[Entrevista] Wentworth Miller

Recebo roteiros aos quais não respondo, necessariamente, mas agora que fiz o meu próprio tenho um melhor entendimento e respeito pelo o que aquela pessoa alcançou – Wentworth Miller

A voz de Wentworth Miller é serena e pacífica. Sem pressa de se expressar e dotado de grande habilidade, encarou uma bateria de perguntas alucinadas sobre Resident Evil: Recomeço e Prison Break, mas, acabou surpreendendo ao demonstrar inteligência acima da média e se revelar como roteirista apaixonado pela arte da escrita e também pela literatura de Stephen King e Bram Stoker. Talvez seja por conta da ocupação de Michael Scofield, que o distanciava de sua verdadeira persona, ou talvez seja a simples noção que bom senso tem desaparecido de Hollywood, mas, de qualquer forma, Miller deu um baile sem recusar perguntas, sempre sorrindo e com um par de olhos que, ao vivo, deixaria muitas mulheres simplesmente sem reação. O poder do cinema não é nada para quem não sabe usar, mas, no caso de Wentworth Miller, vemos o melhor dos dois mundos: criação de família inglesa com a exposição mundial por conta de uma série de sucesso.

Leia a entrevista exclusiva e inédita:

Como você reagiu quando viu que seu personagem começaria o filme preso?
Obviamente acho divertido. Quando vi pela primeira vez no roteiro, pensei “você só pode estar brincando!”, mas depois eu ri, pois achei que havia lugar para humor. Gosto da idéia dos fãs de Prison Break vindo ver esse filme e tendo esse momento de referência. Praticamente uma piada interna. Se você não viu a série, não me conhece por Prison Break, então quando me vê na tela é tudo normal, nada especial. Também achei que era importante que, num contexto de terror, suspense e tensão, podia haver momentos de sorte, de humor. Algo que faça nossa experiência mais satisfatória.

Ninguém confia no seu personagem e tenho visto isso em muitos filmes. Considera a confiança como um item raro hoje em dia?
Interessante pergunta. Isso está no cerne do que é o filme. É sobre zumbis, é ação, é dar ao público a pancadaria. Mas é também sobre um grupo de seres humanos, com diferentes experiências e agendas concorrentes, lá fora sendo forçados a confiar uns nos outros, a encarar essa maluquice enorme e sem fim. Dessa forma, esse filme e outros filmes de zumbis se aprofundam na necessidade da valorização da Humanidade. De um jeito leve, mas aborda esse aspecto sim.

Agora que entrou de vez no radar dos filmões de Hollywood, acha que conseguirá se desvincular, de alguma maneira, de Michael Scofield?
Não acho que eu possa virar a página. Para algumas pessoas, sempre serei Michael Scofield. E tudo bem. Respeito o que a série me proporcionou, respeito o fato de que por conta dela ganhei fãs internacionais. Foi uma forma de ficar conectado com todas essas pessoas ao redor do mundo.

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Como as reações a essa conexão chegam a você?
(sorriso) O primeiro jornalista que sentou para me entrevista essa manhã me fez duas perguntas. E aí começou a fazer uma re-interpretação palavra por palavra de uma cena de Prison Break. Ele interpretou a mim, meu irmão, e de repente abriu o zíper de seu casaco e revelou uma camiseta com uma tatuagem completa. Nesses momentos você percebe que Prison Break te acompanhará sempre, pode aparecer a qualquer momento. E acho importante honrar isso e não tentar apagar, até porque não é possível. O objetivo é construir uma carreira sólida em diversos aspectos do entretenimento. Não só tenho o Resident Evil saindo, como também estou me aventurando como roteirista.

Pode comentar?
Trata-se de um roteiro chamado “Stoker“. Esse nome está relacionado a Bram Stoker e, é claro, também significa “alguém que atiça (stoke, em inglês)”. É meio que um thriller gótico, um drama familiar, uma história insana de amor. Há vários nomes fortes envolvidos, mas ainda não posso confirmar. Tem sido uma experiência poderosa, pois acho que um ator que apenas atua entende uma fração da atividade. É importante explorar o máximo possível de lados da indústria, até para que você aprecie num nível básico o trabalho de outras pessoas. Recebo roteiros aos quais não respondo, necessariamente, mas agora que fiz o meu próprio tenho um melhor entendimento e respeito pelo o que aquela pessoa alcançou. Mesmo se ele não for do meu gosto, compreendo que há uma ciência, uma arte, e a pessoa correu atrás e deu tudo por aquilo, atravessou barreiras. O que muita gente não faz, porque não queremos correr riscos, com medo do que há do outro lado.

Há comparação entre a dedicação e o nível de criatividade envolvido na atuação e na composição de um roteiro?
Ainda não passei por todo o exercício de escrever, para mim ainda é algo novo e interessante. Amo o fato de que é assustadoramente uma produção própria. Eu vou para a cama e trabalho numa idéia, nos meus termos, da minha forma, no meu tempo. Trabalhar atuando na TV e cinema é inteiramente colaborativo. Os atores respeitam as idéias dos roteiristas e diretores, e há um monte delas vindo. Então você senta e espera cem pessoas fazerem seus trabalhos até que possa fazer o seu. Às vezes essa pode ser uma experiência frustrante, portanto, embarcar num projeto que estava completamente sob meu controle, onde era o mestre do universo que estava criando, era, ou melhor, é muito empolgante.

Você se considerava “mestre do universo” em Prison Break? Caso a resposta seja não, foi isso que te motivou a escreve?
Eventualmente todo ator entende que ele pode fazer o que quiser enquanto estão filmando o longa-metragem ou programa de TV, tentar coisas diferentes. Mas não são eles que estão na sala de edição, editando suas atuações. Eu não era completamente responsável pelo personagem do Michael Scofield que era apresentado ao público toda segunda-feira à noite durante aqueles quatro anos. Acho que o desejo de ter maior controle criativo é natural.

Felizmente, nunca vi seu nome em revistas de fofoca ou envolvido em escândalos. Isso foi uma decisão consciente? Como isso mudou sua vida em termos de encarar a profissão?
Sinto que me eram permitidas algumas coisas que não são a alguns outros atores, o que é muito difícil e recompensador. Penso que estamos vivendo em um tempo, culturalmente, em que você pode ir de zero a dezesseis em sessenta segundos. Vivenciar a criação de um filme e, de repente, estou carregando o filme seguinte nas costas. É o seu nome no título. Se funcionar, ótimo. Se não, a queda pode ser bem significante. Então eu podia quebrar barreiras e cometer erros, mas num contexto em que ninguém estava assistindo, ou não se importava por algum tempo para que, quando o sucesso viesse, eu estivesse preparado para esse grau de responsabilidade, resultando em atenção. Não vou mentir, não é fácil ter gente preocupada com cada passo seu. É uma experiência perturbadora. É estranho, é esquisito, é incomum. É anormal também. Mas ao mesmo tempo eu estava ciente das armadilhas da fama. Uma deles é super exposição, outra é ficar conhecido mais como uma personalidade do que como um artista ou ator. Especialmente acabando de sair de quatro anos de Prison Break, previ a dificuldade de tentar me reinventar para o público. Todos já vimos atores que não conseguem e acabam se destruindo por causa desse estigma. Então, mantive meus pés no chão. Também ajuda o fato de que não acho o cenário hollywoodiano fascinante, não há nada sobre premières, festas, bares e clubes que me atraia. Mesmo se eu fosse um contador não estaria fazendo essas coisas ou tentando ser parte desse cenário. Estou ativamente envolvido na construção de uma persona que não vai ficar no seu caminho de curtir a mim como Michael Scofield ou Chris Redfield [personagem de Resident Evil: Recomeço]. Especialmente hoje em dia com uma máquina de cultura popular que precisa ser alimentada em tempo integral, é importante manter algumas coisas pra si mesmo.

E a nova onde de interação online, que muitos atores usam para manter suas bases de fãs?
Você certamente é incentivado a isso (tuitar, blogar, facebook, etc). Essas se tornaram parte das ferramentas de marketing de Hollywood. É um fenômeno poderoso ter no Twitter pessoas seguindo um ator, um diretor, tendo uma “espiada” prévia no projeto que for. É uma ferramenta poderosa, sem dúvida. Mas não é porque me vejo interessado nisso que vou transmitir online meus movimentos diários para centenas, talvez milhares de estranhos. Simplesmente parece esquisito para mim. Acho mais interessante quando estou no set, interpretando um personagem. É parte da razão pela qual entramos nesse negócio. Tive um excelente treinador que uma vez me disse que a pessoa mediana passa sua vida correndo de experiências humanas intensas e emoções, pois existe a ameaça de ser oprimido. E o trabalho do ator é correr na direção dessas coisas, é o que somos pagos para fazer. Então, não preciso enlouquecer no supermercado e tuitar sobre isso. Vou guardar meus ataques para os sets de filmagem, quando for o ambiente mais seguro possível e eu estiver sendo pago para tal.

Já se interessou em saber quantas pessoas te seguiriam ou se interessariam pelo seu dia a dia?
Entrei na internet uma vez para ver essas coisas, porque me disseram que há muitos “eus” online. Muitas páginas do Facebook e MySpace e contas do Twitter no meu nome, e não estou associado a nenhuma delas. De repente senti o potencial risco de uma fã de 13 anos de algum país distante se comunicando com alguém que ela pensa ser eu. Isso para mim pareceu potencialmente perigoso. Então, criei uma página oficial para evitar esse tipo de problema. Não sei até que ponto as pessoas acreditam que sou eu, mas fiz minha parte.

Gosta de games?
Sem vídeo-games. Nunca fui um gamer.

O que tem ocupado sua vida no momento?
Escrever. Estou num trabalho intenso. É parte do motivo pelo qual Prison Break foi uma experiência tão desafiadora para mim, pois era um sucesso e precisava ser sustentado, e eu estava muito feliz por fazer isso. Filmava a série dez meses por ano e a promovia nos outros dois. Era praticamente minha vida durante quatro anos, e eu dei tudo por aquilo com satisfação. O processo de escrever o roteiro estava nos planos há muito tempo. Disse a mim mesmo por quatro anos que eu não poderia escrevê-lo e então sentei um dia e, de repente, lá estou eu, escrevendo. E quatro semanas depois já tinha terminado, porque eram de dez a doze horas de trabalho por dia, todos os dias. Era meio obsessivo, algo muito poderoso, eu adorei a experiência.

Você mencionou Bram Stoker como forte influência para seu roteiro. De onde vem essa ligação com o terror e o fantástico?
Cresci lendo os romances de Stephen King. Eu não podia jogar vídeo games nem ler histórias em quadrinhos, era sempre só dever de casa. Mas ler livros me era permitido, desde que fossem realmente livros. Sempre tive gosto por esse gênero. Acho que essas figuras sombrias, como vampiros, a criatura de Frankenstein, zumbis, representam, conscientemente ou inconscientemente, as partes mais obscuras e sinistras de nós mesmos, da experiência humana. É alucinante mergulhar nesse mundo e vivenciá-lo da segurança da sua poltrona no cinema.

Em termos de gênero, o que podemos esperar de Stoker?
Há elementos de um drama familiar, mas em primeiro lugar foi intencionado um suspense, algo para causar arrepios.

Sentiu segurança ao entregar o roteiro ou concorda com aquela idéia de que roteiros nunca ficam prontos… o deadline chega e não há mais o que ser feito?
Sabia que em algum momento teria que entregar a “criança”, e estaria na posição de ter outra pessoa responsável pelo desenvolvimento da minha cria. Estava ciente de tudo isso graças a Prison Break, pois os roteiristas vinham com alguma coisa que fazia sentido para eles numa sala com ar condicionado em Los Angeles, e aí estávamos no deserto do Texas num calor de quarenta graus, prestes a filmar, nos dando conta de que certas coisas poderiam não funcionar quando tentássemos torná-las realidade em cena, não agüentariam. Então os atores, naquele instante, tinham que rearranjar uns movimentos e falas. Era um processo bastante colaborativo, no qual os roteiristas confiavam na nossa participação ativa, montando a história semana a semana. Olhando para trás, esse foi parte do meu treinamento, definitivamente.

Como encarou a conclusão de Prison Break? Missão cumprida?
Não estou triste com o fim de Prison Break, sinto que contamos a história, eu honrei aquele personagem, demos início, meio e fim e agora acabou. O que eu sinto falta é a sensação de comunidade e a continuar vendo os mesmos rostos no curso dos quatro anos, o que é bem diferente de estar em filmes, se reunir, ter essas rápidas e intensas conexões por dois meses e aí se despedir. Tem algo no aspecto familiar de fazer TV, ainda mais se for um longo programa, que é único, e disso eu sinto saudades.

O que você valoriza mais como ator? Aproveitando, agora é hora de focar em cinema ou a TV ainda é uma opção?
É o papel, a história do personagem, que importa. Amanhã posso estar de volta fazendo televisão, teatro ou cinema. Estou tentando me manter aberto às opções, e não decidir que minha carreira deve ser da forma A, B ou C. Até porque penso que essa é uma garantia de que vá parecer com D, E e F.

Gosta do 3D?
Desde que a história que está sendo contada valha a pena, o 3D enriquece essa experiência. Se não há história no centro, é só truque.

Reportagem: Fábio M. Barreto, de Los Angeles
Tradução: Isabela Cabral e Gustavo Dornas

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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