Depp e Burton reinventam Lewis Carroll

Tim Burton seguiu o Coelho Branco e encontrou Johnny Depp esperando do outro lado! É Alice no País das Maravilhas chamando a atenção de pessoas do mundo inteiro.

Fábio M. Barreto,
de Los Angeles e San Diego

Quando Alice decidiu seguir o Coelho Branco buraco abaixo, em 1865, a literatura mundial ganhou um de seus maiores clássicos. Dois séculos mais tarde, Tim Burton, uma das mentes mais perturbadas e alucinadas de Hollywood embarca na mesma jornada para recriar Alice no País das Maravilhas. Apostando pesado na mistura de tecnologias de filmagem – 3D, Imax, animação e película – Burton conta com seu mais proeminente aliado: Johnny Depp. Ele é o Chapeleiro Maluco, o homem das charadas sem resposta, o maior de todos os excêntricos, um personagem escrito sob medida para o estilo extremo e brilhante de Depp. Alice no País das Maravilhas estréia na próxima sexta-feira, mas Sci-Fi News/SOS Hollywood* conversou com a dupla e leva você para a primeira visita à toca do coelho. Prepare seu chá e torrões de açúcar!

Alice no País das Maravilhas marca mais uma dobradinha entre Tim Burton e Johnny Depp [Edward Mãos de Tesoura, Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, A Fantástica Fábrica de Chocolates e tantos outros] e que deve continuar nos próximos anos. Burton vai dirigir Dark Shadows, cujos direitos pertencem a Depp, estrela natural para essa adaptação de uma novela gótica exibida em 1966, pela ABC. Depp será o vampiro Barnabas Collins. Mas que fruto de um estilo cinematográfico similar, essa proximidade apóia-se numa visão peculiar e alinhada do mundo a sua volta. “Quando começamos a falar sobre o Chapeleiro Maluco, fiz alguns rascunhos e mostrei ao Tim”, comentou Johnny Depp, bem-vestido com um colete listrado sobre uma camisa branca. “Ele tinha feito o mesmo. Bem, preciso dizer que os desenhos eram muito parecidos? (risos)”.

Para Depp, a relação com Burton é algo “que existe, mas não é declarado; uma conexão em termos de compreensão e linguagem própria”. Mas é no lado profissional que as boas piadas surgem: “O melhor de tudo é que ele me empregou umas sete vezes. Estou doido pela oitava e pela nona (gargalhadas). Uma vez estávamos conversando, aí um sujeito ouviu o papo todo e veio falar comigo: ‘não entendi absolutamente nada da conversa, qual era o assunto?’ Não tenho certeza se eu sabia também (risos)”.

Atualmente morando na França, Depp recebeu Sci-Fi News em Los Angeles, perto do lançamento de Inimigos Públicos [drama de época dirigido por Michael Mann; leia crítica aqui]. Oportunidade rara. Depp fala pouco com a imprensa. Simpatia e bom-humor marcaram o encontro, que também foi pontuado pelo comportamento agressivo e exibido de parte dos jornalistas presentes. Tudo terminou com uma batalha por fotos ao lado do ator; alguns chegando a agarrar Depp. Constrangedor. É o poder da celebridade mesmo entre quem convive com astros. Só Depp faz isso ultimamente.

E isso é marcante na vida pessoal do ator. “Gostaria tanto de poder andar incógnito pela Disneylândia com meus filhos; não posso dar essa experiência a eles, pois sabem que quando papai resolve passear em público – especialmente num lugar como a Disney – as coisas ficam esquisitas e fora de controle muito rápido (gargalhadas); gostaria que eles pudessem viver essas coisas comigo”, comenta Depp, indicado ao Oscar por Jack Sparrow, da cinessérie Piratas do Caribe.

Porém, todas as atenções se voltam para um personagem intrigante e de visual único: Chapeleiro Maluco. Johnny Depp assumiu a tarefa de recriar um clássico. Fez isso recentemente com Sweeney Todd, ao lado de Tim Burton, mas o barbeiro parece um sujeito normal, se comparado ao novo Chapeleiro. Pele branca, maquiagem pesada, chapéu digno do Visconde de Sabugosa, comportamento errático e um papel aparentemente maior do que versão literária marcam o personagem.

Mais que o roteiro, o conteúdo original de Lewis Carroll serviu como guia para Depp. E material não falta. “Muita gente estudou Alice à exaustão, eu gosto dos pequenos mistérios, de algumas pistas que o livro dá; isso me fascina, então foi esse rumo que tomei para entender o Chapeleiro Maluco”, comenta. “O que mais me intrigou é o fato dele investigar ‘coisas que começam com a letra M’. Pirei com isso e depois de alguma pesquisa sobre chapeleiros históricos, notei coisas em comum entre eles e, claro, encontrei a frase ‘as mad as a hatter’[tão louco quanto um chapeleiro, expressão anterior a Carroll]. Descobri que uma das razões para isso era envenenamento por mercúrio [presente na cola utilizada na confecção dos chapéus]. Imagine a minha cara quando descobri a razão desse M; é por isso que eles ficavam pineis (risos)”.

Além da composição psicológica e psicotrópica do Chapeleiro, Depp também visualizou sua próxima criação esquisita. Foi dele a idéia de inserir muitas cores e brilho, para depois tirar a saturação. “Johnny busca bases sólidas para tudo que faz; procura coisas que te façam sentir e vai além do sujeito simplesmente doido”, explica Tim Burton a esse correspondente em meio ao caos da Comic-Con, em San Diego. “A maioria das versões mostra o Chapeleiro como um sujeito de uma nota só, invariavelmente maluco; Johnny fugiu disso. Há um lado humano mais forte nessa versão; aliás, é isso que ele sempre faz com seus personagens, vejo muito mais seu estilo nisso do que no visual.”

Nem seqüência imediata, nem adaptação direta; nem conto de fadas, nem história de terror. Alice no País das Maravilhas é um pouco de tudo para Tim Burton: “nunca vi um filme que realmente gostasse, então resolvi fazer minha versão; faltava ligação emocional com as outras versões. Alice é uma história contínua, não uma simples série de eventos, ou seja, ela não é apenas uma garotinha que fica pulando de cenário maluco para cenário maluco. Há um propósito ali”. Assim como é inevitável não buscar propósito no visual constante da persona de Burton. Usando óculos escuros, com blazer preto, cabelo bagunçado e barba por fazer, parece que minutos separam um encontro recente com o diretor com uma conversa no ano antes. O tempo funciona de forma diferente naquela cabeça criativa… ou seria louca?

Curioso, porém, notar a semelhança do argumento de Burton com o da minissérie Alice, recentemente exibida pelo SyFy Channel: anos depois, Alice precisa retornar ao País das Maravilhas, lugar comandado pela tirania da Rainha de Copas. Muitas cabeças foram cortadas ali e a insanidade reina absoluta.

Loucura parece ser um elemento constante nessa obra, mas em meio ao caos existe certa ordem. Ou razão. Seja ela a manipulação visual obtida com filmagens em 3D, IMax e animação computadorizada, seja ela transferência emocional que cada espectador pode projetar na história. “Cada indivíduo é esquisito nessa história, mas essa esquisitice é relacionável, afinal, todo mundo passa por algo parecido na vida; até que colocamos a cabeça no lugar (risos)”, brinca Burton, que leu Alice no País das Maravilhas quanto tinha cerca de 10 anos de idade.

Embora a história de Alice seja repleta de camadas, subleituras e trocadilhos, há limites até mesmo para Tim Burton. Um deles é o relacionamento entre o Chapeleiro Maluco e Alice. “Não há nada de sexual ali, ela é uma garotinha!”, em versões anteriores um romance ficou implícito entre os personagens o que, por conseqüência, sugeriria algo além no relacionamento entre Lewis Carroll e Alice Liddell [e suas irmãs], para quem ele inventou a história verbalmente e, mais tarde, escreveria o livro.

Burton tem bastante certeza do que precisa visualmente, ou pelo menos aparenta. Diferente de Robert Zemeckis e sua constante busca pela perfeição virtual, ele filmou tudo misturando 3D e filme tradicional, mas evitou a captura de imagem. “Não gosto dessa ferramenta. Preferi mergulhar na animação pura e complementar com live action; essa mistura faz de Alice no País nas Maravilhas algo novo”, explica Burton. “Essa mistura faz de Alice algo novo, mas como ainda não terminei de descobrir tudo que vai fazer parte dessa novidade (risos), não sei ao certo onde vamos parar; enfim, não gosto da idéia de encher um ator com pontinhos verdes, mas isso não significa que captura seja algo inútil. Cada mídia tem sua utilidade dependendo do objetivo do projeto. Não funciona pra mim”.

Essa é uma das maiores expectativas em torno da obra, afinal, como integrar personagens virtuais como o Coelho Branco, pessoas “normais” como Alice e o Chapeleiro Maluco, e elementos mesclados como a Rainha de Copas e suas cartas. “Helena [Bonhan Carter, esposa do diretor] tem um cabeção, então caiu como uma luva”, brinca Burton. Helena faz as vezes da Rainha Louca. E tem mesmo um cabeção! A personagem, não a atriz. O próprio roteiro faz jus ao conceito de misturar elementos, pois vai assimilar trechos, personagens e acontecimentos de todo o universo que compõe Alice. “Não posso falar que vou utilizar tudo do Jabberwock, por exemplo; é importante salientar que nada acontecerá de forma linear ou exatamente como descrita no livro”, alerta.

Ainda é cedo para especular se o resultado será tão fantástico como imaginado ou descrito por Depp e Burton. As prévias parecem promissoras, mas de uma coisa podemos ter certeza: Alice no País das Maravilhas será uma mistura completa e ensandecida entre contos de fadas e histórias de terror: “é isso que faz desse gênero algo tão atemporal, não é? Misturar fantasia e medo”, define Burton.

Em 5 de março é melhor não se atrasar para um compromisso muito importante!

*Matéria originalmente publicada na revista Sci-Fi News, ed. 138, 2009.

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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13 thoughts on “Depp e Burton reinventam Lewis Carroll

  1. Ameii!!!
    Acho que cheguei a escrever da outra vez que vc esteve perto do Depp, o quanto eu te invejava né! Sou fã desse cara!
    É gostoso ver nossos ídolos com essas “piadinhas”, não sei se dá pra ser uma entrevista descontraída com tantos outros jornalistas por perto, mas vc sempre consegue colocar pra gente de uma maneira deliciosa suas entrevistas.
    Parabéns mais uma vez Barreto 😉

  2. Maravilhoso realmente…
    Muita ansiedade para a estréia do filme, não só para ver Depp em tela, que sempre se sai muito bem nos filmes de Burton(o mais inferior sendo a Fantástica Fábrica)mais também por ver um clássico como Alice pelos olhos de um diretor tão fantástico e que deixa tudo especial e bizarro.

  3. Tomei um susto, pensei “AAAAH o Fábio o encontrou de novo” e quase morri, hahahaha!! Talvez vamos fazer uma camiseta do chapeleiro (quase ctz q sim) aí depois te conto 🙂

    beijos

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  9. Eu sabia que havia algo mais além no relacionamento do chapeleiro e alice, notei quando assisti ao filme, eles tinham algo a mais que uma simples amizade.principalmente no final quando ela diz: Há o homem certo pra mim

  10. Esperava tanto desse filme! Li os livros e amei, mas a história foi completamente manipulada. Não esperava nada igual ao livro (afinal, uma adaptação é uma adaptação), mas a essência da história foi completamente perdida, os personagens avulsos e humanizados, sem nada concreto por baixo. Ouvi quem saía do cinema dizer “eu esperava muito mais” ou “o desenho da Disney era muito melhor”. Amo o trabalho do Tim Burton e do Johnny Depp, mas a obra de Lewis Carroll foi completamente estragada.

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