Hollywood: Sob o Domínio do Óbvio

Filmes incapazes de surpreender, críticos indispostos, estúdios enriquecendo e um consumidor que só quer saber de uma coisa: se divertir no cinema. Qual a cara de Holllywood hoje em dia? Ridley Scott conseguiu fugir do óbvio, como prometeu, com seu Robin Hood?

por Fábio M. Barreto,
de Los Angeles

Quando Kenneth Turan critica a previsibilidade do roteiro de Robin Hood em sua análise principal da edição de hoje do Los Angeles Times, o leitor pode encarar o problema como ponto fraco do filme de Ridley Scott, mas, assim como as multidões atraídas por remakes, adaptações, seqüências e origens, o crítico do célebre diário angeleno individualiza um problema sistemático no cinema hollywoodiano atual. Eis a pergunta: como cobrar criatividade e originalidade quando, mais do que nunca, os blockbusters carecem de ousadia e novas idéias? A resposta pode ser dura demais.

O sucesso de Avatar provocou um interessante movimento entre cinéfilos e comentaristas compulsórios na internet: quem não gostou tinha um ótimo argumento para debulhar o filme, seu roteiro. Boa parte dos debates beirava a infantilidade e as comparações a Pocahontas e outras tantas versões da Grande História, porém tal debate se mostrou extremamente valoroso e influente para 2010 e os anos seguintes. Por quê? Tornou-se latente a ânsia pela originalidade que, embora travestida por surtos chiliquentos, é necessária em Hollywood. E tudo isso aconteceu pela natureza divisora de águas do filme de James Cameron. Ame ou odeie. Estava criado o debate. Foi um momento polarizador, logo quase todo mundo fez questão de opinar, defender, atacar, analisar.

Retirado o elemento polêmico [Avatar, no caso], o cenário se repete. A discussão, não. Analisando a lista das dez maiores bilheterias de 2010*, apenas três delas são roteiros originais (Valentine’s Day, Date Night e O Livro de Eli), as demais (Alice no País das Maravilhas, Como Treinar Seu Dragão, Fúria de Titãs, Homem de Ferro 2, Ilha do Medo, Percy Jackson e o Ladrão de Raios, e Querido John) entram no grupo das adaptações, continuações ou remakes. Em 2009* foi a mesma coisa. Apenas três filmes originais na lista dos dez mais vistos: Avatar, Up – Altas Aventuras e Se Beber, Não Case.

É repetição ao extremo.

Por um lado deve-se levar em consideração o medo dos estúdios, cada vez menos dispostos a assumir riscos. “Todo mundo diz que adora meus filmes, mas não acha que o roteiro atual se encaixe nos planos, aí me mato pra fazer e ‘todo mundo adora’ e blabla”, disse Terry Gilliam, em entrevista ao SOS Hollywood no lançamento de O Imaginário do Dr. Parnassus, que ainda não estreou no Brasil e já saiu em DVD nos Estados Unidos. As dificuldades de Gilliam são perfeitamente compreensíveis. Seu cinema é autoral, surreal e pouco comercial. Fato. Confrontar um público cada vez mais despreparado, acomodado e mal acostumado quando é necessário pensar ou mesmo ter imaginação. Tudo precisa ser mastigado. Seja um texto jornalístico, seja uma história no cinema.

Nesse reinado do óbvio, não há como fugir do final previsível no rol dos filmes de sucesso financeiro. Afinal, o mocinho precisa vencer, certo? É uma equação construída ao longo dos anos por Hollywood, que demorou um pouco para reencontrar seu equilíbrio, mas compreendeu os desejos da geração digital. Foi uma década marcada pelo reaproveitamento e reimaginação, como John Lasseter gosta de analisar as revisitas da Disney a personagens clássicos como Sininho, devidamente globalizada e agora chamada de Tinker Bell, por exemplo.

Se o público quer a história previsível e divertida, para justificar seu investimento no ingresso e na pipoca. É isso que Hollywood entrega. Mas, assim como qualquer outra tendência de grande volume, uma vez liberta, nada mais pode restringi-la e seus efeitos podem ser devastadores. Roma não imaginou que ao abandonar sua postura radical e passar a tolerar o cristianismo, permitiria o nascimento de uma das maiores religiosidades do planeta. Sem resistência de nenhum estúdio, o formato foi se fortalecendo e, inevitavelmente, tornou-se regra, que afetou tanto o público casual quanto o cinéfilo especializado que freqüenta o Festival de Cannes. Sem muito glamour e com uma “seleção questionável e mediana”, de acordo com o Los Angeles Times, quem abriu a edição 2010 do evento foi Robin Hood. Comparado jocosamente a Gladiador ou Cruzada [dois filmes históricos anteriores de Ridley Scott] pela imprensa norte-americana, criticado pela obviedade e falta de ligação com a “história famosa”.

O cinema comercial vive momentos importantes de definição, seja pela eficiência do 3D e seus efeitos no processo de criação de novos filmes, ou no abandono definitivo da originalidade em prol do projeto mais seguro, do retorno garantido. Ridley Scott vendeu Robin Hood sob a égide da versão mais histórica do personagem, da melhor descrição já feita, e encontrou descrédito. É o máximo que pode ser feito: mudar alguns elementos dentro do grande esquema comercial. Os nomes de Russell Crowe, Cate Blanchett e, claro, Robin Hood devem ser suficientes para garantir bons resultados. É o que Hollywood vê, nada mais. E não importam as teorias sobre influência das mídias sociais ou a tentativa da criação da Bolsa de Valores para Bilheterias [proposta vetada há algumas semanas, mas ainda com chances de se tornar realidade], o foco é o resultado final.

A qualidade é secundária. Ao mesmo tempo em que o ótimo e original Como Treinar Seu Dragão mistura diversos aspectos positivos e também a tecnologia 3D, o desagradável Fúria de Titãs só precisou de uma grande campanha de marketing enganoso e também os óculos 3D para se definir como bilheteria de respeito. Essas são as novas regras. Aceitá-las não é obrigatório, mas ajuda no entendimento do novo cenário. Críticos cobram novidade, empalam desfechos previsíveis, mas precisam ir além do “filme a filme” para compreender o caminho que já trilhado pelos estúdios de Hollywood. Assim como entender sua nova relação com os estúdios, cada vez mais debilitada e vinculada às campanhas de marketing.

E, ao contrário da estrada de tijolos amarelos, essa trilha é repleta de roteiros baratos, muito dinheiro, truques técnicos, exagero no 3D, mais dinheiro ainda, e nenhum compromisso com o bom cinema. Qualidade vai continuar existindo, mas em poucos focos de resistência em estúdios como a Pixar e DreamWorks ou em diretores autorais como Tim Burton ou James Cameron.

Talvez, a ousadia limitada e calculada de Ridley Scott seja o melhor que se possa esperar dessa nova dinâmica. Uma eventual pérola em meio à inevitável, e latente, inundação de mesmice, formatos marcados e, claro, finais óbvios. O mocinho sempre se dá bem [Robin Hood, Jake Sully ou o público?]. E os cofres dos estúdios, ou seria o malvado, mimado e contrariado Príncipe John?, ficando cada vez mais cheios. Na vida real, não há Na’Vi ou arqueiro benevolente capaz de lutar contra a injustiça.

A crítica brada por um salvador, mas o Rei está morto…

*Dados do mercado norte-americano. Fonte: Boxofficemojo

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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10 thoughts on “Hollywood: Sob o Domínio do Óbvio

  1. Ainda bem que existe gente como Tim Burton, Terry Gillian, Tarantino, James Cameron, Richard Kelly… Gente que tem idéias e seguem firmes e fortes até terminá-las e levá-las até a grande tela.

    Sorte nossa que vez ou outra aparece alguém assim no mundo.

  2. Texto perfeito Barreto…
    É triste a decadência dos roteiros e da qualidade dos filmes hollywoodianos de hoje, mas como foi bem lembrado existem diretores autorais fazendo filmes ótimos que nos fazem esquecer de repetições e cópias, o cinema e os cinefíl@s agradecem.

  3. Otimo texto, mas você refere Tim Burton e James Cameron como autores “autorais” de blockbusters né? Porque Tarantino, PTA, Woody Allen, Aronofsky continuam a fazer otimos filmes, mas não para o pessoal que leva a namoradinha idiota ao cinema, nem a familia que vai ver “Missão quase Impossivel”.
    O mais incrivel é que até mesmo o Martin Scorsese está com projeto de um filme em 3D. Não vejo nada demais no 3D, o unico filme agradavel nessa tecnologia foi Avatar, o resto uma tentativa forçada de ganhar a grana que é tido como “diferencial” para atrair publico retardado que mantem a industria.

    E realmente cito Robin Hood como exemplo, quando vi que esse filme em trailer não tive a menor vontade de ver, porque parecia uma tentativa forçada de usar o nome famoso como mais uma tentativa de ganhar dinheiro.
    Porque o negocio é: qualidade 0, o que o povo que da $$ para os estudios gosta é de #$!@#.
    Não sou contra isso ou aquilo, o que eu quero é algo de qualidade, porque pagar 25 reais pra ver FORÇA G 3D, um filme que cola bem despois do almoço na temperatura maxima, não da.

  4. Realmente você esta com a razão, mas como fã de Blade Runner e Alien tenho que defender Ridley Scott, pois o projeto inicial de Robin Hood(inicialmente nomeado Nottingham) era até interessante. O mocinho da história seria o xerife e enfim…..Acontece que o estúdio foi responsável por essa “ousadia limitada e calculada” da qual você trata muito bem no texto. Aliás considerando a obra como um todo acho Ridley Scott até mais autoral do que James Cameron(embora não considerem nenhum dos dois tão autoral assim), só que nos últimos filmes ele realmente ficou devendo…Rede de mentiras….Um bom ano

  5. Pingback: SOS Hollywood
  6. Olha realmente muti ruim. Incrivel que a Cate blanched tenha aceitado trabalhar nele. Do meio pro fim o que ja era fraco fica pior ainda. Russel crowe como robin hood com 50 anos na epoca em que a expectativa de vida era pelos 35. Deu pra sentir falta do Kevin Costner ate. Feito para sessao da tarde

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