Aniversário: O Princípio

Desenho: José Aguiar (c)

Hoje é meu aniversário! 31 anos nas costas, 14 de carreira, muita coisa boa, algumas coisas esquecíveis, e a certeza de que nasci para ser jornalista. Como presente pessoal, voltei a escrever depois de 5 anos longe da “escrita por prazer” por conta do grande fluxo de textos jornalísticos. A retomada acontece em três textos, o primeiro segue!


O Princípio

No princípio havia amor. Traduzido em palavras. Letras reunidas, conceitos descritos, imagens transmitidas numa sala de aula. Então veio o elogio inesperado, um momento simples, mas fatídico. As palavras se perderam, o sentimento permaneceu e, desde então, escrever mistura paixão adolescente com seriedade profissional. Um rio tranqüilo, ou não, cruzando diversos países, assuntos e pessoas. Cada assunto se transforma numa rocha, algumas mais bonitas, outras nem tanto, depositadas nessa aventura ininterrupta, ou melhor, uma vida. Difícil decidir se as palavras definem a alma, ou é dela que nascem as palavras. Uma certeza se sobressai: olhar para esse riacho, ou corredeira, significa ver uma história cheia de orgulhos e fracassos. Há uma curva a diante e não esconde a empolgação para descobrir seus segredos.

A lembrança do primeiro momento é breve. Alguns rostos curiosos, o professor perplexo, o autor alheio à importância do momento. Todos mais velhos, experientes. Como imaginar reação diferente do garoto frente à dura realidade da escola pública cercado por gente mais velha correndo atrás do prejuízo? Culpa do coração. Maroto e sem convite atiçou um fogo inconsciente. Mesmo antes de nascer corria riscos de nunca acordar. Escondido num mar de poucas oportunidades, reprimido por um papel social previamente decidido, sedimentado longe das grandes jornadas, convencido inerentemente a aceitar um futuro sem futuro. Palavras. Atire a pedra quem nunca ousou. Um rascunho aqui, uma brincadeira acolá. O portal para um reino diferente daquele realismo inexpugnável.

Anos de leitura também ajudariam, mas escapar de seu conformismo fugia da compreensão do momento. Personagens surrados pela labuta, vidas sofridas e sem esperança, tragédias da vida moderna, nada mais que lembretes fictícios da maior de todas as lições. Um puxão de orelha subliminar passado por engraxates sonhadores, carregadores de malas bisbilhoteiros ou mistérios pouco misteriosos. Tamanha surpresa tais palavras terem surgido destoantes de tal cenário de sonhos irreais, onde mesmo o herói não encontra seu milagre e fortuna. A memória de anos mais felizes, quando aventuras fantásticas, seres d’outro mundo, montanhas encantadas e cafés da tarde repletos de pão-de-ló ao sopé de uma cordilheira mística atraiam atenção. Uma doce imposição aos sentidos, no momento em que sonhar era obrigação.

Mas não ali. Não naquela hora. Com a ausência do mestre sábio da literatura e do cinema, o lampejo de sabedoria veio de forma simples. Numa frase imbuída de respeito e extremo valor, mesmo que minimamente compreendido no momento. “Teu mundo não é esse, siga seu próprio caminho”, foram as palavras do Paxá. Homem sofrido, orgulho inabalável, amante fervoroso. Seus olhos notaram algo distinto naquele mundo. Aparecida segurava suas mãos quando transmitiu seus pensamentos. Os dentes brancos reluziam contra a pele escura. Seu sorriso desapareceu e seus olhos, aos poucos, se desviaram para a janela e contemplaram a noite.

Dias depois as palavras tomaram as rédeas. Mais que uma composição, uma ode impensável irrompia noite adentro. Sem grandes planos prévios, num surto de inspiração, mera tradução de pensamentos caóticos em linguagem escrita. O garrancho pouco cursivo foi presente do pai, sempre capitular e estiloso, mas alma superava forma; certeza vencia objetivos numéricos; sinceridade se unia ao estilo. Naquele momento, apenas uma simples descrição.

Descrição do mais alto dos sonhos, uma vida futura ou uma hora no futuro. Devaneio adolescente. Palavras soavam tolas em tão sincera homenagem, mas assim quis o destino e seus sortilégios. Desprovido de olho clínico e mão calibrada nas artes do traço, as palavras formavam sua aquarela, a ponta caneta seu pincel e a pauta do caderno, de súbito, transfigurou-se na mais atraente das telas. Desconhecia seu futuro e, enquanto rabiscava o papel branco, era Dickens e Tolkien, Van Gogh e Michelangelo, Lenon e Marley. Criava arte à sua maneira. Nada disso existia. Arte e realidade coexistiam tão bem quanto água e óleo.

A noite mergulhava fresca. Cruzeiro do Sul e Três Marias preenchiam um firmamento caleidoscópico. Luzes distantes e confortáveis. Sempre lá, observando. Foram suas companheiras no retorno vitorioso. Nota máxima. Admiração, inveja, vergonha, orgulho tudo misturado numa miríade tão complexa quanto o entrelaçamentos de fios numa malha magistral. Palavras, sempre elas. Dessa vez ditas com emoção. Olhares insinuantes, pleiteando homenagem similar passaram despercebidos. Assim como as brincadeiras de mau gosto dos conformados. Encontrou conforto sob o abraço das estrelas; eles mergulharam no torpor da cerveja.

Triste noite sem a boemia de Noel, orquestrada pela melancolia de Morrison. Era o fim. Antes mesmo do início. Pouco da poesia do rei lagarto rompia as barreiras da linguagem, cujas portas eram escancaradas pura e simplesmente pelo ópio lírico. “Quebre as barreiras”, gritavam, sem sair do lugar. Essencialmente palavras. Revolucionárias num momento, mantras sem propósito noutro. Metros de distância, mundos diferentes.

Entretanto, a inevitabilidade de Gaiman aplicava-se antes mesmo do nascimento do Sombra. Mesmo a mais impressionantes das descobertas se diminui, perde momentum e se esvai, como qualquer outra lembrança. Dias, meses, anos. Eras inteiras de uma existência ocorrem entre grandes momentos, daqueles dignos das baladas dos bardos de outrora. São eles os verdadeiros contadores de histórias, enciclopédias de conhecimentos, narrativas, lendas e acontecimentos extraordinários.

E, como os bardos, palavras nascem na inspiração. Num grande momento de esplendor e deleite dos deuses. Gigantescos acontecimentos contidos no mais simples dos atos. A imaginação de uma canção, o vislumbre do momento a seguir, as primeiras palavras de um texto. Uma simples descrição incapaz de mudar o mundo, mas responsável pelo nascimento de um mundo. Inexorável, como tempo; apaixonante, como a beleza; brilhante, como o mais impossível dos devaneios.

Os anos passaram e ainda sonho com as estrelas.

por Fábio M. Barreto

Agradecimento especial a José Aguiar, responsável pela ilustração do texto. =D

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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48 thoughts on “Aniversário: O Princípio

  1. Poxa cara… Parabens meu querido, que muitas atrizes em especial como, Kate Winslate, Nicole Kidman, Maryl Streep e derivadas, liguem par ao seu celular, para fazer muitas entrevistas. ¬¬
    Kekekkekekekekkeke…
    Um abraço cara, você so faz somar por onde passa.
    ABS!

  2. Este texto é autobiográfico e revela a beleza que vai por tua alma, o teu sonhar com as estrelas só me confirma que você também veui delas…
    Parabéns, Beloved!!!
    Beijo no coraçãoQ

  3. Pingback: SOS Hollywood
  4. Pingback: Oda
  5. Barreto! Saudades de seus textos! E pra variar, é lindo e muito delicioso de ler! Você escreve com a alma, com o coração…

    Parabéns Fá, que os Deuses iluminem sua vida, sempre!

    Amamos você e estamos com muita saudade!
    Fá e Má
    os Dindos =)

  6. Pingback: Jurandir Filho
  7. Parabéns cara muitos anos de vida …
    Te ouvi no rapaduracast e vc é uma pessoa muito inteligente e cativante no que fala, parabéns mais uma vez e gostei do seu texto.
    Falou um abraço.

  8. Pingback: SOS Hollywood
  9. Pingback: SOS Hollywood
  10. Felicidades Fábio “O Barretão” Barreto. Legal ter uma alcunha, hein ? ;D

    Pena não ter visto no dia, mas os feeds estão atualizados e aniversários são a oportunidade de ouvir publicamente aquilo que já se sabe sobre si mesmo. Você é um ótimo escritor. As vezes não se percebe a inteligência e a arte quando o escritor está embebido na tinta dos jornais e revistas. Jornalismo pode ser arte, até quando fala de outras artes, outras mídias. Você prova isso. A inteligência de fazer a pergunta certa, pois a perspicácia já antecipa o que vem como resposta. Mesmo assim nesse jogo, de ping pong em que se joga pra bola não cair, sempre resta a surpresa. Surpresa pois a questão vai carregada de inteligência, perspicácia, até audácia. Escrever aos pares… Quatro mãos numa conversa.

    Em aniversários o costume é parabenizar. Nem todos merecem… Alguns passam anos com pouco que sirva de mérito. Prefiro felicitar – desejar felicidade. Mas você merece, pelo menos a meu ver: Parabéns! Pois hoje vale dizer de modo que todos possam saber: não são apenas felicitações vazias, a consideração aos feitos merece o reconhecimento, a parabenização. Para esclarecer: Parabéns! Para lembrar: Parabéns! Para concluir: Parabéns!

  11. Ei, Fábio:

    Aqui é o “sogrão” …. e, principalmente, vô da lindaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa Ariel. Texto que transmite ao ledor seu próprio interior. E ele está muito bonito. Parabéns (repeteco público) por seu “niver” (afinal, você mora nos “States”) – com uma torcida muito grande por seu sucesso profissional. Caminhando com passadas largas rumo a um futuro brilhante!

  12. Nada como o tempo, pra refazer certas injustiças, conhecer melhor as pessoas… Confesso que logo nos primeiros PodCasts do CCR em que tinha a participação do Barreto, eu não o curtia muito, não sei porquê. Depois começei a ouvir suas outras participações, conheci seu site, um pouco mais sobre sua personalidade e hoje sou um grande admirador dessa Pessoa que se chama Fábio Barreto. Parabéns Barreto, pra você, para o seu trabalho. Vida Longa!

    1. Oi Vagno.

      Obrigado pela sinceridade, cara. Não sou uma pessoa fácil não, assumo. Mas, como aconteceu com você, conhecer melhor ajuda a derrubar algumas impressões. Obrigado por ter me dado essa chance e por, hoje, estar aqui me dando os parabéns. Fico lisonjeado.

      Abs,
      Fábio

  13. Muitíssimo obrigado a todos!

    Fico feliz ao saber do carinho de todos vocês. Tive um aniversário muito feliz, cheio de novidades positivas e as coisas só melhoraram de lá pra cá.

    Grande abraço e, novamente, obrigado!
    Fábio M. Barreto

  14. Barreto, além de parabéns pelo aniversário, vc está de parabéns por esse texto, e também por todos os outros do site. Já falei mas devo repetir, que você está fazendo a melhor cobertura de assuntos nerds do Brasil e as melhores críticas de filme do momento, parabéns e muito sucesso!

  15. Aí não vale. Covardia. Além de escrever absurdamente bem textos jornalísticos, informativos, o cara ainda humilha fazendo poesia, crônica… sei lá o que foi isso, só sei que foi foda.

    Hahahahahah, parabéns Barretão. Vc é um monstro, tanto no pessoal quanto no profissional, hahhahaha. Muitos e muitos anos de vida.

  16. Grande Barreto!

    O mundo ainda restrito, mas em expansão, dos podcasts brasileiros me traz grandes surpresas todo dia. Numa destas, trouxe um rapaz, um tal de Fábio Barreto.
    O que ele faz? É jornalista, tem seu podcast, fala de cinema, fala de Hollywood e… e… e escreve!
    Caramba! (e bota “caramba” nisto!)

    Tenho lido poucos textos – com mais de três parágrafos (!) (até porque são cada dia mais raros pela internet), tão bem escritos como este.

    Mas não era seu aniversário? Por que os presenteados fomos nós, leitores e ouvintes de seu trabalho, daqui do SOS, que é claramente feito com esmero e carinho?

    Meu pai tem o costume de dar uma festa no próprio aniversário. Normal. Mas além disto ele costuma dar presentes, nesta data, para quem ele ama e está mais próximo dele. Por muito tempo não entendi. Um dia ele explicou: “meu presente eu já recebi, completei mais um ano de vida cercado de pessoas que me amam, que dão cores às linhas que tracei. Nesta data, em que me alegro por celebrar mais um ano, eu aproveito para retribuir, de alguma forma, as pessoas que fazem isto: minha vida ter cor.”

    É Barreto, acho que é isto que nós que viemos aqui, recebemos hoje, aliás, no dia 18/09/2009, de você: uma pérola de texto.

    Parabéns (com o perdão do atraso) por mais um ano de vida completo!
    E que sejam muitos, ótimos, produtivos e agradáveis.
    No seu aniversário, ainda sob efeito da leitura do texto de hoje, eu agradeço: muito obrigado!!

    E que venham mais cem anos bem vividos…!

  17. Genial e sublime essa poesia em prosa, Fábio. Talvez pelo fato de ter acontecido comigo quase o mesmo, essa quase tardia elucidação cognitiva, o texto me tocou ainda mais. Além da alma do texto, posso falar também da técnica e é apuradíssima. Sabe quando um jogador de futebol de campo faz dribles curtos e geniais e os narradores dizem “ele tem essa habilidade porque veio do futebol de salão…”? Pois é, acho que o mesmo ocorre com jornalistas brilhantes que tem a centelha criativa para a literatura. Por dominarem a concentração da mensagem, acabam comunicando primorosamente em cada linha.
    Espero pelo próximos textos da “retomada”…
    Abs,
    Marcelo Salgado

  18. Quando a gente menos espera, pimba! Surpresas. Já tinha adorado os comentários, mas Patux e Salgado pintaram para me deixar emocionado novamente. Muito obrigado. MESMO!

    Daqui a pouco eu me convenço que posso ser escritor. aha. Cuidado, Salgado! Vc pode criar monstros dizendo essas coisas! =D

    abraços!

  19. Grande “Barretão”, sou grande fã do seu trabalho, o conheci através do Rapaduracast e considero um grande privilégio que nós, brasileiros fãs de cinema e entretenimento em geral, possamos contar com sua valiosa contribuição e com seus conhecimentos tão caros e necessários, sobretudo as informações “quentinhas” que vc sempre compartilha. Raramente faço comentários em posts ou matérias, sobretudo por falta de algo concreto para falar e que possa realmente acrescentar algo, mas faço questão de enviar meus votos de vida longa ao seu talento e mto sucesso na carreira, um forte abraço!

    Vinícius Paiva
    Brasília – DF

  20. Pingback: SOS Hollywood
  21. Cara

    É, de longe, a coisa mais bonita e mais bem trabalhada que você escreveu até hoje.

    “sinceridade se unia ao estilo”. Pelo jeito, ainda se une. Da forma mais brilhante possível.

    Parabéns, meu. Simplesmente genial!

  22. Rapaz…
    Já estava há um tempão com esse link guardado para lê-lo.
    Nem sempre a gente consegue fazer tudo o que quer… mas enfim, estou aqui!
    Parabéns pelo belíssimo texto… sensível e super bem inscrito.
    Parabéns, também , pelo aniversário… eu sei que estou muitíssimo atrasado… mas antes tarde, do que mais tarde ainda!
    Abraço

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