[Entrevista] Ridley Scott

Certo de sua contribuição inegável para o mito de Robin Hood, Ridley Scott não poupou argumentos e investigações quando conversou com esse repórter, com exclusividade, numa manhã ensolarada na praia de Santa Monica. Bem-humorado e disposto a abordar qualquer assunto, o diretor de Blade Runner, Gladiador e Falcão Negro em Perigo se explicou, analisou e justificou suas escolhas, gostos e, por que não, crenças e mulheres!

Por que fazer mais um Robin Hood?
Porque ele é um grande herói. É o clássico cara que faz o bem. Quando fui convidado a trabalhar com Robin Hood, pensei “por que não dar meu toque pessoal?” Sinceramente, não me lembro quando tive meu primeiro contato com o personagem – provavelmente em algum livro infantil. Mas este projeto não começou comigo olhando para tudo que já foi feito com Robin e pensando “posso fazer melhor”. Estamos falando de um personagem que existe desde o século XIV ou XV, e é historicamente mencionado como Robin de Sherwood, Robin Loxley, Robert Loxley, “Homem Verde”… Há algo no personagem, algo que o personagem histórico original fez, que cativa a imaginação, e o mantém em nossa memória ao longo de todos esses anos. Mas também coincide com os ideais de cavaleiros e cavalheirismo da Idade Média, que são o que de mais forte restou daquele período. Os cavaleiros eram uma mistura de cavalheiros com guerreiros fazendo a coisa certa.

Com tanta mitologia cercando o personagem e a ficção se confundindo com os fatos, quanta liberdade você teve na produção do filme? Basicamente, você teoricamente poderia ter reinventado a roda se quisesse.
Procurei me manter fiel à história original de William Marshal (cavaleiro a serviço do rei Ricardo Coração de Leão, interpretado no filme por William Hurt). E o mais engraçado é que Marshal realmente teve um filho, e este realmente tinha uma bela irmã chamada Lucilla. Todos eles existiram. Robin provavelmente existiu de verdade; alguém específico deve ter existido e inspirado a história – provavelmente um fundamentalista, que lutou contra a Coroa e a opressão, o que seria absolutamente compreensível numa época de cavaleiros a serviço do rei e tudo o mais. Alguém deve ter começado a história e se tornado um modelo, alguém a ser lembrado. A idéia que dei a Russell (Crowe) para compor a época era a de que este período tinha duas características principais: sua violência e seu romantismo. Existiam cavaleiros e celebrações magníficas, mas Ricardo Coração de Leão foi responsável por algumas das maiores tragédias e genocídios nas Cruzadas; ninguém o lembrava de quanto ele era brutal. Houve um episódio famoso em que ele pediu um resgate, a ser entregue pela manhã do lado de fora dos muros de Acra (Turquia). Saladino estava perto dali, com suas tropas. O resgate não veio, claro, então Ricardo mandou suas tropas atacarem os saladinos e decapitarem cerca de 2.000 muçulmanos. Eu o enxergava como um rei cruel, que levou o Reino Unido à bancarrota para apoiar seu exército durante dez anos de Cruzadas. Resolvi também desenvolver mais o lado político da história. Todo filme de Robin Hood deixa várias perguntas sobre o rei John, e nunca explicam qual diabos era a situação política do país na época. A política costuma estar intimamente relacionada ao dinheiro (ou à falta dele), e resolvemos explicar porque o país se encontrava naquele estado terrível. No caso, grande parte deste estado se devia a um rei que deixou o país na miséria. Um rei que aumentou os impostos além dos limites do bom senso. Robin Hood (Robin Longstride, melhor dizendo) era um arqueiro no exército real, e ao voltar para casa depois de lutar nas Cruzadas ele encontra seu vilarejo falido – assim como o resto do país. Então, ele começa a ver várias carroças chegarem para coletar impostos. Um dia, resolve atacar a carroça de um nobre francês, roubar a comida que ele carregava e distribuí-la entre as pessoas do vilarejo. Achava incrivelmente irônico que entre os soldados do exército inglês nas Cruzadas, estivesse o homem que se tornaria Robin Hood. Todo o filme evolui para mostrar como Robin se torna o mito.

Quando Gladiador foi lançado, inspirou vários filmes com gladiadores.
Você não via um filme de gladiadores há trinta anos até resolvermos fazer o nosso. (risos)

O que este filme tem de novo com relação às várias produções sobre Robin Hood já feitas?
Tudo o que fiz em Gladiador foi fazer daquela história real. Todos os filmes anteriores exploravam o tema de maneira hollywoodiana demais. Mesmo Stanley (Kubrick) exagerou em Spartacus. Não conseguia acreditar em Spartacus. Ao tornar a história real, aproximo o público da verdade – afinal, realidade é verdade, e de repente temos este personagem fictício entrando na realidade.

Então você escolheu Russell Crowe pra o papel porque ele é um “homem real”, capaz de trazer essa verdade ao personagem?
Este é um dos melhores motivos. Se posso ter Russell Crowe no filme, por que não tê-lo?

Quando você se envolveu com este projeto, os planos eram de que ele fosse um pouco diferente. Nos primeiros estágios do projeto, Russell ia interpretar o xerife de Nottingham – mas ele acabou interpretando Robin, e o filme passou a ter um vilão mais claramente definido.
Notamos que o xerife não era “bacana” o bastante para protagonizar o filme. As pessoas do estúdio pensavam “vamos investir todo esse dinheiro num filme de Robin Hood, para chamá-lo de Nottingham (primeiro título do projeto, quando ainda estava na fase de desenvolvimento do roteiro)?” 8% da população mundial vai gastar US$ 10, 20 para ver esse tipo de história? Eu não gastaria! Não é o tipo de título que me atrairia. As pessoas no Japão, por exemplo, diriam “que Nottingham?” (risos)

Esta é a abordagem mais adequada ao personagem? Porque todos o conhecem como alguém nobre, e está tentando roubar dos ricos para dar aos pobres… e você brinca com isso. Seria possível transferir essa situação para um tempo diferente, usando-a como uma metáfora para o novo plano econômico de Barack Obama e tudo o mais?
Temos pessoas vivendo em situações terríveis. Obama foi encarregado de resolver estas situações quase impossíveis, e seria estupidez acreditar que ele conseguiria cuidar do problema de todas essas pessoas em apenas um ano. Vamos precisar esperar por pelo menos um mandato antes de podermos avaliá-lo. Por que todos ficam fazendo perguntas idiotas, colocando pressão em cima do presidente? Obama tem foco e honestidade, quer fazer a coisa certa e resolver a situação.

Roma, Cruzadas, Inglaterra Medieval… de onde vem todo esse interesse por História?
Adoro história. Meu primeiro filme foi Os Duelistas, que também tem pano de fundo histórico. Sou um grande fã de Dumas – que não é tão antigo quanto Robin Hood, data do período napoleônico – e adoro trabalhar com Gerard Dépardieu (com quem Scott fez 1492 – A Conquista do Paraíso). Não lembro quando começou, mas sempre fiquei fascinado pelos acontecimentos e os relatos de época. O passado é fundamental!

O que você encontra na História que não conseguiu encontrar no presente?
Gosto das armadilhas. E de westerns. Eu nunca fiz um western, e adoraria fazer. Não vejo nenhum bom western há um bom tempo.

A sua versão é mais sexy?
É. E surpreendentemente divertida, eu diria.

Russell Crowe comentou mencionou que você permite aos atores improvisarem, em vez de apenas seguirem suas ordens.
Quando escolho um ator para um projeto, ele chega ao set comigo já sabendo tudo o que ele fez, e o que pode fazer. Quero atores que continuem sendo originais mesmo depois que grito “ação!” pela 800ª vez. O centro de tudo é a evolução, a capacidade de sempre fazer algo novo. Penso que o diretor deve estimular a todos, e permitir aos atores explorar todos os seus recursos. Um dia, um ator muito bom – que estrelava uma série de TV, inclusive – me disse: “você não precisa me dizer como arrancar sorrisos ou lágrimas do público. Isso é o que eu faço para ganhar a vida”. Saber montar o elenco é boa parte do trabalho, então passo muito tempo escolhendo atores – mesmo atores novos. Oscar Isaac (que interpreta o príncipe John) é ótimo. Ele é um ator guatemalteco, que só passa 15 minutos em cena, mas se destaca. Ele trabalha principalmente no teatro; e quando filmávamos Rede de Mentiras, ele me disse que sua próxima peça seria algo de Shakespeare. Ele interpretaria o próprio Hamlet. Isso chamou minha atenção, então o convidei para Robin Hood.

Você escolheu Russell Crowe ou foi um processo natural??
Russell me disse: “sabe, acho que deveríamos fazer Robin Hood”. Ele leu as primeiras versões do roteiro, e não gostou delas – mas resolveu fazer o filme mesmo assim, e disse que teríamos que reescrevê-lo.

Por que esta relação com Russell? Você não precisa ser tão detalhado nos pedidos a ele, por que vocês já se conhecem bem e ele sabe o que você quer?
– Gosto de trabalhar com atores talentosos e inteligentes. Normalmente, aliás, os atores de maior sucesso são os que se destacam por sua inteligência. Interpretação é uma profissão intelectual – complicada, mas da melhor maneira possível. Russell é muitíssimo inteligente. Ele está sempre se desafiando, o que é ótimo para mim.

Deixando Robin Hood um pouco de lado e falando de um projeto mais antigo: você acha que Falcão Negro em Perigo (que ganhará edição especial em DVD nos EUA) pode ser melhor apreciado hoje em dia, com um novo governo?
O filme era tão “selvagem” que as pessoas ficariam com um pé atrás, mas tivemos uma bilheteria inaugural de US$ 42 milhões – em janeiro. Fomos muito bem. Mas o tema militar preocupou o estúdio – eles pensavam em atrasar a estréia por causa dos ataques de 11 de setembro. Bati o pé e disse que este era o Exército, e que era assim que as coisas estavam acontecendo. Eles estavam embaraçados e chocados – afinal, dois prédios haviam acabado de ser derrubados – mas eu dizia que devíamos exibir o filme em mais salas, já que as duas coisas não tinham nada a ver uma com a outra. Curiosamente, o filme acabou se tornando um material de recrutamento, pois o pessoal do Exército respeitou o material. Qualquer novo recruta hoje em dia assiste Falcão Negro em Perigo como preparação.

Quando descobriu que queria ser um diretor de cinema?
Toda criança se interessa por cinema. Elas adoram o cinema. Agora adoram DVDs (risos). O cinema era especial para mim. Íamos uma vez por semana, e não assistíamos tanta TV. Era nosso único acesso aos filmes de Hollywood, então eu assistia todos que conseguia. Fui descobrir o cinema alternativo por volta dos 20 anos, quando mudei para Londres. Assistindo a esses filmes, comecei a pensar em como me tornar um cineasta. Só que não havia escolas de cinema na época, então fiquei tentando descobrir como na área. Resolvi, então, me tornar um ator. E era um ator muito bom. Fiz trabalhos para a BBC até que eles me deram um curso de direção, que durou três meses. Depois disso, dirigi meu primeiro programa de TV. E foi assim que eu comecei. Mas os programas de TV eram todos gravados em fitas, e eu queria, claro, trabalhar com filme. Então, dirigi alguns comerciais [o primeiro deles envolvia um bebê derrubando papinha Gerber para todos os lados]. Eu adorava esse trabalho, e fiz muito sucesso nessa área. Tanto que passei quase 20 anos fazendo comerciais, e não dirigi meu primeiro filme até meus 40 anos.

O que te atraí à direção?
Dirigir é interessante por que você centra seu foco em tudo. É preciso ter as respostas para todas as perguntas e gostar do processo, porque filmes são, sem dúvida, um esforço coletivo. Como produtor, sei que todos os envolvidos precisam de autonomia. Produzir um filme requer coordenação de toda a equipe criativa, e o diretor é a pessoa que deve coordenar isso – ou não estará fazendo seu trabalho.

Qual lição fundamental esse período com comerciais ensinou?
Ensinou a passar uma mensagem de forma mais rápida, e com muita ênfase no visual. O mercado também mudou muito – na minha época, uma espécie de pico na publicidade britânica, você fazia cem comerciais por ano. Hoje em dia, um diretor está muito ocupado faz doze. Quando muito. Aprendi tudo com comerciais de TV: como penso as cenas, como edito, como me movo no set.

Pelo que você fala, Robin Hood é uma espécie de Cavaleiro Solitário para os ingleses. Isso significa que o mito é universal?
Se você parar para pensar, ele foi o primeiro cowboy. Quando penso em meus filmes favoritos, noto que muitos deles eram faroestes. A maioria – claro – com John Wayne. Eu assisti a todo e cada faroeste quando criança, e por quê? Porque caubóis sempre interessaram a todos, com suas armas e cavalos. Essas histórias sempre foram sobre mocinhos contra bandidos.

No começo, o roteiro era bem diferente. Robin seria mostrado como imoral, quase um vilão, e o protagonista seria o xerife.
O que não fazia sentido. Resolvemos deixar a história do xerife de lado para mostrar Robin – como ele se tornou um fora-da-lei e, depois, como ele se tornou Robin Hood. Pegamos o roteiro que já tínhamos e dissemos “OK, vamos recomeçar. Vamos repensar este projeto”. Resolvemos explicar algumas coisas que os outros filmes sobre Robin sempre ignoravam. Por que o xerife de Nottingham está sempre irritado, e porque é o cara malvado? Lembramos que ele queria subir na vida; ser xerife em York, ou talvez em Londres. Por que o rei John está tão inseguro sobre ser rei? Lembramos que ele herdou o reino, e sua herança foi uma Inglaterra falida pelo “glorioso” Ricardo Coração de Leão, que gastou todo o dinheiro do país em suas festinhas na Terra Santa. Para completar, ele pagou um resgate absurdo quando foi raptado pelos alemães na volta para casa – o triplo do orçamento de todo o reino para três anos. Tudo isso deixou a Inglaterra numa situação financeira terrível. Ao chegar à França, Ricardo morre durante o cerco a um castelo francês. Assim, John assume um país falido. Depois de dez anos de reinado, ele começa a cobrar todos esses impostos, que o tornam extremamente impopular. Ele teve que fazer isso? Sim. Então, acho que é um período interessante.

Christian Bale estava cotado para o papel de Robin, certo?
Bale queria fazer uma participação, interpretando Ricardo ou um dos Homens Felizes. Mas nosso nome para interpretar Robin sempre foi Russell.

Muita gente apareceu envolvida com o projeto, mas acabaram ficando de fora. O que aconteceu? Qual o caso mais lamentável?
Perdemos muita gente por causa da interrupção gerada pela greve (Angelina Jolie e Zoey Deschanel, por exemplo). Uma delas foi Sienna Miller, que interpretaria Marian. A forma como o roteiro se desenvolveu fez com que fizesse mais sentido escalarmos uma atriz mais velha, então Sienna (que tem 27 anos) acabou não se mostrando a escolha mais adequada. Precisávamos de alguém com seus 37-40 anos. E trabalhar com Cate (Blanchett) foi uma experiência reveladora. Ela é fantástica.

Talvez seja cedo para dizer, mas quais são seus próximos projetos? Em que você está trabalhando agora?
Temos muitas coisas em estágio de desenvolvimento. Minha produtora está finalizando Unstopabble, com Denzel Washington, The Eighteen. Minha filha dirigiu Cracks, recentemente, com Eva Green; e meu filho mais velho está terminando seu segundo filme (Welcome to the Rileys), com James Gandolfini e Kristen Stewart. Produzimos muitos projetos, mas a coisa mais difícil é deixar um roteiro pronto para ser filmado. Você reescreve, várias e várias vezes. Parece que nunca vai ficar bom.

As mulheres em seus filmes são sempre bonitas e sexies. O que é sexy para você numa mulher?
Tenho que dizer que é uma combinação de fatores. Para começar, ela tem que ser inteligente.

E o que te irrita nas mulheres?
Estupidez.

Fisicamente, o que te atrai numa mulher?
Eu gosto de pernas (sorriso).

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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