The Pacific: Ecos da Guerra

Tom Hanks e Steven Spielberg repetiram a dobradinha de Band of Brothers e agora miram seus olhares no Teatro do Pacífico, com a minissérie The Pacific, que estréia em março na HBO. Conferimos alguns episódios e uma prévia em primeira mão desse evento televisivo de 2010!

Por Fábio M. Barreto
de Los Angeles

Mundialmente, dois eventos marcaram a Guerra do Pacífico, braço da Segunda Guerra Mundial basicamente disputado por Estados Unidos e o Império do Japão: o ataque surpresa a Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1942, e os ataques nucleares em Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945. O restante dos acontecimentos perde força perante o romantismo e “relevância” do Teatro Europeu, ou seja, historicamente, Hitler é mais popular que Hirohito. Mais sangrenta e violenta que a guerra européia, a faceta do pacífico ficou conhecida como “a outra guerra” pelos norte-americanos e, em 2010, ganhará nova força de mídia com a estréia de The Pacific, minissérie de dez episódios produzida pela HBO e produzida por Steven Spielberg[bb] e Tom Hanks[bb].

Diversos filmes retrataram esse conflito [veja os destaques abaixo], mas, normalmente, tem suas temáticas focadas numa das grandes batalhas. Não é o caso de The Pacific, cujo objetivo é acompanhar a história do Primeiro Regimento de Fuzileiros Navais ao longo da Segunda Guerra Mundial, começando em Guadalcanal e acompanhando esses soldados até a cansativa volta para casa depois do final da guerra. No elenco principal estão James Badge Dale [terceira temporada de 24 Horas], como Robert Leckie, o soldado intelectual; Joseph Mazzello (o garotinho de Jurassic Park), fazendo as vezes do idealista Eugene Sledge; e Jon Seda (Bad Boys II), vivendo o herói John Basilone, uma das maiores lendas entre os fuzileiros navais. Todos personagens reais. Quase todos sujeitos que escreveram livros sobre suas provações em meio ao calor, mosquitos, malária, desembarques perigosos, entre eles “Helmet for My Pillow” (Leckie) e “With the Old Breed” (Sledge).

Se a História ensina algo é que séries e filmes de guerra têm o ótimo hábito de revelar talentos rapidamente reconhecidos por Hollywood. Assim aconteceu com Damian Lewis, Roy Livingston e Frank John Hudges (todos de Band of Brothers), Vin Diesel[bb] (O Resgate do Soldado Ryan) e Alexander Skarsgard (Generation Kill).

Novamente, é uma história sobre soldados. Desinformados, abandonados, responsáveis por derrotar um império passo a passo. Às vezes, meras testemunhas de eventos além de sua compreensão, como por exemplo, quando a Marinha norte-americana sofre uma de suas piores derrotas em Guadalcanal e precisa fugir para não ser aniquilada. Da ilha, os fuzileiros assistiam sem saber quem era quem. O resultado foram meses de abandono e martírio durante a luta nas florestas. O Pacífico teve uma guerra crua, travada por homens expostos ao extremo. Se a alucinação do desembarque do Dia D, na Normandia, romantizou a Guerra na Europa, essa era a norma no Pacífico, com “uma Normandia” a cada nova batalha. E cada invasão mais sangrenta que a anterior. The Pacific mostra várias delas, mas seu mote são os personagens. Seus questionamentos e motivações; coragem e simples desejo de continuar vivo – algo bastante improvável perante a quantidade de desembarques anfíbios, a ferocidade dos soldados japoneses e, especialmente, as florestas inóspitas.

Terrence Malick buscou o extremo psicológico com seu Além da Linha Vermelha, totalmente ambientado em Guadalcanal, mas não poderia fugir da realidade daquela campanha. Marcada por muita espera e dificuldade por conta de um inimigo obstinado. The Pacific aproveita aquela mesma sensação, embora abra mão dos devaneios em meio à floresta. Duas vozes para uma mesma mensagem: nada ali foi fácil, especialmente pelo efeito do isolamento imensamente maior que o dos soldados na Europa. Visualmente, a minissérie dirigida por gente do calibre do especialista em pilotos David Nutter (Supernatural, ER, Band of Brothers e tantos outros) e Carl Franklin (Roma), é irreparável. Bela mistura de câmera na mão e poucos ângulos tradicionais, uso de diversas ferramentas para garantir seqüências contínuas nos desembarques, corridas pela selva ou mesmo na constante movimentação dos soldados em combate.

Em termos de roteiro existe grande rigor e comprometimento com os relatos dos soldados envolvidos. Tom Hanks e Steven Spielberg respeitam esses homens com fervor, logo, funcionam como mensageiros para uma história considerada fundamental pela dupla. Um dos principais roteiristas é Bruce McKenna, que assinou três episódios de Band of Brothers, responsável por quatro capítulos dessa saga.

Muito mais que criar uma nova série cultuada por homens apaixonados pela Segunda Guerra Mundial, The Pacific se encaixa mais na qualidade de registro histórico. Um verdadeiro legado de uma geração que vingou um país, mas ficou à sombra da guerra galante e romântica na Europa de Hitler. Ver um jovem Sledge fazer de tudo para se alistar mesmo com seu pai [veterano da Grande Guerra] o alertando sobre os efeitos desse tipo de conflito na alma das pessoas ou mesmo Basilone criar o mito de “Rambo”, ao repelir um ataque japonês com ferocidade e obstinação sobre-humana [e usando apenas uma metralhadora] tira o fôlego. Sem dúvida, situações agressivas e violentas, mas extremamente comoventes. É o homem comum fazendo a diferença num mundo em que liberdade ainda era um ideal digno de colocar a vida em risco.

O maior foco de The Pacific é o drama pessoal, mesmo com batalhas como Iwo Jima, Peleleu e Saipan garantindo o atrativo militar. Todos os atores passaram por um intenso treinamento de combate antes das filmagens que aconteceram inteiramente na Austrália ao longo de um ano. Durante esse período, os atores responsáveis pelos soldados japoneses faziam a mesma coisa, poucos quilômetros de distância do acampamento norte-americano. Parte da preparação envolvia situações de atrito entre ambos os campos. Surpresa assustadora para ambos os elencos, mas que gerou ótimo resultado nos episódios. Os combates são curtos, mas de intensidade gigantesca.

Essa natureza dramática faz dessa série algo diferente de Band of Brothers, cujo único vestígio é o estilo visual da abertura e a qualidade técnica utilizada em sua realização. Narrativamente são duas séries totalmente díspares. The Pacific faz jus a toda expectativa, pode frustrar alguns entusiastas por seu ritmo desacelerado e reflexivo, mas cumpre sua missão com méritos: entrega aos norte-americanos algo que eles nunca se cansam – novos heróis. Para o resto do mundo ficam as lições de companheirismo, devoção e a lembrança dos limites da estupidez humana. É uma série incapaz de mudar o mundo, mas com plenas condições de promover mudanças em cada um de nós. Impactante e inesquecível.

The Pacific estréia em 11 de abril de 2010, na HBO Brasil.

FILMES SOBRE A GUERRA DO PACÍCIFO
Além da Linha Vermelha (1998): Terrence Malick mergulha no aspecto psicológico dos soldados que lutaram em Guadalcanal num filme repleto de estrelas, mas extremamente injustiçado pelos prêmios de cinema. Indicado a sete categorias no Oscar e não venceu nenhuma. Jim Caviezel, Elias Koteas e Sean Penn se destacam no elenco.

A Conquista da Honra[bb] / Cartas de Iwo Jima[bb] (2006): A dobradinha de Clint Eastwood para narrar as agruras de Iwo Jima entraram para a História rapidamente, especialmente pela “segunda” parte ser totalmente feita em japonês e, finalmente, contar o outro lado da moeda. Um espetáculo na direção, grandes momentos de ação e atuação memorável de Ken Watanabe. Do lado norte-americano, a natureza política e econômica da guerra ganha mais destaque com a história da foto da bandeira sendo erguida no topo do Monte Suribachi. Um momento que mudou os rumos do conflito e deu novo ânimo a uma nação.

Nimitz – De Volta ao Inferno[bb] (1980): O ataque japonês a Pearl Harbor decretou a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra mundial e mudou os rumos do mundo, mas os americanos nunca engoliram essa história muito bem. Mesmo tento arrasado o Império do Japão nos anos seguintes, o sentimento de revanchismo sempre existiu e Nimitz foi o jeito do cinema, e a ficção científica, tentarem dar o troco. Durante testes em seus novos reatores nucleares, um porta-aviões moderno é lançado ao passado exatamente no dia 6 de dezembro de 1941, um dia antes do ataque japonês. Martin Sheen e Kirk Douglas vivem esse drama: usar seus caças F-14 Tomcat para massacrar a frota japonesa e impedir o ataque ou manter História do mesmo jeito em vez de arriscar mudanças radicais em nossa civilização?

Outras recomendações: A Um Passo da Eternidade[bb]; Império do Sol[bb];, Tora! Tora! Tora![bb]; Códigos de Guerra[bb], Pearl Harbor[bb]; As Areias de Iwo Jima[bb]; MacArthur[bb]; 1941 – Uma Guerra Muito Louca[bb]; A Ponte do Rio Kwai[bb] e They Were Expendables[bb].

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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12 thoughts on “The Pacific: Ecos da Guerra

  1. Esse trio (HBO + Hanks + Spielberg) é sempre muito bom e essa mini serie vai ser tao boa quando Band of Brothers, mas nao sei se vai ser melhor, dificil dizer, principalmente se a abordagem for tao diferente assim. Ansioso pra março!!!!
    Otima resenha por sinal.

  2. Oi Fábio!
    Estou a acabando de assistir Band of Brothers [faltam apenas 3 episódios], justamente por causa desta minissérie. Adoro filmes de guerra [sendo Platoon ainda o melhor que vi até hoje]! Mas foi importante saber que possui um ritmo desacelerado e reflexivo, pois confesso que sou um destes entusiastas por grandes sequencias de combate, e isso termina por me prevenir de expectativas neste sentido [evitando assim a decepção]. Abs!

  3. to muuito ansioso por The Pacific, bateu uma inveja, qts episodios vcs viram Fábio? foi na tela grande?

    btw, tem um “sobre” no lugar de “sofre” no 4o parágrafo.

    abraço

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