[Entrevista] J.J. Abrams

O Homem que lidera a Vanguarda da Ficção Científica no Cinema e na TV!

Nunca é demais conversar com J.J. Abrams. Atualmente envolvido com seis projetos na TV, pelo menos quatro filmes, entre eles o segundo Star Trek e o enigmático Super 8, que dirige, esse rolo compressor de idéias e produções exagera na humildade mas, no fundo, sabe da importância e relevância de seu trabalho. Abrams é um daqueles entrevistados que te leva do céu ao inferno por conta de seu estilo, explico: sempre tem argumentos bem pensados, mas fala pelos cotovelos. Com seu tradicional óculos de aro grosso e mente inquieta, Abrams abriu espaço em seu horário de folga e dedicou uma manhã de folga para conversar com exclusividade com esse repórter em Beverly Hills. Perto da reta final de duas de suas séries atuais, Lost e Fringe, analisou o atual cenário da ficção científica, comentou a metodologia de trabalho de Fringe e também explicou como surgem suas idéias.

por Fábio M. Barreto, de Beverly Hills

Qual seu papel em Fringe? Manda-chuva controlador ou ombro amigo?
(risos) Meu trabalho é estar disponível quando sou necessário. Seria muito destrutivo ficar me intrometendo e mudando tudo. Sempre penso muito no nível de envolvimento, pois posso facilmente começar a impor meus desejos e até que ponto vou permitir aos produtores fazerem seu trabalho? Não me sinto confortável ao dizer que os produtores comandam o programa até o momento em que eu resolva mudar tudo. Leio todos os roteiros e vejo todos os efeitos visuais, mas evito ser como produtores com quem já trabalhei que passavam a semana fora e, quando apareciam, detonavam absolutamente tudo que havia sido feito. É impossível manter uma equipe motivada dessa maneira, pois sabem que tudo precisará ser refeito, não importa a qualidade.

A quantidade de projetos com os quais você está envolvido te transforma numa espécie de Jerry Bruckheimer dedicado à ficção científica? Aliás, quando você consegue dormir?
(risos) Mais do que todo mundo imagina, menos do que eu gostaria. (risos) É impossível estar presente em seis programas ao mesmo tempo, mesmo Bruckheimer – um sujeito que conheço há anos, com quem já trabalhei e que admiro além da imaginação – pode fazer isso. É um erro brincar de fantoche e tentar controlar todas as cordas. Fato: parece que estou implantando dedos novos (risos), mas confio no meu pessoal. Damon [Lindelof] está escrevendo o segundo Star Trek com Alex [Kurtzman] e Bob [Orci]. Bryan Burk é meu parceiro de produção em todos os projetos e Jeffrey [H. Wyman] controla muito bem o desenvolvimento de Fringe. Acredito na definição de uma equipe competente, acima de qualquer crença na minha qualidade individual.

O quão importante são esses aliados na hora de ter novas idéias, então? Elas surgem e você comenta com eles ou há espaço para colaboração bilateral em todos os aspectos?
Boa pergunta. Dou muito crédito ao pessoal que trabalha comigo, pois, inevitavelmente, muitas das idéias não são minhas. Como todo roteirista, sempre que tenho contato com uma idéia, reajo de maneira diferente e tenho idéias de como ela poderia ser desenvolvida. E isso varia do desejo de fazer algo diferente, familiar ou até mesmo esotérico. Às vezes, alguém sugere algo que tenha apenas três silabas e eu já tenho uma reação para o conceito, simplesmente por achar que seguiriam outro caminho. Aí contam tudo e acho legal, mas aí digo: pensei que você faria tal e tal coisa. É alquimia. É basicamente a mistura de diversas reações e estímulos tanto físicos quanto circunstanciais para uma idéia.

A Ficção Científica vive um momento interessante e, sem puxar o saco, você está à frente desse movimento. Seja pelos grandes projetos, seja por ter dado a Jornada nas Estrelas seu primeiro Oscar…
… Eu não fiz a maquiagem do filme!

Mas dirigiu e delineou os novos rumos, logo, tem culpa no cartório.
Ok, justo.

Como você encara esse momento para o gênero e qual a função de Fringe nesse cenário?
De onde você tira tantas perguntas boas? (risos). Cada dia mais, a ficção científica se transforma na nossa vida cotidiana. Por exemplo, quando trabalhamos em Fringe, constantemente lemos matérias bizarras sobre acontecimentos reais e também acompanhamos discussões sobre novas possibilidades descobertas pela comunidade científica, sejam testes, teorias ou mesmo produtos sendo aprovados para uso. Encaro as duas primeiras temporadas de Fringe como uma história de fundo para o desenvolvimento da terceira, não apenas dando respostas, mas construindo uma base dramática. Seria impossível iniciar a história nesse momento, sem esse embasamento, pareceria maluco demais, mesmo para a gente (risos). Convenhamos, Fringe é um show ridículo em vários aspectos; mostra essa ciência ultrajante e coisas totalmente exageradas, mas não lida com Ficção Científica do modo que Star Trek faz, por exemplo. Fringe é claramente algo fora do normal, uma vida cotidiana bastante incomum, mas cujo sentimento é de estarmos lidando com teorias científicas sem pensar “isso vai acontecer daqui centenas de anos”, mas imaginar suas aplicações imediatas. Não tentamos simular os resultados de Além da Imaginação, por exemplo, uma série que amo de paixão, ao investigar alienígenas e elementos claramente sobrenaturais, ou mesmo Arquivo-X. Pode-se pensar: tudo isso é absolutamente improvável, entretanto, isso não torna o assunto impossível. É isso que me atrai na série, pois passamos a impressão como é viver num mundo de ficção científica, sendo que, na verdade, é exatamente onde já vivemos.

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E você, caro leitor, gosta do trabalho de J.J. Abrams? Concorda com seu ponto de vista? Comente e participe!

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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14 comentários sobre “[Entrevista] J.J. Abrams

  1. Uma entrevista fenomenal, cara. É impressionante como você sempre consegue tirar respostas ótimas de seus entrevistados. De alguns, aposto, que é como tentar tirar leite de pedra, mas, em outros como o J.J., a entrevista parece fluída. E essa fluidez é, com certeza, resultado do seu profissionalismo. Poucos entrevistam tão bem.

    Gosto de como Abrams (e todo o grupinho, Lindelof, Orci, Kurtzman, Burk) trata(m) a ficção científica. Não sei se eles segurariam Foundation, mas, com certeza, fariam o trabalho melhor que o Emmerich. É o mesmo sentimento quando penso em The Dark Tower.

    Pergunta: Você gosta de Doctor Who?

  2. É um dos grandes nomes da atual safra hollywoodiana… Eu pensava há uns 10 anos que se o Spielberg falecesse a cadeira ficaria vaga. Hoje já não corre mais esse risco. J.J.Abrams mostrou a que veio e não partirá tão cedo!

    Vida longa ao mestre nerd (ele está na lista dos maiores nerds do mundo do entretenimento (junto com George Lucas, Steve Jobs, Bill Gates e companhia ltda).

  3. Eu já admirava muito o cara quando Lost começou, e ainda mais quando assisti Cloverfield e Missão Impossível 3.

    O cara é realmente uma máquina, que mexe com várias mídias, diferentes perspectivas e enredos (ele era responsável por Jack & Jill e Alias) e atua em várias áreas.

    Quando vi os extras de MI3 foi a comprovação: o cara é um gênio. Ele tem noção do que faz, mas nem por isso age com soberba e arrogância (coisa que ao lado de Tom Cruise fica apenas mais destacado).

    E a entrevista, sensacional! Nerd entrevistando, nerd entrevitado. Estamos num ótimo momento da ficção científica mesmo! =D

  4. Fabão, boa!

    Muito bacana como o Abrams é acessível, prova disso é o material extra do DVD de Star Trek. Só o sucesso de Lost poderia ter tornado o cara um boçal, mas é justamente o contrário.
    Estou muito ansioso por Super 8! Vai ser com certeza ficção científica de gente grande. E este mês vou começar a ver Fringe. Já estou ensaiando faz tempo. As chamadas na Warner, no intervalo de V, aguçaram minha curiosidade.
    Escrevi sobre o Surrogates, do Jonathan Mostow, lá no blog. Se tiver um tempinho passa por lá e diz o que achou.
    A viagem vai ficar pra próxima mesmo, pena. Manda um beijo pra família. Depois preciso do seu endereço. Vou te mandar aquele pack do Jack! Abraço!

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  6. Pingback: Diego Eis
  7. Pingback: Diego Eis
  8. Pingback: Luiz Felipe Barros

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