[Entrevista] As Faces de Andy Serkis

Posso sair na rua agora, falar com meia dúzia de pessoas e alguém vai filmar e colocar no YouTube em menos de 5 minutos. Tudo é mais fácil para os fãs hoje – Andy Serkis

Dois vilões distintos, dois livros fantásticos e um só ator. Andy Serkis deu vida a Sméagol e Gollum em O Senhor dos Anéis e encarnou outro psicopata alucinado em Coração de Tinta, filme no qual interpreta Capricórnio, e, recentemente, estrelou Eddington e Einstein, drama biográfico de Albert Einstein, no qual interpreta o gênio alemão. O SOS Hollywood foi até Londres, a convite da PlayArte, conversar com o ator que recriou King Kong e, em breve, estará nas telas com As Aventuras de Tin Tin.

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De onde você tira toda essa intensidade para seus personagens?
Vou meio para o tudo ou nada. Acho que se não me transporto para cada personagem, não vou ficar satisfeito com o trabalho e estar ali deixa de ter sentido. É uma espécie de modo de trabalho capaz de aplacar minha própria necessidade por motivação. Nunca farei um filme só por fazer. Preciso estar 100% envolvido com aquela situação. Mas muito disso se faz necessário para o personagem, por exemplo, Capricórnio é um sujeito movido pela vingança contra um mundo no qual ele não passa de um mau-feitor sem futuro, assim como muitos ditadores. A maioria deles foram subestimados ou ignorados, então a resposta sempre surge com força no outro extremo. Ele é motivado pelo medo, mas, no fundo, teme perder seu poder e, com isso, voltar a ser um Zé Ninguém. Assisti muitas coisas de Adolph Hitler para ajudar a compor Capricórnio.

É impossível não falar de Gollum. Como ele influenciou tudo?
Trabalho há anos no teatro e em filmes independentes, mas não há como negar que ele mudou tudo. Claro que o modo como O Senhor dos Anéis foi adaptado, os papéis foram escritos e toda a parte técnica tiveram papel fundamental nisso, mas também abriu espaço para essa nova vertente de atuação: captura digital. Foi perfeito em termos de atuação, pois essa técnica permite tanta liberdade e amplia o repertório de qualquer ator na hora de executar. É uma das invenções mais brilhantes dos últimos anos e, embora muita gente reclame, pode ser utilizada positivamente. Você pode simplesmente ser qualquer personagem.

A Lenda de Beowulf tentou fazer isso e não deu muito certo, hein?
Vou ser cuidadoso nessa resposta (risos)! [Fazendo careta]. Estou muito empolgado com o aumento do uso dessa tecnologia, especialmente por diretores de ponta, especialmente Robert Zemeckis, que usou novamente em A Christmas Carol. Admiro essa postura dele, de ultrapassar as barreiras. Ao mesmo tempo, vemos veteranos entrando na onda. Quem imaginaria que gente como Anthony Hopkins faria algo assim?

Pelo menos os olhos de Gollum não eram estrábicos como em Beowulf
(risos) A parte técnica não tem nada a ver comigo. É tudo culpa do Peter Jackson. Dei muita sorte em conseguir esse trabalho, para ser sincero. Não é todo dia que surge algo capaz de misturar drama com inovação tecnológica de maneira tão positiva assim.

Escapou bem, hein?
(risos)

Mas você também levou isso a outro nível, afinal, já chegou a incorporar Gollum nos palcos com Jack Black e o Tenacious D. Gostou da brincadeira?
(gargalhadas) Aquilo foi intenso! Estávamos filmando King Kong e Jack e Kyle Grass tinham agendado um show em Wellington, perto do Natal, e ele perguntou se eu toparia cantar uma música como Gollum. Adorei a idéia. Ensaiamos uma vez e fomos para o palco. Foi quase tudo improvisação.

Está tudo no YouTube. Aliás, essa nova onda de informação provocada pelos sites de vídeo afetam os atores do ponto de vista profissional?
Tudo ficou mais fácil, não? Posso sair na rua agora, falar com meia dúzia de pessoas e alguém vai filmar e colocar no YouTube em menos de 5 minutos. Acredito que o principal disso tudo é prestar atenção no que dizemos, afinal, com tanta informação circulando, não há o senso jornalístico de discernir o que foi dito no ‘calor da batalha’ de um tapete vermelho ou a opinião pessoa dita a um amigo dentro de um restaurante.

A atuação nesse mundo 3D ou motion capture ainda permite sutilezas na atuação ou transforma a arte em algo plano?
Tudo depende do diretor e do roteiro. Contanto que o comandante do barco entenda a natureza dramática de cada personagem e do que ele precise fazer, a técnica, seja qual for, deve surgir como elemento positivo. Acredito que o sonho da atuação não vá morrer por causa dos computadores.

E quando você teve esse sonho pela primeira vez?
Estudava artes visuais quando me ofereceram um papel no teatro. Descobri que estar no palco era milhares de vezes mais expressivo do que eu poderia ser com pinturas.

Ainda pinta?
Sim, mas estou enferrujado. Isso me ajuda a pensar em direção, um pouco de storyboarding e composição de cenas. Adoro dirigir.

Tanto Gollum quanto Capricórnio, de Coração de Tinta, são personagens muito marcados pela dor e pela turbulência interna. Você baseia suas visões para sujeitos como eles em algum modelo pessoal ou mero estudo de roteiro?
Boa pergunta (risos). Sempre senti que parte da minha personalidade procurava naturalmente por experiências opostas ao que eu vivia. Meu filho às vezes me diz que está num dos “dias do avesso”, quando algumas coisas dão errado ou o deixam triste. Estou tentando me analisar para responder isso. Vejo como se deixasse minha individualidade de lado para questionar tudo considerado cotidiano ou aceitável. Justamente por isso dediquei muito tempo da minha carreira a essa análise do lado negro da sociedade, pelo ponto de vista artístico, claro (risada maligna).

Você disse “ninguém é totalmente mau”, seja falando de Gollum ou mesmo de Capricórnio. Qual o sentido dessa frase e como ela afeta seu trabalho em Coração de Tinta?
O ser humano é muito complicado. Na maioria das vezes em que acreditamos ter a resposta, colocamos a pessoa sob análise num local separado e dizemos “fulano é mal”. Mas quando fazemos isso, estamos, de fato, perdidos. É um passo perigoso em direção ao momento no qual seremos incapazes de identificar a Humanidade. Por mais que seus atos sejam condenáveis, dizer que Saddam Hussein não era um ser humano é perigoso em termos sociais, pois aumenta o nível de insensibilidade de cada um de nós.

Para fechar com chave de ouro: contaremos contigo em O Hobbit?
Se o filme avançar, pode contar comigo. Gollum está no livro, então acho que vão precisar de mim (risos).

Você se sente confiante sem a direção de Peter Jackson?
Guillermo Del Toro sabe muito bem o que faz. Eu seria louco se não confiasse nele (risos). A Terra-Média vai ter o mesmo feeling visual, tudo vai estar lá. Peter Jackson estará por lá, então tudo vai dar certo. Cruzem os dedos.

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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8 comentários sobre “[Entrevista] As Faces de Andy Serkis

  1. Quem seria o Gollum Sméagol sem esse cara.
    Esperando ansiosamente pelo Hobbit e tenho mesmo que pensar que tudo vai dar certo,pois confesso que não gostei muito da saída do Peter Jackson da direção, mas fazerem um filme do Hobbit já grande coisa pra mim, adoro o livro…ahh gente é o Jack Black, que vídeo legal!!
    Você é D+ barreto.

  2. Pingback: SOS Hollywood

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