[Entrevista] Jensen Ackles: Entre a Cruz e a Espada

O Apocalipse foi evitado. Por isso, vamos avançar alguns anos e ver onde os Winchester estão e como é a vida de cada um deles. Não consigo deixar de lembrar daquela cena no final de Guerra ao Terror [vencedor máximo do Oscar 2009], na qual o personagem principal se vê diante de uma prateleira repleta de caixas de sucrilhos e não sabe o que fazer – Jensen Ackles

Distante do passado negro nas novelas vespertinas dos Estados Unidos, Jensen Ackles se firma como ator de ponta no mundo dos seriados ao garantir seriedade, humor e qualidade a Dean Winchester, o caçador de demônios mais charmoso da TV mundial. Pilar fundamental de Supernatural, especialmente depois de tomar as rédeas da narrativa na quinta-temporada com interpretações de tirar o fôlego e opções dramáticas sempre acertadas, Jensen merece boa parte dos méritos pelo sucesso do programa, que, recentemente, celebrou e exibiu seu 100º episódio. Seu personagem precisa escolher entre a fé e a família, enquanto, pessoalmente, as decisões são menos apocalípticas, mas igualmente interessantes: dirigir ou atuar? Depois de um forte aperto de mão e respostas muito bem pensadas, ele explica sua carreira, personagens e o futuro, tanto da série quanto de sua carreira, nessa entrevista publicada originalmente na revista Sci-Fi News, no luxuoso hotel S&L, no CEP mais famoso da televisão: 90210.

Conversei com Jim Beaver e Misha Colins agora pouco e eles…
Sinto muito por você! (risos) Horrível, né? Não por que insistem em convidar aqueles dois. (risos).

… comentaram todas as mudanças que a temática da série sofreu. Como você encara toda a trajetória das ‘lendas urbanas’ para decidir o destino da Humanidade?
Em princípio hesitei e fiquei nervosa por lidar com esse assunto, que pode ser muito delicado. É muito fácil ofender muita gente. Eric [Kripke, criador de Supernatural] me disse “olha só, não estou tentando reescrever a Bíblia; estou apenas utilizando esses elementos numa história ficcional”. Resolvi manter a atenção longe disso, afinal venho de uma família muito religiosa, assim como eu. Pude me manter alheio a essa preocupação justamente por não me sentir ofendido com nada presente no programa. A última coisa que quero é minha avó me ligando e dizendo [imitando a voz]: “você tem idéia do que acabo de dizer e fazer na série, mocinho?” (gargalhadas). Felizmente eles [a família] compreenderam o tom e nunca reclamaram.

Pode não ser ofensivo, mas não deixa de ser uma decisão difícil, sendo uma pessoa religiosa, se ver diante do apocalipse e ter que dizer não a Michael; que é a ‘coisa certa’ a fazer e qualquer cristão convicto não pensaria duas vezes.
Em relação à história, com certeza. A falta de fé de Dean é algo interessante de se interpretar. Ele reage às situações de forma diferente do que o faria. Muita gente me pergunta as similaridades e gostos em comum entre eu e Dean e, devo dizer, essa relação mudou ao longo do programa. No começo, éramos muito parecidos, pois eu não sabia quem Dean era realmente, ou seja, era eu na tela. Com o tempo, os roteiristas, Eric e eu fomos definindo esse sujeito e, acredite, agora ele fala, anda e pensa de forma bem diferente; seja do personagem na primeira temporada ou de mim. Ele é meio duro na queda, e também é engraçado. É o cara que sempre [ou quase] conquista as garotas. Minha relação com ele mudou muito e sempre me surpreendo, pois, agora tudo parece novo para mim. É por isso que adoro atuar.

E por falar em desenvolvimento, enquanto a maioria das séries fica paranóica com a renovação, vocês conseguiram o sinal verde para a sexta-temporada bastante cedo. Como isso mudou o clima no set?
A pressão vai embora e nos ajuda a pensar no que importa, em vez de ficar pelos bastidores perguntando sobre as negociações e tendo dúvidas sobre a vida no ano seguinte. Ter emprego garantido por mais um ano é ótimo, especialmente nessa indústria. Mas agora a pressão vai para cima dos roteiristas, que precisam criar uma temporada inteira. Sinceramente, sexta-temporada é a que mais me intriga, pois Eric tinha esse plano definido para cinco anos quando criou Supernatural. E ele se manteve fiel a isso. Ele nunca disse “olha, querem um sexto ano, então vou esticar a quinta e ficar enrolando”. Eric não é esse tipo de roteirista, e nada indica que isso vá mudar. Quando ele apresenta dúvidas ao espectador, ele responde a essas perguntas, diferente de alguns programas por aí [Lost soa familiar?]. Há muita confiança nessa produção e isso é transmitido ao espectador. Estou empolgado com essa temporada pois vamos apertar o botão “reiniciar”.

Como assim? Aliás, como é possível continuar o jogo depois de superar o Fim do Mundo?
Pelo aspecto criativo precisamos entender que acabamos de superar um clímax gigantesco e entraremos num território desconhecido. O Apocalipse foi evitado. Por isso, vamos avançar alguns anos [foi confirmado na Comic-Con que o salto será de aproximadamente 1 ano] e ver onde os Winchester estão e como é a vida de cada um deles. Não consigo deixar de lembrar daquela cena no final de Guerra ao Terror [vencedor máximo do Oscar 2009], na qual o personagem principal se vê diante de uma prateleira repleta de caixas de sucrilhos e não sabe o que fazer. O cara desarma bombas no Iraque, mas fica perdido no supermercado! Aquilo não é a realidade dele; assim como deixar de ser um caçador parece coisa de outro mundo para Dean. Toda sua vida foi dedicada a uma única tarefa, quase como uma escravidão voluntária; agora é hora de enfrentar o monstro da vida real. Tudo isso é totalmente novo para mim, pelo aspecto da interpretação, e poderei explorar muito mais a vida de Dean, por isso toda essa empolgação. Um tipo de tensão mais introvertido, algo como monstros internos.

Como você avalia os sentimentos entre Sam e Dean na quinta-temporada? Eles já perderam a fé um no outro, voltaram atrás, tentaram se afastar, mas continuam juntos…
É uma relação de constante aprovação e desaprovação pelo aspecto da confiança. Eles querem acreditar um no outro, mas sempre acontece alguma coisa que destrói essa tentativa. Quando isso acontece, eles duvidam de forma intensa, porém, da mesma maneira, algo surge para mostrar que há esperança. Gosto dessa dinâmica, dessa batalha constante para definir a lealdade deles a cada episódio ou temporada. Esse zigue-zague é atraente para o público, pois ninguém sabe para onde a vida deles está caminhando; é uma dúvida constante: eles são um time? Estão planejando algo pelas costas? Quem vai ser o primeiro a mudar de idéia?

Bom, o fato de que eles podem, eventualmente, tentar se matar no Apocalipse ajuda um bocado nesse aspecto…
Totalmente. É algo como Cain e Abel. Quem vai dar o primeiro golpe é a grande pergunta.

Todas essas mudanças também afetaram, por exemplo, a escolha das músicas nos cassetes do Impala ou mesmo a paixão por X-Burgers? Esses gostos se embaralharam com sua preferência pessoal em algum ponto?
Muito disso é culpa minha, devo admitir (risos). O rock’n roll clássico sempre esteve lá; Eric fazia questão: um carrão truculento e classic rock. Acho que ele estava cansado de tanto pop emo invadindo a TV (gargalhadas). Agora, em termos da comida, sou culpado! Para que mentir? (gargalhadas). Logo no comecinho da primeira temporada, colocaram uma bandeja cheia de salsichas perto de mim, numa cena. Aí peguei um e comi. O diretor me disse: “continue comendo; ficou engraçado!”. (gargalhadas). Achei o máximo, mas não imaginava que dali para a frente, toda vez que Dean tivesse uma chance, ele apareceria comendo. Adoro X-Burgers!

Preciso perguntar: como diabos aconteceu aquela gravação de The Eye of the Tiger? Estava tudo armado ou simplesmente aconteceu?
(gargalhadas) Tudo espontâneo! A música estava tocando fora do carro para que eu pudesse acompanhar o ritmo e Jared [Padalecki, co-estrela da série] deveria chegar perto, bater no carro e dizer algo como “cara, desligue essa música; temos mais o que fazer”. Ele resolveu bancar o engraçadinho e não apareceu, só para ver o que eu faria. Deu no que deu. (risos).

Dean Winchester (Played as Jensen Ackles) Eye of The Tiger Scene from Kouga on Vimeo.

Interpretar Dean te dá muita oportunidade para desenvolver drama, comédia e, claro, ação. É aquele tipo de atuação ideal para alguém se descobrir. Já sabe qual gênero te agrada mais?
Aquele que me dá emprego! (risos). Ação e comédia me atraem, mas meu pensamento sempre está em trabalhar com quem me torna um melhor ator. Pratiquei muito esporte quando era garoto e notei que sempre melhorava muito quando jogava contra alguém que tivesse mais experiência ou que fosse melhor que eu; precisava me esforça e me aplicar mais. Então, se eu puder pelo menos ter contato com os verdadeiros talentos da indústria e absorver o que eles têm a me oferecer, já vai valer a pena. Ser ator de séries permite constante evolução. Comecei a me interessar bastante pelos movimentos das câmeras e como os diretores contam as histórias por meio do posicionamento das lentes. Há muito mais além de ser um personagem e entreter o público. Poder ver como tudo isso acontece e compreender suas motivações, por que um determinado ângulo foi escolhido e etc, por exemplo, me fascina demais. Aprendi bastante ao longo desses cinco anos.

Falou como um verdadeiro diretor. Já pensou em colocar isso em prática?
Curioso perguntar. Não mencionei isso para ninguém ainda, mas essa nova relação surtiu tanto efeito que me ofereceram a direção de um dos episódios da próxima temporada. Você não imagina meu grau de empolgação.

Pode antecipar o número do episódio ou algo do roteiro?
Ainda não sei. Apenas disseram: “você merece!” Não pedi, o que valorizou ainda mais o convite. Não houve negociação, nada de agentes; foi reconhecimento da equipe pelo meu interesse e idéias. O pessoal notou isso pela minha participação mais ativa nas cenas, às vezes até ajudando a dirigir quando nos era dada a oportunidade. Se um dos diretores perguntava o que gostaríamos de fazer, sempre sugeria algo em termos de posicionamento, ângulo de câmera e movimentação para que pudéssemos garantir mais intensidade na cena. Isso ajudava a dar mais velocidade a todo o processo; e funcionou. Quando o convite chegou fiquei sem jeito e realmente surpreso! Supernatural é um seriado muito concorrido na direção.

Descobriu esse desejo em Supernatural ou já pensava na direção antes da série?
Foi durante o programa. Nunca tive aspiração à direção antes.

Além das sugestões, essa nova percepção também afeta seu estilo de atuação, certo?
Bastante, pois meu interesse foi além dos bastidores e começou a me dar confiança para prestar atenção em outros aspectos artísticos ao meu redor, seja no iluminador ou no cinegrafista. Comecei a ler roteiros de uma maneira diferente, indo além da simples preparação e pensando em como m eu comportamento poderia melhorar a cena e ajudar em sua realização. Por exemplo, se o roteiro previa uma conversa em movimento dentro de um quarto de hotel, eu sabia que não poderia fazer tudo aquilo, pois a câmera teria que ficar em um lugar fixo, portanto, se minha ação física vai ser limitada a uma pequena área ou a uma mesa, que seja, preciso adequar minha atuação àquela realidade. Foi um casamento interessante entre cinegrafista e ator.

Essa situação gera algum tipo de competição ‘familiar’, ou seja, Jared vai querer dirigir também?
(risos) Não. Especialmente por não ser algo que ele se interesse tanto quanto eu. Ele respeita meu gostos e ficou empolgado pela notícia. Quando contei, ele me disse: “Que bom, cara! Você merece! Vai ser ótimo!” Ao longo dos últimos cinco anos ele foi a pessoa com quem passei mais tempo na minha vida, então nos conhecemos bem.

Sendo um sujeito tão focado, e jovem, é surpreendente te ver falando em direção de forma tão séria e decidida. Especialmente numa época em que praticamente a maioria dos “astros jovens” vive nas revistas de fofoca. Nunca o vemos lá. Isso é uma coisa muito boa, não?
É bom demais! Justamente por não ser o tipo de atenção que eu quero. E facilita por filmarmos em Vancouver, ou seja, fico distante dessa loucura de Hollywood. Mas mesmo que estivesse por perto, filmamos entre 12 e 14 horas todos os dias. Não temos tempo para ficar de bobeira e pensar em fazer besteiras como arrancar minha camisa e sair correndo pelas ruas do centro de Los Angeles (risos).

Suas fãs iriam ao delírio!
(gargalhadas) Preciso lembrar que tenho 32 anos de idade e não sou um moleque estúpido. Quero transformar isso numa carreira e levo tudo muito a sério; respeito meu trabalho. Isso não significa que minha vida seja chata, longe disso, me divirto bastante. Posso curtir como todo mundo, mas sei que transformar isso no meu dia a dia seria o mesmo que me sabotar. Essa carreira é frágil. Muita gente boa que fez muito sucesso sumiu simplesmente pela falta de oportunidade, então ficar focado é fundamental. Não quero acabar como Corey Haim. É trágico, mas também é uma lição válida e dura para qualquer ator jovem.

por Fábio M. Barreto, de Beverly Hills

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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27 comentários sobre “[Entrevista] Jensen Ackles: Entre a Cruz e a Espada

  1. Eu sou fã da serie desde o inicil e tenho que agradecer o meu irmão por isso, já que foi ele me fez assitir a primeira temporada quase que obrigada, mas hoje eu sou bem mais fã da serie que ele. Esse seriado é viciante, todas as pessoas mesmo as que tem medo dessas criaturas adoram muito a serie…
    Mas vem por aí a 6ª temporada e vai ser muito mais facinante que todas as outras, assim como foi todas as temporadas anteriores.

    Dia 24 de setembro estreia ao 1º episodio da 6ª temporada nos Estados Unidos

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  8. Assisti alguns episódios de Supernatural, mas depois deixei de acompanhar. No entanto me lembro bem do Dean Winchester e achava o personagem bastante interessante. Lendo a entrevista me deu vontade de assistir o resto. Muito boa a entrevista, além de gato, é inteligente e interessante… -q hahaha.

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  10. Acompanho desde o inicio, e quando demora a sair a próxima, vou assistindo tudo de novo!!! Na minha opinião, sem o “Dean” o Supernatural não seria a mesma coisa, o humor cômico e o seu próprio “eu” paradoxo, e ainda conseguir fazer a expressão certa p cada situação e por ultimo, quando ele chora, nos faz chorar junto…sempre me surpreende! Realmente o supernatural não seria a mesma coisa, sou fá do personagem “Dean” e como também do Ackles; que atua e o interpreta muito bem!!!

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