[Entrevista] Tá na hora do Trovão Tropical!

Eles são atores tirando sarro de atores e não estão nem aí por criticarem a si mesmos. Trovão Tropical chegou para chacoalhar o mercado!

Trovão Tropical faz rir. Ponto. Por ser uma comédia, não precisaria ir além disso, mas, sob a batuta de Ben Stiller – que estrela e dirige o longa-metragem –, acaba criticando a classe artística de Hollywood e sobra para todo mundo. Stiller se destaca como o sem-noção que tenta salvar a carreira, enquanto Robert Downey Jr., atuando como “negão”, força tanto na gíria e no perfil “downtown LA” (acho que ele é parente do LeBrown, sei não), que nem mesmo o resto do elenco entende o que ele diz. Jack Black é o ponto fraco. Totalmente descartável e sem estilo, ele só ocupa espaço do que poderiam ter sido boas piadas. Adoro o Jack, mas ele começou a me deixar com a pulga atrás da orelha. Será que ele sempre foi tão repetitivo assim e só agora estou me tocando? Humm.

Cercado de polêmica – negros e grupos ligados a deficientes mentais protestando contra os exageros –, o filme é lotado de referências a clássicos de guerra, com direito a remake de cenas de Platoon, e mostra como a química entre o alucinado Downey Jr. e Ben Stiller, em mais um bom momento, funcionou muito bem. Além de tudo isso, Tom Cruise – mais doido que o normal – pinta e borda como um executivo de estúdio sem o menor escrúpulo. É um dos mais engraçados da temporada e não dá a mínima para a opinião dos críticos.

Bastante efetivo nas bilheterias, Trovão Tropical depende exclusivamente de seu elenco, que se auto-avacalha sem o menor problema. Entretanto sua melhor arma é Ben Stiller, que se mostra competente no comando e, diferentemente de seus companheiros, consegue separar as piadas das respostas conceituais quando fala de seu mais querido filho. O lançamento em Los Angeles foi uma zona por culpa do trio de estrelas, que não para de falar besteira e não deixou Ben Stiller em paz, mas, mesmo assim, alguma coisa se salvou no meio da bagunça!

Contém spoilers


Tom Cruise surpreendeu no filme. Ele topou o personagem logo de cara?

Ben Stiller: Na verdade foi o contrário, ele já gostava muito do roteiro e acabou sugerindo a idéia para o papel. Ele disse: ‘vocês tiram sarro dos atores, mas não falam nada sobre os executivos. Acho que podemos explorar isso.” Então, Justin [Theroux, roteirista] e eu aproveitamos para cobrir um buraco na história, afinal, esses caras estão perdidos na selva, mas por que ninguém vai procurar por eles? E foi aí que o executivo se encaixou perfeitamente! Mas qual foi minha surpresa quando ele recusou a oferta para interpretar o agente [que ficou com Matthew McConaughey] e bateu o pé para ser o cartola do estúdio.

E ele ficou irreconhecível com toda aquela maquiagem!
Stiller: Isso foi muito engraçado, pois ele pediu para ter mãos grandes. ‘E além de grandes, têm que ser peludas. Ah, e o sujeito vai ser careca e gordo ao ponto de ter mamilos!’ Todo mundo começou a rir, mas piorou quando ele começou a dançar durante o teste de maquiagem.

Qual era a música de fundo?

Stiller: Nenhuma! Ele começou a dançar espontaneamente. Eu achei que seria ótimo inserir isso no filme, realmente parecia divertido dançar com aquele cara. Tom foi fundamental para aquele personagem desde as primeiras idéias que deu quando leu o roteiro.

Quais os filmes de guerra prediletos de vocês?
Stiller: O Franco-Atirador é um dos meus favoritos, ao lado de Platoon e Apocalipse Now. Pelo menos em termos de Vietnã, sempre que posso assisto algum desses.

Jack Black: Gosto daquele com o Sean Penn…

Robert Downey Jr: Pecados de Guerra.

Black: Isso, esse! A performance dele é fantástica! O filme em si não seria um favorito, mas o que ele faz realmente me impressiona!

Downey Jr: Nada é tão bom quanto a vida real, cara. F***-se os filmes de guerra, eu gosto de assistir ao bom e velho Military Channel e conferir os bravos soldados americanos lutando pela democracia em tempo real. Acho melhor retirar esse comentário, deu um branco aqui. Acho confuso falar sobre isso, acho que você vai me julgar baseado no tipo de filme que eu escolher, então não me sinto pronto para esse tipo de avaliação. (risos).

Qual foi o maior exagero que vocês pediram durante as filmagens?
Black: Eu fiquei frustrado quando fiquei tempo demais no Sol e não tinha ninguém responsável por passar protetor solar nas minhas costas. Isso deveria estar no contrato!

Robert Downey Jr: Pedi uma réplica de um ônibus espacial do tamanho de um carro para colocar dentro do meu trailer. Mas ela ocupada todo o maldito trailer, o que significa que acabei ficando sem um trailer, então tivemos que dar um jeito nisso.

Stiller: A única coisa que eu pedi foi meu Rock Band ligado no home theater. Sou viciado naquilo!

Você ficou surpreso com a cena do Panda, Jack? Gostaria de ter matado o bicho?
Black: Não! Contratualmente, eu nem posso brincar com pandas.

Stiller: Você estragaria toda sua fama na China, Jack…

Downey Jr: Você acabou com o bicho, Ben! (gargalhadas)

Do jeito que você falou parace que isso foi a pior coisa que já aconteceu com você, hein? (risos)
Black: (gargalhadas) Não, pois nada ganha da minha história pessoal de terror e medo. Quando era bem mais novo, resolvi pegar uma prancha de boogie boarding. Sabe aquela pequena que diz para todo mundo que você não é bom o suficiente para surfar de verdade? Então, a maré começou a me puxar para longe da praia. Remei o máximo que pude, mas não consegui escapar da corrente marítima. Segundos antes de eu começar a pensar em entrar em pânico (risos), olhei para a praia e vi que o salva-vidas estava gritando e correndo para a água. Juntou uma galera para ver quem era o idiota que estava se afogando. Só que ele nadou direto até onde eu estava. Foi aí que o horror começou. Foi o horror de ser um imbecil. É pior do que quase se afogar, afinal todo mundo olha para a sua cara e percebe o quão tapado você é. (cara de bobo).

Por que filmar no Havaí?
Stiller: Além dos incentivos fiscais…

Black:… e das casas em que moramos!

Downey Jr: A minha era melhor! Depois da casa do Ben, claro! (risos)

Stiller: … visitei o Havaí várias vezes durante os últimos dez anos, casei lá, então amo o lugar! Também ajudou o fato de que boa parte do filme foi escrita lá, logo, o cenário acabou se incorporando à história. Mesmo antes de algum estúdio se interessar pelo filme, e o Havaí foi a primeira locação que analisei por conta própria. Foi perfeito.

De onde você tirou aquele sotaque australiano?
Downey Jr: Essa é boa. Seguinte, Kirk Lazarus é irlandês e tem um trailer com esse sotaque no começo do filme, então ficaria muito igual e não sei se conseguiria fazer isso muito bem o tempo todo. E eu já tinha feito sotaque australiano em Assassinos por Natureza, certo? Uni o útil ao agradável!

Stiller: Depois de algumas semanas de filmagem, antes das cenas em irlandês, Robert falou comigo sobre mudar para australiano, pois ele poderia improvisar melhor assim. Decidimos tentar assim e funcionou muito bem!

Black: Ei, então você fez quatro personagens diferentes? Não tinha me tocado no sotaque do trailer!

Downey Jr: Eu sou demais! (risos)

Foi complicado realizar essa idéia maluca?
Stiller: Para mim foi um tempão. Estou com essa idéia há uns 20 anos. Começou mais ou menos na época em que fiz uma ponta em Império do Sol. Todo mundo que eu conhecia estava fazendo filmes de guerra e indo para os campos de treinamento para filmar Platoon, por exemplo, e um bando de atores viviam essa “experiência transformadora” do campo de treinamento falso. Sempre achei que isso poderia ser engraçado, afinal, todo mundo se leva a sério demais e tudo ali é falso, pois eles não correm nenhum risco. Passei um bom tempo com apenas 30 páginas de roteiro, mas aí ralei um bocado para desenvolver o segundo ato. A conclusão eu já sabia como seria, então foi o menor dos problemas. Depois de todas as adaptações, mudanças de rumo e da decisão sobre o tom certo para o filme, reescrevemos uma última vez e funcionou. Mandei para Spielberg dar uma olhada e ele gostou, achou diferente e topou correr o risco. Eu simplesmente adoro esse filme…

Downey Jr: E agora a entrevista acabou! Pelo amor de Deus, Stiller!

Black: Vinte anos para realizar e mais vinte para contar como foi. Você é o Stanley Kubrick da comédia, cara! (gargalhadas)

E o que dizer sobre a controvérsia sobre Robert interpretar um ator negro?
Downey Jr: Claro que a gente pensou nisso e, particularmente, sempre espero o pior de coisas desse tipo, mas nada ficou tão complicado quanto imaginei.

Stiller: Não é possível se ter certeza desse tipo de decisão até a estréia. O importante nesse caso foi deixar claro qual era a intenção e as razões que levaram o personagem a fazer isso.

Downey Jr: Felizmente, Ben causou mais problemas por causa do deficiente mental que ele interpretou. Sorte minha, agora as minorias estão atrás dele, não de mim. Obrigado, Ben!

Stiller: Sempre deixamos claro que o objetivo ali é satirizar os atores que se levam muito a sério, nunca houve outro interesse. Mas essa é uma realidade por conta da internet, já que cada idéia encontra adeptos e a controvérsia é criada. Estamos tranqüilos quanto à função do filme. Sempre vai haver gente que procura pêlo em ovo, paciência.

Ben, você se sente mais confortável dirigindo ou atuando? Pretende seguir na carreira de diretor?
Stiller: Eu realmente amo dirigir, é a coisa que mais gosto na profissão. Sempre quis seguir esse caminho desde criança, então foi uma evolução natural. Gosto muito de atuar, mas dirigir esses caras é algo totalmente diferente e mais motivador. Sabe que é muito interessante, às vezes, ficar ali apenas assistindo os caras fazendo o trabalho deles e pensando em como ajudar? Isso me fascina!

E como foi dirigir Downey Jr e Black, afinal vocês são amigos, certo? É difícil dizer a eles o que fazer?
Stiller: São duas coisas diferentes. Dirigir for a de cena é uma coisa, posso ser mais conceitual e analisar possibilidades sob aquele ponto de vista e pedir para o elenco seguir tais conceitos. Mas quando se está na mesma cena, sei lá, segurando uma arma, é engraçado apontar para um deles e dizer “isso foi bom, agora tente fazer desse jeito”. Inevitavelmente surge aquela impressão de que um deles vai virar para mim e dizer a mesma coisa e dizer o que eu tenho que fazer. Sempre preciso me lembrar de que aquilo não é um diálogo só porque estamos todos caracterizados.

Downey Jr: Isso é hilário. Quando fizemos a cena de Simple Jack, lá estava Ben, olhando para a minha cara e repassando as falas comigo. Aí ele pede para eu dizer: “Você é estúpido”. Eu disse, só que fui um pouco mais além e também disse : “Você é estúpido. Você é o filho da mãe mais estúpido que já pisou nesse planeta”. Aí, do nada, ele pediu para usar isso na gravação. Tá falando sério? Ele disse que sim e filmamos assim. Essa foi uma das poucas situações em que não agüentei e comecei a rir, pois foi tão retardado, ter o diretor pedindo para que eu o xingasse em cena.

Os atores representados no filme são inseguros, isso é normal em Hollywood?
Downey Jr: Não sei, prefiro deixar os outros inseguros e defensivos comigo. Nesse ano eu posso tudo! (gargalhadas)

Confira crítica do Judão, aqui!

E a minha crítica no Guia da Semana!

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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