Distrito 9: Um Bairro de Velhas Novidades

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Estréia de Neill Blomkamp na direção surpreende o mundo, faz fortuna nas bilheterias norte-americanas e recupera o estilo e conteúdo impactante do bom cinema de ficção científica. Imperdível. Inesquecível. Brilhante.

Olhar para as estrelas e vislumbrar mundos e raças além do firmamento é função da ficção científica desde sua gênese. Entretanto, os dilemas e preceitos dessas galáxias distantes, invariavelmente, refletiam nossas próprias tragédias sociais e emocionais. Com a popularização recente do gênero, as páginas dos grandes clássicos ou mesmo o arrojo dos novos críticos ficcionais deu lugar ao cinema comercial, no qual o alienígena é sempre o mal, o norte-americano é sempre o bom, e o resto do mundo não passa de pano de fundo para explosões e violência. É o jeito Roland Emmerich de pensar, é a lei da bilheteria milionária é tudo que a ficção científica não queria ser: estereotipada, acéfala e desproposital. Distrito 9 colocou a casa em ordem e devolveu ao cinema de ficção a perspectiva de mesclar sucesso com identidade intelectual. E ainda encontra espaço para mostrar alienígenas e armas extremamente divertidas!

Distrito 9 usou duas armas para alcançar seu sucesso: elemento surpresa e Peter Jackson. Pouco se sabia do filme antes do início da campanha viral nos Estados Unidos, com pontos de ônibus tomados por pôsteres e mensagens solicitando à população que denunciasse alienígenas. O verdadeiro ponto de partida, porém, aconteceu em 2005, quando Neil Blomkamp dirigiu o curta-metragem Alive in Joburg . Pouco tempo depois, ele se envolveu com Peter Jackson num projeto que levaria o jogo Halo para as telas. Jackson estava envolvido e quando recebeu a notícia da suspensão do projeto, decidiu fazer algo com Blomkamp. “Seus desenhos no desenvolvimento das criaturas para Halo estavam primorosos e, desde o começo, sabia que Neill era um daqueles caras destinados a fazer cinema pelo resto da vida”, comenta o produtor executivo, Peter Jackson, a este repórter correspondente durante a Comic-Con 2009. “Como ele havia começado com Alive, resolvemos ampliar a idéia; algo totalmente dele”.

Blomkamp cresceu nas ruas de Johanesburgo, durante o apartheid e viu seu pais, aos poucos, lutar contra a segregação, mas também conviveu com os problemas seguintes à queda do regime. “Ele é um sujeito preocupado com a sociedade, mas é nerd assumido e vive mergulhado em livros, filmes, videogames e etc”, comenta Jackson, que garante ter dado liberdade total ao novato. O diretor de O Senhor dos Anéis acredita no papel do produtor facilitador, que permite ao cinema encontrar novos rostos e só se envolve diretamente em momentos inevitáveis. “Sabendo que Neil tem esse estilo, nunca duvidei que ele pudesse fazer um filme com roteiro atraente e, ao mesmo tempo, cheio de armas, alienígenas e coisas explodindo – coisas ótimas para se ver na tela!”.

Essa classificação faz grande jus ao resultado de Distrito 9. Uma favela real de Soweto serviu como cenário para o campo de refugiados ocupado pelos tripulantes de uma nave espacial que surgiu flutuando sobre Johanesburgo. Nada de Nova Iorque, Washington ou Londres. A capital sul-africana foi a felizarda da vez. Sem fazer com esses seres insetóides, o governo local criou o local conhecido como Distrito 9.

A idéia é simples e, sem grande esforço, abriria espaço para discussões existenciais como vida fora da Terra, teorias da conspiração ou algum complô armamentista, porém, Blomkamp fez valer sua bagagem literária e, inconscientemente, produziu uma crítica sócio-política capaz de surpreender pela simplicidade e, de forma surpreendente, se transformar num dos maiores sucessos do ano, com direito a rendição incondicional dos críticos mais ranzinzas. “É tudo um liquidificador de idéias, coisas que vi enquanto cresci e nenhuma idéia direta de ser um filme político, mas olhando agora, é difícil não encontrar várias referências”, explica o diretor. A escolha de manter o tom “documental” trouxe muitos benefícios e também provocou a mais arriscada de todas: escalar um ator principal, presente em praticamente todas as tomadas, nativo da África do Sul e falando em inglês com sotaque local.

Sem dúvida, um alívio em meio a tantos heróis nascidos em Los Angeles ou Nova Iorque. Havia preocupação da Sony por conta disso. Alguns jornalistas americanos reclamaram. Não entenderam a pronúncia de Sharlto Copley (entrevista completa aqui). Os internacionais não deram bola e esse detalhe se transformou em charme especial. Copley atua de forma espetacular como Wikus Van De Merwe (pronúncia: Vícus), um sujeito nada heróico, simpático, mas vislumbrado com sua carreira burocrática. Insensível e inocente no início; surpreso e assustado depois do evento que mudará sua vida; obstinado e dedicado quando tem a chance de se salvar. E a burocracia é justamente a razão de sua jornada. Ele é imbuído de citar os alienígenas de seu iminente despejo e relocação.

Até mesmo a Sony Brasil foi afetada com a colossal resposta ao filme. Meses antes da estréia, Distrito 9 teria apenas 100 cópias em território nacional, depois embalou, chamou atenção do departamento de marketing – provavelmente por identificar o potencial além do habitual consumidor de ficção científica – que aumentou o número de cópias. É a força do sucesso.

Wikus vive praticamente uma transição kafkafiana. O sujeito comum se transformando mental e fisicamente e, nesse meio tempo, conhecendo as mazelas que, pouco antes, ele mesmo impunha aos alienígenas. Situação essa mais gritante ainda num país de extremos como a África do Sul, que, após superar o Apartheid, reage com mais agressividade e ódio ao imenso fluxo de imigrantes ilegais em suas grandes cidades. Se uma lição deveria ter sido aprendida pelos sul-africanos seria a de respeito ao próximo. Não aprenderam.

Como se o próprio destino quisesse reforçar essa realidade, no dia em que Distrito 9 começou a ser filmado, protestos violentos chacoalharam Johanesburgo em áreas bem próximas às locações numa favela de verdade, em Soweto.

Vote no SOS Cast!

Distrito 9 abre a ferida sem dó nem piedade e chama a atenção para a natureza cíclica da estupidez humana. Assim como nos belíssimos e assustadores curtas-metragens Segunda Renascença I e II, integrantes do disco Animatrix, a Humanidade demonstra grande capacidade para auto-destruição e, acima de tudo, não aprender com erros do passado. O homem é o mesmo, apenas períodos históricos e estilos de roteiro diferenciam as narrativas. De modo algum se trata de cópia, mas de um novo reflexo das grandes pensatas promovidas por Clarke, Asimov ou Heinlein e tantos outros. Peter Jackson gosta dos alienígenas, mas o público prestou atenção na história e seus desdobramentos.

Essa é a grande diferença de Distrito 9: promover discussão, provocar e entreter ao mesmo tempo. Longe de ser o filme extraordinário e revolucionário defendido por muita gente que ficou altamente impressionada, é sim obrigatório tanto para fãs do gênero quanto para interessados nas relações humanas. O exagero na recepção pública se dá por um simples fato: há muito não se via um filme de ficção científica inteligente. Danny Boyle dirigiu o último deles, Sunshine, em 2007; entretanto, não tinha o aspecto divertido do filme de Blomkanp e foi relegado à categoria dos “filmes cabeça”. O maior mérito desse longa-metragem é surpreender nesse momento em que efeitos ditam os roteiros, e não o inverso.

“Acredita que a WETA recusou o projeto?”, brinca Peter Jackson. “É estranho, afinal de contas, sou um dos donos e eles não podem me deixar irritado (risos)”. A causa foi boa. WETA estava 100% ocupada com os efeitos especiais de Avatar, de James Cameron. Sorte da Image Engine, companhia sul-africana que deu conta do recado. “Mesmo assim precisamos usar a WETA na reta final, pois o orçamento acabou e ainda precisávamos de mais algumas tomadas da nave mãe dos alienígenas e fizemos a custo zero”.

O resultado visual é primoroso. Ao optar por uma tonalidade bastante realista e não inventar tanto nos alienígenas, a composição entre real e computador cumpriu sua função. O visual de barata gigante causa asco e acentua a natureza alienígena de tudo envolvendo os visitantes. Mas o maior impacto é causado pelas descobertas que Wikus faz ao longo da exibição. É agonizante e desesperador, quase claustrofóbico, tomar contato com a violência despendida contra os ETs, seja ela física ou psicológica, e também as verdadeiras intenções para resolver o “problema” do Distrito 9.

A própria campanha de marketing do filme dava um gostinho disso. O objetivo era denunciar alienígenas fora da área restrita – protegida por uma força de segurança privada, a MNU. Especialmente se levarmos em conta os milhares de humanos obcecados com a descoberta de vida alienígena e as teorias governamentais que os “ocultam” da opinião pública, é estranho notar a ausência de qualquer maravilhamento popular perante a inegável presença extra-terrestre em nosso planeta. Efeito das baratas gigantes em vez de hominídeos verdes? Ou dos hábitos “nojentos” dos seres? A realidade assusta, pode entorpecer e modifica conceitos instantaneamente.

Há muita urgência na mensagem de Distrito 9. A intolerância em prática na África do Sul extrapola suas fronteiras e, cada vez mais, se enraíza no modo de vida do homem moderno. Ataque o que desconhece, expulse o indesejável, proteja seus interesses são alguns dos conceitos em voga por aí, e os resultados negativos podem ser vistos a olho nu, em qualquer país, qualquer classe social. Os grandes clássicos da ficção científica postulavam os problemas da superpopulação, das viagens espaciais e dos encontros com seres de outros mundos, cada um a seu modo, levantando problemas e possíveis soluções. Outros tempos, quando a imaginação valia mais que a projeção. Nosso tempo é regido pelo pessimismo, repleto de olhares catastróficos para futuros não tão distantes, ou mera ausência de reação social positiva. Os Wachowski alertaram com sua visita perturbadora a um futuro plausível e agora Neill Blomkamp nos lembra de outra parte essencial: medo. Do desconhecido. De nós mesmos. E o medo, como diz Mestre Yoda, é o caminho para o lado negro.

Tudo indica que voltaremos a encontrar Wikus daqui três anos. E muita coisa pode acontecer até lá.

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Assista ao curta-metragem Alive in Joburg:

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Por Fábio M. Barreto, de Los Angeles/San Diego
Originalmente publicado na Sci-Fi News 140, nas bancas!

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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18 thoughts on “Distrito 9: Um Bairro de Velhas Novidades

  1. Grande Fabiovsky, quanto tempo! Feliz aniversário atrasado, aliás, mas de todo coração!
    Nada a acrescentar, amigo, análise perfeita, Distrito 9 é um grande filme, um dos melhores do ano.
    Passa depois lá no Aumanack prá ler o que escrevi a respeito, hein?
    E viva nossa amada FC!
    Grande abraço

  2. Pingback: SOS Hollywood
  3. Citar Mestre Yoda no final foi massa, hahaha… interessante que a avaliação foi positiva, o filme tem dividido opiniões. Uns dizem que é fantástico, inovador, enquanto outros afirmam que o bom potencial é desperdiçado em clichês. De qualquer forma, estou BEM curioso pra conferir, desde que ouvi falar sobre Distrito 9.

  4. Pingback: SOS Hollywood
  5. Ha, concordo muito com o texto. Já vi o filme, putz, sem palavras.
    O tom de realidade só assusta mais, e conehcer a origem, o curta metragem, assusta ainda mais. Porque? Os comentários dos sul africanos são em relação aos imigrantes ilegais, não ETs. Tudo real.

    Quuem não viu, não perca!

  6. Pingback: Maurício Saldanha
  7. Pingback: Isabela Cabral
  8. Pingback: Zoom Digital
  9. Pingback: Tambotraising
  10. Vi há pouco o filme.
    É inteligente sim, nos leva como o Barreto disse a pensar na estupidez humana, que parece não aprender nunca com seus erros. Tomam sempre o mesmo caminho.
    Dá pra parar e pensar em muita coisa…..muita coisa mesmo…
    O modo como os alienígenas são tratados….
    A gente fica sem saber se torce por eles, ou contra eles ( apenas por serem “aliens” ?????!!! ) ….
    Mas tem um porém…achei o filme bem “nojento”…
    E Sunshine é muito bom!! Tenho em DVD

  11. Juro que eu não vi guetos ou distritos da África do Sul no filme..
    O que eu vi foram as favelas e a periferia das grandes cidades brasileiras.. e as periferias da Europa, os bairros de imigrantes dos EUA…
    As falas preconceituosas estão presentes no mundo todo..
    E só um diretor e um produtor que não são dos EUA poderiam ter realizado este filme..
    Estou recomendando a todos os meus amigos que gostam de “filmes cabeça”, já que o marketing pode conduzir este povo ao preconceito contra o filme.. afinal, é mais um filme sobre ETs, né?

  12. Maravilhoso! Wikus é um personagem fantástico…sua transformação psicologica é tão fascinante que contagia, coisa igual a filmes como o Conan, o Barbaro e as cenas dos helicopteros sobrevoando a favela é muito real pra nós brasileiros. Uma coisa que esse filme me intrigou é que tivemos mais uma história de favelas, não tenho o conhecimento de vocês, mas antes de Cidade de Deus, não me lembro de tantos filmes mostrarem esses “universos”. Sunshine é nota 10.

  13. Pingback: SOS Hollywood

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