[A Estrada] À Espera do Fim

A Estrada, adaptação da obra de Cormac McCarthy questiona limites, debate a essência e mostra tudo que Hollywood esconde com seus finais felizes para filmes apocalípticos. Menos intenso que o livro, mas tão relevante quanto.

Especular um eventual fim do mundo não apresenta grandes dificuldades para Hollywood. O formato está bem definido: encontre uma provável causa, defina os personagens cientes da calamidade, invente soluções mirabolantes, tudo regado a muita velocidade e heroísmo, e aperte o Play. Tradicionalmente, essa construção gera um perigo catastrófico, mas, claro, permitindo ao mocinho – e sua família – uma saída dramática. Vive-se a tensão de margear o precipício sabendo da inevitabilidade do braço salvador no instante derradeiro. E tudo acaba bem. Essa situação previsível deixa de existir quando se busca inspiração na literatura, ou melhor, nas construções literárias corajosas como A Estrada (The Road), que rendeu a Cormac McCarthy o prêmio Pullitzer. É o clímax anti-hollywoodiano, concluindo uma narrativa despreocupada com a receptividade do público ou os efeitos especiais.

Um homem caminha pela estrada. Está sujo, barba por fazer, e empurra um carrinho de supermercado. Seu filho caminha a seu lado. Tão sujo quanto o pai, carrega uma mochila. Eles caminham. O mundo é cinzento, nublado e melancólico. Nada de cometa a caminho da Terra. O fim já aconteceu. E eles são o que restou. Esse é o ambiente da versão cinematográfica de A Estrada , dirigida pelo australiano John Hillcoat, um filme modesto se comparado a sua abrangência social e relevância mundial, mas estrelado por Viggo Mortensen e com participações bem-vindas de Robert Duvall, Charlize Theron e Guy Pearce, que estréia no dia 16 de abril no Brasil, em circuito limitado, claro.

Por uma razão não revelada nem pelo livro nem pelo filme, o planeta morreu. Sem recursos, os últimos sobreviventes humanos limitam-se a sobreviver. Viggo e seu filho são bons moços. “Carregam a chama”, como o pai resume suas escolhas, e vivem de sobras de um mundo já saqueado e esgotado. Acostumados à fome, seu maior problema são os parcos, mas letais, grupos – ou gangues tribais – de homens que vagueiam a procura de alimento: carne humana é o único disponível.

Sem esperanças, o pai dedica cada segundo de sua vida para manter o filho vivo. Seu sofrimento, tanto emocional quanto físico, questiona valores sociais e morais a todo instante. E isso se vê nos detalhes e indagações. Comer ou guardar para mais tarde? Acompanhar essa dupla faz pensar no exagero e desperdício da sociedade moderna. Impossível olhar para um prato de comida da mesma maneira depois de ler o livro, principalmente. O filme, por ser obrigatoriamente mais resumido, deixa tais dilemas num segundo plano próximo dando preferência à questão da sobrevivência desproposital. Para onde ir quando não há lugar seguro ou habitável?

Fala-se pouco na estrada. Medo e solidão caminham ao lado dos protagonistas desse mundo onde Estado e Deus falharam. Viggo aparece transformado nesse sujeito surrado, Duvall surge como velho cego e tão desesperançoso quanto o pai, Theron perde as esperanças, o garoto cresce com histórias de um mundo que não conheceu e sonha. A Estrada tem seu próprio ritmo, sem compromissos com gêneros ou sucesso de público. É um daqueles filmes necessários, que vira referência, mas pouca gente vê no cinema. Também pudera, Hollywood costuma entregar esperança e agilidade. A Estrada é hiperrealista, mas não pessimista, pois prega uma dinâmica diferente. São outras regras. Sobreviver o máximo possível é tudo que importa.

O livro já inspirou muita gente. Muito dele foi inserido em O Exterminador do Futuro: A Salvação, assim como no recente O Livro de Eli. Entretanto, essas duas histórias mostram uma luz no fim do túnel. A Estrada é uma rota direta para a escuridão, do corpo e da alma. Ficção? Sim. Porém, um retrato peculiar para um desfecho nem mesmo contemplado por teóricos ou fanáticos religiosos. Com a evolução tecnológica e as novas gerações informatizadas, acreditar num futuro próximo da Matrix é mais viável do que a ausência de vida de A Estrada, mas, como sempre, é questão de referencial e de identificação.

Acompanhar essa trajetória confronta dogmas pessoais e egocêntricos muito enraizados no homem moderno. A maioria dos religiosos norte-americanos, por exemplo, acredita no apocalipse bíblico enquanto estiverem vivos. Ou seja, para a vida ter sentido, os grandes eventos da Humanidade precisam acontecer perante seus olhos. A simples ausência de esperança ou fé espiritual é um argumento poderoso e eficaz, especialmente se imerso num mundo condizente com essa realidade. Gritar aos ventos no meio da Avenida Paulista, hoje em dia, não funciona. Pensar nisso quando humanos canibais vagueiam entre as árvores mortas e estradas abandonadas faz sentido.

O homem é aquilo que ele imagina. Quando imaginar deixa de ser possível ou viável, pouco sobra do ser sofisticado da atualidade. Caminhar por essa estrada é algo duro, mas proveitoso e reflexivo para os de coragem suficiente. Enfrentar seus medos debaixo das cobertas e com uma geladeira cheia não é nada se comparado a fazer o mesmo olhando para o fim do mundo mostra as verdadeiras fronteiras de cada um.

Por Fábio M. Barreto,
de Los Angeles

Publicado originalmente na Sci-Fi News.

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Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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13 thoughts on “[A Estrada] À Espera do Fim

  1. Esse filme, é a visão mais real de um futuro pós-apocalíptico, mesmo de se tratar de uma ficção.

    Confesso que esse filme mexeu de mais comigo.

    Filme tenso, particularmente gosto de filmes sem finais felizes, tornam-se mais reais.

    Já assisti e se chegar nos cinemas aqui em Porto Alegre, irei assisti-lo, novamente.

    1. Não só o prato de comida, mas para as pequenas coisas que passam por despercebido na nossa vida, que não damos atenção necessária, pequenos momentos de felicidade, como a sena da coca-cola, único momento no filme que eles esboçam um sorriso.
      É uma pena que muitas pessoas não gostam desse filme, pelo fato que citastes, de ser um filme fora dos padrões hollywoodiano. Que nos empurram filmes sem conteúdo, que não nos fazem pensar, nas nossas atitudes.

      Abraço

      1. Mencionei a comida como representante de tudo isso, claro. É inconcebível pensar no fim mesmo, pelo menos a meu ver. Todo mundo, em certo ponto, precisa contemplar a morte, mas a vida sem o menor propósito e essa angustia para saber até quando vc dura é absurda demais. Não comentei na matéria, mas o livro é mais interessante. É uma versão do fim, sabe. O livro deixa você criar a sua própria e quem conhece mais de nossos medos além de nós mesmos?

        abs

        1. Já encomendei o livro, estou ansioso para lê-lo.
          E podemos fazer a analogia do filme como a nossa vida, uma longa estrada, com perigos e vários momento de medo, mas o que não nos deixa desistir de caminhar é a esperança.

          Abraço

  2. Pingback: SOS Hollywood
  3. Pela crítica e pelo que andei lendo pela internet, acabei comprando e lendo o livro em 1 único dia.

    Aguardo pelo filme. Pela crítica, parece ser realmente um filme interessante e pegou um pouco do espírito do livro. Certamente o final é uma das coisas diferentes, não é o que ninguém espera (ou na verdade espera) porque o mundo já acabou.

    Certamente vou tentar assistir o filme quando vir a chegar a Curitiba.

  4. Pingback: SOS Hollywood
    1. Pq eles também estavam procurando uma região menos fria, logo, viram o Pai e o Menino na estrada e estavam seguindo sua trilha. E como eram gente de bem, acredito, estavam esperando uma chance de fazer contato. Se bem que ninguém se relacionava muito naquele mundo.

      🙂

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