para as estatísticas de pacientes salvos pelo seu bisturi. Permaneceu sob observação por dois dias antes de ser reconduzida ao Presídio onde uma inimiga havia lhe desferido a facada que lhe levara até as mãos de Matias. Ele ainda não sabia, mas Emília mudaria para sempre a sua vida.

  18. Era a prisão domiciliar.
    Cela para um só detento e espaçosa. Degraus o levavam até o alto nos dias de desânimo, esse era o mais alto que podia chegar. Olhava ao redor e chorava, gostaria de deixar o mundo se estivesse que escolher entre morrer ou ficar longe dele.
    Fugir? a cadeira era feita de finas grades que pareciam sumir quando se olhava de um lado para o outro, de um lado para o outro, o dia inteiro, até se cansar. Era feita de Pau-Brasil como as colunas de sua casa.
    Na hora da refeição o Carcereiro o banqueteava e ele agradecia com todos os xingamentos do hábito. O homem ainda se recostava para ouvi-lo de bico amarelo á mostra.
    Na ira ele o encarava. Penas verde maracanã e cabeça amarela, era um pássaro do Brasil.

  19. Quando abriu os olhos, Clarice se deparou com a figura de Felipe. Na mente dela, ele não passava da visão do inferno. Forçou por diversas vezes as pálpebras, em busca de saber se tudo aquilo não seria somente mais um pesadelo. Em vão! Em vez do pesadelo tão desejado; a realidade cruel.
    – Droga! Como vim parar aqui?
    – Bom dia para você também, meu amor
    Os lábios de Felipe tocaram a bochecha de Clarice. Nesse instante, cresceu nela uma repulsa tão grande, logo personificada com a vermelhidão deixada pela mão de Clarice no rosto do seu admirador. O estalo causado pelo bofete surpreendeu a moça.
    – Me deixa sair, seu nojento!
    – Desculpa, minha linda, mas o único jeito de você sair daqui é me dando um longo e apaixonado beijo.
    – Jamais!
    Felipe deu as costas para a jovem e saiu assobiando “Sweet child o’mine”. Ela permaneceu no local, se debatendo na tentativa inútil de se livrar das longas correntes de ferro. Seu corpo, preso à cama, desistiu de lutar.

  20. O desafio dessa vez é mais complexo.
    Tema: prisão.
    – sem usar nenhum “que” e só usar no máximo 5 verbos de pensamento (pensar, conhecer, compreender, realizar, acreditar que, recordar, imaginar, desejar, amar, odiar, esquecer, lembrar).
    Estou adorando os desafios e aprendendo muito com os podcasts de vocês.


    Maldito seja o celular

    A noite ainda não tinha acabado de chegar.
    O motorista, realmente muito bom nessa função, ligou o rádio e a luz interna para procurar o celular caído no chão do veículo, respirou fundo, olhou para os dois companheiros da missão e começou dando um cavalinho de pau na avenida principal e depois saiu cantando pneu. Os amigos gritavam eufóricos: – Bonzão, bonzão!!!
    Eles finalmente estavam a bordo daquela nave, como chamavam o veículo, e havia chegado a hora de curtir.
    Logo atrás, dentro de um outro carro, estavam mais três camaradas.
    De repente todos ouvem um som alto se aproximando, olham para atrás implorando para ser uma ambulância, mas não era.
    A perseguição começa. A polícia alcança um dos carros. No meio da confusão, um colega foge e os outros dois são levados para a delegacia.
    Mesmo nesse cenário de medo e pressão, o motorista bonzão conclui o plano, consegue fugir com os dois outros passageiros.
    Ele deixa os caras no bairro e vai para a casa. Chegando em casa, suando frio, adrenalina lá no alto ainda, lava o rosto e as mãos. O celular toca, o coração dispara, era um dos caras que foi levado para a prisão.
    – Cara, vem buscar a gente. Não pegou nada!
    – Jura?
    – Sim. Liberaram a gente. Vem logo!
    O motorista sai rasgando com o carro… Corre para a delegacia. Quando ele chega lá, se depara com o dono do carro.
    – Fudeu! Fudeu! Fudeu!
    Era tarde demais.
    O motorista, o bonzão, estava com o carro roubado e a vítima o identificou pois ele não havia apagado a luz interna do veículo…

  21. Rob e Barreto, conheci o podcast recentemente e estou ouvindo (e adorando) desde o primeiro episódio. Acabei de ouvir o 7o episódio e resolvi vir aqui agradecer com 1 ano de atraso.

    Sou redator publicitário, blogueiro (desculpa, Barreto) e gostaria de escrever fantasia. O podcast tem me ajudando a me manter motivado, a me apaixonar novamente pela profissão e a melhorar meu trabalho.

    Parabéns pelo excelente podcast. Um abraço.

  22. Prisão
    Seus gritos noturnos viraram folclore na família. Histórias se multiplicavam desde sua tenra infância. O enredo era sempre o mesmo. Corria para escapar de uma prisão, ofegante, o cheiro de parede entrando pelas suas narinas, áspera, interminável, próxima. Acordava aterrorizado em seu quarto aonde tudo era silêncio. Já nem vinham mais acudi-lo. Ficava bem depois de acordado.

    A natureza da sua prisão onírica lhe era desconhecida. Sem pistas da sua consciência, seu inconsciente se debatia em vão.

    Fora aconselhado a procurar ajuda especializada, um psicanalista. Só loucos precisam de psicanalista, ria-se ele com a boca seca e um frio subindo por sua espinha. Todos tinham suas prisões, essa era a sua.

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