[TV] V: A Era de Lagartus

Distante da alegoria nazista de V – A Batalha Final, remake da série chama atenção na TV norte-americana misturando charme brasileiro com alta tecnologia, ficção científica e análise social. A chega dos Visitantes em V é apenas o começo. Leia entrevistas exclusivas com o elenco e os produtores!

V. Uma simples letra imortalizada na ficção científica e na análise social por duas razões: o personagem emblemático de Alan Moore, em V de Vingança, e, a mais popular delas, V – A Batalha Final, seriado clássico de 1983. Ambas compartilham das diferentes reações da sociedade em situações extremas, seja um governo autoritário ou uma presença alienígena, que, no fundo, na versão original, não deixava de ser um diferente tipo de autoritarismo. A vertente culta foi para o cinema, a popular voltou para a TV com o nome de V. Seguindo a mesma premissa do original, a nova versão vai muito além da alegoria ao nazismo que transbordava pelo roteiro da clássica. É a ficção científica e social do novo milênio, mergulhada na comunicação, sem limites, sem certezas e sem efeitos mambembes.

Duas décadas se passaram e a maioria dos questionamentos de V – A Batalha Final continua, especialmente por conta dos problemas responsáveis por tais perguntas. Sistema de saúde falido, má distribuição de renda, insatisfação religiosa, jogo de poder, enganação, etc. integram a natureza do ser humano moderno de forma definitiva. É o coração da América, a versão real do Sonho Americano, que se tornou tomou forma mais assustadora do que a imaginada pelo Comediante. Conceitualmente, V é um programa feito sob medida para essa situação.

Entretanto, não se trata de uma trama essencialmente política como foi Battlestar Galactica por uma razão fundamental: seu público é a TV aberta (ABC), logo precisa entregar o que se espera do gênero, ou melhor, de seu assunto, alienígenas e toda a trama que vai decidir o futuro da Humanidade. “Guerra pura e simples não é benéfico para nenhum dos lados”, explica Scott Rosenbaum, produtor executivo de V, com exclusividade a esse repórter, em Los Angeles. “Fazia sentido criticar o autoritarismo na série original, mas, com o intuito de honrá-la, não podemos simplesmente repetir cada conceito e o desenvolvimento, então atualizamos e adaptamos algumas coisas. Se os Visitantes quisessem nos dominar militarmente, fariam isso num piscar de olhos, logo, existe uma razão para essa estratégia. Anna precisa da gente por algum motivo”.

Anna é interpretada pela brasileira Morena Baccarin, experiente atriz dos palcos norte-americanos, treinada pela célebre escola Julliard em Nova Iorque, e velha conhecida dos fãs de séries de FC por conta de seu trabalho em Firefly, de Joss Whedon. Ela é versão moderna da malévola Diana, vivida por Jane Badler no original (tudo indica que ela fará uma ponta na série). Anna é o centro da trama: porta-voz para a Humanidade, rainha dos alienígenas e, aparentemente, a única conhecedora de todo o plano. Seu rosto belíssimo, mas, sutilmente diferente sempre aparece contra um fundo branco e pacífico em seus ‘anúncios e comerciais’ tanto na série como nas campanhas de publicidade na grade da ABC. “Somos um povo de paz”, diz a monarca lagarta, que apareceu durante a transmissão do Oscar.

“Ver meu rosto vinculado a todos aqueles grandes astros, em horário nobre, com o mundo todo assistindo é algo do qual nunca vou reclamar! Se quiserem de novo, é só chamar!”, brinca Morena Baccarin, com nossa reportagem. É o peso do papel principal e a responsabilidade de recriar uma personagem tão cultuada como Diana, mas a brasileira deu conta do recado e, pelo menos nos primeiros quatro episódios, ganhou a briga técnica contra Scott Wolf, seu companheiro humano de cenas. “Ver Anna como uma vilã simples não corresponde ao que ela é, afinal, alguém capaz de compreender tanto a natureza humana e conseguir manipular as situações de forma tão perfeita não pode ter apenas uma motivação ou sentimento”.

Sentimento existe de sobra nos humanos, mas é a primeira vez em que se considera o lado emocional da liderança dos alienígenas. “Anna também pode ser vulnerável”, diz Morena, surpresa pela menção a um possível relacionamento entre sua personagem e Chad Decker, o âncora de TV vivido por Wolf. “Uau! Vou adorar isso!”, descontraí o astro de O Quinteto. Mais velho, com o rosto bastante afetado por aplicações exageradas de botox, é impossível não gostar de Wolf, sujeito simpático e atencioso. Esse é um momento crucial para o ator, pois o sucesso de V é fundamental para que ele se distancie de vez de seu papel “eterno”. Joshua Jackson deixou Pacey de lado com Fringe, Jennifer Love-Hewitt e Matthew Fox, seus parceiros em O Quinteto, fizeram o mesmo com, respectivamente, Ghost Whisperer e Lost. Mas e ele? “Essa é minha maior chance, sei disso. O personagem é forte o suficiente e a história vai exigir muito do meu trabalho; estou confiante”.

Chad Decker surge como personagem complexo, mesmo sem ser o principal foco da série. Ele é um jornalista selecionado por Anna para ser o entrevistador exclusivo da alienígena. Isso lhe traz fama, mas contradiz a natureza investigativa do trabalho. Descobrir para qual lado a lealdade de Chad será dedicada é um dos grandes mistérios de V. Mesmo no final da temporada ainda não se sabe o que realmente acontece na mente desse sujeito dividido entre a fama mundial e sua própria raça. E você, de qual lado ficaria?

Ele poderia facilmente ser o personagem principal, porém, esse papel está nas mãos de Elizabeth Mitchell, recém-saída de Lost, uma agente do FBI e peça-chave da resistência humana. Rindo alucinadamente ao lado de Morris Chestnut (Ryan Nichols) e Joel Gretsch (Padre Jack), Elizabeth chama atenção por sua estatura e também pelo charme e inteligência. “Depois de ler o piloto, jurava que a série teria o foco no aspecto religioso, em vez da política”, comenta entre uma gargalhada e outra. “Convenhamos, não há ficção naquele mundo de pessoas desesperadas por um sistema de saúde melhor, avanços tecnológicos e melhores condições de vida. E aí chegam os ETs dispostos a resolver tudo isso, sem política e sem custo. É a essência do milagre e esse, em especial, não está previsto pela Bíblia”.

As possibilidades são infinitas nesse confronto entre Visitantes e Humanidade. Testes de fé, lealdade, amizade e limites acontecerão a todo momento, assim como diversas homenagens à série original. “Copiar não é o caso, mas existem referências a cada um dos grandes momentos clássicos; como Diana comendo o hamster; o pouso da primeira nave na fábrica ao som de Guerra nas Estrelas e outros momentos que é melhor nem mencionar”, diz Steve Pearlman, outro produtor executivo. Cada episódio contém, pelo menos, uma homenagem, ou seja, diversão garantida para quem adora procurar detalhes.

Falando em possibilidades existe até espaço para um pouco de Romeu e Julieta. Laura Vandervoort (a Super Girl de Smallville) e o novato Logan Huffman vivem, respectivamente, Lisa – a filha de Anna – e Tyler – o filho de Erica Evans, Elizabeth Mitchell. Essa relação nasceu na série original, com a necessidade dos alienígenas de começar a se reproduzir com os humanos, entretanto, desde sua gênese, a nova versão tem outra dinâmica. “Esses alienígenas são diferentes e acho que não esperavam se envolver com tanta facilidade, mas, claro, há limites. Lisa vai mudar e sua missão vai deixar de ser o foco na relação com Tyler; há um detalhe curioso, lagartos precisam colocar a língua para fora para sentir o cheiro e o gosto de suas vítimas, Lisa adora fazer isso quando está perto de Tyler (risos)”, comenta a beldade que não se arrepende nem um pouco de ter escolhido V em vez de batalhar espaço num previsível seriado teen como Gossip Girl. “V atinge mais gente e há muitos adultos assistindo à série, diferente dos shows tipicamente adolescentes, então é outro tipo de exigência; como ter que me retrair emocionalmente e manter aquela postura tensa o tempo todo [que chega a doer no fim do dia]”.

Seja pela demanda dramática dos atores ou pela qualidade técnica, V dá sinais claros de sucesso à vista. Tanto que foi renovada para a segunda temporada, enquanto a badalada FlashForward ficou de fora das renovações. A recepção dos primeiros quatro episódios, ou melhor, do “Prólogo” de acordo com equipe e elenco, trouxe atenção ao programa. Seus efeitos especiais não provocam estranhamento, tendem a surgir nos momentos certos e garantem um charme especial ao programa. Bate FlashForward em todos os aspectos, comparados os inícios de ambas as séries. E quando a influencia alienígena é mais realista do que uma série de acidentes com elementos terráqueos, nota-se que as escolhas de David S. Goyer (que já saiu da série) falharam.

Os alienígenas estão entre nós. Com isso, a grade norte-americana agora tem um número recorde de seriados de ficção científica, fantasia e terror: V, Fringe, Supernatural, The Vampire Diaries, True Blood, Star Wars: The Clone Wars, Caprica, Smallville, Stargate: Universe, Chuck, The Legend of the Seeker, Warehouse 13, Eureka, Merlin e os ainda inéditos The Gates, com Rhona Mitra, e No Ordinary Family, com Michael Chicklis. Com o fim de Lost e o cancelamento de FlashForward, V pode ser a aposta principal da ABC. Tudo depende do curso escolhido pelos produtores, que já introduziram a Quinta Coluna, a gênese da resistência humana e, pelo que tudo indica, um objetivo diferente para os Visitantes.

O elenco funciona e, pela primeira vez, nossa reportagem encontrou um grupo que realmente se dá bem e é descontraído. Todos dizem ser “famílias e muito amigos”, ver Elizabeth Mitchell, Morris Chestnut e Joel Gretsch gargalhando e se divertindo ao vivo comprova isso. E o reflexo está na série. Há algo mais ali e esperamos não ser apenas a vontade da redação de ver esse clássico fazendo história pela segunda vez. O Blu-Ray já tem lugar garantido ao lado do DVD da série original. É a melhor série da galáxia? Não. Mas pode ser a principal representante do gênero. V está na ABC, tem orçamento representativo e conseguiu um respiro para se consolidar em termos de roteiro.

Só gostaria que forçassem menos naquele uso pesado da tela azul. Pode ser? E você, o que acha da série?

por Fábio M. Barreto, de Los Angeles

Hey, esse aí é o Borbs??!??!

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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5 thoughts on “[TV] V: A Era de Lagartus

  1. Matéria foderosa, Barretão! V foi uma grata surpresa, confesso que apostava mais em FlashForward por conta do plot inicial… mas vimos no que deu. V se manteve consistente do início ao fim, e construiu um universo bem interessante. Vamos ver como vai se desenrolar a 2a temporada. Só discordo quanto a tela azul. Dá pra ver claramente, mas não chega a incomodar… creio que o pessoal mais velh… hã, EXPERIENTE estranha mais, não tá tão acostumado com tantos efeitos. Teve uma formação de caráter entretenimental (hein?) diferente. Mas, bom ou ruim, é assim que as coisas são feitas hoje em dia. Posso estar falando besteira, mas acho que sai muito mais barato do que construir cenários mega complexos como seriam TODOS envolvendo os V.

  2. Se alguem ainda não assistia V, com essa matéria vai passar a assistir. Uma coisa que eu achei legal é que na série antiga, demorou pro público descobrir a verdadeira “cara” dos alienígenas e fiquei na dúvida de como ficaria esse suspense na série nova. Mas, ele foi substituído pela tensão de que os “v” estão aqui há muitos anos. E a paranóia de não saber quem é humano, quem é alienígena caiu perfeita num clima pós 11/09 onde, os americanos, ficaram muito mais desconfiados. Vc não acha ???

  3. Não vi a serie clássica, mas no remake acompanhei a 1º temporada e me assustei como a serie crescia a cada episódio, foi uma pena terem dado uma pausa no começo, eu ate perdi o animo de acompanhar mas quando volto foi de explodir a cabeça, esperando o começo da 2º temporada.

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