A Princesa e o Sapo

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Visitei os estúdios em Burbank com exclusividade; o resultado você lê a seguir: é uma das histórias mais lindas já desenhadas.

Era uma vez, há 20 anos… uma princesa, seu nome era Ariel e seus cabelos vermelhos e corpo de sereia entraram rapidamente para o rol das Princesas Disney. Duas décadas mais tarde, a mesma equipe retorna à Walt Disney Animation e reencontra o caminho dos contos de fadas clássico e constrói sua nova integrante da realeza: Tiana, a primeira princesa negra do estúdio. Mais que isso, é o retorno à animação tradicional, inspirada diretamente no estilo de Walt e, agora, mais que nunca, incorporado por John Lasseter. Impossível não se apaixonar por tanto primor, ótima presença musical e toda a influência da música de Nova Orleans.

Assisti os primeiros 30 minutos apresentados pelo diretor John Musker e fiquei de queixo caído. Semanas depois, assisti ao filme, ao lado de minha esposa e filha, e foi um arraso. A dobradinha John Musker/Ron Clements foi responsável por A Pequena Sereia e Aladdin, dois dos maiores clássicos da Disney, mas deixaram a companhia durante o nefasto período de decadência. “Voltamos por causa de John [Lasseter]”, comenta Musker, sempre descontraído e sincero. “Naquele momento, a Pixar pensava mais como Disney do que a própria Disney. A empresa havia deixado de liderar e se limitava a seguir tendências, seja no estilo de histórias, seja no modo de produção”, critica. “A porta estava fechada para nosso estilo naquele momento. John recuperou tudo isso.”

Retornaram para retomar os contos de fadas e também revitalizar o panteão das princesas. Tiana surge como a primeira princesa de classe operária, um conto totalmente norte-americano e, mesmo que de modo distante, socialmente engajado. “A Princesa e o Sapo é essencialmente um conto de fadas norte-americano, mas analisado por uma perspectiva diferente e, de certa forma, adaptando esses conceitos para os tempos modernos; basicamente, colocando o pé no chão, sem deixar de sonhar”, analisa Clements. Ela flerta com os temas de Cinderela, mas, mesmo depois de conhecer seu eventual príncipe, mantém seu objetivo fixado em sua carreira. De certo modo, ela representa a independência e garra feminina. Musker complementa: “nenhuma princesa anterior teve um pai como o de Tiana, ele incentiva sua filha a sonhar, mas deixa clara a necessidade da ação para realizar esses sonhos, não existe o príncipe encantado chegando num cavalo branco na vida dela, especialmente se ela ficar em casa sem fazer nada”.

Tiana é deslumbrante. Tem charme e simpatia em suas vestimentas habituais – avental de garçonete, para ser específico – e deixa o público de boca aberta quando se aventura com uma fantasia de princesa. Porém, o melhor figurino fica para o final. Um vestido de noiva mantido em sigilo total. Mas o simples fato da personagem ser negra causou rebuliço, especialmente na internet, pois os críticos exagerados e internautas questionaram a cor da pele de Tiana. “Debatemos muito a questão da tonalidade de cor dos personagens afro-americanos. Tiana sempre foi desenhada com a mesma coloração, mas algumas pessoas confundiram a cor original com variações provocadas por materiais impressos”, justifica Clements. Acompanhei o processo de produção nos últimos dois anos e nunca notei tal modificação. “Na verdade, o personagem de cor mais clara nesse filme é Dr. Facilier [o golpista vodu da história], que é mais facilmente identificado como mulato do que negro. Tomamos muito cuidado para não estereotipar Tiana. O mesmo vale para seus traços, totalmente desenhados com base no biotipo afro-americano, nada de aproximação com caucasianos ou elementos externos.”

O aval de Anika Noni Rose, de DreamGirls, responsável pela voz da personagem foi total. “Anika adorou, mas exigiu duas coisas: que Tiana tivesse bumbum saliente (risos), e fosse canhota, assim como a atriz”, brinca Musker, impressionado com a performance ao vivo de Anika durante a Expo D23, realizada em Anaheim, em setembro. Comentei esse espetáculo musical na cobertura do evento, quando a moça cantou mesmo sofrendo com um forte resfriado. “Sua experiência teatral foi fundamental ali; ela consegue projetar sua voz em grandes espaços, e, no caso do filme, acertou o tom com rapidez nas gravações”.

A princesa Tiana é multidimensional, enquanto sua melhor amiga, a mimada Charlotte, uma espécie de “Princezilla” [Princesa + Godzilla], pois levou a idéia de conto de fadas um pouco a sério demais. Seu pai é um magnata dublado por John Goodman, perfeito para o papel por seu físico, aspecto cultural e de experiência também. Morador de Nova Orleans, Goodman compreende perfeitamente as demandas de seu objeto e interpretou esse papel no teatro, em adaptações de Tennesee Williams.

ORIGENS
A Princesa e o Sapo é um conto de fadas com a reviravolta inesperada. Confrontada por um sapo que se diz príncipe – enganado por um traiçoeiro feiticeiro vodu, Dr. Facilier –, a heroína segue as regras do livro e beija a criatura. Ou quase, pois, como ela não é princesa de verdade, logo, beijar o batráquio não o liberta do encanto e, ainda por cima, transforma a mocinha numa esguia sapinha. A partir daí, sai pulando em busca de algo para quebrar o feitiço.

Vão parar nos pântanos da Louisiana, encontram um crocodilo trompetista apaixonado por jazz e frustrado por não poder tocar com os grandes mestres da música. As Jam sessions do príncipe Naveen com o jacaré embalam as viagens pelo brejo, onde eles precisam encontrar Mama Odi, uma famosa feiticeira. É num desses momentos que o trio conhece Ray, um vaga-lume caipira metido a engraçadinho e sua família luminosa. A seqüência é estonteante e emocionante. Milhares de luzes invadem a tela e, como uma estrada de tijolos amarela, mas cheia de vida e movimento, guiam os personagens.

“Disney e Pixar estavam trabalhando em adaptações dessa história simultaneamente, a primeira mais infantilizada, já a outra mais moderna, acontecendo em Chicago. Ambos empacaram. John [Lasseter] nos chamou e pediu idéias. Seguimos uma terceira opção, misturando elementos dessas tentativas e mostramos um conceito em 2006, era praticamente um musical”, comenta Clements. “Lasseter é o ‘Pai’ da animação computadorizada na Pixar, mas é apaixonado por desenhos tradicionais, e ficou muito feliz quando sugerimos em 2D”, lembra Musker.

Além do estilo dos diretores, a responsabilidade de se criar uma nova princesa influenciou a escola de linguagem. “Animação tradicional soava melhor para criarmos uma nova princesa. Dá charme e elegância. E Tiana ter os mesmos atributos técnicos, qualitativos e identidade que Branca de Neve, Bela Adormecida, Ariel e as demais personagens clássicas. Utilizar o desenho 2D – seguindo exatamente os ensinamentos de Walt Disney – parecia o mais certo para ela, afinal, agora Tiana faz parte dessa família para sempre. Não parecia certo fazer, ao mesmo tempo, a primeira princesa negra e também a primeira princesa 3D”, contextualiza Clements. “Tiana é um modelo anti-conto de fadas, aliás. Há dois tipos: aquelas nascidas na realeza – Branca de Neve, Ariel e Bela Adormecida; e outras que se tornam princesas – Bela e Cinderela. Todas têm um sonho, mas o sonho de Tiana é continuar trabalhando, em sem próprio restaurante, claro. Ela não acredita no conceito de fada madrinha”.

Em A Princesa e o Sapo, reina a realidade do povo trabalhador e a verdadeira mágica está no balanço e aprendizado tanto de Naveen quanto de Tiana, dois extremos – trabalho e boêmia – aproximados pelo acaso e cujo destino está num encontro inevitável num meio termo profissional e pessoal, lugar mágico onde as grandes paixões terminam e o amor começa. Filme estréia hoje no Brasil.

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Por Fábio M. Barreto
De Los Angeles

*Texto originalmente publicado na Sci-Fi News, 141.

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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12 thoughts on “A Princesa e o Sapo

  1. Realmente, a volta do 2D merece ser muito comemorada. Acho que os personagens ficam infinitamente mais carismáticos assim. E sendo uma história de princesa, no mais clássico estilo Disney, é imperdível.

  2. Sou mais um que gostou quando descobriu que a Disney iria lançar novamente um longa em 2D, seu forte há tempos. Sou fã de todo tipo de animação, seja ela manual, computadorizada, para crianças ou adultos. Mas dessa vez, temo ter que discordar do nosso querido Barretão.

    Assisti hoje “A Princesa e o Sapo” e… nhé! Filmezinho bem mediano, piegas demais e com um excesso absurdo de cançõezinhas na primeira metade do filme. Tudo bem que os desenhos clássicos da Disney têm muitos trechos musicais, mas aqui nesse filme, pelo menos na primeira parte, não dá pra ficar 5 minutos sem algum personagem puxar uma música… meio que encheu o saco.

    Quanto aos personagens, somente um me cativou: o vagalume doidão Ray! A paixão dele pela Evangeline é muito bonita e divertida e a cena do encontro dos dois é bastante emocionante. Os outros personagens não me conquistaram tanto; a princesa é OK, nada demais, nada de menos; o príncipe ficou boa vida demais, NADA aborrece o cara (e ainda teve uma dublagem bem fraca) e o crocodilo é o personagem bobão padrão, mas dessa vez ficou meio apagado pra mim.

    A história diferente (o fato da mulher virar sapo, ao invés do contrário) é um ótimo argumento que até foi aproveitado de forma boa, mas quando o final feliz padrão começou a aparecer, meu descaso com o filme voltou mais forte.

    Enfim, as crianças devem adorar, pelas músicas e bichos falantes. Não é um filme ruim, mas não tem nada demais. Pra mim é uma daquelas animações para passar na Sessão da Tarde no Dia das Crianças. E só!

    1. Oi Marcos!
      Gostei da sua opinião e faz sentido sim. Acabei gostando um pouco mais pela imersão que fiz nisso tudo e por ter adorado, assim como você, o Ray. =D Quem pensaria num vagalume doidão e apaixonado por uma estrela? =D

      Acho que é mais que filme de Sessão da Tarde, mas se passar por lá, as novas gerações agradecem. Sou mil vezes mais um filme desse, do que aquelas bobagens de High School Musical e outras tolices acéfalas. =D

      abs,
      Barreto

  3. Oi Fábio!

    Adorei o que tu escreveste! Cresci vendo as princesas da Disney e tenho toda a minha infancia marcada por Branca de Neve e afins. Acho linda a maneira como só a Disney consegue te contar uma historia de pricesas tão bonita e delicada. Estou esperando pela “Princesa e o Sapo” já tem um tempao. Lembro até que a primeira vez que vi a Tiana foi numa foto meio desfocada que tiraram de um broche preso em um vestido comemorativo de aniversario do estudio, onde haviam broches com imagens de todas as princesas e seus respectivos principes.
    Nunca tive a chance de ver um grande classico da Disney no cinema e me lembrar disso. Digo assim, pois, segundo minha mãe, vi “O Rei Leão” no cinema, mas como tenho 17 anos recem feitos e tinha uns 4 quando o filme saiu, nao me lembro. Estou bem emocionada com esta princesa pois poderei ver ela no cinema e me lembrar disso. Sei que vou me emocionar e ser mais criança que as crianças da sala, pois sou uma manteiga que chora por qualquer cena bonita em filme. Chorei horrores vendo “Encantada” e me percebendo as referencias a outros filmes da Disney que há nele. Aliás, semana passada fui ver “Planeta 51” e juro pra ti que haviam umas 100 e tantas crianças na sala, todas de algum colegio publico daqui de Porto Alegre e fazendo uma senhora algazarra. Quando deu o trailer da “Princesa e o Sapo”, juro pra ti que nem esses 100 e poucos piás barulhentos me impediram de ouvir tudo que foi dito. Foi como se elas ficassem no “mute” pros meus ouvidos e eu apenas escutasse o filme.
    Acho que filmes como esse resgatam a singelidade do que é ser criança e sonhar. No “Mundo Rod Podcast 15”, o Rod Reis e o Luiz Sutileza comentaram que, hoje em dia, as pessoas parecem querer fazer das crianças menos crianças. É como se as pessoas quisessem arrancar delas aquilo que as faz sonha no futuro. Eu vi no colegio meninas de 9 anos comentando das festas na AABB (um clube daqui de Porto Alegre), de namorados e lendo a revista (de faixa etaria adolescente pra cima) KZKA, que sai anexa a Zero Hora em caderno nas sextas e é distribuida nas escolas mensalmente. Poxa, com 9 anos, eu lia Turma da Monica e brincava de boneca!! Brinquei de boneca até meus 14 anos e quero uma de porcelana daquelas bonitas como presente de formatura (me formo no terceiro ano do médio dia 17). Imagina quando essas tiverem a minha idade! Tenho medo de imaginar como serão…
    Um imenso obrigada pelo que tu escreveste! Vou ver o filme amanhã à tarde (fugirei das sessões cedo pra evitar piazada em sala) e passo aqui pra dizer mais alguma coisa, se isso foi necessario.
    Um baita abraço pra ti e até a proxima!

    PS: espero pelo SOSCast, que eu acho muito legal mas me faltou tempo de comentar.

  4. Ah, nada como a Disney para nos fazer sonhar e sorrir!

    Amei o seu texto e tenho certeza de que ter a sua princesinha particular em casa, ajudou muito na boa vontade com o desenho.

    Foi assim comigo, sempre tive uma recepção maravilhosa de tudo o que diz respeito à faixa etária das minhas filhas. Claro que sou apaixonada pela Disney, independente das meninas gostarem ou não (e elas amam tudo que é da Disney de paixão) e fiquei imensamente feliz em vê-los retomar os contos de fadas. New Orleans é um lugar mágico (mesmo depois do Katrina) e foi uma excelente escolha pois o povo de lá é maravilhoso e merece esta homenagem.

    Parabéns por mais um texto que faz seu leitor ter vontade de assistir ao filme ^_^

    Saudades

    Beijos

  5. Os filmes 2d da Disney tem importância fundamental na minha “vida cinematográfica”, já q “A Bela e a Fera” foi o primeiro filme q vi no cinema e é um dos meus preferidos até hoje. Fiz questão de ver A Princesa e o Sapo por conta disso.
    Gostei muito e fiquei pensando em que aspecto a Disney não atualizou ou tornou realista o comportamento dos personagens, principalmente da Tiana, que, ao contrário das outras princesas, não é uma “de verdade”. Me identifiquei demais com ela, não pelas semelhanças físicas, mas pelo pensamento realista dela Ter um príncipe de comportamento bem diferente dos outros é bem interessante também.
    Torço muito para que a Disney continue com os 2D por muito tempo.

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