A Maldição da Lua Cheia

A noite cai sobre a Inglaterra e a família Talbot é confrontada com a pior de todas as maldições. Uma vez mais, o cinema recria a lenda clássica de O Lobisomem (The Wolfman) e aposta na tecnologia moderna para dar mais vivacidade a uma das criaturas mais temidas do horror, entretanto é em emoção que o longa-metragem dirigido por Joe Johnston deixa a desejar. Um amor vazio, uma dúvida inexistente, uma família sem laços. Todos os problemas das inúmeras tentativas de edição ficam claros quando a Lua Cheia aparece. A monstruosidade é insuperável.

A licantropia é formidável. Provoca total transformação em suas vítimas, assim como abastece o entretenimento com idéias há gerações. Michael Jackson já virou lobo, Roque Santeiro tinha seu lobisomem, os videogames estão cheios deles e, claro, o cinema nunca perde a chance de retornar ao tema clássico – um assunto que sempre atiça a curiosidade. Pelo aspecto mais sério, é assustadora; pelo descontraído, pode gerar boas piadas. Por exemplo, quem não se lembra de Michael J. Fox, em O Garoto do Futuro (cujo título original faz muito mais sentido – “Teen Wolf”), descobrindo sua nova realidade no ambiente colegial. É o poder da genética que, aliado à força da Lua, atiça os hormônios masculinos e liberta verdadeiros monstros ou aberrações em meio a uma sociedade domada e feliz com sua falta de espontaneidade. Aspectos de reflexo social não faltam quando o assunto são lobisomens.

Muito por conta do arquétipo clássico do personagem: um homem bom, mordido por um lobisomem e que, invariavelmente, vai se transformar em monstro na próxima Lua Cheia. Com maquiagem e roteiro bastante simples, The Wolf Man chegou aos cinemas em 1941 por conta da Universal Pictures, que resolveu levar várias histórias de terror clássicas para as telas – entre eles O Monstro da Lagoa Negra, A Múmia e Drácula. Marcou época. Mas o mesmo não pode se dizer de sua nova versão O Lobisomem, de 2010, cuja validade pode ser facilmente questionada.

Se a versão clássica buscava basicamente estarrecer o público e trazer medos ancestrais – o mito do lobisomem existe em diversas culturas, sendo até mesmo relatado na Grécia Antiga – para o dia a dia de uma geração, a nova pouco realiza pelo aspecto psicológico. Por mais que se tente gostar de Lawrence Talbot, ele é indeciso. Aparentemente corajoso e bem resolvido, sua vida se revela como uma sucessão de fatos traumáticos iniciados pela morte da mãe e culminando com seu irmão ser dilacerado por uma criatura sobrenatural. A interpretação de Brad Pi… Benício Del Toro entregas poucos momentos relevantes e, por vezes, lembra a expressão e trejeitos de Pitt. Tão invariável quanto é Emily Blunt, prejudicada por um roteiro mal escrito para uma personagem gratuita.

Ela é a noiva do falecido, mas que, de acordo com a profecia cigana, poderá libertar Lawrence de sua maldição. O poder do amor. Entretanto, trata-se de um amor inexistente, cuja função é meramente satisfazer à necessidade do roteiro. Sem cenas de envolvimento, sem grande histórico no passado, sem razões para existir além do papel onde foi escrito.

O Lobisomem propõe a discussão sobre a natureza da monstruosidade, aos moldes do que fez Ang Lee com seu Hulk. Usa a boa índole de seu personagem principal para testar limites, lealdades e, inevitavelmente, provar a dor causada pela dor da consciência trazida pelas grandes revelações – tanto da vida quanto da trama. Entretanto, diferente de Lee, Johnston não cria uma atmosfera favorável a Lawrence, cuja amplitude emocional se perde em meio a tantos cortes, teorias e personagens pouco desenvolvidos.

Em meio a isso surge Anthony Hopkins[bb], uma força descomunal dedicada a tarefas menores nessa produção. Há bons momentos entre Hopkins e Del Toro, mas ambos são incapazes de corrigir o irrecuperável. São os efeitos de uma redação insegura e uma direção incerta, cujas cenas parecem funcionar de forma independente, mas, reunidas, não justificam a obra. A campanha de marketing bem que tentou encobrir os problemas com uma das mais proativas e interessantes ações do ano – a imprensa recebeu jornais antigos, postais dos personagens e até mesmo uma bala de prata. Em tese, funcionou no primeiro fim de semana [prolongado, pelo President’s Day, na última segunda-feira], com faturamento de US$ 35 milhões, ficando em terceiro lugar nas bilheterias, abaixo de Percy Jackson e o Ladrão de Raios (segundo) e Idas e Vindas do Amor (líder).

Onde o homem termina e o monstro começa, prega o roteiro; indagação igualmente aplicável ao filme, pois onde a emoção termina e o exagero começa? Difícil responder, especialmente perante Anthony Hopkins ensandecido ou tão intensamente amargurado; Del Toro procurando apoio em meio a delírios e pesadelos; ou Emily Blunt procurando algo que ela mesma desconhece – amor, idolatria ou piedade? São elementos pouco complexos e inverossímeis para o público moderno, quem até mesmo para o público que se apavorou com a primeira aparição do homem lobo.

Os efeitos não comprometem. A trilha de Danny Elfman é ponto positivo. Diverte pelo exagero de suas mortes. Mas, não há como ignorar a sensação de que, quando notados os problemas na edição, tudo devesse ter sido reiniciado. De certas maldições, não há escapatória.

E a Lua Cheia brilha no céu.

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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4 thoughts on “A Maldição da Lua Cheia

  1. Eu quando vi o primeiro trailer fiquei louco, mas pelo jeito fizeram um trabalho bom só no trailer mesmo. Acho que é preciso dar um tempo em Vampiros e Lobisomens, um bom tempo mesmo, sei lá, dez anos para retornarem com uma coisa mais…. mais… esperada.

  2. Cara, é realmenet uma pena esse filme ser ruim…
    Sou fã descomunal do Ben Del Toro, acompanho a carreira dele a anos e digo que todo filme que ele faz, ele salva. Já o Anthony nem comento mais, O Homem Elefante, O SIlencio dos Inocentes, Nixon, em fim, amo os trabalhos dele. E cara,u pensei que o filme seria mais ou menos um tipo de drácula de bram stoker, sem coppola claro. Tinha falado isso a Mariana Bonfim a duas semanas atrás.
    As é realmente de se lamentar isso ter acontecido. Fica aqui minhas tristesas…
    Abs!!!

    Willtage

  3. @willtage filme ruim?? … lobisomen é MUITO bom…

    claro que o fato das frescuras de ediçao, e tudo mais.. vc percebe em ceros pontos que isso pecou no filme como um todo..

    mas…
    o filme é MUITO bom sim…

  4. Mestre Barretão conseguiu explicar muito bem (coisa que eu não conseguia até agora) porque o filme é o exato MAIS OU MENOS. Começa bem, visual show, todo aquele climão de filme antigo… mas vai gradativamente desandando, ficando menos e menos interessante, envolvente, emocionante. E com um final bem previsível, e que deixa um gosto amargo. Falhas de roteiro, creio. Nenhum personagem é desenvolvido o suficiente pra ser carismático, o que é uma pena, dado os nomes fantásticos do elenco. Anthony Hopkins até consegue passar alguma coisa com o olhar sempre foda que tem, mas seu personagem é tão confuso, suas motivações tão sem sentido que a coisa não funciona. Del Toro, me perdoem, nunca achei nada além de um POSER. E isso não mudou com O Lobisomem. Hugo Weaving, um cara que admiro pra caramba, tá ali só pra constar. E a Emily Blunt, por incrível que pareça, foi quem mais me agradou. Tudo bem sua personagem é muito nada a ver, mas acho que ela conseguiu se virar bem ali. Demonstrou emoções de maneira contida, coisa que sempre me agrada.

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