[Crítica] Joy Division

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O que seria do The Cult sem Joy Division?

Até hoje é difícil definir o que foi o Joy Division para a cena musical inglesa na virada dos anos 70. Eles surgiram no punk rock, cantavam pesado e cheio de barulho, mas tinham algo a mais. Tinham Ian Curtis. A banda deu certo e decolou já exibindo alguns traços pop, Curtis pirou com remédios que tratavam sua epilepsia e se enforcou. A banda acabou e se transformou no New Order, que vendeu disco a rodo nos anos 80. Tudo isso em cerca de quatro anos. Doido, não? Agora o cinema brasileiro sofre com uma overdose da banda. Dois filmes chegam às telas: Control, uma biografia de Ian Curtis, e Joy Division, um documentário de primeira qualidade sobre o grupo e um pedacinho do rock inglês.

Leia a crítica de Control, aqui! O Zarko que fez.

Assisti a Joy Division hoje graças a um DVD que a Daylight Films – de Campinas!!! – me mandou. Empresa nova no mercado, aliás, sabiam? Confesso que fazia tempo que o Joy Division não entrava no meu radar musical. Tenho ouvido muito Blind Guardian, Iron Maiden, U2 e Bowie. Estou precisando variar.

De qualquer forma, encarei o mega documentário dirigido por Grant Lee, sujeito inteligente e de boas sacadas que já comandou alguns vídeos do Radiohead e do Blur. Os integrantes da banda estão todos lá. Annik “Yoko” Honoré está lá. E algumas cartas de Deborah Curtis também estão lá. Aliás, Control, o outro filme, é adaptado diretamente de um livro que ela escreveu.

Todo mundo foi filmado contra um fundo negro, que dá um aspecto bem sério à coisa. Você é obrigado a olhar para aquele “velhinho” – especialmente os três que formaram o New Order, logo após o suicídio de Ian Curtis, em maio de 1980 – que relembra situações memoráveis para nós, meros mortais, mas parte da vida deles. Um desses momentos é o tal do show “fiasco” dos Sex Pistols em Manchester. Apenas 42 almas compareceram ao show, porém, a quantidade de bandas e gente influente que saiu desse grupo foi impressionante. Entre eles, claro, estava o quarteto que, algum tempo depois, viria a se chamar Joy Division.

O nome, aliás, saiu de uma matéria de jornal que falava sobre um prostíbulo de garotas judias retiradas de campos de concentração pelos oficiais nazistas. Elas não sofriam com a desgraça dos trabalhos forçados, mas tinham seus próprios problemas. Enfim, “Batalhão do Prazer”, ou algo assim, é o sentido do nome da banda.

Vários detalhes como esse são revelados pelos músicos, produtores e jornalistas que viveram aquela época. Dá até dó ver os caras se empolgando quando gravaram o primeiro disco e, quando botaram para tocar, a qualidade da gravação estava tão ruim que espantaram quase todo mundo de uma boate!

Mencionar a trilha sonora é inevitável, uma vez que as canções vão construindo a história de maneira poética e quase profética. Da rebeldia esquisita no começo, passando pelo lançamento de Unknown Pleasures (o primeiro álbum de estúdio), à depressão do último álbum – Closer, que tinha uma sepultura na capa. Interessante como, logo de cara, dava para notar que as composições do Joy Division destoavam de Sex Pistols e Buzzcocks, por exemplo, que “mandavam” na cena punk rock. Isso já abria precendentes para o pop começar a se formar. E a postura meio Jim Morrisson que o Curtis passava nos shows transformava aquele sujeito num ser curioso e digno de estudo e, claro, paixão incondicional de seus fãs, que o idolatravam. Aliás, não há como não pensar, o que seria do The Cult não fosse pelo sucesso do Joy e o padrão que Ian Curtis definiu?

O filme vai crescendo até a inevitável menção ao ponto crítico dessa história: Ian Curtis ser diagnosticado como epilético. Embora nada disso tenha muito a ver com o estilo maluco do cantor no palco, suas visitas a um tipo de transe inexplicável passaram a ter um novo sentido. Esse estilo, aliás, inspirou diretamente o professor de dança Coisinha de Jesus, do Casseta e Planeta. Não é? =D

Curioso que o formato de “entrevista + fotos de arquivo + imagens de época” faz com que todo esse longa-metragem tenha uma cara de extra muito bacana de DVD. Só que sem os caras repetindo a mesma coisa a cada novo assunto. A condução das entrevistas foi primorosa. Claro que o conteúdo ajuda, mas a edição deixou tudo muito bem amarrado e lógico.

Enfim, toda a história do Joy Division e, claro, de Manchester estão lá. Agora uma das coisas mais engraçadas é ver que, quando surge a Yoko da banda – a belga Annik Honoré – a coisa muda um pouco de figura e, melhor ainda, nenhum dos caras da banda suporta a mulher! E olha que ela fez muito menos do que a japa metida a artista. O baixista, Peter Hook, aliás, não quer nem saber e arrepia para as câmeras. O amor é lindo!

Justamente por ser muito importante para os rumos da banda e também do gênero musical, a morte de Ian Curtis toma conta dos últimos 25 minutos do filme. As reações dos amigos, o fato de estarem às vésperas da primeira turnê pelos Estados Unidos e, claro, o surgimento do New Order – que tocou por 18 anos antes de decidir executar uma das músicas do Joy Division. Também pudera, Curtis era o coração por trás das canções – fossem elas tristes ou não – e toda essa carga emocionou não foi o suficiente para que os amigos fizessem algo para ajudá-lo. Gente burra, na verdade, pois o cara tentou se matar tomando mais remédios do que devia meses antes de “conseguir” e se enforcar em casa.

Joy Division é aquele tipo de filme que vale a pena procurar uma das 3 salas que deve estar passando (não sei o tamanho do circuito) e ir conferir por vários motivos:
– Educação musical.
– Boa trilha sonora.
– Nada de adolescentes acéfalos fazendo piadinhas.

Uma verdadeira aula de história. Especialmente para quem sabe que o Joy Division é muito mais que “Love Will Tears Us Apart”.

Mas já que mencionei a dita cuja, aí vai ela. A original, não aquela versão tosca do The Cult:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=3Ii8m1jgn_M&hl=en]

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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10 thoughts on “[Crítica] Joy Division

  1. Fabão, é indispensável que um filme sobre o Joy Division relate, e pelo que você diz é o caso, não só a importância da banda em termos musicais mas culturais também, do ponto de vista da idolatria a astros do rock. Esse aspecto vira a vida desses caras do avesso, como fez com Cobain e Morrison.
    Voltando ao campo musical, vale ouvir das bandas atuais o SHE WANTS REVENGE que considero bastante influenciado pelo Joy Division e o New Order.

    Abraço!!!!!

  2. Não tive chance (ainda) de ver nem Control, nem o documentário, mas como fã do Joy Division (e do New Order também), fico feliz ao ver esse material ganhando os cinemas e dvds brasileiros.

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