Gente Que Escreve 006 – Toda História Precisa de um Herói?

Bem-vindos escritores, amantes da literatura e do entretenimento!

Nesse episódio do Gente Que Escreve, respondemos à pergunta: Toda História Precisa de um Herói? Falamos sobre grandes sagas, tramas que vão além do ciclo de vida de um único personagem ou família, de mundos tão grandiosos que sua existência é maior que seus moradores. Também conversamos um bocado sobre educação, preparação, treinamento e dedicação na hora de trabalhar com redação e literatura.

 

APRESENTAÇÃO

Fábio M. Barreto & Rob Gordon

EDIÇÃO

Fernando Barone

MÚSICA TEMA

Daniel Bellieny

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Championship Vinyl – Blog do Rob Gordon.
Championship Chronicles – Blog de Crônicas do Rob Gordon.
Filhos do Fim do Mundo – romance premiado do Barreto.
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SUGESTÕES, CR͍TICAS E DÚVIDAS

Envie e-mails com “Gente Que Escreve” na linha de Assunto para: fmbescritor@gmail.com

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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31 comentários sobre “Gente Que Escreve 006 – Toda História Precisa de um Herói?

  1. Sou inocente. É tudo culpa das velhas puritanas. Tudo começou porque chamem algumas meninas para uma festinha na minha casa. E, claro, é preciso farinha, pílulas azuis, energético e muito álcool. Nada demais. Antes de tudo, chamei uma prostituta chamada Grace, precisava dar aquela aliviada na tensão. Ela chega, faz o serviço e vai para o chuveiro e fico olhando pela janela e aguardo os convidados.
    Para que vocês entendam melhor, moro num condomínio fechado com piscina. Depois que a festa começou no meu apê, com muito bebida e pó na cabeça, fomos para a piscina, a Grace, que ainda estava na festa, tirou a roupa e pulou na piscina, sem ninguém nem imaginar que ela era puta, as outras meninas também foram com ela, é claro que os homens também pularam. Quando tirei a roupa é que a bagunça começou de verdade. As meninas adoraram o tamanho do meu pau e começaram a gritar “Pau grande! Pau grande!”. As velhinhas do condomínio chamaram a polícia. Só por isso. A polícia baixou a porrada na galera e é por isso que estou aqui. Que culpa eu tenho de ter um pau grande? A culpa é dos meus pais. Sou inocente.

    1. Opa, gostei. Mas eu não usaria o “para você entender melhor”. Ao invés de falar isso na narrativa, apenas explique. Por exemplo:

      “Moro num condomínio fechado com piscina e, depois que a festa começou no meu apê, com muito bebida e pó na cabeça, fomos para a piscina. A Grace, que ainda estava na festa, tirou a roupa e…”

      Tá vendo como, nesse caso, o “para você entender melhor?” é apenas gordura de texto. E, num texto curto e direto como o que você fez, nada de gordura. 🙂

  2. Fala barreto e Rob!
    A cada episodio eu aprendo muita coisa. sempre bom poder escutar vocês toda semana 😀
    Estava com dificuldades de equilibrar personagem e cenário, acho que com as dicas vai ficar mais fácil. muito obrigado!
    Quanto o exercício de escrita desse cast:

    Sonhos e uma decisão.

    A noite foi complicada, pesadelos relâmpagos assombraram minha mente. Acordei as três e vinte e cinco e tudo que conseguia lembrar era de um cara berrando em meu ouvido” você vai ficar entendeu!? ficar!?”. O rosto era desconhecido, a voz também a dor de cabeça dentro do sonho havia parado ao acordar. Voltei para os meus travesseiros. Quatro e dez acordei novamente dessa vez o pesadelo foi pior vi a Andreia, sim a Andreia. Ela carregava um bebe nos braços com um sorriso lindo no rosto. Que saudade dela, faz uma semana que terminamos. Minha cabeça estava bem até esse sonho maldito, ou, pelo menos, parecia estar. Nós terminamos por que ela estava me pressionando pra casar e isso eu não admito. Foi uma coisa boba eu sei, essa merda de orgulho fala mais alto em mim. Depois de falar o que falei, não tinha o que fazer, era manter minha opinião até o fim. Eu sinto falta dela e o pesadelo foi pior, eu sentia que o menino bochechudo era meu filho e de repente eles estavam passando alguma situação de perigo lembro vagamente. Ela gritava meu nome e pedia ajudar e eu estava ali, inútil. O rosto dela em pânico, ficou ali parado. Senti meu peito apertar, então acordei. Eu estava meio engasgado, tentei tossir mas não consegui e o peito continuou pressionado. Teve outros pesadelos que não me lembro direito. Eu acordei mais umas duas vezes ate consegui levantar.
    Hoje cedo escorei na minha janela. Sim como das outras vezes. Olhei la em baixo e aqueles pensamentos passaram na minha mente de novo. Eu sei augusto! Eles só passaram, ruim é quando eles ficam rondando. Lembro do que você me falou naquele dia. É o cúmulo da covardia, eu sei! Mas ainda não estou imune a eles. Não precisa de sermão. Eu vim aqui pra te falar que tive a ideia do ano. Quando sai da janela fui pro banheiro e você sabe que as melhores ideias surgem ali. Se não é de baixo do chuveiro, é no vaso. Ali estava avaliando o que você falou quando me apresentou a Andreia. ” Mulher igual essa você vai custa a encontra hein!?” E você estava mais que certo. É por isso que vim aqui. Liguei pra ela e ela aceitou me ver, falei que tinha que conversar com ela serio sobre nos. Sei que vou ter que engolir metade do que falei mas eu sinto que tenho que fazer alguma coisa em relação a esses pesadelos. olha só.
    O que você acha? Se ela aceitar você aceita ser meu padrinho?

    1. Gostei da ideia e do desenrolar. Mas o texto precisa de uma revisão, não apenas por erros de digitação como de ritmo. Mas, olha, é fácil: revise o texto lendo em voz alta (se for o caso, revise uma vez normalmente para pegar os erros e depois em voz alta). Nessa, em voz alta, você vai ver como tem frases que podem ser mais curtas – ou mais extensas – para ganharem força. Faça isso e esse texto vai melhorar ainda mais. 🙂

  3. Olá Fabio e Rob, estou gostando muito do podcast, parabéns!
    Segue ai o que criei com as palavras que deram:

    Olho pela janela e vejo um mundo de aventuras esperando para ser explorado. Abaixo da altiva lua cheia, vejo heróis e vilões se digladiando em vielas escuras, vejo feras magricelas atrás de carniça e restos descartados, vejo cantos inexplorados com música, bebida e boa comida. Mas estou aqui, devidamente trajado para essa campanha, com meu manto de linho feito sob medida, apenas imaginando como qualquer um desses lugares seria melhor do que meu destino.
    O que temo não são os perigos que posso encontrar pelo caminho que seguirei nesta noite sombria e poluída… não… eu conheço bem meu verdadeiro algoz, aquela criatura horrenda que me acusa de falácias toda vez que nos encontramos, aquele ser que me ameaça, que me diminui…. Só de pensar que estamos indo direto para a masmorra que tal monstro profano habita, já me faz sentir um frio no estômago. Devo blindar minha mente com uma ou duas doses da poção de Jack Daniels, para garantir que o mal não me tire a razão.
    O som do chuveiro sessa. Minha esposa sai apressada, já se enfiando em um vestido qualquer. “Rápido, já estamos atrasados para o jantar na casa de minha mãe!”, ela diz…. Que Deus me ajude….

  4. Esse ficou meio grande… Espero que gostem.

    ———-

    O Frentista do Posto 4

    As espaçonaves ovais de sempre traziam consigo os ricaços da Terra de volta de mais um cruzeiro de oito anos até Calisto. Claro que nenhuma viagem desta estaria completa sem uma parada no planeta vermelho na volta e o local ideal era parar no Posto 4. Mas o Major Frederico Schneider já estava de saco cheio daquilo.

    Da janela reforçada contra raios ultravioletas o Major, também conhecido como Fredão do Posto 4, observava toda a aproximação dos veículos, e os ajudava a manobrar e estacionar. Recebia os turistas que aproveitavam a lojinha de conveniências pra comprar pedaços de rocha vulcânica ou gelo solidificado em cristais. Alguns até provavam o questionável “sanduíche de ovo dos astronautas”.

    Após se livrar o mais rápido possível de suas visitas, Fredão seguia o ritual de sempre: apertava os mesmos botões do computador na mesma sequência, esperava o chuveiro de ar sugar toda poeira da aeronave, e observava os turistas fazendo selfies com a espaçonave atrás. O trabalho maçante o forçava a pensar nas suas escolhas do passado. O segundo astronauta brasileiro nunca entendeu essa vaidade toda das pessoas. Na verdade, ele discordava de tudo isso.

    Filho de trabalhadores rurais do interior de Santa Catarina, Frederico sempre gostou das conversas a noite em volta das fogueiras. Ele era um garoto alto e magro, que comia o milho que ele mesmo tinha plantado e ouvia histórias sobre como o mundo era manipulado, que o homem jamais tinha ido a Lua, que toda aquela “pseudo-ciência” era uma bobagem dos governos para arrecadar mais impostos. Mas Fredão não acreditava em nada disso e queria se livrar daquele trabalho árduo e ir pra bem longe…

    Aos 14 anos Frederico começou a estudar e muito na escola pública. Certo dia conseguiu um trabalho como auxiliar de TI. O técnico precisava de ajuda pra carregar o equipamento, acabou gostando do garoto e passou a lhe ensinar tudo o que sabia. Não era muito, pois o equipamento da escola era muito defasado. Mas foi o suficiente para lhe despertar uma nova paixão. Foi assim que, encorajado pelo chefe e amigo, Fredão passou num concurso e ganhou uma bolsa de estudos na Alemanha.

    O esforçado garoto sofreu um pouco com a língua, mas por outro lado descobriu todo um mundo novo. As pessoas ao seu redor comentavam sobre como a civilização estava avançando, sobre como a nova corrida espacial estava impulsionando os mercados e novas profissões estavam surgindo. Mas não era só no campo acadêmico que Fredão estava maravilhado. O adolescente também se encantou com as garotas. Resolveu seguir uma em particular, Eva Schultz, e quando ele percebeu já estava indo trabalhar na ESA.

    Após obter excelentes notas no colégio, Fredão foi prontamente admitido na faculdade de engenharia elétrica. Seguindo Eva, conseguiu entrar para o exército alemão. Retribuiu o feito usando sua reputação que começava a crescer escrevendo longos emails de recomendação para que a moça conseguisse uma boa oportunidade de trabalho. Após uns anos de treinamento veio o casamento. Logo depois obteve a cidadania Européia. Eva tinha acabado de conseguir um estágio em Frascati na Itália quando ele recebeu o convite para se apresentar no Centro de Treinamento de Astronautas em Colônia. Mas nem os 1,400 quilômetros de distância pode diminuir o amor que sentiam um pelo outro. Diga-se de passagem, naqueles dias isso era até normal e muitos casais moravam em países diferentes.

    Conforme o dia de sua missão se aproximava fatos estranhos começaram a surgir. Primeiro foi a propaganda. Um blogueiro entusiasta descobriu através de uma rede social quem era aquele alemão que iria embarcar para uma missão de tanto tempo em Marte. Alguns podcasts e vlogs depois e o Brasil inteiro estava unido e torcendo pelo segundo astronauta Brasileiro. Mais do que isso, o novo herói nacional seria o primeiro sul-americano a ir para Marte, e ficar um longo período de tempo no espaço! O que por algum motivo tornava o tetracampeonato de futebol da Argentina insignificante.

    Logo depois Frederico notou que Eva estava meio distante dele. Pensou que ela estaria empolgada com a missão. Mas a esposa por algum motivo não fazia nada além de se dedicar ao terceiro doutorado com o mesmo professor Italiano do segundo…

    Restava então para Fredão focar na missão e provar para todos que não existiam essa coisa de “pseudo-ciência” e outras teorias de conspiração. O futuro enfim estava diante dele! Finalmente iria colher os frutos de tantas noites mal dormidas. Marte o aguardava!

    Mas protegido dos raios ultravioleta diante daquela janela, ligando e desligando os chuveiros de ar foi que Fredão descobriu que também era um instrumento da ESA. A agência passava por maus bocados e devia alguns favores a iniciativa privada americana. Descobriu que não havia tanto heroísmo naquilo e que as teorias de conspiração eram muito mais empolgantes. Lutava contra ele mesmo a fim de evitar a depressão e afastar o pensamento de que na verdade era melhor ter ficado na Terra plantando milho do que ser um frentista no espaço.

  5. Olá meninos!
    Excelente trabalho!
    O sentimento com o email do nosso colega é mútuo. Inteligência e burrice andam ao meu lado desde os primeiros dias que passei a escrever (são poucos, na verdade). Em alguns momentos a sensação de que estou escrevendo uma história ótima, é tomada pela consciência que aquilo é muito estúpido. Quando alguma ‘coisa’ realmente sai no papel, ainda fica a incerteza do bom ou ruim.
    Como escrevo há pouco tempo, ainda não divulguei essa nova caminhada aos amigos e familiares, pois venho de uma área completamente diferente. Apenas meu marido está sabendo que estou realmente empolgada com essa nova fase. Mas ainda não me sinto pronta, preparada…
    De qualquer maneira, agradeço o que vocês estão nos proporcionando, pois aos poucos, estou me identificando cada vez mais com a proposta.
    Segue um breve conto sobre as palavras citadas para o exercício.
    Um grande abraço!

    Água Morna
    Todos os dias ela me acompanhava até o banheiro, e quando eu começava a me despir, já empurrava com delicadeza a porta encostada, e adentrava sem pedir licença. Sentava seu imenso corpo no tapete em frente à pia, e arrumava seus cabelos louros.
    Quando liguei o chuveiro nessa noite, a água ainda estava fria, mas não hesitei em molhar meu corpo que rapidamente estremeceu, como se pudesse afastar todos os meus pensamentos. Fechei a janela para que meu marido não pudesse ouvir meu choro, me escorei na parede, deixando meu corpo escorregar pelo azulejo até o chão. Olhei para o tapete, e ela não estava lá. Não veio ao menos pedir um gole de água morna que agora já caia sobre mim. Minha querida companheira partiu sem se despedir.

    1. Desafio aceito e efetuado em apenas um paragrafo.

      Nada na minha mente, estou sujo, tanto minha alma quanto meu corpo estão imundos, vejo a água límpida descer vinda do chuveiro com suas gotas mornas, elas tocam meu corpo e escorrem levando consigo a sujeira que impregnava minha pele. Lá embaixo a água está vermelha, todo o sangue que cobria meu rosto e braços desce pelo ralo deixando novamente esta casca que habito limpa para aqueles que olham de fora, o problema é que não lembro de onde o sangue veio, minha ultima lembrança é apenas de vê-la pela janela, linda como o por do sol do Guaíba.

    2. Jones,

      Não sei se entendi direito sua pergunta, mas eu lancei dois livros por on demand. A empresa oferecia serviços adicionais (revisão etc) mas tudo cobrado. Eu optei em passar por essas etapas de outra forma, e publiquei de graça, sem pagar nada (quase como um pacote básico, digamos).

      Sobre o texto que você mandou no comentário abaixo: adorei. Pesado e violento sem ser violento, isso é difícil de fazer. 🙂

  6. Fábio, Rob! Ai vai a tarefa!

    A segunda-feira tinha sido profundamente cansativa para ela. Seu chefe havia exigido o triplo de trabalho usual. O trânsito da cidade não tinha colaborado. Finalmente estava em casa.
    Deixou os sapatos na porta, o casaco no mancebo e deitou no sofá. Assistiu TV quase sem se mover por quase duas horas. Preparou um rápido omelete e foi tomar banho. Despiu-se e entrou no chuveiro. A água morna a relaxava. Lavou os cabelos e, ao terminar de enxaguar, quando abriu os olhos, viu alguém a espiando pela fresta da janela com um olhar fixo.
    Lembrou-se que morava no 18o andar.

    1. Muito, muito bom! Eu acho, porém, que faltou impacto na frase da surpresa final. Ela funciona, mas ficou meio burocrática, e precisaria ser o ponto alto do texto. Talvez uma ação além do “lembrar” ajudaria, tipo:

      “Ao perceber que havia sido avistado, o rosto desapareceu rapidamente – um instante antes dela se lembrar que morava no 18o andar.”

      É só um exemplo, claro. Dá para trabalhar ainda mais com ela. Mas apenas para ilustrar o quanto ela é importante dentro do texto – é essa frase que vai tornar a história inesquecível para o leitor.

  7. Vamos que vamos. (Mas queria falar mesmo era: VAMO QUE VAMO!)

    CRÔNICA . EXERCÍCIO, PODCAST GENTE QUE ESCREVE. EPISÓDIO 06. JANELA E CHUVEIRO.

    Quem já precisou de um pedreiro sabe o martírio que é ver esse tão nobre profissional respeitar prazos e o seu dinheiro. Não que todos sejam completamente avessos ao que reza o contrato onde diz que a obra durará oito meses e no fim vira um ano e meio, que todos deixam 85% da obra na responsabilidade de seus ajudantes e que na sexta-feira só trabalhe até às duas horas da tarde, mas tem alguns que nasceram para brilhar na arte de irritar o “patrão” quando este resolve dar aquela visitinha surpresa na obra:
    _ Oh, Josué! O que esses caibros estão fazendo no meio da sala, cara? – Sérgio pergunta com certa impaciência para seu pedreiro.
    _ Calma, patrão! Os meninos precisaram cobrir um pedaço pequeno de…
    _ Como calma? Josué, você conhece a Camille. Se ela me chega e encontra esse monte de pau espalhado por aqui é comigo que ela vai reclamar! Poxa, tem mais de três meses que você me pediu calma para concluir a obra – interrompe Sérgio, transformando o nervosismo de antes em uma voz chorosa.
    _ Calma… Digo, está perto do fim doutô Sérgio. Venha, vou te mostrar que beleza está ficando.
    Josué guia Sérgio pelo resto da casa mostrando o reboco concluído na cozinha, o piso no quarto das crianças, o piso antiderrapante na varanda, as lâmpadas nos corredores, o trabalho de pintura estilizada em marmorato feito na sala de estar e o rejunte quase seco da parede do banheiro:
    _ E o chuveiro, Josué? Tudo nos conformes?
    _ Tudo padrão Fifa, doutô.
    Sérgio resolve testar a queda de água e liga-o esperando ver a lei da física em ação, onde a água bateria no piso, teoricamente um terreno em declínio e encontraria seu destino final, o ralo que, segundo Camille, tem acabamento cromado com escoamento oculto, dando aspeto mais clean sem aparecer a borda plástica junto ao piso. Porém, o que ele viu foi água acumulada e seguindo direção contrária do bendito ralo chique.
    _ Puta que pariu, Josué! – esbravejava todo o seu descontentamento sobre o pedreiro – hoje eu não durmo em casa, rapaz! – saindo do banheiro em direção à sala deparando-se com a janela coberta por um lençol – e o que é esse pano cobrindo a janela agora?
    _ Ah, isso sim eu tenho que mostrar pro senhor – fala enquanto retira o lençol de cima da janela, revelando um buraco que deveria ser quadrado ou retangular aproximando-se mais para a figura de um trapézio – Se eu fosse o senhor começaria a conversa com Dona Camille pela janela. Vai fazer o problema do banheiro parecer fichinha perto desse. Mas eu dou um jeito…
    Um misto de terror e choro de filho onde a mãe não vê encheu o peito de Sérgio. Queria explodir, fugir de Josué, da Camille, da semana. Mas respirou fundo e arriscou:

    _ Vou fingir que nem vi. Mas e a escada?
    _ Então…

    1. A ideia é muito boa, e brinca com o tema que a gente passou de forma divertida. Mas eu mudaria o começo, com um truque que uso às vezes: ao invés de dizer que a maior parte dos pedreiros é pilantra, eu colocaria que eles são minoria – porque, convenhamos, todo mundo já encontrou um pedreiro desses e o leitor vai se identificar. Mas se você diz que a maioria é assim, o leitor vai achar “ok”; agora, se vc diz que nem todos são assim, o leitor que já pegou um pedreiro desses (ou seja, quase todo leitor) vai se identificar ainda mais, achando que só ele e você passaram por isso. 🙂

  8. Olá Fábio e Rob.
    Mais um programa ótimo.
    Muito obrigado pelo incentivo!!
    Grande abraço!

    Rua tempo
    Caía uma chuva fina. Sem fugir à regra vinha acompanhada de um vento frio daqueles que faz tremer o corpo e transforma qualquer tentativa de fala em uma imitação mal sucedida de ovelha.
    Apesar das condições climáticas, a jovem andava sob o chuveiro celeste sem desconforto.
    As roupas, sem dúvida não eram adequadas para aquele tempo e lugar. Apesar de cobrirem além dos ditames da moda, não a protegiam do frio que, no final das contas, não parecia incomodá-la.
    Desde que fora atraída àquela rua, coisas estranhas aconteciam. A cada retorno, e eram muitos, uma nova experiência.
    O modus operandi era sempre o mesmo. Caminhava à esmo e esperava os acontecimentos.
    Nessa ocasião, vagava pela rua admirando as paisagens variadas dentro das casas através das janelas. Belas paisagens.
    Poderia entrar em qualquer uma das casas sem ser vista por ninguém. Essa era uma constante em todas as visitas à rua, nunca era vista ou percebida por ninguém.
    A moça parou diante de uma casa aparentemente comum, aproximou-se de uma janela com a pintura um tanto gasta pelas intempéries.
    Com os cabelos castanho-escuros e o camisolão encharcados postou-se diante da janela e viu um rapaz desenhando muito compenetrado.
    O rapaz levantou a cabeça e olhou em sua direção deixando o desenho à mostra.
    Havia na folha um rascunho muito avançado de uma mulher parada diante de uma janela em um tempo diferente daquele em que se encontravam.
    Olhando atentamente percebeu que a mulher desenhada era muito parecida consigo, apenas um pouco mais velha.
    Qual seria o significado daquilo?
    A outra diferença era o fato de, no desenho, a mulher estar do lado de dentro de uma casa no seu próprio tempo.
    Voltando do devaneio a moça deu de cara com o rapaz do outro lado do vidro olhando dentro de seus olhos e através deles.
    Leu-lhe nos lábios uma mensagem dita em uma língua de outra época, uma época ainda por vir. De alguma forma entendeu perfeitamente o que fora dito.
    Fixou os olhos nos dele e viu o próprio reflexo.
    Voltou por onde viera, para a época de que viera, sabendo que não era de época nenhuma ou de lugar algum.
    Deixou o rapaz um tanto agitado em si mesmo, parecendo procurar algo que não sabia bem.
    Viu e foi vista.
    Pela primeira vez agradeceu a Deus por ter sido atraída àquela rua onde o tempo passava de um jeito diferente.
    Agora sabia quem a atraíra para lá.
    O rapaz ainda iria ao seu encontro e ela finalmente poderia recebê-lo e retribuir.
    O tempo não seria mais uma barreira.
    Seu tempo seria já, seu lugar aqui.

  9. Ele via a vida passar por uma pequena janela.
    Por ela via pessoas muito felizes mandando mensagens otimistas. Via pessoas defendendo bandeiras nobres como igualdade, caridade e representatividade. Via pessoas contando piadas engraçadas em cima de notícias atuais.
    Mas também via amizades terminando por conta de discussões políticas polarizadas. Via veículos de comunicação divulgando notícias sensacionalistas e deturpadas. Via relacionamentos abalados por conta de ciúmes exagerados.
    Em determinado momento ele viu uma pessoa anunciando a compra de um chuveiro no formato do rosto de Darth Vader, vilão da série de filmes Guerra nas Estrelas; e fez uma pequena pausa para refletir. Percebeu que a sua vida também estava passando enquanto observava aquela pequena janela.
    Desligou o celular e foi fazer um café.

  10. Escritor de Chuveiro

    Certa vez Roberto demorou tanto no chuveiro que não viu o universo acabar.

    Roberto era escritor, e usava muito bem seu tempo no banho. Lavava-se rapidamente e ficava lá parado pensando, deixando a água escorrer pelos cabelos, cair pelos ombros e descer pelo ralo, até sair de lá com uma ideia. O som do chuveiro ligado, o barulho da água nos ouvidos, a massagem das gotas na pele, tudo isso parecia levar Roberto para um outro universo, que conectava com sua mente e lhe transmitia pensamentos que não eram seus. Pensamentos esses que depois roubava em forma de ideia.

    No começo seu processo não era assim, escrevia quando a ideia vinha naturalmente, quando a inspiração era lançada pelo vento até o interior de seu cérebro. Isso era algo que acontecia ocasionalmente. Mas foi preciso mudar quando conseguiu um emprego em uma revista importante. Precisava de textos semanais, contos semanais. Sua contratação era uma aposta da revista, era a estréia da coluna ficcional. Precisava de histórias intrigantes e envolventes toda semana. Sofreu muito no começo, o stress semanal de ter que forçar uma ideia nova começou a pesar demais. Às vezes queria desistir. Certo dia, ficou mais tempo no banho, quase chorando, angustiado por sentir que não seria o escritor que queria ser, quando depois de um longo tempo, uma ideia de história veio como um soco em sua mente. Foi de uma maneira totalmente diferente, não soube explicar, foi como uma súplica atendida por um anjo que não agüentava mais ver seu coração atormentado. O calor que enchia seu peito mudou de intenção, foi de angústia para euforia, e saiu correndo para seu computador. Mal havia se enxugado, escreveu tudo o que aquela ideia poderia proporcionar. Nesse dia descobriu a fórmula mágica, o banho era inspirador, o chuveiro levava sua mente à outro mundo.

    Mas depois desse dia essa era a única maneira que conseguia criar, e não era sempre que esse outro mundo lhe trazia a ideia magicamente. Muitas vezes ficava horas até conseguir uma ideia, e às vezes a ideia era ‘meia-boca’, como pensava consigo mesmo depois de ler seu texto recém escrito. Em seu último banho o prazo já havia sido estendido. Os editores estavam furiosos com ele, ou pelo menos era isso que achava. Precisava do texto agora, não podia chegar na redação no dia seguinte sem nada novamente. Assim resolveu que não sairia do seu banho sem a ideia de sua história. E no banho ficou. Não percebeu as gerações que passaram pela Terra. Não viu a nova raça evoluir e tomar conta do planeta até a raça humana regredir e se extinguir. Não viu a nova raça enfrentar a destruição total do planeta. Não viu o Sistema Solar se expandir até os planetas perderem sua órbita com o Sol e tudo entrar em colapso. Não viu quando algo parecido aconteceu com o universo e nada mais havia em volta pois tudo virou poeira cósmica. Quando percebeu que estava tempo demais forçando sua ideia, resolveu abrir os olhos e se sentiu muito velho. Extremamente velho e cansado. Em sua mente achou que ficou tanto tempo no chuveiro que já havia amanhecido. Resolveu abrir a janela, que tinha uma película totalmente negra para se isolar e se concentrar melhor. Quando abriu, viu a poeira cósmica invadir o local pela janela. Se viu cercado de luz, parecia estar em chamas, e todas as moléculas de seu corpo foram consumidas. E de repente tudo virou escuridão. Seu banheiro, a fonte de ideias que ficava em alguma dimensão peculiar e longínqua, era a última coisa que faltava para a extinção do universo.

  11. Olá.
    Não consegui colocar um titulo mas segue o Texto com as palavras Chuveiro e Janela:

    Telefone toca. Depois de tudo é uma surpresa que a energia e telefone fixo ainda funcionem. No segundo toque Alex atende.
    – Alô.
    – Oi Alex.
    – Oi vó. Tudo bem – Alex percebe a inutilidade da pergunta quase que imediatamente. Mas não consegui evitar o costume. Sua avó não responde. Após um breve silencio a conversa segue.
    – Já terminou os preparativos?
    – Já sim.
    – O que você conseguiu?
    – Algumas garrafas de água, Sardinha e Atum empatado. Achei também dois pacotes de farofa pronta. Na casa da dona Édina tinha umas frutas e um Panetone.
    – Isso não é muito.
    – Vai durar uns dias – Mais uma pausa. O suspiro pesado da Avó fez Alex continuar – Na casa da dona Édina também achei um fação e uma enxada. E peguei aquela machadinha na garagem
    – Não leva a enxada, e pesada, desajeitada; não da pra usar.
    – Tirei a lamina, vou levar só a madeira. É de boa qualidade. Não vai quebrar fácil com o impacto.
    Mais um silêncio incômodo.
    – Quando você pretende sair? – Por fim a Avó fala.
    – Amanhã, assim que o sol nascer.
    – Como você vai?
    – De bicicleta. Eu vou…
    – Como assim? – A avó interrompe – Eles vão atrás de barulho! Assim que você mexer naquelas… coisinhas; vai atrair eles pra você!
    – Calma vó, eu tirei as marchas; as coisas que fazem barulho. A bicicleta está bem silenciosa, ontem dei uma volta no quarteirão para testar. – O silencio novamente. Passado alguns momentos. Sem mais objeções da avó Alex continua – Bem, vou sair daqui quando amanhecer. Vou até o Barreiro, ver se acho algum supermercado ou farmácia que ainda não foi roubado…
    – “Foram” e “saqueados” – Diz a avó. ele continua:
    – Que ainda não “foram saqueados”. Depois vou pela Tereza Cristina até a Avenida Amazonas…
    -Será que não é melhor passar por alguma rota alternativa, menos populosa?
    – Já pensei nisso. Não tem. Como a internet caiu não posso pesquisar rotas alternativas. Acho que é melhor ficar por onde conheço. Posso me perder e acabar preso em algum beco sem saída…
    – Tem razão, continua repassando o plano. – Alex é interrompido mais uma vez. Sabendo da natureza objetiva da avó ele prossegue:
    – Bem… eh; vou chegar na avenida Amazonas e ver o movimento. Se estiver muito cheio vou continuar na Tereza Cristina até a via expressa. Dependendo do horário vou ver se continuo ou acho algum abrigo…
    – É melhor achar um lugar para descansar. Vai ser mais fácil lacrar um quarto no bairro o que uma loja mais no centro.
    – Verdade. – Alex responde em tom conciliatório. Nunca adiantou discutir com a avó. E nem considerava fazer isso devido as circunstancias apenas prossegui – Depois vou fazer o possível para chegar na estação Central…
    – Não acho que o Metrô esteja funcionado Alex. E mesmo se estiver é barulhento. Vai atrai-los!
    – Eu sei vó! Já disse isso. Eu vou seguir os trilhos do trem… Bem, primeiro vou procurar água e comida. Depois vou seguir os trilhos do trem. Vou até a estação Dois Irmãos. Fica perto de Barão de Cocais. De lá vou para Cocais.
    – Ótimo.
    Um breve silencio.
    – Vô, como está o pessoal aí?
    – Tudo bem, seu tio esta consertando o chuveiro. E suas tias fazendo o jantar. Só a Samanta que está meio triste.
    – Ela ainda esta esperando?
    – Ela não sai da janela, foi a única aluna que ficou na escola. Ninguém veio por ela. – E mais uma vez o silencio se instala. Depois a Avô continua. – Agora Alex, confira que as portas e janelas estão bem trancadas, dorme um pouco que amanhã será um longo dia! Quando estiver andando não se esqueça de ser o mais silencioso possível especialmente na cidade, e não confie em ninguém! Beba água, mas lembre-se que tem que economizar ao máximo. Assim como com a comida.
    Mas um silêncio. Este dura mais que os outros.
    – Vô; dá pra mim ir praí…
    Outro silencio. Seguido por uma voz estranhamente animada do outro lado da linha:
    – Alex, não precisa. A comunidade sempre se apoia. Os Traficantes e a milícia finalmente estão se dando bem. Estão defendendo o alto do morro. E mesmo que tudo em volta esteja tomado, munição é o que não falta pra eles. E também estou ajudante a Matilde controlando os mantimentos que conseguimos. Do jeito que está podemos resistir por semanas.
    – Mas vó…
    – Não se preocupa Alex. – Ela diz com voz firme, depois acrescenta mais cordial. – É mais perigoso para quem está no pé do morro, lá está tomado. Se não tem como nos sairmos, não tem como você entrar. Além disso, do jeito que eles andam e se alimentam, em mais algumas semanas não serão mais problema.
    – Eu poderia ficar aqui então e esperar…
    – Alex, você tem que seguir o plano. Você é meu único neto. E o único que está realmente em condições de ir para um local seguro. Você me disse que em Cocais tem cachoeiras e nascentes, lá você vai achar água. É uma região agrícola, então vai conseguir suprimentos. E como é pouco conhecida talvez a praga não tenha chegado por lá. Mesmo se tiver chegado é menos populosa e… – Deixou a voz morrer, depois concluiu– e eu vou me sentir melhor se pelos menos você se salvar.
    Alex sabia que a Avó não queria falar aquilo, toda a confiança que tentava passar desde o inicio da ligação caiu por terra. Mas ele preferiu fingir que acreditava.
    – Tá certo! Manda um abraço para o pessoal ai. E toma cuidado. Amanhã eu ligo quando for sair.
    – Alex. Não ligue mais.
    Antes que Alex conseguisse reagir, a ligação é encerrada. Levaram segundos para que ele entendesse e mais alguns para tomar uma iniciativa. Discou para a avó. Chamou até desligar. Tentou mais uma vez. E outra vez. Mais uma. Depois parou para racionalizar. Aquilo era uma despedida.
    O torpor que seguiu a aquela despedida lhe tirou a fome, e o sono foi difícil, irregular.

    A manhã demora pra chegar.

    Alex olha para o telefone e confere a mochila. Água, comida, facão e machadinha. Na bike ele amarra com arame o cabo da enxada de forma que fosse fácil retirar numa emergência.
    Ele olha para o telefone mais uma vez.
    Coloca a mochila nas costas e abre uma fresta na janela. Espia do lado de fora. Aparentemente não tem ninguém.
    Ele olha para o telefone mais uma vez, demoradamente.
    Abre a porta e procura sinais de movimento. Nada a vista.
    O telefone continua a desafia-lo.
    Saiu com a bike, está pronto pra iniciar a viagem. Ele olha mais uma vez para o telefone. Em seu rosto uma expressão séria encarava o telefone quase que implorando. Seu rosto se torna uma massa aflitiva por alguns instantes até que suaviza em um sorriso conformado.
    Alex desse a rua em silêncio. A bike sem marchas e com eixo fixo é realmente silenciosa, além do roçar dos pneus no asfalto não se ouve ruídos.

    E no barracão alguns quarteirões atrás um telefone chama insistentemente.

  12. Olá Fabio e Rob, tudo bem?
    Descobri vocês semana passada procurando oficinas de escrita on line.
    Ontem, comecei a ouvir o gente que escreve e já escrevi um conto. Coloquei lá nos comentários.
    Hoje, mais um. Isso tem me disciplinado a sentar para escrever, obrigada!
    Estou gostando muito do podcast, parabéns!

    Segue o que escrevi com as palavras que deram:

    Banho de Água Fria

    – Sabia que às vezes tenho vontade de fugir?
    – Pra onde?
    – Nenhum lugar especifico, pro mundo, pra vida…
    – Mas pra quê, Corona? Não basta ver o mundo através dos meus olhos?
    – É que a vida através de você fica tão embaçada, Blindex.
    – Aff, não precisa ofender, né?!
    – Me desculpa, não foi isso que eu quis dizer.
    – Você não acha que é velha demais pra ter esses sonhos bobos?
    – E sonhar tem idade, meu bem? E tem outra: velho é você!
    O casal emudeceu assim que Renatinho entrou no banheiro. Ele escovou os dentes, usou o fio dental, penteou os cabelos ajeitando-os com um pouco de gel, passou um perfume e saiu da mesma maneira abrupta com que entrara.
    – Ele deveria tomar mais banhos comigo e menos com esse perfume horroroso!
    – Deixa o rapaz, Corona. E hoje, você aposta em quê?
    – Acho que ele volta sozinho. Tá fedido e mal arrumado – riu do comentário maldoso.
    – Eu acho que ele aparece com aquela ruiva de novo. Ela era linda!
    – Você tá de brincadeira, benzinho? Ou quer que eu lhe faça em pedacinhos?
    – Aff, calma, mulher ciumenta! Hoje você está demais, hein? Está de TPM?
    – Engraçadinho. É por essas e outras que eu queria sair daqui; conhecer outros vidros por aí!
    – Te garanto que nenhum cuidaria de você como eu cuido. – Blindex fechou a cara.
    – Eu não sei como posso gostar de alguém tão seco como você, sabia? – Deixou cair umas lágrimas.
    – Deixa de bobagem. A gente se ama. E depois, a nossa vida é tão tranquila.
    – É exatamente por isso que eu gostaria de fugir.
    – Corona!
    – É verdade. Nossa vida não é tranquila, é monótona.
    – Mas eu faço de tudo pra te deixar feliz! Te protejo do frio, te aqueço com os raios do sol, canto com o vento só pra te fazer dormir, prefiro chorar com a chuva a deixar que ela te molhe. O que você quer mais?
    – Algo que você nunca poderá me dar.
    – Aff, e o que é?
    – Liberdade.

  13. Não precisamos de rótulos

    Um ser humano diz para o outro:

    – A janela está aberta, acho melhor fechá-la.

    Por um momento Janela fica angustiada. Vive dizendo que não se importa com pronomes ou por qual nome a chamam e que o importante é ter sua dignidade e ser tratada com respeito, mas quando o artigo feminino vem definindo, aquela sensação horrível vem à tona.

    Janela, olhando para o horizonte, diz:

    – É muito cruel que o destino de uma pessoa seja definido por um único órgão!

    O Chuveiro logo se intromete:

    – Janela, deixa eu te falar, essa discussão só cabe a quem tem órgãos genitais.

    Ela retruca de forma implacável:

    – O órgão que eu me refiro é a língua. Sexualidade é uma coisa e gênero é outra coisa. É fácil para você falar: nasceu Chuveiro, O Chuveiro. Eu nasci janela, mas para todos sou A Janela. Nunca me perguntaram se me sinto bem sendo tratada assim. Em todo o canto que eu consultei, referem sempre a mim e às que se parecem comigo como seres femininos. Em alemão é die fenster, em francês é la fenêtre, em espanhol, la ventana e em italiano, la finestra… todos femininos. Em inglês eu sou the window, único idioma que não me define pelo meu gênero, o único modo possível para que eu possa ser feliz.

    O Chuveiro, meio sem entender, meio sem reação, fica olhando para Janela, enquanto ela continua a explicar o motivo do seu tamanho descontentamento.

    – Ser ele ou ela não deveria ser algo tão determinante assim para as nossas vidas. Os papéis mudam absurdamente dependendo de como nos classificam. A sociedade nos olha de maneiras diferentes.

    – Janela, mas eu já fui chamado de “ela”. Fui chamado de A Ducha! Mas, eu sei que sou O chuveiro e isso não me abala.

    – O que falaram para você foi apenas uma brincadeira. Já eu, eu sou trans.

    – Trans?!

    – Sim, sou transgênero ou transexual, como preferir. Trans é definido como o desejo que leva a pessoa a querer pertencer ao sexo oposto, passando a adotar os trajes do outro sexo ou a se submeter à cirurgia visando uma transformação sexual. Entendeu?

    – Janela, você é um travesti?

    – Eu prefiro que me chame de trans. Travesti é um termo usado no Brasil para designar quem se identifica com o sexo oposto ao do nascimento, faz alterações no corpo, mas não deseja realizar cirurgia de adequação sexual.

    – Nossa! Eu não sabia! Então você é hermafrodita?

    – Não, não sou! Hermafrodita é o ser que reúne em si os caracteres e os órgãos, ou somente os órgãos, dos dois sexos.

    Você está misturando todos os conceitos!

    – Desculpa, mas isso tudo é muito novo para mim. Então me ensina para que eu possa entender e aprender a respeitar!

    – Vamos lá! (Diz Janela). Dragqueen é um homem que se veste como mulher para shows e performances. Existe o termo dragking para mulheres que se vestem de homens para shows. Crossdresser é quem gosta de se vestir como o sexo oposto ao designado no nascimento no dia a dia ou em situações de fetiche, mas não se identificam com o sexo oposto.

    – Caraca!

    – É isso, Chuveiro! Muitos conceitos para muitos tipos de pessoas. Sabe o que mais me oprime?

    – Não faço a menor ideia, Janela!

    – É morar nesse banheiro Masculino de escola. Lugar opressor. Lugar onde só pode entrar quem nasceu homem. Não pode entrar quem se sente homem, mas que nasceu num corpo de mulher. E eu, eu não posso fazer nada além de reclamar.

    – Mas você fez! Você me explicou. Eu não sabia desse tanto de tipo de categoria, não sabia o motivo das suas lágrimas constantes. Vou te respeitar ao máximo. Vou espalhar esses conhecimentos para o mundo.

    – Você entende a implicação? Desde qual banheiro eu devo frequentar até como a sociedade vai me ver, como as pessoas vão me tratar na rua…Você não faz ideia do tanto de gente que é como eu e se mata por que não se aceita. Por que a sociedade diz que somos doentes, que somos sujos… Precisamos transgredir as normas, precisamos de uma revolução de gênero, precisamos do feminismo, dos movimentos sociais de minorias, precisamos vencer o preconceito. Somos muito mais do que simples rótulos.

    Chuveiro:

    – Somos sim!

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