[Entrevista Exclusiva] Adrien Brody

Adrien Brody já ganhou Oscar de Melhor Ator, mas, como todo garoto sonhador, não resistiu à tentação de encarar um filme de ação e lidera os humanos na grande caçada de Predadores!

Com rosto sério, sujo pela maquiagem e vestindo seu figurino para Predadores, Adrien Brody chegou com um olhar soturno à mesa de entrevistas no set de filmagens na Troublemaker Studios, em Austin, no Texas. Teoricamente, era a pausa para o almoço, mas, claramente, ele não pensava assim. A única peça de roupa que não condizia com Royce, o líder dos humanos no novo filme de Robert Rodriguez, era uma blusa de moleton com capuz. Fazia frio no antigo aeroporto da cidade, mas isso não incomodava ao vencedor do Oscar de Melhor Ator por O Pianista. Ou melhor, não incomodava a Royce, pois, pelo menos no começo, era quem conversava com a reportagem do SOS Hollywood. A pose se manteve por algumas perguntas e Brody procurava respostas olhando para o teto, enquanto mantinha as mãos no bolso da blusa. Entretanto, como sujeito interessante que é, deixou o personagem de lado e iniciou uma boa conversa quando este repórter fez o deixou curioso com as perguntas. Sempre depende muito mais do ator, mas se os jornalistas não colaboram, eles ficam chatos e desinteressantes. Felizmente, isso não aconteceu nessa longa conversa exclusiva, na qual Brody explica seu estilo de atuação, sua relação com a ficção científica e, claro, fala sobre Predadores, que estréia hoje no Brasil!

Na primeira vez em que você leu o roteiro, você achou que precisaria se exercitar muito?

É claro. Um papel como esse exige certo nível de condicionamento físico. Em qualquer papel você precisa ficar fisicamente verossímil como o personagem.

Royce é bem diferente do tipo físico do Schwarzenegger, as pessoas não gostariam de ver alguém exageradamente musculoso.

Bom, eu não sou e nem poderia ser como ele. É bem diferente. Eu o admiro muito, o físico era o diferencial dele, parte da sua formação. Os primeiros testes levaram em conta uma carreira que ele dedicou ao fisiculturismo. Não sou assim. Sei que vai haver milhões de comparações, mas esse filme é diferente daquele [o primeiro Predador]. Podemos ter uma estrutura similar e a presença do personagem heróico, mas todo o resto existe independente da primeira versão.

Royce não é um herói típico, certo?

É difícil, para mim, falar sobre isso. Todos os personagens aqui são indivíduos predadores, de certa forma. Royce basicamente caça caras maus como forma de vida. E isso o ajuda a sobreviver e a ficar atento com as outras pessoas que caçam.

Os personagens são bem profundos, eles têm uma subjetividade maior? Combina bem com você!
Obrigado por mencionar isso (sorrindo levemente pela primeira vez). Isso difere de projeto para projeto Você consegue entender naturalmente as características de alguns personagens ao lê-los, e outros têm suas características materializadas apenas no filme e são indefiníveis. Preparação é o segredo. O segredo, pra mim, é: independentemente do tipo de filme que estou fazendo, dar o retrato mais fiel possível. É claro que se divertir e manter a essência de um filme como esse também é importante, mas ele deve ter a realidade como base. Há muito que fazer. A busca de Royce diz respeito à responsabilidade com os seres humanos; ele é um sobrevivente. E esse é um personagem interessante de ser interpretado. Alguém que, na superfície, está se embrutecendo tremendamente.

Isso é algo que você busca?
Eu busco papéis complexos e que sejam diferentes daqueles que eu já interpretei ou dos que são familiares demais para mim.

Você procura papéis complexos por que você acha que é melhor ser complexo e ter algo a mais a dizer, ou é por que Hollywood anda dando muito destaque à futilidade e alguém te que fazer algo a respeito?
[risos] A vida é complexa, os seres humanos são muito complexos. A beleza do cinema é a possibilidade de se filtrar certas características dos personagens. Podemos ter um personagem muito simples em um nível, mas tudo é complexo, tudo precisa ter nuances e camadas. Ao mesmo tempo, há vezes em que você não está se doando o suficiente para mergulhar na complexidade do personagem como gostaria. Mas isso é o interessante para mim, isso é o que me fez ser um ator. Meu interesse no comportamento humano e em como todos nós somos diferentes. Ver algo quase minimamente fora do seu contexto, um gesto que alguém faz, registrar isso de alguma forma em mim, e incorporar isso depois em um papel é uma coisa maravilhosa na minha vida, é algo que eu amo. É algo pelo qual eu tenho consideração. Cresci em Nova Iorque andando de trem e fui para a Performing Arts, que é uma escola de teatro. Aprendi muito mais sobre atuação na minha ida à escola, prestando atenção, pegando quatro trens diferentes e nas ruas de Nova Iorque, do que nas aulas, sinceramente. Quanto está à sua disposição? Eu acho que a beleza em atuar está em evocar tudo isso e incorporar nos personagens.

E você ainda observa bastante?
Sim. Isso nunca vai deixar de fazer parte de mim. É algo interessante porque quanto mais famoso eu sou e mais reconhecido eu me torno, mais esse processo fica complicado, porque as pessoas prestam atenção em mim antes que eu possa prestar atenção nelas. Minha presença é anunciada, de certa forma. É algo muito bonito por um lado, porque aproxima as pessoas e a maioria delas são muito abertas, legais e gentis comigo, mas isso muda a dinâmica natural do lugar e aquele anonimato que te dá liberdade para sentar e observar. Mas viajo bastante. Não é pra chamar a atenção, mas eu viajo bastante, muitas vezes trabalho nas áreas externas de filmagens. E com freqüência ainda tenho muita liberdade, e eu amo isso.

É interessante porque em King Kong, você também está inserido num ambiente de selva. Quais são as semelhanças e diferenças pelo aspecto da atuação?
Existem muitas semelhanças. Isso é a realização de um sonho pra mim. Quando garoto, eu adorava esses tipos de filmes, principalmente Predador. Eu lembro de assistir a Predador no cinema com os meus amigos. Os personagens eram muito legais, o Schwarzenegger era icônico. O poder de fogo que aqueles caras tinham… Eles detonavam! Tinha esse apelo visceral de ação. Estou muito animado! Sei que os adolescentes vão curtir essa versão, porque tem a brutalidade do primeiro filme, mas não parece que perdeu o mistério – temos muita tecnologia à nossa disposição atualmente. É muito diferente dos filmes de ação da década de 80. Mas há algo de especial nisso. Assim como em King Kong. King Kong era o sonho do Peter Jackson, o filme que o inspirou a se tornar um diretor. Foi a minha primeira chance de liderar e ser um herói em um filme de estúdio. Trabalhei com esse objetivo por muito tempo. Existem poucas oportunidades, principalmente se você for conhecido e consagrado como um tipo específico de ator. É muito difícil para eles [os estúdios] enxergarem além disso. Meu objetivo sempre foi tentar encontrar coisas diferentes, coisas que me façam crescer. E ainda assim, já sou alto e continuo ganhando força. Isso não é de modo algum uma comparação com o Schwarzenegger. Mas sinto que é importante estar preparado fisicamente. Se você abrir o jornal e ver os soldados modernos, verá que eles não estão mais musculosos. É um estado emocional, mental e físico. Sinto-me muito ligado agora a esse papel. Felizmente, é bem animador.

Em King Kong, havia criaturas imaginárias. Aqui, existem criaturas reais diante de você. Isso facilita ou dificulta?
É sempre mais fácil quando você tem alguém com quem interagir. King Kong foi especialmente difícil, mas tudo requer imaginação. Ainda que você esteja na cena com outra pessoa, você precisa ir para um lugar diferente de onde você está.

Eles são assustadores?

Esses caras? Eles são aterrorizantes.

Qual é a melhor maneira de abater um predador?

Com uma violência absoluta e sem precedentes.

Você assiste aos seus filmes? Analisa sua atuação?

Com certeza. É difícil não fazer isso. Tento não ver as tomadas diárias, porque somos muito autocríticos e podemos nos tornar cientes do que estamos fazendo nas próximas filmagens, em vez de nos concentrarmos no que parece autêntico e confiarmos nas pessoas que nos dirigem. Mas quando vejo um filme, geralmente preciso assisti-lo algumas vezes para ser objetivo, mas gosto de assistir a meus filmes. Não sou super crítico. Aprendi a aceitar mais depois que cresci (risos). Ficar arrependido não adianta, porque o filme vai durar para sempre.

Você diria que isso é uma recompensa, ser ator e ter atingido o sucesso? Ou seja, a atuação em si é a melhor coisa?

São duas perguntas, na verdade. Por exemplo, ser o herói de Predadores é uma recompensa. Sou super fã do original e por muitos anos eu tentei encontrar o protagonista certo, contemporâneo, trágico e icônico. Alguém que não é definido por nada além do seu caráter e sua força interna. O público está muito acostumado aos heróis fortes e maçudos de Hollywood, que só se baseiam na sua força. Acho divertido ver pessoas fortes como heróis, mas sabemos como os soldados se parecem na realidade, e que tipo de característica eles precisam para assumir a liderança numa situação de combate extrema. É importante para mim que eu passe todos esses elementos e traga isso ao personagem. Então é ótimo quando não me encaixo nesse padrão físico – e que é confiável -, e faço algo que não vai afastar os fãs, mas sim atraí-los para a parte de ação do filme. Esse é o plano.

É verdade que você deu uma de Rambo para se preparar para esse papel, ficando isolado numa floresta…
Assim como em O Pianista, senti que uma transformação física seria necessária. Não a única coisa necessária, mas há um nível de pura força que ajuda a realizar os desafios físicos que o papel traz. E os personagens passam por uma dura jornada. Também por ser Predadores, senti que seria engraçado ficar bem forte e malhado. Ganhei 12 quilos de músculos e precisei ter muita disciplina, malhar com pesos mesmo. Sempre trenei para ficar saudável, mas nada desse tipo. Também estudei muito manuais de treinamento militar e paramilitar e guias de forças especiais. Basicamente, malhava e lia (risos). Também estudei técnicas de meditação e ficava na selva; andava na selva durante a noite para me acostumar com ela. Filmamos numa das florestas tropicais mais úmidas do mundo, no Havaí. Há milhares e milhares de quilômetros de floresta protegida contra o desmatamento que parecia algo tirado de Jurassic Park. Era uma selva bem densa. Deixaram eu me hospedar num bangalô de um quarto nos fundos, e eu basicamente vivia no set. Andava pelo set toda manhã e voltando para casa; imerso nesse mundo da floresta tropical. Meu quarto era molhado, sabe? Sem ar-condicionado. Tinha o básico mesmo. Treinei numa academia local, às vezes comia fora com o elenco, mas voltava pra selva. É um processo maravilhoso para mim, porque é tão inusitado e é uma oportunidade de me aprofundar mais e me conhecer melhor. Sabe, medo faz parte de qualquer conflito. Qualquer momento em que você depara com algo estressante dá medo. Como você lida com esse medo é que determina se você pode ser ou não um líder. Atuar parece fácil, mas não é fácil. Você tem que canalizar todas essas coisas e transformá-las em forças propulsoras, não algo que o deixe paralisado. Sou uma pessoa relativamente tímida, mas tenho que ser extrovertido, disposto a expor vulnerabilidades e etc. Toda vez que faço algo que me desafie por conta de um papel, como nesse filme, sinto que há crescimento. Não só para me transformar num ator melhor, mas para me tornar mais consciente e autoconfiante de uma maneira positiva.

Você é muito famoso por esse processo de imersão. Quanto tempo demora para retornar ao normal depois de um filme? Pelo que podemos ver no seu jeito, nesse instante, parece difícil separar Royce de Adrien.

Não sei se há um “Adrien normal” para retornar para (risos)

Esse é um bom ponto! (risos)

Imediatamente após de terminar esse filme, fui à Índia filmar algumas cenas para The Experiment, com Forest Whitaker sobre experimentos sociológicos realizados nessas pessoas, e elas se submetem a prisões estatais. Fiquei super doente nesse período e perdi dez quilos em uma semana; não comi por três dias. Sai de uma dieta de seis refeições por dia, mais proteína e suplementos, para ir para Índia e não comer nada. Fui muito difícil lidar com isso, uma transição tão abrupta, mas tinha que começar outro filme, chamado Wrecked, em que interpreto um cara que sobrevive e não tem nada para comer ou sobreviver, e eu não poderia ter feito isso com o físico que estava para interpretar o Royce. Então no final funcionou perfeitamente como uma dieta radical para eu voltar ao meu peso normal, e também me enfraquecer para o papel. Então nesse caso, foi muito abrupto, mas usei para minha vantagem nesse outro papel…

Você falava da reversão abrupta que teve…
Então, isso foi abrupto, mas no geral acho que depende mais do estado mental do personagem e quanto isso me afeta pessoalmente. A beleza de existir o universo da ficção científica é que você pode encontrar muito combustível para entrar num personagem, mas pessoalmente não lhe afeta tanto quanto uma tragédia real que pode lhe afetar de um modo pessoal. Por isso filmes nos entretêm, porque as pessoas vêem violência, mas não é a mesma do que assistir a uma pessoa sofrendo na vida real.

Como é sua relação com a de ficção científica?
Sou grande fã! Quando era menor, amava filmes de terror e de ficção científica. Mesmo quando era muito pequeno, meu pai me levava para “Canal Street” para assistir a filmes de kung-fu. Tenho muitas referências dos filmes que gosto. Homens adolescentes adoram filmes de terror e coisas que os assustem. Vi o Predador original nos cinemas quando era um calouro no colegial. Todo mundo idolatrava Schwarzenegger, e nunca, nem nos meus sonhos alucinados, imaginaria que vinte anos depois eu teria a oportunidade de fazer um papel como esse. É muito excitante!

Você gosta de FC por seu divertimento e não suas metáforas, como alguns inserem nos filmes? Predadores mostra esse tipo de relação?

Nada nesse nível, pelo menos para mim. A importância foi honrar, foi interpretar um homem real, especialmente num mundo em que muitas pessoas não conhecem a realidade da guerra. Hoje em dia, muitas famílias têm integrantes que lutaram conflitos armados e tenho a responsabilidade de ser fiel a isso. Se sou um soldado, mesmo que seja num mundo de ficção científica, tenho que interpretá-lo de maneira autêntica, porque essas são as pessoas que vão assistir ao filme! Eu quero que elas acreditem em mim e no personagem, e vejam porque outros personagens no filme o seguem.

(Colaborou: Andrea Cangiolli)

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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9 comentários sobre “[Entrevista Exclusiva] Adrien Brody

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  3. Desculpe, oque é FC que você mencionou nessa última pergunta? Outra: Ele falou de estar filmando outro filme e ter perdido 10 kilos quando ficou doente na Índia, mas essa entrevista não foi nos sets do Predadores? Imagino que tenha sido no período que tavam refazendo algumas tomadas, mas aí como que ele fez ele emagreceu e depois encorpou denovo? Se for paguei um pau grandão pra ele

    Ótima matéria Baretão, um abraço.

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