NFL: Pancada na Cabeça

Há pouco mais de um ano, sofri uma concussão. Demorei um pouco para aceitar o fato. Estava treinando com o time de pais da escola da Ariel quando, do nada, uma australiana maluca entrou numa dividida comigo – eu era o goleiro – não parou de correr quando eu agarrei a bola e acertou uma joelhada certeira no lado esquerdo da minha cabeça. Velocidade + força + corpo estático = alguém levando a pior. E fui eu. Fiquei no chão por alguns minutos, mas não apaguei. Insisti em voltar ao jogo no segundo tempo e percebi que algo estava estranho e, embora tivesse feito mais duas defesas muito boas, senti que a noção espacial estava diferente. Distante. Voltei para casa dirigindo.

Dois dias depois, as dores de cabeça começaram. E foram piorando. Fui ao médico, recebi medicação, fiz exames e precisei ficar longe de qualquer atividade física por um tempo. Cortei até o tempo no computador por conta disso. Qualquer coisa me detonava. Lembrei muito do pior acidente que meu pai sofreu, quando ele foi empurrado numa briga que tentava apartar no prédio onde morávamos, em Itaquera, e caiu de cabeça no chão. Ele ficou bem pior que eu, teve amnésia temporária, ficou internado e tem sequelas até hoje.

O tratamento funcionou. As dores de cabeça foram embora. Pelo menos as mais fortes. Vez por outra, elas me lembram daquele mês terrível. A verdade é que, joguei mais um jogo depois do episódio da concussão. Ganhamos! 2×0, com direito a troféu e tudo! Entretanto, nunca mais pisei num campo de futebol, que sempre foi minha paixão. E, talvez, nunca mais volte a pisar. Sou um goleiro dedicado e isso envolve pular nos pés de atacantes, pular contra as traves, levar bolada na cara e, sempre, correr o risco de bater a cabeça novamente.

Afinal, de acordo com o médico, mais uma dessa pode acabar com a minha vida ou gerar outras complicações. Ou, não pode ter efeito nenhum. Mas, quem sabe?! É sempre um risco, uma possibilidade presente e que volta à mente a todo momento. Peter Cech, goleiro do Chelsea, passou por isso e usará um capacete pelo resto da carreira. Ele corre risco todos os dias. Boxeadores também; muitos morreram no ringue por desalojamento cerebral e outros reflexos das porradas – ou fortes demais, ou acumuladas ao longo da carreira –, assim como os jogadores da NFL expõem-se diariamente. Tanto em treinos quanto em jogos.

Ali, é a política do machão. Quanto mais forte e intensamente o sujeito jogar, melhor jogador ele será, com chances de chegar/ficar no time titular, logo, aumentando o salário já milionário. Cech ganha milhões. Boxeadores também. Jogadores da NFL ganham mais milhões ainda. Mas hoje, um deles, Chris Borland, do San Francisco 49rs, resolveu abandonar um contrato de US$ 3 milhões, e um bônus de US$ 600 mil, depois de um ano de estreia cheio de pontos positivos. A razão alegada “pensei na minha saúde em longo prazo e, sinceramente, não vale o risco”.

Chris Borland

O risco ao qual ele se refere: concussões. A NFL levado muita porrada nos últimos anos por conta de jogadores ficando doentes e sofrendo sequelas depois dos anos de porradas na cabeça em consequência dos choques poderosos na linha de scrimage, tackles e quedas. Eles usam capacete, claro. Mas isso, em si, já deveria ser alerta o suficiente de que essa prática não é segura, tampouco sã. Faz parte do esporte, justo, mas a pergunta se repete: vale a pena?
Conheço muitos norte-americanos que comparam os jogadores da NFL a gladiadores modernos. Bem, os gladiadores lutavam até a morte e causar dano ao oponente era o objetivo. É isso que se espera de esportistas no século XXI? Em Rush, Nick Lauda fala muito bem: toda vez que entro naquele carro, sei que existe uma chance de 20% de que eu morra. Tudo é uma questão de risco, afinal, a vida não é segura. Mas os críticos da NFL têm levantado a bandeira de que o risco em si não precisa ser tão algo e que medidas preventiva podem, e devem, ser tomadas. Mesmo assim, hoje, as únicas práticas aceitas pela liga – que se exonera de toda e qualquer responsabilidade pelas concussões e seus efeitos, embora ex-jogadores doentes recebam compensação financeira em acordos sigilosos; milhares deles receberam fortunas para cobrir exames e tratamento médico, em agosto do ano passado, incluindo famílias de jogadores que cometeram suicídio ou ficaram inválidos por conta de chronic traumatic encephalopaty, ou CTE – são a presença de um observador para concussões e outras condições cerebrais, médicos especialistas em cérebro e coluna presentes em todos os jogos, e exames cognitivos constantes, afinal, uma concussão inicial pode ser tratada e totalmente superada; várias, ou agregadas por conta de tratamento insuficiente, não.

O dinheiro no esporte moderno é irresistível para a maioria dos jogadores. É tanta coisa que NFL tem que se preocupar com salários máximos para evitar a piora na supervalorização dos passes. É um dilema válido, pois se o esporte for a única, ou melhor, habilidade de uma pessoa, ela precisa sobreviver, realizar sonhos, sustentar a família. E, nesse ramo, isso ainda vem apenas de esforço físico, conhecimento tático e habilidade no esporte. Ainda não chegamos ao ponto de alguém ficar milionário por fazer de conta ser jogador de ponta (ok, há casos em que isso é levantado, mas deixando a tiração de sarro de lado, o cara precisa jogar, ou cai fora bem antes; o filho do Beckham foi descartado nos juniores do Arsenal recentemente, aliás).

Trabalhar ou correr o risco? Embora a decisão de Borland tenha alimentado a discussão pesada sobre CTE e as concussões, e conseguido apoio de muitos ex-jogadores e defensores de medidas preventivas, a realidade é que a fila de espera para a vaga que ele abriu é automaticamente gigantesca. É a realidade dos mercados. Mesmo com os riscos, um indivíduo pode apenas cuidar de si, mas causar pouco efeito no meio. É bobo, mas existe um exemplo similar em O Diabo Veste Prada, com o “emprego que mil garotas matariam para conseguir”. E na sua própria vida? Todo mundo já viu isso acontecer.

Ninguém é insubstituível. Só a vida – ou a qualidade dela – pode ser preservada e melhorada. Borland pesquisou casos famosos de suicídio, disse ter analisado dados médicos sobre CTE e suas causas, e tomou a decisão. Fãs do esporte perdem um jogador com uma carreira mais que promissora e ele perde milhões. A NFL ganhou uma nova dor de cabeça, afinal, só em 2013, 228 concussões foram relatadas – 261 no ano anterior – e esses números não tendem a cair, pois técnicos continuam pedindo mais e mais, jogadores fazem o que podem para continuar empregados e, como provocou Nelson Piquet, o público quer ver sangue.

Mesmo que ele não precise, de fato, ser derramado.

O que você acha? Vale o risco? Comente e participe!

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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2 thoughts on “NFL: Pancada na Cabeça

  1. Eu sempre fui contra esportes violentos, futebol inclusive e qualquer atividade que envolva riscos à saúde de alguém.
    Confesso que não consigo me divertir assistindo pessoas se espancando em um ringue ou se atacando em um jogo.
    E, se no esporte amador uma “coisinha de nada” pode causar um dano imenso, imagino os danos que estes atletas sofrem.
    Isso sem entrar no mérito dos joelhos e articulações destruídos, algo que evitam ao máximo comentarem mas que possui números alarmantes.
    Bem faz o atleta que analisa os riscos e decide não arriscar sua saúde por dinheiro, mesmo que seja por muito dinheiro.

  2. Texto excelente Fábio. sou muito fã de esportes e acredito que são o grande agente de transformação e motivação da nossa sociedade. Adoro MMA e a NFL porém, acredito que deve-se fazer ações e atitudes para minimizar os riscos. Exemplo: na NFL a reducão de número de jogos na temporada regular e tempo maior de descanso entre jogos. no MMA suspensões médicas coerentes e aplicadas com seriedades e em caso de seguidos knock downs a luta deveria ser encerrada pelo juiz imediatamente.

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