De Múmias aos Action Figures

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Ouvir dizer que Wolverine custou US$ 120 milhões é uma mentira descarada [..] Todo mundo mente. Por isso digo a verdade e falo que G.I. Joe custou cerca de US$ 170 milhões. Todos custam daí para cima – Stephen Sommers.

Ter escrito e dirigido a A Múmia dá muito crédito a Stephen Sommers. O diretor que ressuscitou o gênero da aventura na última década agora parte para um filme puramente divertido: G.I. Joe – A Origem de Cobra. Sommers vive do cinemão, mas não medo de abrir o jogo sobre orçamentos hollywoodianos e coloca o dedo na cara de atores e executivos mentirosos. Fala duro e é boa praça, tanto que chamou metade do elenco de A Múmia para participar de G.I. Joe e se orgulha de trabalhar com a mesma equipe há anos. SOS Hollywood acompanhou uma prévia do filme, há alguns meses, e conversou com exclusividade com o diretor. Acompanhe a entrevista:

O que existe de diferente em G.I. Joe – A Origem de Cobra?

Recusei G.I. Joe na primeira vez que me ofereceram. Achei que seria uma porcaria, um filme meio falso inspirado no Falcon [Sommers cresceu colecionando os bonecos de 12 polegadas]. Mas minha assistente me mostrou que era algo diferente. Percebi que esse poderia ser meu James Bond. Lembro muito bem de ter assistido a 007 Contra a Chantagem Atômica, no Paramount Theatre; e sou apaixonado pela seqüência aquática desse filme. Amo Bond; amo Cassino Royale. Ele é como Bourne. Eles competem, mas quase ninguém faz esse tipo de cena de ação. Coisas grandiosas que Sean Connery e Roger Moore faziam na minha infância ficaram meio esquecidas. Essa foi minha chance de fazer algo assim e que acontecesse ao redor do mundo. Filmamos em Washington D.C., Paris, Tóquio e no Rio de Janeiro, enchemos os olhos do público com engenhocas eletrônicas, veículos futuristas e personagens cheios de mistério e potencial de ação. E lá estava eu, conversando com Ken Addams, que foi designer de produção dos filmes clássicos de James Bond [especialmente das cenas grandiosas], e ele me disse: “ninguém mais faz isso atualmente”. Tudo fez sentido para mim.

Mas hoje a dinâmica é diferente por causa dos efeitos de computador, certo?

Sim, mas ainda é preciso fazer com aquilo pareça verdadeiro, então ainda construímos muita coisa. Fazer um filme sobre médicos, advogados ou terroristas controlando um edifício não te leva a lugar nenhum além do estúdio. Quis construir sets gigantes e visitar o mundo. Nada é mais divertido que isso.

Você pode nos falar um pouco sobre como foi escalar a Sienna Miller?

Claro. Minha equipe me acompanha há anos. Meu editor trabalha comigo há 20 anos, por exemplo. Normalmente escrevo meus roteiros, mas não tínhamos tempo, então chamei um monte de gente para escrever. Isso feito, começamos a falar sobre atores. Alguém citou Sienna. Nunca tinha visto nada dela, então minha diretora de casting me abasteceu com fotos e filmes dela. Passei dez dias assistindo aos filmes; prefiro analisar o trabalho do que fazer testes. Nem Sienna, nem Channing [Tatum, Duke] precisaram fazer testes. Rachel [Nichols] fez testes e foi fantástica. Gosto de Sienna por algumas razões: ela é linda! (risos); é ótima atriz; e os americanos não a conhecem bem. Assisti Factory Girl e Alfie. Mesmo alguns filmes que não gostei, ela se destacou. Pensei: “ela seria perfeita”, mas alguns fãs reclamaram por ela ser loira. Eles não têm nada com que se preocupar, nada!

Ela mesma afirma que não é conhecida aqui. O estúdio não queria que você escolhesse alguém mais famosa?

Não. Em filmes assim, quando se escolhe alguém mais famoso, eles não querem gastar dinheiro. O filme é a estrela (risos). E geralmente é triste, porque eu escrevo para mulheres. Quando escrevi A Múmia, escrevi para a Rachel Weisz. É a história dela. Rick O’Connell é o aventureiro, mas sabemos tudo sobre ela, já reparou? O irmão, os pais, a herança. Escrevo para as mulheres. No passado, os estúdios sempre escalavam os homens primeiro. Eles pagavam muito dinheiro aos homens, e dizem que querem alguém “desconhecida, nova” para o papel feminino. O que eles querem dizer é alguém barata! (risos) Eles sempre fazem isso. Por isso que sempre há um homem famoso e uma mulher que você nunca viu antes, geralmente. Mas nesse caso o filme é a estrela.

Isso não aconteceu com Van Helsing? Eles tinham um grande astro…

Quando filmamos Van Helsing, ele só havia feito um filme dos X-Men na época, pouca gente sabia quem Hugh Jackman era. As pessoas só o conheciam por causa daquele primeiro X-Men; e estavam filmando o segundo. Então, ele não era tão conhecido. E o que aconteceu foi exatamente isso. Vamos escalar o Hugh Jackman, que estava começando e tinha bons agentes, então estava sendo bem pago. Foram três meses de testes para Anna; e é muito difícil encontrar uma atriz capaz de fazer frente a Hugh Jackman. Nenhuma era boa suficiente para o papel, então, no fim das contas, decidiram expandir o orçamento para contratarmos Kate [Beckinsale].

Você acredita que hoje exista uma demanda por esse tipo de filme de aventura leve?

Tento não ser muito político em relação aos meus filmes… mas não me peça para falar sobre o Bush, por favor (risos). Adoro filmes leves e divertidos, que te façam esquecer disso tudo. Nunca vou fazer um filme sobre médicos ou advogados, pode apostar. As pessoas querem filmes escapistas, querem dar risada, se divertir.

Se preocupou ao destruir a Torre Eiffel?

Não. Morei na França durante alguns anos quando era mais novo, e os franceses vão adorar! (risos) Lembro como os americanos adoraram quando os alienígenas destruíram a Casa Branca. Eles adoraram isso! Os franceses adoraram o fato de que nós filmamos em Paris inteira. Estávamos correndo e explodindo coisas na Champs Elysses. E a Torre Eiffel vai fazê-los sorrir.

Enquanto assistia às cenas, eu percebi algumas influências de Halo. Isso foi uma influência dos videogames…

Eu não sei. Eu já ouvi falar sobre isso, mas esses filmes tomam tanto do meu tempo e da minha vida, e minhas duas filhas não jogam Halo, então eu não posso ser acusado de roubar alguma idéia do jogo! (risos) Eu não tenho tempo de jogar. Eu jogo Wii, tênis e boliche, mas só.

Quanto anos suas filhas têm?

9 e 14.

Elas vão assistir a esse filme?

Sim, com certeza.

O que as garotas vão gostar nesse filme?

Gosto de testar os filmes. Opiniões de pessoas de verdade me ajudam. Tenho que ouvir os idiotas dos estúdios o tempo todo, então preciso de gente de verdade. Sou de Minnessota e lá gostamos de coisas reais. Durantes os testes, aconteceu o mesmo que nos filmes de A Múmia. Mulheres e garotas gostaram mais que homens e garotos. Em A Múmia, o estúdio pensou que era um filme masculino. Mas só deu certo porque as mulheres gostaram mais! É tão romântico. G.I. Joe tem dois romances, duas personagens femininas muito fortes. Aliás, as pessoas mais inteligentes desse filme são mulheres, só não são as mais duronas porque perdem para Snake Eyes. Aposto que elas vão gostar mais que os marmanjos.

E para garantir tem o Channing no elenco..

(risos) Sim, exatamente. Isso é outra coisa.

Seu filme é fiel à base do desenho animado e dos quadrinhos?

Muita coisa sim. Mudamos coisas, claro. Eu era fã dos antigos G.I. Joe e se você começa esse filme com quatro pessoas usando máscaras, muita gente não entenderia. Fiz de uma maneira que pessoas que nunca ouviram falar em G.I. Joe pudessem entender. É parte do meu trabalho.

Então a Sienna é boazinha ou malvada?

Os dois (risos). Eu acho que você vai ter que ver o filme! Ela está loira em alguns momentos, e morena em alguns momentos.

E a briga entre Sienna e Rachel, vai deixar os marmanjos empolgados?

Claro. Eu adoro! É uma briga de mulheres, mas elas não ficam puxando cabelo, elas são duronas que nem os caras. Tem uma briga entre crianças, e um deles é fantástico. E nós não podíamos usar dublês. Contratamos pessoas de baixa estatura, mas não podíamos usá-los porque eles não eram tão bons quanto as crianças.

Ficou preocupado em machucar alguma das atrizes nas lutas com um dos homens?

Channing e Sienna brigam um com o outro, mas há um limite do que você pode fazer numa briga entre um homem e uma mulher. Mas ela consegue dar umas porradas nele. Muita porrada, aliás!

Os bonzinhos vencem, não?

Não é um final fechado, devo dizer. Muitas coisas acontecem no final, não dá para saber se alguém venceu, no fim das contas.

Isso tem cheiro de seqüência…

É a guerra, e o que acontece com essas pessoas, e como elas ficam. Tem um início, meio e fim, mas ao mesmo tempo… Coisas ruins acontecem com os malvados e coisas boas acontecem com os bonzinhos, mas não é 8 ou 80.

O quão importante você considera o sucesso de Transformers para esse tipo de filme? Porque agora todo mundo está falando sobre adaptações da Hasbro. Você acha que foi algo essencial?

Acho que sim. Um pouco, mas ao mesmo tempo não sou o cara que vai fazer Banco Imobiliário (risos). Ou Meu Pequeno Pônei (gargalhadas). G.I. Joe filme mais visual que eu já fiz. Foram dez países diferentes, quinze personagens, não só um James Bond, mas vários dele. É um mundo interessante. Gosto de levar as pessoas a lugares onde elas nunca estiveram antes. Por isso doro os filmes d’A Múmia, fazer a minha versão do Egito Antigo, Cairo nos anos 20 e 30. E esse filme é desse tipo. Não necessariamente um filme de ação típico.

Como você lida com tanta informação sobre os personagens? Há sete personagens principais? Para fazer tudo ter sentido no meio de tanta ação..

Usamos flashbacks. É engraçado, mas o estúdio ficou preocupado com isso. Reclamaram de “muito flashback”. Fizemos testes com 300 pessoas ao mesmo tempo e todos adoraram o recurso. Foi o jeito de aprender sobre os personagens. É um modo de explicar a motivação para alguns momentos e explicar algumas das habilidades ou sentimentos. Ferramentas estão aí para isso, usamos uma delas e ficou divertido.


Qual o truque mais divertido de usar?

Flashbacks (risos). Quando estava na escola de cinema eles diziam para não usarmos flashbacks. Mas algumas coisas voltam. Lembro a primeira vez que assisti a Guerra nas Estrelas e eles usaram o branco; nunca tinha visto aquilo. Sabia que faziam aquilo nos anos 40, mas não haviam usado nos últimos 30 anos.

E quanto ao CGI? Houve alguma cena em particular que você teve que criar alguma tecnologia nova?

O mais importante é que ficasse realístico. Porque o filme se passa alguns anos no futuro, mas é tudo real. Toda a tecnologia é baseada em verdades científicas. Invisibilidade é ficção científica, mas há uma tecnologia que tira fotos do ambiente em que você está e as replica ao seu redor, então você não fica invisível, mas se mistura perfeitamente com o ambiente. É uma tecnologia incrível e é absolutamente real. Ainda não existe, mas vai existir em 12 ou 15 anos.

Quanto custaram os efeitos da cena em Paris?

Talvez US$ 1,5 milhão em efeitos, mas há muito lá. Nós fomos a Paris… Provavelmente é a cena da qual eu mais me orgulho. A cena dos trajes aceleradores em Paris. Porque todo mundo está envolvido nela. Todos os departamentos têm que dar o seu máximo para descobrirmos, ângulo por ângulo, como fazermos essa cena. Nessa perseguição, há um momento em que você acha que acabou, e a platéia sempre celebrava. Eu nunca tinha tido isso em uma cena de perseguição. Eu quase tive isso no O Retorno da Múmia, mas acabamos acrescentando uma cena.

Você pode nos dizer uma estimativa total do custo da produção?

Cerca de US$ 170 milhões. E eu estou falando a verdade. Quer dizer que quando ouço que fizeram Wolverine por US$ 130 milhões é besteira. É uma mentira descarada. Todos os filmes custam acima de US$ 170 milhões, entre 200 e 300 milhões. Eles mentem porque à medida que esses filmes ficavam mais caros, a imprensa perseguia as pessoas por gastarem tanto em um filme. James Cameron sabia que seria perseguido por Titanic, então dizia: “Sim, esse é o filme mais caro já feito! (risos) Vocês têm que ir assistir”. Todo mundo mente. E dói para mim, como cineasta. Porque conheço todo mundo. Dediquei alguns meses a Uma Noite no Museu, e eles insistiam que podiam fazer aquele roteiro por US$ 89 milhões. E disseram que fizeram por 90 milhões. E eu sei a verdade. Foi US$ 132 milhões, eles mentiram.

E dá para fazer um filme de ação por menos dinheiro?

Eu não sei como chegou nesse ponto, mas eu me sentiria mal em olhar na sua cara e dizer que eu fiz isso por US$ 135 milhões. É mentira!

Falando em mentira, é duro entrevistar os atores e todo mundo dizer que se deu super bem no set. Parece não haver problemas em Hollywood…

Posso falar sobre os últimos quatro filmes que fiz. Tive uma experiência desagradável no quinto. Odeio imbecis! Pessoas mentem dizendo que todo mundo foi brilhante ou divertido. Eu mesmo já devo ter feito isso. Sabe o que faço para descobrir se um ator é realmente gente boa? Ligo para o assistente de produção, eles sempre dizem a verdade! Já ouvi coisas do tipo: “Ela foi uma vaca!” (gargalhadas). Aposto com você que ninguém vai dizer um A sobre Brendan Fraser ou Rachel Weisz. Isso não significa que os atores não possam ser exigentes ou me entupir de perguntas sobre os personagens, ou bancar uma de ator de método; mas gente que torra o saco por que “quer um trailer maior” não é profissional. E não, não vou dizer quem fez isso (risos).

Você não filmaria em 3D?

Não diria nunca, mas ainda não fiz e ainda não fui convencido.

Fábio M. Barreto

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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