[Entrevista] Tron Conta sua História

Bruce Boxleitner analisa a evolução de Tron, dos efeitos especiais e cita o capitão John Sheridan ao relembrar sua carreira e presença nos grandes momentos do entretenimento. Tudo exclusivo, claro!

por Fábio M. Barreto, de Los Angeles e San Diego

As luzes intermitentes do Flynn’s Arcade criavam um clima melancólico, ainda mais com os fliperamas espalhados pelo salão. Lembranças da infância. Memórias de um período mais simples, menos conectado, quando ainda era preciso sair de casa para se divertir eletronicamente. Uma máquina chamou mais a atenção por não fazer parte da vivência direta, mas sim de uma experiência cinematográfica. Muita gente se amontoava para ver, e jogar, Tron. Não era um deles. Algo melhor me esperava quando o jogo se moveu para revelar o portal para o mundo de Kevin Flynn (Jeff Bridges), o único caminho para o Grid, ou melhor, o mundo virtual de Tron: O Legado. Foi ali, ao lado do laboratório de Flynn, com seu canhão de digitalização, seus computadores abandonados e as fotos de Sam (Garrett Hedlund), sem filho, que conheci Tron. Ou melhor, Bruce Boxleitner, um herói de infância, um ícone da ficção científica televisiva e, acima de tudo, um ator agradecido pelo retorno da Odisséia Eletrônica aos cinemas. Para ele era mais uma entrevista sobre o filme, para este repórter, tratava-se de um momento inesquecível e, claro, exclusivo.

Não obstante sua carga profissional, os cabelos brancos de Bruce Boxleitner demandam respeito. Aos 60 anos, ele representa efetivamente uma das dicotomias de Tron: Jeff Bridges ficou famoso e ganhou Oscar, ele foi para a TV e virou ídolo de nicho por conta do capitão John Sheridan, de Babylon 5. A estréia de Tron: O Legado reúne esses dois extremos, essas duas realidades, como se nada tivesse acontecido desde 1982. Boxleitner volta a interpretar Alan Bradley e, como grande surpresa, Tron, o personagem título do filme. “E pensar que eu lutei contra um pião gigante e via David Warner correndo com a bunda de fora”, brinca Boxleitner. Assim era a personificação do Mal no lampejo futurista de Tron – Uma Odisséia Eletrônica. “Começamos a imaginar o mundo dos computadores em 1982, hoje tudo aquilo é realidade, mas muito mais evoluída e complexa. Nossos desafios originais parecem coisas de criança”.

“Tron marcou minha vida, mas aquele ursinho de pelúcia disfarçado de E.T. [filme de Spielberg] roubou a bilheteria e a atenção de todo mundo” – Michael Sheen, que vive o influente, e meio maluco, Castor

Se o primeiro Tron propunha a construção de um novo mundo, Tron: O Legado postula a criação e, sem rodeios, a vida. É a evolução dentro do microcosmo de macroproporções possível somente dentro dos computadores onde o Grid existe. “A Ficção Científica tem que provocar e instigar o pensamento ao abordar temas grandiosos e distantes da nossa realidade”, analisa Boxleitner, que também é autor do gênero [escreveu Frontier Earth, em 1999, e Searcher, em 2001] e aparece com constância na TV, especialmente no seriado NCIS. “Gostei disso em Tron, mas desde então, tanta coisa que costumávamos tratar como FC se tornou ‘fato científico’ e ganhou outra conotação, outro uso, outra leitura. Especialmente a literatura precisou evoluir para fugir desses elementos superados pela sociedade e a tecnologia e o cinema demorou, mas aprendeu a seguir pelo mesmo caminho. Pode soar presunçoso, mas embora itens caiam em desuso, os mitos permanecem e esse é o material de trabalho dos atores. Acima de tudo, somos contadores de histórias e enquanto houver mitos, haverão histórias para serem contadas… seja no nosso mundo, dentro de um computador ou no espaço sideral”.

Um Homem de Família

Há alguns metros de distância, Jeff Bridges concedia uma entrevista para um canal de TV. Bruce olhou e sorriu. “Nunca sabemos como as pessoas vão reagir depois de tanto tempo sem contato, mas Jeff parecia ter saído do set do primeiro filme uma semana antes de nos reencontrarmos. Cada vez que via um de seus filmes, ou mesmo quando ganhou o Oscar, sentia muito orgulho. Coisas boas acontecem no momento certo, sabe. Tron: O Legado fez isso por mim”, contou Boxleitner, cuja esposa passou por uma cirurgia dias antes da Comic-Con. O telefone tocou. Era ela, a atriz Melissa Gilbert. Carinhoso e atencioso, o ator resolveu alguma questão pessoal e, minutos depois, retomou a entrevista sorrindo. “Ela não me deixou ficar em casa, quase apanhei quando dei a idéia de cancelar essa visita a San Diego”.

Devoto da atuação e ainda uma criança quando entra no cinema, como se considera, Boxleitner é um elemento fundamental em Tron: O Legado, não apenas por viver o personagem título, mas também para representar a ligação do público entre aquela realidade exagerada oitentista com o mundo high-tech do novo filme. “Alan é o contador de histórias dessa dinâmica, que, além de conduzir o espectador, inspira Sam no momento necessário para o início da aventura”, diz, ainda empolgado com a idéia de voltar a trabalhar com seu “velho parceiro” – Bridges – e por ter ajudado a encontrar o representante da nova geração. “Testei todos os atores que tentaram ganhar o papel de Sam Flynn, então fui o primeiro a atuar com Garrett. Utilizamos nossa primeira cena no filme como material inicial e percebi os produtores olhando para mim de um jeito curioso. Decidiram rapidinho.”

“Já tentou matar alguém com um freesbie?”- Steven Lisberger, criador de Tron, confrontado sobre a violência no filme.

“O trabalho com cinema pode ser repetitivo e maçante, então precisamos encontrar meios de nos motivarmos, sabe; e se alimentar da empolgação de um jovem ator ou de algum efeito maluco que acabaram de inventar ajuda bastante”, ensina o veterano, que também ficou conhecido do público brasileiro com o seriado O Caçador de Aventuras, no qual ele vivia o aventureiro Frank Buck. “Imaginava o que passava pela cabeça de Andy Serkis quando ele fez Gollum; se eu fiquei maluco, imagine ele! Mas agora consegui incluir um pouco desse novo truque no meu repertório e, mesmo sem poder fazer os malabarismos, ver minha cabeça rejuvenescida em cena foi intrigante. Ah, a quem estou enganando. Fiquei empolgadão!”, disse, sorrindo.

Astro Principal da Revolução Visual

Embora impressionado pelo motion capture, Boxleitner viu dois grandes momentos do cinema feito por computador acontecer. De camarote. Tron pode ter sido o precursor e, como ele gosta de chamar, “quem começou com tudo”, mas Babylon 5 levou o CGI a um patamar invejável em suas cinco temporadas com batalhas espaciais de tirar o fôlego e naves orgânicas ou altamente tecnológicas com acabamento quase alienígena. Foram dois marcos possivelmente tão fundamentais quanto Tron: O Legado, que não encontrou a perfeição na recriação do rosto humano de forma constante e irrepreensível, mas, de acordo com o diretor Joe Kosisnki, “tem momentos de perfeição e rompimento da barreira entre efeito e realidade”. “Tron reflete as mudanças e fatos de seu tempo; foi assim em 82 e está sendo assim agora”, analisa Boxleitner. “O combate do primeiro filme era uma espécie de Paredão mais evoluído com freesbies, enquanto o novo filme está mais próximo de Halo 3 e de sua geração. Gosto de pensar em Flynn como um explorador que se embrenhou tanto na floresta ou uma versão de Alice que não voltou do espelho, preferiu ficar por lá e fazer as coisas do seu jeito; e tudo que vemos dessa nova geração é ela tentar moldar e personalizar um mundo recém-criado, não é mesmo?”

“Levamos nossos erros para onde formos, seja o mundo virtual ou espaço; assim como também levamos nossa capacidade de aprender com eles” – Jeff Bridges, em resposta a nossa reportagem.

Tranqüilo em relação a seu papel nesse retorno de Tron aos cinemas – “Jeff é a estrela, todo mundo sabe” – e apaixonado pelo cinema, Bruce Boxleitner foi um dos primeiros membros do elenco a chegar ao Rave 18, um cinema 3D IMAX nos limites de Los Angeles, para a primeira exibição pública de Tron: O Legado. Joe Kosinski avisou que era a primeira vez mesmo. Inclusive para o elenco. Os produtores Steven Lisberger e Sean Bailey também estavam lá, ao lado da escultural Beau Garrett. Boxleitner parece uma criança no parquinho: “Ainda sou um garoto, aliás, acredito que todos têm, obrigatoriamente, uma criança escondida por mais improvável que pareça; ver essa tecnologia moderna que me permite fazer coisas impensáveis há cinco anos – e de outro mundo há 20 anos – de forma melhor e mais interessante do que fazíamos na minha juventude me surpreende e motiva.”

Ouvir as palavras maduras e ponderadas por anos no discurso de Boxleitner faz pensar nos atuais rumos da atuação. Jeff Bridges profetiza que Tron: O Legado vai iniciar a era do “cinema sem câmeras”, mas esse artifício pode ser mais destrutivo que benéfico fora das mãos de atores ancorados no mundo da película e embasbacados pelas miríades tecnológicas. A exemplo do 3D, as técnicas de motion capture e criação de cenários vistas nesse novo Tron pode inspirar um novo estilo de cinema, mas, mais do que nunca, dependente da mentalidade dos envolvidos. Mais do que nunca, coração vai precisar superar orçamento ou fórmulas dos estúdios. Estamos diante de um marco, saber se é a Segunda Renascença da Matrix ou a gênese de algo maravilhoso é a grande pergunta. Uma dica da resposta mais adequada está num discurso do capitão John Sheridan, selecionado por Boxleitner; “Precisamos olhar para o horizonte; podemos tropeçar, mas sem nunca tirar nossos olhos das estrelas”. Sem alma e poesia, somos apenas programas redundantes.

“Acredito na participação cívica e no poder da revolução; essa é uma das coisas que Tron: O Legado pode ensinar” – Olivia Wilde

End of Line.

(publicado com autorização da revista Sci-Fi News)

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Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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