CNN US: Idiotização e Repetição Garantida

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CNN Domestic tenta ajudar, mas só incentiva a idiotização norte-americana, com problemas que vão de âncoras tendenciosos até exagero negativo nas coberturas. Sobra até para o Brasil. É o duro retrato do trabalho da maior rede internacional de notícias.

Tive a honra de trabalhar para a CNN por alguns anos, no Brasil, como gerente de assessoria de imprensa. Já gostava o estilo do canal antes disso e a oportunidade de conhecer, nos bastidores, alguns dos âncoras e visitar o coração da emissora, lá em Atlanta, sacramentaram meu partidarismo e, óbvio, me afastaram das tolices da Fox News. Nos últimos dois anos, porém, me vi distante da CNN International – braço mundial exibido no Brasil e resto do mundo – e exposto diariamente ao estilo da CNN Domestic, o canal feito para americanos. Quando voltei do hospital no dia da morte de Michael Jackson foi a CNN que me manteve informado e também foi nesse mesmo canal que assisti à vitória de Barack Obama, o primeiro negro presidente dos Estados Unidos. Agora, exceto por momentos pontuais como os citados, a rede tem perdido relevância, foi enganada pelo caso do balão e beira o sensacionalismo.

Digo isso pelo simples fato de assistir ao canal durante o horário comercial. Na íntegra. Admiro o trabalho de gente como Jim Clancy e Michael Holmes, da CNN International, que faz jus ao trabalho de seus editores e informam, ensinam, esclarecem. Um verdadeiro trabalho jornalístico. Existe opinião, claro, mas ela surge, normalmente, com o intuito de guiar o espectador possivelmente pouco informado sobre pelejas no Oriente Médio ou, especialmente, na África. O canal promove um baile de informações. Fora dos Estados Unidos. Aqui dentro são formados monstros microinformados. A CNN Domestic foge da amplitude horizontal da International e mergulha numa verticalização vertiginosa em assuntos locais. Melhor explicar. Vejam os seguintes assuntos: Tiger Woods bateu o carro na sexta-feira; um ex-condenado é acusado de matar quatro policiais no domingo pela manhã; Barack Obama vai anunciar, amanhã, o envio de mais tropas para o Afeganistão.

É só nisso que se fala nessa segunda-feira. Nada errado em cobrir “celebridade, violência e política”, porém, é só nisso MESMO que se fala. Cada bloco do habitualmente ótimo Situation Room com Wolf Blitzer [um dos pilares da emissora, aliás] traz “breaking news” sobre Woods. Mas, na verdade, nada adiciona com algum especialista falando sobre o que pode, ou não, ter levado o golfista a não querer falar com a polícia sobre as circunstancias de seu acidente. Não feriu ninguém. Não causou danos. Não quebrou leis. Apenas seu carro.

No site da CNN, a manchete: Os Problemas de Tiger – nem tão perfeito, afinal de contas [Tiger’s Troubles: not so perfect after all]. Moral questionada por um pequeno acidente e fofocas sobre possível envolvimento com uma garota de programa. Tudo circunstancial. Poucas evidências. Do mesmo jeito que o caso do “Ballom Boy” foi tratado semanas antes.

No mesmo ritmo, o programa fala sem parar do tal criminoso que pode ter matado quatro policiais. O ângulo é mais político que policial, afinal, um presidenciável, Michael Huckabee, concedeu perdão e permitiu a liberdade condicional do sujeito. Sobre o caso, só se sabe que o suspeito fugiu da polícia e todos estão “indignados” pelo fato de ele estar nas ruas. E o circo gira em torno dessas informações. Repetidas por repórteres, memorizadas por Blitzer, transformadas em infográficos nas telas. É um festival de falação sobre o nada até que a próxima informação seja anunciada, aí ela passará pelo mesmo ciclo.

Aí vem Obama. Especulações, possíveis reflexos sociais e políticos, opiniões de especialistas, opiniões dos âncoras, análises de cenários hipotéticos, debates infinitos sobre o que o presidente deve ou não falar, deve ou não fazer, deve ou não explicar. É o jornalismo dos experts, não dos informadores. Mesmo por que, informação não existe nesse momento. E as que existem são curtas e definitivas: Obama fará um discurso/Woods bateu o carro e não quer falar a respeito/Policiais foram emboscados. Mas são suficientes para manter as pessoas falando e analisando por um, dois, três dias.

Impossível não lembrar do balão. Dos especialistas em balonismo, dos militares pensando em como, talvez, quem sabe, na situação hipotética, e com muita sorte tentar “resgatar” o garoto do balão. O balão caiu. Nada de garoto. E as pessoas continuaram falando. Um dia inteiro de explicação. Sobre o nada. Um engodo.

No coração de tudo isso, a CNN tenta se segurar para cair no mesmo truque duas vezes: um casal disposto a ficar famoso para ter um reality show aprontou o impensável ao se infiltrar no primeiro jantar de gala da administração de Barack Obama. Os furões são manchetes no país inteiro e, novamente, lá vem os especialistas comentarem as repercussões políticas e os efeitos na imagem de Obama; gráficos mostrando onde eles entraram; como podem, ou não, ter burlado a segurança. O que aconteceu com o trabalho jornalístico de confrontar a fonte e PERGUNTAR? É o reinado da opinião e da suposição. Tem até gente tentando imaginar o que Obama está pensando e como isso o “chocou”. Realmente, amanhã o sujeito vai anunciar o envio de mais de 30 mil soldados para a Guerra e será que está preocupado com os furões?! É o jornalismo prestando um desserviço a seu próprio país. Todos precisam de bons índices, a briga com a Fox News – cuja qualidade é constantemente péssima, por fazer todo o mencionado nesse texto, mas de forma grosseira, agressiva e útil apenas para republicanos extremistas – tem pegado fogo, mas a CNN demonstra sinais de que deixou de ditar o caminho para tentar seguir seus competidores no quesito sensacionalismo.

Como se não bastasse isso, semana passada, Rick Sanchez (@ricksanchezcnn) [âncora do programa da hora do almoço, que se baseia em reações de Twitter e Facebook para fazer suas matérias – basicamente as mesmas dos outros programas, mas com comentários, aí sim, opinativos e tendenciosos] resolveu comentar o encontro do presidente Lula “da Silva” (como é chamado por aqui) e o presidente do Irã. Sanchez se indignou com as pretensões internacionais do governo Lula, especialmente quando um repórter da CNN en Español explicou o fato de Brasil tentar se posicionar como uma potência em termos de negociações e ser uma “alternativa” ao estilo norte-americano. Não é a primeira vez que Sanchez alfineta o Brasil. Na cabeça do âncora, que é descendente de imigrantes cubanos, todos os governos sul-americanos integram um gigantesco bloco “comunista e de esquerda” seguindo o modelo de Hugo Chavez.

Um comentário me marcou: “mas o Brasil não é nosso aliado? Não temos relações com eles? Por que estão vendendo urânio para o Irão no ‘nosso quintal’ e tentando ser uma ‘opção ao nosso estilo de negociação’”? O comando da CNN se importa com o Brasil e está virando tradição enviarem seus âncoras do canal internacional para visitar nosso país, entretanto, esse episódio demonstra não agressividade, mas sim total despreparo da equipe da CNN Domestic em relação ao Cone Sul.

E, curiosamente, voltamos ao início desse artigo. Se nem mesmo os âncoras conseguem sair da mesmice que lhes é imposta, ou não se informam adequadamente sobre países importantes das Américas, o que esperar do conteúdo transmitido a seus espectadores que não um mero reflexo desse quadro? No meio dessa bagunça toda, salvam-se Anderson Cooper e John King, normalmente focados em seus assuntos. Esses dois garantem a verticalização da informação com utilidade e novidade. Duas ilhas perdidas no rodamoinho televisivo e sem propósito que se chama CNN Domestic. Uma situação triste especialmente sabendo que há tanto material utilizável e relevante no canal internacional.

Que saudade da CNN International.

por Fábio M. Barreto

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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11 thoughts on “CNN US: Idiotização e Repetição Garantida

  1. É, o negócio tá osso. Meio que nada a ver com o assunto, mas veja o caso do jornalismo esportivo Brasileiro. Lá pela metade do campeonato Brasileiro, a opinião dos “especialistas” era que o Fluminense “já estava rebaixado”, e o Palmeiras (acho) seria o provável campeão, e que o Flamengo provavelmente não teria chances de brigar pelo título. Isso eu ouvi tudo em um programa da Sportv. Hoje, o Flu está a 1 empate de permanecer na Série A, o time Porco cagou no pau, e o Flamengo está a 1 vitória de ser campeão.
    Dias desses, vi o mesmo programa, aí o cara perguntou (acho que foi o Galvão): “E agora, senhores?” os caras falam: “É, o Futebol tem disso, é assim mesmo, tem dessas coisas, por isso que a gente gosta” e etc.
    Sem contar, que se o Flamengo for campeão esse ano, vai “reacender a polêmica” do Flamengo ser penta ou hexa. Polêmica essa que não existe, pois tudo já foi esclarecido há muito tempo, mas os jornalistas (principalmente os da Vênus Platinada) adoram colocar esse assunto na roda. Para eles, o título do Flamengo de 87 é contestado pelo Sport, não é o contrário. Contra fatos não há argumentos, já dizia alguém por aí…
    Enfim, como disse, nada a ver, mas enfim…
    Falou

    1. Tá dizendo que os comentaristas esportistas também só ficam correndo atrás do rabo e não sabe do que falam? É por aí, mas eles sempre puderam ficar “achando” qualquer coisa.

      Mas assim como o pessoal de política, não tem como adivinhar ou saber o que vai acontecer nem mesmo no dia seguinte, quem diria no final do campeonato. tsc tsc.

  2. Pingback: SOS Hollywood
  3. Pingback: SOS Hollywood
  4. Mas dessa vez os comentaristas esportivos merecem um desconto. O Brasileirão dessa ano foi uma loucura total, além do comum. Irregularidade foi a palvra. Times que estavam bem de repente caíram, mortos se levantaram das tumbas… chegou na última rodada com 4 times ainda com chances de título. Muito divertido e emocionante, pena que meu Verdão conseguiu praticamente jogar fora um título que tava fácil…

  5. É mais ou menos o que a “respeitada” Veja faz com suas incontáveis capas sobre novela das 8 e suposições “certas” como a clássica capa “FORAM ELES” do caso Nardoni (antes de sequer a polícia chegar a uma conclusão) e um em que eles hostilizaram o Açúcar como se este fosse Satã em forma de Pó.

    O jornalismo não tem a obrigação de informar sem opinião. Mas tem obrigação de opinar com responsabilidade.
    Agora me lembrei também da Globo entrevistando o Serra perguntando sua opinião sobre o avião da TAM. O avião tinha caído no dia anterior e lá estavam eles politizando a dor de mais de 200 vítimas.
    Fazendo um paralelo, ela não politizou a cratera do metrô. Que curiosamente, tem algo a ver com política (ou a TAM e a Airbus possuem alguma filiação política e não to sabendo?).

    E pra terminar, essa semana a Record talvez insatisfeita com seus resultados pifios resolveu demonizar o IBOPE.

    Talvez o supremo esteja certo: Pra que superior de jornalismo se não serve pra nada?

  6. É o efeito Fox News e idiocracy, como a concorrência no jornalismo tem aumentado, na mesma proporção que a publicidade diminui, as redes precisam adotar um padrão sensacionalista para atingir o público do interior que vota no partido republicano e acha que a Fox News faz jornalismo. É triste ver que a CNN para competir tenha baixado seu nível, afinal cada vez mais é difícil ver o jornalismo sendo feito com qualidade e sem querer ser um agente político, aqui no Brasil nenhuma rede consegue fazer isso, nos EUA parece que o pessoal também está adotando esse modelo de jornalismo boca de lixo, triste…

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