Tarantino encontra Philip K. Dick

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Bastardos Inglórios mostra a Segunda Guerra Mundial como deveria ter sido lutada, sem deixar de lado seu estilo violento, contundente e, de certa forma, romântico. Entretanto, não é um filme de guerra e sim uma História Alternativa.

Quentin Tarantino pegou os Estados Unidos com as calças na mão. Despreparados para o verdadeiro conteúdo de Bastardos Inglórios, o público americano não soube bem como reagir a uma História Alternativa com requintes de crueldade, inteligência maligna e seus rumos inquietantes, mesmo que positivos. Assim como o grupo positivista que distribuiu uma edição do New York Times [em novembro de 2008] cheia de “notícias boas”, Tarantino conta a história do um jeito tão sonhador, que chega a ser difícil acreditar. É como se o diretor de Pulp Fiction mergulhasse em O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick, e saísse de lá cheio de idéias para um mundo melhor e, claro, sem nazistas.

Bastardos Inglórios existe à margem dos filmes de guerra tradicionais. Não respeita as premissas desse gênero, foge da premissa de sua campanha de marketing [um comando de judeus americanos exterminando nazistas] e beira a poesia visual quando Tarantino dedica preciosos minutos a explorar a beleza de suas atrizes, especialmente Mélanie Laurent. Sua câmera se apaixona a cada movimento, olhar ou reação, da mesma forma como idolatra mortes brutais – menos sanguinolentas, mas visual e conceitualmente agressivas – de forma marcante o suficiente para não gastar todo seu filme envolvo em sangue. Diane Krueger está simplesmente apaixonante e clássica.

Um alívio bem-vindo depois do banho de sangue mais visual que significative de Grindhouse. Tarantino gosta de violência e ela está em todo lugar, mas opera de formas inusitadas. Por vezes, no brilhante oficial da SS vivido por Christoph Waltz [sua inteligência extrema ofende mais que o fato de ser o “caçador de judeus”], ou então no terror psicológico provocado pelos Bastardos entre tropas alemãs, chegando até mesmo aos ouvidos do próprio Adolph Hitler. É justamente aí que a promessa de uma guerra diferente se distancia da propaganda e segue outros rumos. As ações de campo dos Bastardos Inglórios, comandados por um Brad Pitt quase cômico, em momentos dignos de Queime Depois de Ler, são apenas um elemento de uma trama maior. Pitt, aliás, irreparável e perfeito. Como numa história de H.P. Lovecraft, é necessário imaginar as barbaridades cometidas por eles. Tarantino dá uma idéia, a mente continua sozinha por conceitos sombrios e assustadores.

Decisão interessante e sadia, uma vez que o filme declina seu potencial para um banho de sangue sem sentido. Como sempre apaixonado por cinema, Tarantino brinca com sua própria decisão, ao inserir um filme de propaganda alemão [‘inspirado’ na façanha solitária de um franco-atirador que repeliu 300 soldados norte-americanos] repleto de tiros, mortes seqüenciais, basicamente uma chacina editada para deleite dos nazistas. Bastardos Inglórios abomina nazistas, por isso não só os mata, como também hostiliza, denigre e humilha abertamente.

“Quero 100 escalpos de nazistas de cada um de vocês e vocês vão me trazer esses escalpos”

Tudo é ficcional, mas muito emocional. Menos pela expectativa em torno da válvula de escape de assassinatos sadistas de nazistas, mais pela criação de uma realidade muito sonhada, porém não alcançada pouco depois do desembarque aliado na Normandia. Soldados brincavam sobre invadir Berlim meses depois, coisa que não aconteceu, mas a literatura adora estudar as possibilidades [seja da rápida vitória aliada, ou de revés alemão e eventual domínio do nazismo sobre o mundo]. É a chamada História Alternativa, gênero dominado por Harry Turtledove e, no Brasil, brilhantemente representado por Gerson Lodi-Ribeiro; entretanto, o título mais famoso seja O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick [relançado recentemente], que devaneia sobre uma América do Norte dominada pelo Império Japonês. Tarantino escolheu o viés positivo, mas igualmente surpreendente. Parece tarefa simples, mas confrontar norte-americanos que viveram o pós-guerra, ou até mesmo remanescentes do conflito, que tudo poderia ter acontecido de outra forma é mais impactante do que se imagina.

E, como de costume, Tarantino aproveita toda chance de discutir cinema, mergulhar em sua linha de raciocínio acelerada, mas sempre embasada, que vai do cinema francês, passando pela propaganda de guerra alemã [real e fictícia] e sua relação com o espaço físico da sala de cinema. Bastardos Inglórios é menos tarantinesco do que se imagina, mas quando o diretor parece ter se ausentado, sua assinatura irrompe na tela como singelo lembrete de que ele nunca saiu dali, como se parasse para contemplar o desenrolar de sua própria criação. Cru, provocador e agressivo. Assim é Bastardos Inglórios, um clássico de época, sem uma linha de verdade.

Fábio M. Barreto


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Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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26 thoughts on “Tarantino encontra Philip K. Dick

  1. Não sou fanboy do Taranta, até me incomoda um pouco tanta gente pagando um pau enorme pro cara. Mas sem dúvida ele bom. Eu já pretendia ver esse filme, depois desse texto então…

  2. Excelente crítica Barreto, Bastardos é um dos melhores filmes do Tarantino, o fato de ele ter feito uma narrativa linear (e quebrar aquilo que o marcou) talvez dê até um charme a mais, assim como o dialogo do “Caçador de judeus” com o pai de família francês do inicio do filme, simplesmente um dos dialógos mais sureais e geniais já feitos

  3. Valeu pela crítica, XARÁ.
    Agora, estou ainda mais curioso para conferir nas telonas.
    TARANTINO é o cara!!!
    RESERVOIR DOGS e PULP FICTION são alguns dos meus filmes favoritos.
    Conferirei INGLORIOUS BASTARDS, com toda certeza!
    Saudações,

  4. Tarantino é sem palavras, o cara é 100% foda ate agora. Ele só precisava ter feito 2 filmes, Cães de Aluguel e Pulp Fiction, mas foi teimar e vez clássicos como Jack Brown, Kill Bill vol 1 e 2, e um drink do inferno, ao lado do brother Rodrigues.
    Agora nesse filme novo, esepro que com a parceria do Brad Pitt, ele possa se superar ainda mais. Tarantino é um gênio, sem percepção cinematograficas, são os que não veêm isso. O cara é sem palavras…

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  7. Parabéns pela crítica Barretão. Sem dar nenhum spoiler, conseguiu provocar uma vontade ainda maior de assistir ao filme. Tenho certeza que mesmo que não conhece/admira tanto o Tarantino ficará tentado a ver o filme depois de ler esse texto. Para quem gosta então….OBRIGATÓRIO
    abs

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  13. Tarantino, faz a obra mais “poderosa” da sua carreira. Bastardos Inglórios é simplesmente INCRÍVEL, ESPETACULAR, FANTÁSTICO… PERFEITO!!!
    E semana que vem, a sesão será repetida por mim. Prentendo assistir umas duas vezes no minimo ainda…
    Cães de Aluguel = Dialogos Surreais – Pulp Fiction = Interligação de Fatos Jámais vista – Kill Bill = Violência Gratuita com Classe
    BASTARDOS INGLÓRIOS = A FUSÃO DE TODOS ELES, COM UM TOQUE DE MAGESTRIA E PODER.
    Paul Thomas Anderson, Kevin Smith, Quenti Taratino, Robert Rodrigues, nunca mais serão vistos do mesmo jeito!
    Fiquei sem palavras no cinema com tantas referências. Os cineastas do VCR, estão dando aula aos dinossauros “clássudos”!
    Falando em Brad… O que foi aquele sutaque minha gente? Que Motherfucker pra me empolgar. rsrsrsrs….
    Quem curte cinema, é forçado e tem realmente que assistir a obra mais poderosa de Tanratino: “Bastados Inglórios”

    E no fim, Tarantino fala atravéz do personagem de Brad Pitt (Aldo), simplesmente a verdade: – Acho que fiz minha obra máxima!

  14. A cena do bar onde todos se matam… É O FINAL DE CÃES DE ALUGUEL!
    E os escaupelações que tem referência total a Kill Bill, quando A noiva escaupela Lucy Liu!
    Hitler gostar de chiclete, é o mesmo que o assassino ( Samuel l Jackcon) de Pulp Fiction, gostar dos Hanburguers Holandeses!
    E como prevía Selton Melo, em “Tarantino’s Mind”… Ele criou seu prórpio mundo, nesse mundo, Hitller morreu queimado e metralhado!

    É exatamente a junção de todas as obras, aprimoradas e moldadas com classe, poder e qualidade,

  15. Belo texto sobre um belo filme.
    Tarantino conseguiu fazer a sala de cinema vibrar enquanto assistia, sei que comparado a outros blockbusters, Bastardos Inglorios tinha poucas pessoas na sala, mesmo em sua estreia, mas mesmo assim todas as pessoas que estavam pelo menos na minha sala adoraram o tom de humor nego do filme.

    Como voce disse Barreto, eh a historia alternativa. E por sinal, legal saber que voce conhece o Gerson Lodi-Ribeiro, tive a chance de conhecer ele em 2005 e o cara eh simplismente brilhante!

    Continue com o seu bom trabalho!

  16. “Kill Bill” é a obra mais completa dele. E de quebra ainda é, para mim, o melhor filme de todos os tempos. Mas “Bastardos” é o melhor filme “volume único” dele. Melhor que “Pulp Fiction”, “À Prova de Morte” ou “Cães de Aluguel”. Se dessa vez esse filme não lhe render, ao menos, indicações à “Melhor Filme”, “Melhor Diretor”, “Melhor Ator Coadjuvante”, “Melhor Roteiro”, “Melhor Montagem” e “Melhor Figurino”, eu não vejo mais motivos para a premiação da academia existir. (vale ressaltar que sou fã incondicional de Tarantino. dê um desconto)

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  19. Para mim, é no momento, o melhor filme da temporada, inclusive, com as melhores atuações, e com o melhor roteiro original. Tarantino ao mesmo tempo que subverte a História ao seu bel-prazer em Bastardos Inglórios, faz História nas páginas douradas da sétima arte. Acredito ter assistido um novo clássico do cinema. Parabéns pelo texto!

    Abraço.

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  21. Mundo melhor? Isso é uma piada. A caça aos nazistas foi apenas um pretexto para o diretor (e a platéia) saciarem sua raiva e sadismo contidos. A violência e crueldade “desmedida” nunca trouxeram nem nunca irão trazer um mundo melhor para todos. Nem aqui, nem em outros planetas. Há genialidade no filme? Sim. Há com certeza muito bom humor em certas cenas? Também. Porém o que há de imbecilidade é absurdo.

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