[Entrevista] Sylvester Stallone

“Tudo e todos estavam contra mim; era uma piada” – Sylvester Stallone, sobre o começo da carreira como diretor.

O coração palpitou, o sangue subiu e a ansiedade quase tomou conta. Foi assim que iniciei a conversa com Sylvester Stallone. Depois de praticamente 15 anos entrevistando celebridades mundiais, essa foi a primeira vez em que algo desse tipo aconteceu, também pudera, Sly estava ali na minha frente e, em instantes, responderia minha primeira pergunta sobre Os Mercenários. Por mais que fosse algo profissional e ele fosse obrigado a bater papo, o lado fã disparou feito maluco. Claro que, em instantes, o instinto jornalístico entrou em funcionamento e a conversa transcorreu sem problemas. Claro, tudo isso antes do episódio do macaco na Comic-Con e as acusações de calote feitas pela O2 Filmes, que me deixou triste, mas não muda o faço de ele ser um dos maiores astros da minha infância e, ainda hoje, um rosto reconhecido em qualquer canto do mundo. Foi interessante e foi engraçado ver que aquele jeitão meio lesado do Rocky e Rambo é um espelho do italianão cheio de botox.

Divirta-se! Adrieeeeeeeeeeeeeeeeen!

Como você conseguiu juntar todos esses caras em um único filme?
Foi sorte, no começo a historia era diferente. Falava sobre a CIA e o elenco tinha Ben Kingsley e Forest Whitaker, mas alguém sugeriu que eu tirasse essa parte da historia e eu pensei: “Vamos fazer um filme bem cheio de cara fudido, com machões mesmo. Faz tempo que eu não vejo um desses. Pode ser um desastre ou bastante interessante. Pedi alguns favores, mexi uns pauzinhos e deu no que deu.
Agora que você está mais velho, seu corpo está diferente de quando era jovem para fazer todas as cenas de ação, mas mesmo assim você acaba deixando muito novato pra trás.

Você percebe onde a idade atrapalha, quais as diferenças em relação ao que você conseguia fazer antes e hoje não consegue?
Eu não conseguiria fazer o primeiro Rocky hoje, com todos aqueles socos e quedas, você perde flexibilidade, então tudo dói um pouco mais. Mas aprendi que é tudo uma questão de manter a calma e pensar bem; antes de fazer uma cena sempre penso: “Isso vai doer! Mas eu tenho que fazer mesmo assim”. Os tendões ficam mais duros e não existe mais tanta energia e oxigênio, então agora é um jogo mental, está tudo na cabeça, de quão longe você quer chegar. Eric (Roberts) se machucou um pouco, coisas no quadril e ele tinha que correr e agora eu também tenho problema no ombro que é um saco, mas as coisas funcionam assim. Então, em vez de usar uma quantidade não saudável de peso para ganhar músculos agora eu tenho que treinar reflexos, flexibilidade, velocidade. No auge eu costumava treinar duas vezes por dia, seis vezes por semana. Jamais conseguiria fazer isso hoje. Atualmente, treino duas vezes por semana e faço exercícios que são um pouco mais “científicos”, com novo equipamento e menos impacto nas juntas.

Qual sua impressão sobre o trabalho com Giselle Itie?
Ela foi fantástica, não existem muitas mulheres por aí que deixam você afogá-la no primeiro encontro [numa das cenas, Giselle realmente sofre com a técnica de waterboarding, utilizada por torturadores, inclusive norte-americanos], ela é especial, e sexy também nas cenas de ação. Era durona, praticamente uma dos homens, e não queria usar dubles nas cenas.

Quando você olha para sua carreira como diretor do que você mais se orgulha? E o prazer de dirigir? O que isso mudou pra você?
Queria ter começado antes, mas já foi difícil o suficiente, já que tudo estava contra mim e era meio que uma piada. Além de ninguém ter investido em Rocky (Balboa). Se eu te dissesse que iria fazer um filme sobre um lutador de boxe de 60 anos que ainda luta você não iria acreditar, ainda mais sendo que o ultimo filme foi um desastre. Então, conseguir o dinheiro pra isso foi a coisa mais difícil que eu já tive que fazer. No fim das contas é um filme muito mais pessoal, mais ainda do que o primeiro Rocky – O Lutador, é a minha jornada pessoal. Os Mercenários é, de longe, meu melhor trabalho como diretor, o que eu tenho mais orgulho e também foi o mais difícil em termos de direção mesmo. Todo mundo tem um momento nesse filme, não é só sobre um cara. Rocky foi simples, era só Stallone. Nesse você segue a jornada de vários personagens e não tem nem comparação. Tentei fazer o mesmo tanto de ação que inseri no último Rambo e na verdade saiu mais ou menos cinco vezes mais. Acho que me empolguei um pouco (risos). Então, esse é o meu grande momento. Adoro dirigir caras como esses, pois entendo o que eles podem fazer e o quão louco eles são e o quão bom eles são, e como atores estão cada vez melhores.

Quais as novidades sobre a biografia de Edgar Allan Poe?
Vou filmar, mas acho que agora não é a hora certa. Do jeito que o mercado está seria difícil conseguir financiamento e distribuição para um projeto como esse, seria perda de tempo. Talvez daqui aos 10 anos, mas não agora. E também, por mais que eu adore drama, por enquanto eu espero continuar fazendo filmes como Os Mercenários, filmes de puro entretenimento. [Dias depois, Stallone disse à MTV norte-americana que imagina alguém como Johnny Depp para o papel. Leia aqui].

Pretende continuar com os filmes de ação ou acha que para crescer precisa fazer algum papel mais dramático?
Obviamente as pessoas me conhecem como um cara de ação, mas eu já dirigi alguns uns 4 ou 5 filmes menores e sinto que se você dirige um filme de ação, você faz um trabalho diferente de quando está só atuando, então há mais desafios e desse jeito você aprende mais. Mesmo que você esteja fazendo “só” um filme de ação um filme de ação.

Você vê esse filme como uma espécie de Álamo da geração em que você cresceu?
É um tipo de filme simples e que está em falta, como disse: um bando de caras, uma trama simples, uma missão; eles vão até lá e resolvem a parada, em situações que poderiam acontecer na vida real, sem gente escalando prédio ou vestindo roupa colada (risos). Não gosto desse tipo de filme, por isso faço filmes como Os Mercenários (risos).

Porque você escolheu a America do Sul como pano de fundo para o seu filme?
Escolhi a America do Sul porque é tão interessante visualmente e amo a idéia da floresta. Odeio trabalhar no deserto, já tentei, não funciona. E nunca vou voltar para a neve, não faria isso, esses homens também não, então ficaria sozinho. Tem alguma coisa nos trópicos que tem sido muito boa para nós, é bom para mim, tem muita ação, e a America do Sul esta cheia desses personagens caricatos que são resultado de alguma revolução, logo são substituídos por alguém, e depois voltam. Existe um tipo diferente de cultura que me interessa, mas não como na União Soviética que é muito mais urbana. Gosto de ar livre.

E como convenceu o governador Schwarzenegger?
Era para termos trabalhado junto umas dez vezes, mas nunca deu certo porque não nos gostávamos, éramos muito competitivos, e depois que nossas carreiras se acalmaram e ele se tornou governador, de repente começamos a ser amigos e eu percebi que éramos competidores gananciosos, realmente adversários. Ele me provocada, e incentivava, e eu fazia o mesmo. Finalmente, quando tudo isso acabou ele disse: “quer saber? eu gosto de você, você é como eu”. Somos praticamente a mesma pessoa, porque começamos juntos. Nunca vou esquecer de 1976, no Globo de Ouro, ele ganhou o premio de Melhor Novato, nós ganhamos Melhor Filme e eu fiquei maluco, jogando um monte de flores lá em cima e ele estava lá sentado, me olhando tipo: “eu vou destruir você” (imitando a voz de Arnold). Perguntei se ele queria fazer o filme e tive que chamá-lo umas cinco vezes, até que pedi para que fizesse por mim. E ele respondeu: “ok! sem problema”. Ele teve muita atenção da mídia com gente dizendo que o governador não deveria fazer isso e respondi: “qual é, todo político é um ator, vamos lá.”

Falando nisso, você é cidadão americano e pode se tornar presidente, isso é algo que lhe interessa?
Você realmente quer ver esse país indo para o inferno, não? Você é maluco? (gargalhadas). É só ver os meus filmes, eu bombardearia tudo, inclusive eu mesmo. A primeira coisa que eu faria seria tornar a política ilegal!

O que há há de tão especial nos filmes de ação dos anos 80 que os faz melhores que os de hoje em dia?
Não fizemos esse filme para jogar na cara de ninguém ou mostrar que os 80 eram melhores. Viemos dessa época, eu sou mais velho que esses caras, mas 80 e 90 foram realmente boas décadas para o cinema. Excelentes roteiros… então não foi um posicionamento em relação aos filmes atuais. Isso é só o que a gente faz. Isso é o nosso passado e não sabemos fazer de outro jeito. Não entraria em um traje espacial, até tentei em Pequenos Espiões e não funcionou. Nossos filmes sempre vão ser assim.

Como os filmes de ação mudaram em termos de atuação, produção e essência?
Hoje em dia é tudo feito para um público muito novo e meio romântico, como quando o Homem-Aranha beija a garota de cabeça para baixo. Essas coisas adolescentes. E é dramaticamente diferente do que o cara durão, que nem sempre fica com a garota. É um tipo mais ousado de cinema onde no fim nem sempre estamos felizes, nem sempre conseguimos o que queremos. Enfim, assim que o Batman colou seus músculos com velcro, o mundo se tornou um lugar diferente. Quando ele ficou amarrado naqueles fios, voando por aí, a coisa mudou. Eles fizeram ótimos filmes como O Tigre e o Dragão, mas é um planeta diferente. Eu não posso criticar porque algumas pessoas olham para O Poderoso Chefão e acham que é antiquado, mas é um ótimo filme que só não é desta geração. Sabe qual é a maior diferença? Ação hoje é muito grande, incorpora um espetáculo gigante. A ação da minha geração era muito próxima, um contra um ou mano a mano. Nunca foi homem contra monstro, contra nave espacial, contra o mundo. Era muito simples. É a mesma coisa que aconteceu em 1969, os estúdios estavam entrando em crise financeira com os musicais enormes de 60, 70 milhões, naquela época eram como 400 milhões hoje em dia. E eles estavam caindo, caindo… De repente eles vieram com Sem Destino e mudou tudo. É um grande ciclo, e eu acho que a bolha está pronta para estourar. Depois de Avatar acho que todos deviam se aposentar, de verdade. Ok é brilhante, agora vamos voltar para as coisas pequenas como um cara no cavalo, que toma um soco na cara e luta com outro cara numa barbearia. Vamos manter tudo bem simples. Sério. Depois de Avatar eu disse “pronto, não vou fazer mais um filme”. É brilhante. Acho que isso vai acontecer, acho mesmo. Na verdade o que está acontecendo é o filme de Christopher Nolan, A Origem é uma mescla dos dois estilos, não é um exagero que pode funcionar. É dentro da mente, não é real. É interno…

Já considerou fazer outra coisa em algum ponto da sua carreira? E, o quanto é complicado envelhecer no mundo do cinema?
É difícil, você ainda se sente uma criança, mas você tem artrite. Você ainda se sente jovem porque está interpretando. Por dentro se pergunta: “Como meu pai chegou ali?”, mas é o meu rosto. A maioria dos atores age como grandes crianças, tem o coração jovem. É assim que somos. Não são as pessoas mais maduras porque não é isso que é nosso negócio. Sabemos fingir, atuar, ficar soltos. E quando você percebe que sua vida tem sido esta fantasia, é trágico. Eu sempre disse: o artista morre duas vezes. E a segunda vez é mais fácil. A morte da carreira é brutal. É inevitável, mas é triste. Mas muitos de nós têm sorte porque estão presos a isso. Por exemplo, todos falam que eu só faço ação, nunca faço drama. Ação é muito mais difícil que drama. De verdade. É muito mais difícil. É legal fazer ação, mas estou esperando Pacino interpretar Rambo (risos).

Em um ponto do filme o seu personagem volta para salvar a moça da qual ele havia desistido, mesmo sem receber nenhum tipo de pagamento. Como roteirista, acha importante esse senso de Humanidade do personagem? Da onde vem isso?
Todos aqui cometeram grandes erros em sua vida e queriam ter a chance de se redimir, mas normalmente não podemos. Sempre uso isso, especialmente no ultimo Rocky. Em Os Mercenários falamos sobre homens de negócios e esse tipo de gente sempre está querendo mais e mais e mais dinheiro e quando conseguem ser milionários percebem que não tem nada. A esposa foi embora, as crianças viraram drogados, o cara não tem amigos, então, esse cara quando tinha cem mil podia ter parado para ficar com a família, mas não, ele queria um milhão.Quantos deles não pensam “abriria mão de metade disso para ter uma vida de verdade?” O filme fala sobre isso, o encontro do comércio com a moral, como ser um homem de negócios e manter sua Humanidade. Esse é o mundo de hoje. O personagem de Mickey é um cara deprimido que em um momento pensa “Sabe, eu poderia ter uma alma”. É salvando outra pessoa que você consegue ter uma alma. Todo mundo quer se salvar, isso é natural, mas salvar outra pessoa é sobrenatural.

Tradução: Vicky Fernandes

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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17 comentários sobre “[Entrevista] Sylvester Stallone

  1. Pingback: SOS Hollywood
  2. Nossa, abrir esse link pela manhã e só agora ( 17:50hs aqui no Brasil) consegui ler.
    Acho que já comentei isso outro dia, inveja pura…rss, vc aí papeando com o Stallone. Que legal saber as coisas que passam pela cabeça desse cara. Eu infelizmente ainda não fuii ver o filme, mas pretendo, aliás “pilhei” todo mundo aqui em casa, e estão todos com muita vontade de ver o filme…

    Engraçado que eu nunca gostei nem de Rambo, nem de Rocky, mas gosto muito desse cara, acho que por tudo que ele representa pra geração anos 80.

    Parabéns pela entrevista! 🙂

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  7. Enfim, assim que o Batman colou seus músculos com velcro, o mundo se tornou um lugar diferente. LOL

    Fiquei imaginando a reação do Stallone quando você perguntou se ele gostaria de ser presidente. LOL²

    Concordo com o Edu, uma das respostas mais interessantes foi sobre a rivalidade que ele tinha com o Schwarzenegger. Outra é sobre a visão dele sobre os filmes atuais. Hoje é tudo tão exagerado que perde a conexão com o real, perde a graça. Ontem eu estava assistindo o novo Karate Kid, e certos exageros ao invés de me impressionar me tiravam da história. E que era uma pena. Porque sem as câmeras lentas o movimento já era impressionante. Hoje já se sabe que dá pra fazer. Mas ainda é confuso definir o motivo pelo qual você deveria utilizar ou não certos efeitos.

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  10. E aí … tudo tranquilo galera…?

    Porra Stallone é foda mesmo… o cara fez filmes lendários… muito boa a matéria Fabio.

    Queremos te convidar pra ouvir nossas
    músicas … CARA DE PAU BRAZIL e outras… e apresentar a banda todos
    aqui.

    Som novo, pesado, muito doido e cantado em Português
    Brasileiro.

    No.1 no ranking MySpace Brasil categoria Metal.

    http://www.myspace.com/stronglikeabomb

    Assistam ao nosso demo Clipe “Instinto
    Extinto”.

    Valeu Fabio … tudo de bom aí… e muito obrigado a
    todos.

    Pensamento, Música, Manifesto e Arte.

    STRONG LIKE A
    BOMB

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  11. Hoje é exagerado, mas esse exagero vem desde Rambo, o cara que valia por um exército! Então acho que sem saber Stallone deu sua contribuição para os exageros atuais.
    As coisas são mais megas atualmente, mas não quer dizer que são mais exageradas.
    Exageros sempre ocorrem, até em Avatar aquele soldado (Stephen Lang) que lutava dentro de uma armadura e nunca morria me lembrava o Rambo…

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