[Príncipe da Pérsia] As Mil e Uma Noites do Século XXI

Príncipe da Pérsia – As Areias do Tempo é praticamente um jogo condensado em 2 horas. Cheio de impossibilidades, perseguições, ótima trilha sonora e um enigma das arábias!

Certa vez, Stan Lee me disse que não se surpreende com grandes filmes de sucesso, afinal, com seus orçamentos avantajados, dar resultado é obrigação. É o dinheiro a serviço do entretenimento, o coração de Hollywood. Entretanto, algumas pessoas entendem melhor essa dinâmica e uma delas é o produtor Jerry Bruckheimer, verdadeiro dono de Príncipe da Pérsia – As Areias do Tempo, que estréia na próxima sexta-feira, no Brasil. Responsáveis por colossos de bilheterias como Piratas do Caribe e séries de TV como CSI, ele resolveu encarar as controversas adaptações de videogames para o cinema num projeto audacioso cujo sucesso dependeria das acrobacias impossíveis e ambientação fantástica da Pérsia do príncipe Dastan (Jake Gyllenhaal). Mas nada disso significa que o Toque de Mídas de Bruckheimer seja infalível e os US$ 30 milhões da bilheteria de estréia (em fim de semana prolongado) servem como alerta.

Bruckheimer tomou as precauções necessárias em Príncipe da Pérsia e buscou validação artística para sua idéia ao convocar o veterano Mike Newell, diretor inglês de 68 anos de idade, para comandar o filme. Foi uma relação conturbada, especialmente pela constante luta pelo poder de decisão. É um filme de produtor, mas nem por isso Newell aceitaria passivamente. O ponto alto aconteceu quando a versão do diretor foi entregue. Bruckheimer não gostou e chamou um novo editor para deixar o filme do seu jeito. Resultado: 10 minutos, mais artísticos e dedicados às tomadas no deserto marroquino, foram retirados do filme. Mas isso não afetou a qualidade do produto final, muito acima da média para as adaptações de videogames, mas bastante longe do nível artístico imaginado pelo envolvimento de Newell. Ou seja, funciona. Mas e as bilheterias? Provavelmente culpa do fraco apelo de Jake Gyllenhaal e Gemma Arteton, mas, acima de tudo, pelo fiasco qualitativo de Fúria de Titãs – com a mesma Arterton –, recente aventura similar. E também a ausência de cópias em 3D.

Esperar originalidade não vem ao caso, uma vez que o desfecho é óbvio e inevitável. Aproveitar a viagem pela Pérsia Antiga e a fictícia cidade sagrada de Alamut é decisão saudável, pois mesmo a trama das tais Areias do Tempo do título soa banal. Bem, trata-se de um videogame para ser assistido. Nada de desmerecedor, mas como obra de gênero, ela segue suas regras e entrega o grupo de mocinhos, o vilão e a missão. Há um charme especial, porém: um “botão” de rebobinar – e seu magnífico e brilhante efeito visual – brinca com a linearidade da história. Recurso prioritariamente visual, mas interessante para proporcionar a imersão naquele mundo mágico. A sensação é de ver algum viciado em Príncipe da Pérsia jogando numa telona e sem errar um golpe, salto ou escolha das frases no RPG! You Win!

Príncipe da Pérsia – As Areias do Tempo é o ápice de uma colaboração velada que existe a anos. Os jogos de videogame aprimoraram, e muito, sua natureza cinematográfica na última década seja em sua narrativa ou nos belíssimos filmes de transição presentes nos jogos mais encorpados; por sua vez, o cinema entendeu o potencial comercial e visual dessas histórias para seu meio. Adaptações não são coisas novas, claro, mas os limites tem se misturado tanto que fica difícil separar as duas mídias em alguns momentos. Resident Evil é uma das franquias de maior sucesso nesse âmbito, mas nem mesmo toda a fortuna da Umbrela Corporation permitiu uma viagem tão visual e fantástica quanto essa aventura da Disney. Se bem que o próximo filme – Resident Evil AfterLife – está prestes a estrear, em 3D, e pode reverter essa situação.

E há muita coisa boa para se retirar desse relacionamento. Videogames se levam a sério, claro, mas tem por obrigação entreter seu consumidor por horas, dias, semanas. O cinema é conciso por natureza, mas, no caso de Príncipe da Pérsia, conseguiu entender que esse entretenimento pode, e deve, misturar bom-humor com certeza de maravilhamento visual. Por isso as piadas são constantes, especialmente quando Alfred Molina está em cena. Jake Gyllenhaal tem seus momentos, mas foca boa parte de sua atenção nas piadas internas com base na tensão romântica entre Dastan e Tamina (Gemma Arterton, “a princesa antiga do momento”).

Seriedade não existe, pelo menos não na frente do público. Qualquer pensamento mais sisudo ou sombrio fica reservado aos conflitos da produção e à mente de Bruckheimer, já que nem mesmo o vilão de Ben Kingsley aspira muito medo. É um inimigo a ser derrotado, seja pela espada ou pela inteligência. E Dastan tem os dois.
Da trama simples pouco se tira, especialmente quando a apoteose de cores do clímax do filme chega ao fim, mas o primordial ali é a experiência. A possibilidade de visitar aquele mundo normalmente restrito à telinha do computador que de pequeno não tem nada. Filmes como esse reduzem aqueles desfiladeiros existentes entre algumas gerações. Pais muitas vezes encaram a diversão de seus filhos como perda de tempo, mas ao ver tudo que esse “vício” tem a oferecer na telona, pode ser que alguns paradigmas mudem.

Nunca é tarde para segundas chances. Os super-heróis tiveram uma nova oportunidade e, com orçamento certo, assumiram a ponta do cinema de ação, e há razões de sobra para dar o mesmo voto de confiança aos videogames. Em termos comerciais, não vai ser tão simples. US$ 30 milhões em três dias é relativamente pouco, especialmente ficando atrás do patético Sex and the City 2, mas também do líder natural Shrek Forever. Mas ainda é cedo para pânico, pois a universalidade do título Príncipe da Pérsia vai garantir bom desempenho nos mercados internacionais. Bruckheimer pode ficar feliz. E o público também. Mas ficar atento é necessário, pois com um investimento de US$ 200 milhões, abrir em terceiro não é nada bom. Especialmente depois de um adiamento de praticamente um ano. Não é qualquer um que pode ser Johnny Depp e Bruckheimer sabe disso, mas mesmo assim arriscou com Gyllehnaal no papel principal. Nem mesmo o marketing pesado da Disney, que encartou o pôster do filme no LA Times da última sexta-feira, foi suficiente. Agora, só o boca-a-boca salva.

Paga-se para se divertir e é exatamente isso que Príncipe da Pérsia – As Areias do Tempo entrega. Um filme eletrizante, deslumbrante e engraçado. São as mil e uma noites dos tempos modernos. Pouco romantismo e muita correria, mas as mesmas maravilhas inimagináveis.

por Fábio M. Barreto, de Los Angeles

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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16 thoughts on “[Príncipe da Pérsia] As Mil e Uma Noites do Século XXI

  1. Abrir contra Shrek e sair ganhando é praticamente impossivel, mas espero que consiga se recuperar pra pelo menos não dar prejuízo como Robin Hood, já que pelo que deu pra perceber, esse filme é melhor.

    Vendo Pince of Persia saindo por baixo contra Shrek, já da pra ter noção do estrago que Toy Story 3 fará em Jonah Hex, né?

      1. Aí Fabio,
        Ainda bem que “ignorei” o comentário do Maurício e fui assistir.O filme foi tudo que esperava, foi puro entretenimento, ação e comédia no ponto certo. Com ótimos efeitos visuais e cenas extremamente “roubadas”. Adorei o Alfred Molina nesse tom super comédia dele. E tipo, eu não tenho nada contra o Gyllenhaal( aliás está escrito errado no seu penúltimo parágrafo), acho que por isso não tive preconceitos e aprecei o filme.
        Pra mim esse foi um importante passo nas adaptações de GAMES e que venham mais dezenas se forem feitas com respeito ao original e com capricho.
        Abraços

  2. Ah ainda vou assistir. Como gosto bastante da série Sands of Time (que saiu para o PS2), acredito que talvez eles tenham pego o espirito para fazer essa adaptação. Mas falo isso somente pelos trailers que eu já vi, claro.

    E Bá, uma correção: Prince of Persia não é RPG não. É um jogo de aventura mesmo.

  3. critica interessante, assim como o filme, que pode se dizer eletrizante, mais faltam coisas nele, como por exemplo um herói menos sarcastico, muita piadinha e como o Fabio falou, o vilão não mete medo algum, da até pra rir da cara dele, é um bom filme, com uma trilha sonora que da mais vontade de ver porém acho que ficou mais para o lado comédia, tentando atingir o público infantil, do que aventura que podia ser explorada muito melhor.
    Espero que o filme melhore nas bilheterias nesse fim de semana.

  4. Jogava o game Princípe da Pérsia nos seus primórdios ou seriam os primórdios do meu PC? Provavelmente as duas coisas! Acredito na opinião do Barreto sobre o filme e acredito que irei conferir, mas o que me desmotiva em assistir é Jake Gyllenhaal. Posso estar sendo precipitada, mas até agora não consigo vê-lo como protagonista de uma franquia que pretende ocupar o espaço deixado por Piratas do Caribe.
    Enfim, o melhor mesmo é assistir primeiro (e torcer para não parecer nem um pouquinho com Fúria de Titãs) e comentar depois.

  5. Acabei de assistir o filme e gostei muito. É um filme de aventura com um enredo previsível mas nem por isso menos interessante. Ver na tela grande faz qualquer história épica de computador (ou não) mais bonita e deslumbrante. Para quem conhece o jogo , a história agrada se você se focar na aventura do personagem. A trilha sonora como já foi dito é ótima, a música final linda na voz da Alanis. Visualmente impecável, o Jerry definitivamente sabe o que faz.
    Newell me deixou na dúvida porque não gostei dos últimos filmes dele. Não sei o quanto o Bruckheimer deve ter mudado mas o diretor certamente fez a parte dele.
    Quanto aos atores fiquei muito satisfeita com o Jake Gyllenhaal, acho que foi uma boa escolha eleger um excelente ator dramático para o personagem e não um bonitão previsível que vai dispensar os diálogos do filme. Ele está adorável como o filho tentando dar orgulho ao pai, sensível e ingênuo (no melhor dos sentidos) como a criança corajosa do início do filme. Molina dispensa comentários e o restante da família real está ótima. Os coadjuvantes foram muito bem escolhidos. A Gemma faz sem desafios o papel da bela princesa que esconde os segredos, sem surpresas. Lembrou muito a feiticeira do Escorpião Rei, como uma versão fofa da Disney.
    Vale a pena se encantar com a Pérsia.

  6. Muito legal a sua crítica, foi a primeira que li que abordou uma visão mais em relação ao jogo e as suas similaridades. O pessoal anda mais se focando na produção do mesmo e o quanto a história é fraca.
    Escrevi uma crítica também com esse viés mais de gamer, se quiser dá uma olhada para ver se você curte.

    Abraços,
    Daniel

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