[Literatura Brasileira] Anônimos & Urbanos

Anos de trabalho duro e um sonho realizado. Assim pode se resumir a tragetória de Rob Gordon, publicitário, redator jornalístico, repórter, blogueiro, rei do sarcasmo e, agora, autor publicado com o lançamento de Anônimos & Urbanos. Leia a entrevista!

Texto e Foto: Fábio M. Barreto, de Los Angeles

Uma pessoa na frente de um computador. A tela branca. Um cachorro correndo pela casa. Invariavelmente uma gargalhada, ou semblante desesperado, por conta de algum episódio da vida diária de um sujeito que mescla repentes de Woody Allen, maquinações corleônicas, textos inspirados sem ter passado pela escola de jornalismo, mas, invariavelmente, mergulhado no mundo do cinema e da música, é sinônimo de inspiração para Rob Gordon. No seu blog cotidiano – Championship Vinyl – ou em seu espaço de crônicas mais complexas – Championship Chronicles – esse profissional tão dedicado a um bom texto quanto à degustação de um bom churrasco, e com quem tive a honra de trabalhar por anos na Sci-Fi News, resolveu encarar o julgamento da vida literária. Meio que misturando sonho e obstinação, Gordon publicou por conta própria e usa um sistema de impressão on demand para espalhar suas palavras por aí com o livro Anônimos & Urbanos, um apanhado interessante da carreira desse sujeito que passa o dia envolvido com o mercado de home entertainment e, quando o sarcasmo permite… ou ajuda, dependendo do assunto e do dia, cria belíssimos textos.

Aproveitei o bom desempenho do livro no Clube dos Autores (grupo responsável pela realização de diversos livros independentes) para bater um papo com Gordon que, mesmo com a mão machucada e enrolado com os intermináveis fechamentos de revistas, contou um pouco do processo de Anônimos & Urbanos, seu estilo, sua carreira e outros aspectos da literatura e das crônicas atuais.

Aproveite! E, se gostar da idéia, compre o livro!

HORÓSCOPO
– Pois não?

– É do jornal?

– Isso mesmo.

– Eu gostaria de pedir a publicação de uma errata.

– Preciso transferir o senhor para o departamento de redação que fez a notícia original. Ela saiu em qual caderno?

– É no horóscopo.

Publicar sempre foi um sonho ou os leitores do Championship Vinyl te convenceram a fazer o livro?
Um pouco dos dois. Acredito que todo mundo que escreve – ou, ao menos, quem escreve por paixão – sonha em publicar um livro. Ou seja, essa ideia sempre esteve aqui, especialmente a partir do momento em que o blog começou a andar pelas próprias pernas. Mas, de um ano, um ano e pouco para cá, os leitores começaram a me cobrar o livro, nos comentários do blog – dos dois blogs, na verdade. Isso, claro, serviu como um baita incentivo – me mostrou que não era um devaneio meu. Então, podemos dizer que sempre foi um sonho, mas que começou a ganhar forma mesmo por causa dos leitores.

Você consegue ser sarcástico com você mesmo? Começar carreira literária com experiências próprias é sempre um caminho, mas o quanto do livro é você se expondo e o quanto é observação do mundo a sua volta?
O livro é uma mistura dos dois. Tem textos que sou eu disfarçado, outros nos quais são situações que eu vivi… Algumas crônicas até mesmo mesclam isso dentro do mesmo texto. E alguns são pequenos desafios que eu me proponho e que podem ou não estar ligados a algo que sinto no momento, ou a algo que vi. E, quando eu digo desafio, é justamente isso, criar uma situação sem saber como ela vai terminar, deixando os personagens me guiarem. Isso aconteceu no Uma Segunda Chance. Eu estava andando pela rua, pensando em crônicas – eu faço isso o tempo todo – e sabe-se lá porque eu pensei “o que aconteceria se alguém entrasse num cartório tentando mudar sua data de nascimento?”. Aí eu precisei sentar num PC e escrever para ter a resposta. Mas não lembro o que eu estava pensando, ou sentindo, que me fez ter essa ideia. Mas, sim, tem alguns textos ali que sou eu, tentando canalizar – ou entender – alguma coisa que estou sentindo. Mas sempre tenho a preocupação de não deixar a coisa com cara de terapia, tem que ser um texto atraente para quem lê – e se possível, se identifique com aquilo. Senão, não é crônica, sou eu falando sozinho. E ninguém está interessado nisso. Eu não estaria.

Essa identificação do leitor é o motivo da maioria dos personagens não ter nome?
Exatamente. O fato de o leitor se identificar com o que você escreve é muito importante, ainda mais num texto emocional. Daí o livro se chamar Anônimos & Urbanos: a maioria dos protagonistas não tem nomes, apenas “ele” e “ela”. Eles podem ser eu, você, a menina que está na sua frente no metrô, o sujeito que você encontra no elevador do seu prédio todos os dias, mas não faz ideia do nome dele, ou o que ele faz para viver. Este livro narra as histórias dessas pessoas, que estão aí, nas ruas das cidades grandes, atrás de algo que muitas vezes nem eles sabem o que é. Dada as devidas proporções a respeito do talento – e que isso fique bem claro – é um misto dos anônimos de Will Eisner, em New York – A Grande Cidade e Avenida Dropsie, por exemplo; com os anônimos do Chico Buarque, de musicas como Valsinha, Olhos nos Olhos. Você não precisa saber o nome do personagem para se identificar ou se emocionar com sua história. Aliás, se os personagens não tiverem nome, eles podem ser exatamente quem o leitor quiser. Como eu disse acima, pode ser eu, você, o leitor, qualquer pessoa.

Crônica é uma coisa que por muito tempo foi vinculada ao jornal diário, àquele articulista famoso a la Mario Prata, por exemplo. Sempre algo muito autoral e, nos bons casos, natural. Dá para aprender ou é daqueles tipos de texto que ou você domina, ou tá ferrado?
É um misto de dom com aprendizado. É possível sim aprender, lendo crônicas do Mario Prata, que você citou, ou mesmo do grande mestre que temos deste tipo de texto no Brasil, o Luis Fernando Veríssimo. Dá para aprender muita coisa lendo os textos do Veríssimo, como fazer o leitor se tornar íntimo do personagem em cinco linhas, qual o melhor momento para colocar a piada (ou o grande lance dramático do texto). Ele domina a construção disso como ninguém. Mas é preciso também ter talento para contar uma história, numa linguagem que faça o leitor se sentir perto de você, quase como se vocês estivessem numa mesa de bar. É isso, crônica – seja ela triste, engraçada, humorística – é forma escrita da conversa de bar. Mas a parte mais difícil de aprender – se é que se aprende em algum lugar – é pegar um acontecimento totalmente cotidiano, que normalmente poderia ser resumido em uma frase, e transformá-lo num texto inteiro.

ESTILOS

– Eu adoro escrever diálogos, disse o Cronista.

O Romancista o olhou de cima a baixo, calmamente. Estavam bebendo há horas e ele sabia que, de forma inevitável, chegariam a este assunto. Sempre acontecia isso, e sempre discordavam. Detestava escrever diálogos, mas não sabia como continuar a conversa, dada a empolgação do outro a respeito do assunto. Mas era verdade: sempre odiara diálogos. Gostava mais de criar um clima para o leitor, explorando a descrição dos locais e a psicologia dos personagens.

– Porque é rápido, sabe? Um personagem fala, o outro responde, e o leitor fica sabendo mais sobre eles, ali, entre um travessão e outro.

Travessão. A simples menção da palavra fez o Romancista tremer. Detestava aquilo. Achava travessão algo totalmente desnecessário na língua portuguesa. Seus personagens não precisavam falar, eles o faziam por atitudes, por decisões. Sempre que se via encurralado num trecho em que não conseguiria escapar sem travessões, enchia a boca dos personagens de palavrões, somente para deixar clara sua revolta com aquilo.

Cinema ou literatura?
Precisa escolher? Olhe, se você colocar música na equação – deixando bem claro que dependendo do tipo de música – pode servir o três juntos, com Coca.

Gelo e limão? (risos, piada interna… ou não, leia mais aqui)
Não. E não pode ser “Péps” também (risos).

Já te disseram que se um dos seus textos fosse para o cinema, você seria o Woody Allen brasileiro? Nunca pensou em encarar um roteiro, em vez de ficar só do outro lado do balcão?
Nunca disseram, é a primeira vez [risos]. E, bem, tamanho de Woody Allen eu já tenho, faltam apenas os óculos, o nariz e a genialidade. Já pensei em roteiros, claro – estou sempre pensando em textos, mas não apenas em conteúdo, como em formato. Se bem que, até mesmo pela minha formação cultural, de assistir um filme atrás do outro, muitos dos meus textos têm essa linguagem de cinema, ou de teatro. Não é proposital, acho, é apenas como eu penso em termos de contar histórias– apesar de às vezes me forçar para fazer algo mais perto de literatura. Acabei de me lembrar que, anos atrás, uma menina comentou no blog dizendo que iria transformar uma crônica numa peça de teatro na escola em que ela lecionava, mas não lembro se vingou. Enfim, penso sim em roteiros, mas nunca calhou de aparecer algo. Quem sabe um dia?

O que você diria ao Clint Eastwood se o encontrasse?
“Obrigado por ter feito Os Imperdoáveis.”

O Champ é seu contato diário, seu “ganha pão” em termos de leitores, mas o livro segue outra pegada. Considera isso uma jogada de risco ou só mais um daqueles momentos de se testar e mostrar algo mais ao público? Algumas pessoas podem se “decepcionar” com o outro estilo, não?
O livro é todo baseado no outro blog, o Champ Chronicles, que é infinitamente menos conhecido que o Champ Vinyl. O ideal, claro, seria eu ter aproveitado o material do Champ Vinyl – a ideia original era reunir uns 80% do Champ, 10% do Chronicles e 10% de inéditos. Mas, conforme as pessoas começaram a pedir pelo livro – e a coceira por lançar logo – me fez mudar de ideia. O livro é todo feito em produção independente – absolutamente tudo, desde diagramação a revisão e os pedidos de desculpas pelos erros de digitação que passaram – o lançamento dependia apenas de mim. Assim, eu resolvi focar nos textos do Chronicles porque eles funcionam melhor isoladamente. Os textos do Champ são mais divertidos – e mais famosos – mas eles seguem certa ordem, especialmente no que diz respeito aos personagens da minha vida (minha Síndica, meu cachorro – o próprio blog e o seu azedume também é um personagem) e fazer estes elementos funcionarem em um livro seria um quebra-cabeças enorme. Ou seja, o Chronicles funcionaria bem melhor nesta transição para o papel. Foi uma jogada de risco? Foi, bem grande – muita gente esperava por um livro com mais humor, e o tom é totalmente outro, mais reflexivo, com algumas crônicas até mesmo melancólicas. Há humor, mas numa intensidade menor. Porém, como a maior parte dos meus leitores conhece os dois blogs, podemos dizer que foi um risco calculado.

O cinema cada vez mais foca no entretenimento como principal arma, deixando o questionamento social em segundo plano, especialmente em Hollywood. Isso, de certa forma, afeta também os livros? Digo isso, pois, por ser jornalista da área, esse tipo de influência ocorre de forma pesada. Claro que você manja horrores dos bons filmes (ele editou a Sci-Fi News Cinema, enquanto eu cuidava da Sci-Fi News e da Sci-Fi News Contos), mas as tendências de mercado precisam ser levadas em conta, certo? Especialmente quando se cria conteúdo.
O importante, sempre, é ter uma boa história para contar. Isso vale para uma crônica como para um filme. Tendo a boa história, você pode seguir o caminho que quiser – eu mesmo já inventei caminhos, por exemplo, narrando o drama que enfrentei ao assistir um filme no cinema de shopping (adolescentes, gritaria) em versos, brincando com o Inferno, de Dante. Mas fiz isso mais por brincadeira. Queria escrever sobre o assunto, mas de uma forma que não ficasse um simples relato. Agora, você tem que ter um mínimo de noção do que o seu público espera. Não adianta você ter uma história interessante para contar e resolver narrá-la com a mesma linguagem de um Machado de Assis, ou na forma de uma Cantiga de Amigo, do século 15. Ninguém vai ler – a não ser que você deixe claro que isso é uma brincadeira, e até mesmo satirize o formato original –, você apenas jogou a ideia fora. Então, é preciso sim se “render” ao formato que o leitor quer, mas isso não impede, de forma alguma, você abandonar o questionamento social, emocional, ou qualquer outro que você queira levantar. É uma corda bamba, isso de tentar casar conteúdo com formato, mas é necessário.

Escrever é arte, hobby ou necessidade?
Os três. É arte porque você precisa saber passar a ideia que você quer – que pode ser um questionamento, uma conclusão, um sentimento, qualquer coisa – de uma forma atraente, construindo frase por frase, se preocupando com ritmo, com desenvolvimento, até chegar onde imaginou. É necessidade por dois motivos. O primeiro, como eu disse, muitas vezes preciso escrever para entender – ou, ao menos, canalizar algo que eu esteja sentindo. Segundo, porque quem escreve sabe que escrever é uma das coisas mais viciantes e apaixonantes que existem. E é hobby porque é divertido. É muito divertido. É o mais perto que você consegue brincar de ser deus, atormentando a vida dos seus personagens, seja de forma cômica, triste, tanto faz. Às vezes parece que o texto inteiro está pronto na sua cabeça, e você precisa ir construindo, desvendando, como uma quebra-cabeças. Em outras, você não faz ideia de como aquilo vai acabar, descobrindo somente quando se aproxima do final dele. Terry Pratchett, o mestre por trás do DiscWorld, disse uma vez que “escrever é a coisa mais divertida que uma pessoa pode fazer sozinha”. Ele está coberto de razão.

E o próximo livro?
Tenho ideias, algumas coisas rabiscadas. Difícil conciliar com a rotina, quando não se vive exclusivamente disso. Mas, certamente, independente do formato (contos? romance?) e do gênero, ele terá uma linguagem muito mais próxima do Champ Vinyl, que é o que acredito que os leitores estão esperando.

O HOMEM NA JANELA

Anos depois, abriu uma garrafa de uísque, pegou um copo e foi até a janela.

Olhou as estrelas, olhou para as ruas. Sabia que ela estava lá fora, em algum lugar. Sempre soube disso, mas foi neste momento que percebeu que não fazia a menor idéia de onde ela estava, com quem estava ou muito menos o que estava fazendo.

E a idéia de simplesmente não saber se ela estava feliz ou não abriu um buraco em seu peito.

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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5 thoughts on “[Literatura Brasileira] Anônimos & Urbanos

  1. E eu ainda preciso ler esse livro. E vou! Me aguarde.

    Caramba, que entrevista bacana essa. Adorei. Muito legal saber um pouquinho do Rob por trás do blog. Soou meio como bastidores – e eu acho isso o máximo.

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