[Entrevista] Harrison Ford

Não interpreto heróis. Sou apenas um ator – Harrison Ford

Uma das entrevistas mais marcantes do ano, sem dúvida, foi a de Harrison Ford. Muita antecipação, expectativa e uma conclusão fabulosa marcaram meu encontro com um de meus heróis de infância. Mesmo ele dizendo não dar muita bola para Han Solo, lá estava o sujeito, sentado ao meu lado. Foi de arrepiar. Confira, pela primeira vez, a entrevista completa, já que apenas parte dela foi matéria de capa numa das maiores revistas do país.

Existe alguma complicação para voltar a um personagem e de um filme de ação como esse 20 anos depois, além, óbvio, da passagem do tempo?
Indiana Jones é um personagem que sempre pode ser mais explorado, tem ótimos relacionamentos e sempre algo novo para mostrar. Por pensar assim, quando terminei de me vestir e colocar o chapéu, toda essa experiência e perspectiva voltaram. E ainda bem que a roupa original ainda me serviu. Consegui manter a mesma forma por 20 anos, o que é uma façanha. Foram 80 dias de filmagem com um só de folga, mas tudo correu bem.

As filmagens podem ter levado menos que três meses, mas o roteiro virou novela e parecia que nunca ficaria pronto…
Começamos a pensar num quarto filme pouco depois de Indiana Jones e a Última Cruzada e viemos alimentando a idéia ao logo dos anos, mas estávamos fazendo outras coisas e ninguém ficou sentado em casa, olhando para a caixa de correio, esperando um roteiro novo. Depois que nós três concordamos [Ford, Steven Spielberg e George Lucas], ainda precisamos de mais três versões até o roteiro final, com 120 páginas. Bem grande, por sinal.


O que faltava para você entrar de cabeça no projeto?

Nada, para ser sincero. Sempre tive isso em mente, aí as condições para retomar o personagem surgiram e eu fiz minha parte. Se faltava algo era os elementos se encaixarem e nós três concordarmos.

É verdade que George trouxe esse conceito da Caveira de Cristal, mas você e Spielberg não estavam muito convencidos disso?

É, pode-se dizer que sim. Eu gosto de relacionamentos, elementos de aventura e tal. Mas o George gosta daquele “uiui” místico. Gosta demais, aliás. E tenho que admitir. Ele estava certo. Ele está sempre certo. Mais ou menos.

Ele é teimoso?
Somos teimosos. Os três.

E quem é mais teimoso: Indiana Jones ou Han Solo?
A diferença entre Han e Indy é enorme. Indy é mais complexo e interessante. Dá pra explorar muito mais artisticamente falando, como elementos da natureza e do caráter dele. Cada personagem tem apenas a mim para transmitir o que precisa ser transmitido. Então, todos são parecidos comigo (fisicamente). Não sou aquele tipo de cara que coloca um nariz de borracha ou maquiagem pesada. Meu público não gosta de me ver fazendo isso. Eu acho. Eles votam no que eu faço com os dólares deles nas bilheterias. Han Solo é um pouco bobo. É sim. Muita gente o chama de caubói. Bem, há caubóis e Caubóis. Na época foi ótimo, mas não há muito mais a ser dito sobre ele.

Por quê?
Solo não é interessante. Foi ótimo naquela época. Não há razão para voltar. E aquelas calças (cara de desgosto). Mas há personagens que valem a pena. Você pode fazer algo inesperado, novo. Gosto do Ryan, mas não gostei muito do livro que inspirou o último filme [A Soma de Todos os Medos]. Achei bem fora de contexto em relação aos outros. Não era pra mim, mas eu voltaria a fazê-lo, pois não depende da idade.

Qual o segredo de Indiana Jones que tanto te fascina?
O personagem está no chapéu, na jaqueta, em tudo aquilo que eu uso nas cenas. Ele surge como uma entidade independente, é curioso. Tenho certeza de que conseguimos criar algo tão empolgante e com tanta qualidade e energia. Fico orgulhoso por poder introduzir o personagem para uma nova geração. Solo não é interessante. Foi ótimo naquela época. Voltar não rola. E aquelas calças. Mas tem personagens que valem a pena. Você pode fazer algo inesperado, novo. Gosto do Ryan, mas não gostei muito do livro que inspirou o último. Achei bem fora de contexto em relação aos outros. Não era pra mim, mas eu voltaria a fazê-lo, pois não depende da idade.

Você acha que a nova geração pode gostar de Indy mesmo com tantos novos heróis?
Bourne depende mais do físico. Não tem nada impossível ali. Aqueles com gente no espaço são meio impossíveis. Mas Indiana influenciou muitos dos pais desses garotos e garotas e, não duvido, fez parte da vida deles em algum momento. Sempre há espaço para aquelas histórias em nossos corações.

Mas como competir com tanta ação e juventude? Como você disse, vocês dois estão 20 anos mais velhos, logo..
Fizemos todos as cenas de ação como antigamente. Poucos dublês. Eu treino normalmente para manter a forma. É que dói muito parar, sabe (risos). As cenas de ação são muito relevantes para Indiana Jones e é importante que eu as faça para criar consistência com o personagem e gerar uma conexão emocional com o público. Eles precisam ver meu rosto, não as costas de um dublê. A segurança foi uma das grandes mudanças. Eu e o Shia usávamos uma “roupa de vôo”, que levava um a série de cabo de segurança. Então dava para fazer quase tudo com muita segurança. Na cena do trailer, quando eu pulo com o chicote dentro do galpão, tinha um cabo lá. Era tudo bem projetado.

Aquele era o galpão da Arca da Aliança?

(sorriso contido) Era um ótimo galpão, mas só o filme vai dizer se era ou não. Indy não gostou de passar por lá.

Já que você mencionou o trailer, aquele “professor meio-período” tem planos de se aposentar?
Aí está um assunto que ninguém sequer mencionou! Podem contar comigo sempre que precisarem, mas nosso foco foi total nesse filme primeiro, quem sabe não falamos num próximo daqui um tempo.

E ainda tem que ensinar o novato Mutt, ou melhor, Shia LeBouf…

Ele não precisa de ninguém para ensiná-lo. Shia é um ator muito talentoso e que sabe onde está pisando. Acho que ele estaria errado em ficar esperando conselhos de alguém como eu.

Quem eram seus heróis da adolescência?
Eu não tinha esse tipo de coisa quando era criança. Meu maior herói era Abraham Lincoln. Nunca gostei muito dessa definição “herói”. Quando um xerife sai ao meio dia para um duelo, ele é um homem criando um personagem complexo e cheio de nuanças. Essa noção de “herói” foi algo que surgiu mais tarde na indústria, pois, alguém achou que precisávamos desses heróis. Mas nós sempre tivemos. Um herói é o cara que salva um bebê de um incêndio, um policial que protege um inocente, um soldado que salva seus companheiros.

Os personagens antigos ainda são mais interessantes que os novos “heróis”? Tantos grandes personagens voltando…
Isso significa uma coisa: empregos para atores mais velhos (risos).

Mas o talento deve fazer alguma diferença nessa equação…
Tudo tem que fazer sentido para o público. Eles têm que querer ouvir aquela história, é simples assim. Se não gostam do que estão vendo, vão procurar outra pessoa para contar. Por isso muitos atores desaparecem. Sua história sempre tem que ser interessante e bem contada. Desaparecer é mais fácil do que vocês imaginam. Entendo que meu público seja meu consumidor, se não entregar o que querem, eu perco o cliente.

Então é o “contar a história” que faz de Indiana Jones um sujeito tão carismático ainda hoje?
Hoje, o pessoal assiste aos filmes com a família. O que funcionou por muitos anos. Pais mostrando aos filhos e filhas. Agora é a chance de mostrar o personagem de uma maneira renovada, especialmente para quem não havia sido exposto – por não gostar do gênero ou por nem estar vivo na época. A experiência era diferente há 27 anos e ainda existe um público gigantesco. “Pesquisas dizem” que esse é o filme mais antecipado do ano. Sinto como se fosse o cara que roubou o banco, escapou da polícia, mas ainda não conseguiu olhar na mala para ver quanto tem. Sei que vai fazer sucesso. Não tenho nenhuma dúvida, seria infantilidade dizer o contrário. Mas a parte interessante não é tentar saber quanto sucesso vai fazer. Só tenho certeza de que as pessoas vão gostar e que não vai foi um desperdício de dinheiro ter feito esse filme.

Por que tanto zelo e preocupação, já que o personagem é querido e tem gerações de adoradores?

É exatamente por ele ser especial para mim e para meus clientes. Eu trabalho para eles, para o público, são eles quem chancelam o meu trabalho com seu dinheiro nas bilheterias. A história tem que ser boa e quem a conta também, caso contrário, a clientela escolhe outro contador. É simples assim. Não posso ser aquele tipo de ator que coloca um nariz de borracha ou maquiagem pesada para parecer outra pessoa, acredito que meu público goste de me ver – jovem ou um pouquinho mais velho – e tenho que atender a esse tipo de demanda, por isso fiz todas as cenas de ação do filme. E o filme precisa valer a pena, pois seria um desrespeito filmar uma história qualquer somente por dinheiro.

Todo filme aposta numa cultura em especial. Dessa vez é a Maia quem surge no roteiro. Como isso foi abordado?
Não diria abordado. O que fazemos é tirar vantagem dessa cultura, bem da verdade. Não tentamos entender ou aprofundar os conceitos. É um elemento que está lá, mas não é o sempre das atenções. O que Indiana faz para salvar ou recuperar esses elementos é o que move a história. Sempre viajamos nos filmes do Indy. Normalmente, aara lugares que os norte-americanos consideram exóticos e mergulhamos em culturas antigas para ter a fonte para mistério. É assim que funciona.

Sua imagem é muito associada a outros heróis como Indy, Han Solo, Jack Ryan… você concorda com essa classificação de herói?

Tenho muito orgulho de Indiana Jones e Jack Ryan eu também voltaria a fazer, pois há tem muito a ser explorado, porém, ser herói não faz sentido. Ninguém assina contrato para viver um ‘herói’, aliás, qual o currículo necessário para ser um herói? Interpretamos personagens e pessoas que, às vezes, precisam praticar atos de heroísmo, mas é muito pretensioso se considerar um herói. Um dia alguém decidiu que precisávamos de heróis na indústria cinematográfica, a partir daí, todo filme ganhou um, mas muita gente se esquece de que herói mesmo é um bombeiro que se arrisca por uma criança, um bombeiro corajoso, um soldado que pula numa granada ou gente comum que vive com pouco dinheiro e cria famílias inteiras com dignidade.

É certo dizer que, entre seus filmes, Mosquito Coast é seu predileto?
Gosto muito das idéias que estão ali e das palavras que o filme utiliza.

Se as idéias são importantes, quais as mais relevantes fazem parte da criação de Indiana Jones?
Vou deixar isso para os bloggers especularem. Falando em idéias, eu prefiro pensar nas idéias contidas em uma cena, que devem ser executadas corretamente para abrir espaço para uma nova idéia, que é a cena seguinte. É assim que eu penso. Não é meu trabalho pensar nos conceitos implícitos se eles não dizem respeito à cena em si. Eu preciso transmitir a informação sem parecer chato ou falso. O importante é como ser claro, conciso e honesto. É esse tipo de idéia que tenho em mente quando estou vestido como Indiana Jones. Há potencial nele para todos os aspectos que você quiser. Relacionamento com a família, amigos, paixões. Cada dia de filmagem teve sua dose de idéias muito criativas para realizarmos.

E a fantasia original ainda serviu?
Dá para acreditar nisso? Parece que foi ontem. Tudo encaixou perfeitamente, mas, mesmo assim, fizeram algumas novas. O interessante foi tudo aquilo voltar. Ótima sensação.

Já pensou em ser diretor?
Não. É muito difícil, demora muito e não paga bem o suficiente (risos).

E TV, alguma vez considerou atuar em uma série?
Não faço TV. Participar de uma série como personagem fixo é parecido demais como um emprego de verdade. TV te prende a um lugar, a um compromisso. E já tem uma pessoa na família [Calista Flockart, atual esposa de Ford] que está comprometida com TV, por um longo período aliás, então já é o suficiente.

É mais difícil chegar no topo ou ficar?
As chances são praticamente nulas. Independente do período que você olha, hoje ou 30 anos atrás. Tudo depende de que tipo de trabalhador você é. Se você é fácil de trabalhar e disponível, a coisa fica mais fácil. E a sorte é mais importante do que todo o resto, às vezes.

E ser astro, houve mudança nesses 20 anos? As pessoas deixaram de ir ao cinema para ver um ator em especial?
A década de 80 foi um dos períodos mais saudáveis para os filmes. Não existia DVD, o VHS estava começando e as pessoas iam ao cinema, pois era o único jeito. Hoje em dia, criaram-se vários públicos. Há quem goste de ficar em casa, há quem continue seguindo atores e há aquele pessoal, especialmente jovens, que gosta de sair e de aproveitar o bom e velho escurinho do cinema. Ainda funciona, certo? (risos). Por conta disso, os jovens se tornaram os espectadores mais consistentes. Eles têm afinidade com o pessoal da idade deles, pois querem ver a história deles mesmos. Então, o negócio mudou e ainda tem muito trabalho para caras velhos atuando como sujeitos velhos. Não faria sentido me ver fazendo de conta ter 30 anos. E eles precisam de caras da minha idade. Mudou, mas não só por causa de afinidade pelas estrelas ou algo assim. Há muitas facetas para olharmos e essa questão é bem complexa.

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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