[Análise] Lanterna Verde

Lanterna Verde não é ruim, é simplesmente sem graça e não honra as boas adaptações de quadrinhos. Quando o comercial fala mais alto que a criação, dá nisso e a Warner Bros. precisa notar quem nem tudo que sai das HQs é Batman!

SPOILER ALERT!!!

Desde a ascensão das grandes adaptações de quadrinhos há perigo no ar, afinal, como manter a qualidade dos filmes sem perder a guerra para pura exploração comercial? Convenhamos, até Homem-Aranha fazer sucesso, ninguém acreditava nesse tipo de longa-metragem, as poucas tentativas eram frustradas e os estúdios faziam cara feia pela simples menção a uma adaptação. Quando o sucesso das bilheterias veio e a tecnologia permitiu as maluquices imaginadas pelos desenhistas da HQs, o cenário mudou e a coisa toda virou febre, mas com alertas claros contra filmes puramente comerciais. O Quarteto Fantástico era a maior delas até agora, pois é, era. Lanterna Verde entrou na briga pelo fundo do poço dos investimentos milionários por um simples fator: é descartável e ineficaz.

Muito se falou sobre o primeiro filme do Lanterna Verde aqui em Los Angeles. Também pudera, com a tremenda carga de efeitos especiais, praticamente todas as empresas do ramo foram envolvidas no processo em algum momento. Isso representa mais dinheiro girando, mais empregos sendo gerados e a curiosa perspectiva da pulverização do trabalho, que descentraliza um pouco o atual formato de uma (ou duas, em alguns casos) empresas monopolizando a produção e o dinheiro. Perante essa realidade, o maior trabalho do diretor Martin Campbell (A Máscara do Zorro, Goldeneye e Limite Vertical) foi coordenar esse monstro fragmentado e transformá-lo num filme interessante. E esse foi o maior problema, pois, com pelo menos três locações “alienígenas” – ou seja, 100% criadas por computador -, diversos personagens igualmente virtuais e a sempre complicada tarefa de mesclar elementos alienígenas num ambiente terráqueo, qualquer erro colocaria a credibilidade do filme em jogo. Como ninguém, ou nenhuma companhia, é perfeito, deu no que deu. É impossível levar a história a sério, quase nada funciona e a maioria dos jogos de sucesso da atualidade tem roteiro muito mais interessante que Lanterna Verde.

As piadas de Lanterna Verde funcionam, fato. Algumas, pelo menos. E todas de forma isolada, sem grande ligação com a história em si. É como se vários vídeos feito para fãs do YouTube tivessem sido inseridos na trama só para garantir algumas risadas. Pela devoção que descobri existir em torno de Hal Jordan, duvido que o personagem seja tão patético e limitado quanto a versão de Ryan Reynolds. Basicamente, o roteiro de Lanterna Verde – escrito por QUATRO pessoas, o que já é um péssimo sinal – aborda o medo e seus efeitos, entretanto, há pelo menos três personagens com traumas envolvendo seus pais e, todos – sem exceção – têm uma fixação para provar suas habilidades e capacidades; e esconder suas limitações, seja atrás de uma mesa corporativa ou no alto do Conselho dos Guardiões (também conhecido como aliens cabeçudos, imortais e “super sábios” que, ao menos no filme, não fazem a menor diferença).

E essa mensagem é trabalhada à exaustão, sem grandes descobertas além do desfecho óbvio: quando compreendermos nossas fraquezas, descobrimos nossa força. A mensagem é válida, claro, mas fazer um filme inteiro só por isso? Nada é resolvido claramente, a evolução de personagens acontece com passes de mágica e nunca há perigo efetivo, afinal, ninguém duvida da volta por cima do herói (que não convence nem a si mesmo de ter “pedido demissão” da Tropa). Fato, é, Lanterna Verde é o novo filme da garotada, um forte concorrente aos Clone Troopers de Star Wars: Clone Wars, um dos campeões de venda em lojas de brinquedos. Houve um troca-troca de tons nas campanhas publicitárias de X-Men: First Class, que tentava agregar algo adolescente e moderninho a um filme sério e relevante, e Lanterna Verde, que é praticamente um vídeo clipe gigante, sem grandes perigos ou ameaças, justamente por não permitir envolvimento com seus personagens perenes demais. Ryan Reynolds está lá para ser engraçado e atrair as mulheres, Blake Lively está lá parar ser bonita e atrair os homens, Peter Sarsgaard está lá… por que mesmo? E Tim Robbins precisava reformar o banheiro e fez uma grana rápida, assim como Angela Basset. Muitos estilos e razões diferentes para o elenco de um filme visualmente parecido com O Incrível Hulk (isso sem falar do vilão similar, que é infectado por uma energia estranha e ganha um cérebro gigantesco), cenas e circunstâncias porcamente copiadas de O Último Guerreiro das Estrelas, Top Gun e Águia de Aço (ou seja, nível de clichês elevadíssimo), CGI incômodo e 3D desnecessário.

Entretanto, não se trata de algo vergonhoso. É apenas algo que poderia ter sido muito mais interessante e efetivo. A sensação é de bem, bem, tipo assim… né? O filme passa muito tempo pedindo desesperadamente para “gostarem dele”, especialmente quando Ryan Reynolds pira com sua fantasia e as habilidades de seu anel, que se esqueceu de dar razões para fazermos isso. Sinestro (um dos quatro personagens principais, e cabeçudos, da trama) coloca Mark Strong na posição de herói ao mesmo tempo em que age com arrogância e imparcialidade. Como se importar com a ameaça à Tropa dos Lanternas Verdes se seus integrantes são mostrados com tanta insensibilidade e superficialidade? “Somos heróis interplanetários, mas não vamos mostrar as razões. Apenas acredite e se importe com a gente, ok?”

É nesse ponto que o trabalho de Christopher Nolan e a recente surpresa de Matthew Vaughn se diferenciam, ao olhar o efeito proposto por personagens de quadrinhos como elemento social e, em certos casos, transformador. A ação pode, e deve, existir, mas seu funcionamento é resultado de um desenvolvimento lógico e crescente tanto de personagem quanto da história. Muitas das decisões em Lanterna Verde são gratuitas e inconsequentes, servindo apenas para exibir um show de efeitos visuais digno de intervalo do SuperBowl, mas, nem de longe, usado de maneira apropriada por esse caça-níqueis da Warner Bros (acumulando pisadas na bola consecutivas com o roteiro e o 3D de Fúria de Titãs e o 3D de Harry Potter 7 contra a vontade do diretor), que concorre ao prêmio de companhia mais chata do ano pela quantidade insana de pôsteres e peças publicitárias utilizadas para maximizar a expectativa por um filme como esses. Funcionou com Batman, claro, pois ali havia um longa-metragem fantástico como resultado final. Nesse caso, os fins não justificam os meios. Foram US$ 300 milhões de investimento para um resultado fraco, pensando no personagem e em seus fãs, valeria a pena deixar Hal Jordan na gaveta por mais alguns anos, até o custo baixar a e tecnologia melhorar. É elemento alienígena demais num filme só. E se isso é a ideia de bom roteiro para a Warner, ficar expondo a marca ao ridículo é bobeira.

O filme só estreia em agosto no Brasil e deve passar pelos cinemas, se bem que um lançamento direto para DVD não seria má ideia, então, se quiser ver na telona, corra… vai ficar pouco tempo em cartaz! E pode apostar quando você ouvir notícias de “Continuação de Lanterna Verde”, vai ser um reboot… logo de cara, bem, se ainda houver bom senso naquele estúdio.

Essa matéria em vídeo do “jornal humorístico” The Onion resume bem a coisa, só em inglês, infelizmente.


‘Green Lantern’ To Fulfill America’s Wish To See Lantern-Based Characters On Big Screen

E se ainda tiver vontade, veja o trailer:

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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9 thoughts on “[Análise] Lanterna Verde

  1. É… tá complicado. Primeiro pelo atraso para a estréia no Brasil, uma filme desse porte PRECISA ser visto no cinema, mas infelizmente nem todos concordam. Agora saem as críticas desfavoráveis… minha esperança é que, enquanto fã dos quadrinhos, eu consiga exergar algo, ter uma sensibilidade diferente, e me divirta com o filme.

  2. No dia em que foi anunciado que o filme sairia aqui lá por Agosto, pelo simples fato de haver mais filmes em 3D disponíveis do que salas para exibí-los, ignorando completamente o desejo de quem quer assistir ao filme no bom e velho 2D, me propus a baixá-lo assim que vazasse com uma boa qualidade. É a minha vingança pessoal contra a Warner que, ignora o seu consumidor final visando sempre uma arrecadação maior e caminha frenéticamente, quase corre, na direção dos que acreditam que não muito distante o cinema de terceira dimensão substituirá sua versão “ultrapassada”.
    Vi TODA a franquia HP em pré-estréia, e faço questão de fazer o mesmo com a segunda parte do sétimo filme, mas o farei numa sessão de 2D.
    Será que ainda não ficou claro que a conversão para 3D só deu certo, até agora, com animações 3D (como foi o caso de Toy Story 1 e 2)?
    A minha única aposta numa conversão fora deste padrão está em O Rei Leão… Vou ver em 3D pra experimentar a sensação.

    Agora quanto a Lanterna Verde, acho muito difícil – para não dizer impossível – que o filme consiga superar as animações feitas para home vídeo pela DC. Aquilo sim são adaptações para fãs de quadrinhos ou não. Recomendo as duas que contém o personagem fortemente!

    Ah! E parabéns pelo texto, Barretão. A parte do banheiro do Tim Robbins e do universo marketeiro da Warner serão replicadas em vários outros sites, com devidas alterações, pode apostar.

    o/

  3. Eu assisti ele hoje aqui na NZ… Concordo em genero e grau com a analise. Eu tinha muita esperança deles fazerem algo que presta depois da reaçao inicial aos material divulgado mas essa esperança nao se cumpriu. Eu porém torço muito pro publico geral nao ser exigente e o filme render grana, pra Warner ver as criticas e tentar concertar no proximo. Eu sou muito fã do Lanterna, e gostaria de mais filmes.

    Eu nao curti o Ryan desde que ele foi escolhido, e no fim acho que tinha razao.

  4. Barretão buzzkiller! Yauza!

    Acho que ainda verei no cinema por que sou um apreciador de quadrinhos. Quero só registrar que X-men First Class calou a boca de muita gente, focando muito mais no roteiro do que na ação. Espero que a Warner no futuro invista mais no exemplo de Batman do que no exemplo do lanterna!

    Abraços efusivos!

    1. Sinto que hoje em dia, todos os filmes de super-heróis tentam ser ou Batman ou Homem de Ferro (eu diria também que há os que tentam ser o falecido Homem-Aranha, mas esses são minoria) e não sei se isso é uma grande vantagem para o espectador.
      Nem toda história é nebulosa como o universo do Morcegomem ou engraçadalha + cheia de rockpower quando do homem de lata.

      Há que se lembrar que, a favor de First Class havia o dedo de Bryan Singer na produção e a direção do sensacional Matthew Vaughn, que realizou o impensável Kick-Ass e o belíssimo Stardust. Além, claro de não ser a vanguarda da franquia X-Men no cinema.

  5. Mais uma bola fora da DC…pena!
    sinal que quantidade ($) e qualidade nem sempre andam juntas…
    falando nisso…tô assistindo no youyube uma serie brasileira chamada “3%” muito boa.

  6. Só gostaria de defender um ponto muito martelado por todo mundo: Ryan Reynolds. Não acho que a culpa seja do ator pela forma que Hal Jordan é apresentado (pelo menos não na maior parte). O problema é como os executivos definem suas escolhas. Com certeza Nolan não escolheu o Ledger para Coringa depois de assistir Os Irmãos Grimm, mas ao vê-lo em Candy ou Brokeback Mountain, pois ali viamos o potencial dramático dele. Da mesma forma esperava-se que a escolha de Reynolds fosse pelo fato do ator saber mesclar tanto o lado comico (O Dono da Festa) quanto o dramatico (Enterredo Vivo, Amityville, Numero 9), mas infelizmente o conceito de produtor warniano divulgado por Kevin Smith no seu video sobre Superman ainda é um fato recorrente e sairá deste escopo apenas diretores que saibam impor-se e saber valer suas idéias, como Nolan fez (apesar do que Superman Returns tinha carta branca para Singer e o resultado é usado até hoje como justificativa para que os produtores apertem a coleira). Valeu Barreto.
    Obs. Pena que o Podcast perdeu a periodicidade, mas estarei sempre na espera de uma nova edição. Vale a pena.

  7. Quando os grandes de hollywood irão aprender que os filmes que vingam, em sua grande maioria, são aqueles investidos em cima dos personagens e da história, e não dos efeitos. Isso dá raiva. Sou fã do Lanterna e claro que irei vê-lo, mas revolta o tipo de tratamento que a indústria dá a esse tipo de personagem. Não era nem pra ter ido às telonas. Não combina!

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