[Análise] The Runaways

Biografia da banda The Runaways retrata um momento importante o rock, mas escolhe protagonista errada e perde força que poderia tê-lo transformado num hit instantâneo!

por Fábio M. Barreto, de Los Angeles

Cherie Currie estava sentava ao meu lado quando o monitor foi ligado e Dakota Fanning apareceu. Vestida com roupa de balada e maquiagem brilhante, Dakota incorporava um estilo de vida encerrado há muito tempo, mas não esquecido. O Rock’n Roll fazia sua mágica e, especialmente entre as mulheres, mostrava que agressividade podia ser canalizada de forma construtiva, mas nada aconteceria com facilidade, afinal, o mundo das guitarras e bateras alucinadas era dos homens. Tudo mudou quando uma banda californiana chamada The Runaways estarreceu os roqueiros. Era um marco, mas, ao mesmo tempo, nascia uma lenda: Joan Jett. Mas e Cherie Currie? Bem, ela ficou relegada aos livros de história e à curta carreira da banda retratada em The Runaways – As Garotas do Rock, que estréia hoje no Brasil, muito tempo depois que a exibição nos Estados Unidos. A disputa por atenção entre Jett e Jones se vê no filme, reflete na vida real e até mesmo no set de filmagens, no centro de Los Angeles – as duas pouco se falam e não ficam juntas por mais tempo que o necessário – e decretou um dos maiores erros do longa-metragem: o roteiro escolheu a Runaway errada. Focou em Cherie e preteriu a real estrela. É de Joan que todos se lembram. Foi Joan que revolucionou o rock com seus Blackhearts. Foi Joan quem não sucumbiu às drogas. E é Joan quem observa tudo à distância, sentada com sua cópia do roteiro, ouvindo seu iPod. Uma presença opressiva que ainda assombra a vida de Cherie Currie.

Há cerca de um ano, fui convidado para participar das filmagens de The Runaways, que aconteciam numa antiga boate no centrão de Los Angeles. Era um dos locais mais emblemáticos da história da banda, pois ali aconteceu o encontro entre Fowler, Joan Jett e Cherie Currie, ou seja, a gênese do grupo formado apenas por garotas. Kim Fowler chama a atenção, com seu visual glam rock e atitude de manager e produtor extremo, e, claro, atuação inspirada e irrepreensível de Michael Shannon (atualmente no elenco de BoardWalk Empire), um profissional aparentemente incapaz de errar, com seu jeito seco, de humor peculiar e voz de comando. “O rock’n roll podia mudar o mundo naquela época e mudou”, comenta o ator, em entrevista ao SOS Hollywood. “Acredito que a música devia reencontrar aquele espírito e voltar a acreditar no seu potencial modificador, no que podemos fazer com uma canção”. Ninguém se engana ao ignorar o aspecto comercial que, mesmo na época de The Runaways, já motivava a indústria fonográfica, mas é fato que o idealismo era mais efetivo naquele período. “Precisamos concordar que se não houvesse qualidade elas não teriam vingado, certo? E tem o efeito do estilo de comunicação naquele tempo; uma banda começava em Los Angeles ou em Nova Iorque, aí ela ia caminhando em direção ao outro lado do país, de forma gradual, dando tempo para que músicos e fãs ganhassem maturidade. Hoje é em dia é instantâneo, logo, boas idéias acabam morrendo rápido demais”.

Radicais e inovadoras para sua Era, as cinco integrantes de The Runaways – Joan Jett, Cherie Currie, Lita Ford, Jaquie Fox e Sandy West – provaram que a mulherada sabia fazer rock, coisa que o filme retrata com exatidão, seja com Joan peitando seu professor de violão, que insistia em lhe ensinar a tocar músicas “para mulher” ou pelos surtos raivosos de Cherie, contratada pela aparência e que precisou aprender a cantar no calor da batalha. A diretora italiana Floria Sigismundi tem bom ritmo, experiente com comerciais, e, por razões óbvias, bastante ligada às necessidades e reações femininas que norteavam as integrantes; garotas ansiando pela vida adulta, experimentando sensações físicas, sexuais e psicológicas.

A música das The Runaways atravessou fronteiras, especialmente quando chegou ao Japão e as transformou em estrelas instantâneas, mas a maior barreira que encontrou foi o inevitável conflito de egos, carência por atenção e inveja. É o lado negro do rock, especialmente depois de muito sexo, drogas e música – considerados parte do pacote, especialmente naquela época -, uma situação já caótica e sem volta para músicos experientes, e intransponível para um grupo que foi além do esperado.

Inspirado na biografia de Cherie Currie, The Runaways não exime a vocalista de culpa. Ela afundou o navio, mas havia salvação. Musicalmente falando. Enquanto Cherie se afundava numa egotrip absurda, mesmo depois de deixar a banda e se achar a dona do mundo, era Joan Jett quem decolava. Em sua “armadura de batalha”, como Kristen Stewart definiu a vestimenta da roqueira, ela usou a plataforma criada pela banda para dar o verdadeiro salto em termos musicais ao emplacar clássicos eternos como I Love Rock’n Roll e Bad Reputation, com sua própria banda: Joan Jett and the Blackhearts.

Essa é a história que todo mundo conhece, por seu sucesso e valor histórico. Essa é a banda que embalou gerações. Joan Jett é a Runaway que merecia um filme. Kristen Stewart faz seu trabalho de forma sólida e bem construída, devolvendo a sensação de ter uma carreira produtiva pela frente, mesmo depois de tanto tempo irritando com Crepúsculo. Dakota encara seu primeiro papel como mulher. Nada mais da garotinha gritona que aprendemos a odiar e convence, mas numa história autodestrutiva. Afinal, Cherie/Dakota é a Runaway que fugiu, que se afundou, que foi esquecida. E sem uma grande reviravolta para mostrar seu talento.

Hoje, décadas depois, fica mais claro do que nunca: Joan Jett enfrentou o mundo e ganhou a briga. E salva o filme, que passou perto de ser totalmente desnecessário.

I Love Rock’n Roll!

[ad#runaways-01]

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

    Saiba mais sobre mim:
  • facebook
  • googleplus
  • linkedin
  • twitter
  • youtube

17 thoughts on “[Análise] The Runaways

  1. nao acho que o erro foi o foco na cherrie… mas sim o fato da Stewart ser uma porta (juro que eu tava animado com a possivel BOA atuaçao dela).

    runaways tinha sim a cherrybomb como PONTO focal… a historia da jett ocorreu depois…. mesmo ela sendo a “chefa” da bagaça.

    mas o interessante é que o filme nao “escondeu” o fato da banda ter sido criada pelo proprio produtor.. algo montado… fake…
    mas que nao tem nada de fake no som.. =)

  2. acho q tanto a Dakota quanto a Kristen atuaram super bem no filme…
    e as pessoas q julgam por prazer simplesmente ñ apreciam o trabalho dos atores, mas a modinha q a mídia impõe… logo, ninguém está preocupado com o trabalho realizado, mas com os fãns de crepúsculo assistindo…

    enfim, gostei do filme, afinal o q importa é q ele foi coerente com a história das the runaways…

  3. Legal demais, Fabio.

    Apesar da Crepusculose aguda, to ansioso por ver Stewart e ainda mais para ver a dakota fanning 😉

    (alguns comentários q encontro por aqui em certos filmes são inacreditáveis. hahha)

  4. Acabei de assistir e também fiquei com uma sensação estranha no final, com Joan Jett sem os devidos créditos em toda a história, apesar de saber que tudo se baseou no livro da vocalista da banda e não nas memórias da guitarrista. Será que Joan quis dar uma força para Cherie?

    Para falar a verdade, aquela JJ poderia ser qualquer atriz sem expressão, não precisavam pagar Kristen Stewart para um papel tão apagado. Mas gostei mesmo da atuação de Dakota, que por ser o centro das atenções com sua personagem, levou o filme nas costas.

    Outra coisa chata foi o que fizeram com Lita Ford, transformado-a em a grande malvada da história…Ok, Ok…eu sei que filmes são assim…Mas poderiam ter aproveitado melhor a história.

    Só não reclamo mais porque as três mulheres citadas obviamente só irão ganhar $$$$ com isso assim do jeito que está: a Cherie que se perdeu, e a Joan e a Lita que sobreviveram e colocaram para sempre seus nomes na galeria do rock.

  5. Não consegui ver o filme inteiro. Achei tão chato…O trailer empolga, mas o filme decepciona! Se não tivesse a estrela do momento, este filme mal seria notado! Nível de fama deve ser o fator fundamental na hora de escalar um elenco. A banda não tem uma história tão incrível, Joan Jett é uma figura mais interessante, logo, um filme sobre sua carreira faria mais sentido. Dakota Fanning pode até ser talentosa, mas esta garota fez tanto filme que já não aguento mais olhar a cara dela. Tudo que é demais enjoa! E Kristen ficou muito bem com o visual roqueira, mas infelizmente, esta atriz não sabe interpretar. Ela feliz, triste ou com raiva é tudo a mesma coisa e sua imagem é tão constante na mídia por razões Crepusculares, que fica difícil acreditar que ela é uma roqueira dos anos 70.

  6. Realmente gera um baita inconformismo saber que Joan Jett estava no set de filmagem e deixou realizarem um filme mais focado na Cherrie “Bomb!!” Currie ao invés da própria Joan. O filme tem lá seu momentos como aquele do show no meio da sala e a apresentação no Japão. E Kristen Stewuart muito bem mesmo na pela da Joan, e o grito foi importante para Dakota sim, até para poder cantar o estilo punk das Runaways. É um filme para ver depois das duas da manhã depois de voltar de uma noitada.

    Valeu Barretão

  7. o primeiro cara que comentou, o nando, disse que não esconderam o fato de ser uma banda criada pelo produtor, mas desde o inicio, a joan tinha a ideia de uma banda formada por garotas… Amei o filme, e a atuação das duas, mas tb achei que focaram na pessoas errada… O negocio é que sempre vão dar mais valor ao vocalista, mesmo que o lider não seja ele, e outro integrante seja beem melhor, musicalmente e pessoalmente falando

  8. A banda foi fake na sua criação (Joan Jett “pariu” a idéia, o produtor aprovou, e os dois escolheram as integrantes que quiseram), mas as Runaways jamais foram fake no talento ou no som que faziam. A banda era promissora mas durou pouco porque foram mal-tratadas e exploradas, e a primeira a se rebelar com a situação e deixar o barco foi a Jackie Fox. Foi a saída da Jackie Fox que precipitou também a saída da Cherie e o fim do grupo.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *