[Entrevista] As Guerras de Hanks e Spielberg

Preservar a História, recriar os grandes dramas das Grandes Guerras e celebrar o heroísmo e coragem norte-americano. Três conceitos presentes no trabalho da dobradinha Tom Hanks e Steven Spielberg, os produtores e criadores das minisséries Band of Brothers e The Pacific. O diretor de redação da Sci-Fi News aproveitou minhas férias no Brasil e veio bater pernas por aqui para entrevistar os dois ícones do cinema mundial na ensolarada e cativante Pasadena. Como sempre, a entrevista é exclusiva da Sci-Fi!

Por Paulo Gustavo Pereira,
de Pasadena

Em termos de produção, o que mudou em relação a Band of Brothers?
TOM HANKS: A principal diferença é a nossa fonte. Para Band of Brothers, tivemos o magnífico livro de Stephen Ambrose. As três histórias que nós temos aqui são baseadas nas autobiografias de Eugene (With the Old Breed), que é considerado talvez o melhor livro de memórias de combate já produzido. É muito pessoal e escrito com sua voz e com a sua perspectiva de vida. O livro de Robert Leckie Helmet On My Pillow é mais um poema sobre o que significa ser jovem, vivo e envolvido em uma aventura tão horrível. A história de John Basilone é mais ou menos tirada de registro público. Mas eu diria que a principal diferença entre The Pacific e Band of Brothers é a mesma diferença dos dois teatros de guerra – Europa, mapas, as linhas territoriais traçadas, armistícios que seriam honrados. A guerra europeia foi a última guerra desse tipo, onde grandes inimigos lutaram e decidiram quando começar ou não. Na Europa, um soldado inimigo podia levantar suas mãos e sua guerra teria terminado. A Guerra no Pacifico foi mais como as guerras que temos visto desde então – uma guerra de racismo e terror, uma guerra de terror absoluto, tanto no campo de batalha como nas condições de vida normal. Os desafios que nos colocamos no começo de tudo isso foi de pegar seres humanos e fazê-los passar pelo inferno e, ainda, nos perguntar como eles se aproximariam do mundo quando retornassem.

LEIA O ESPECIAL THE PACIFIC, com mais entrevistas e resenhas dos episódios!

Quando você estava fazendo O Resgate do Soldado Ryan, você tinha noção que estava estabelecendo o visual para guerra e representações de guerra que continuariam por mais de doze anos?
STEVEN SPIELBERG: Tive uma sensação em O Resgate do Soldado Ryan de que eu estava estabelecendo um modelo baseado nas experiências passadas pelos veteranos que lutaram naquela manhã no Green Dog, Omaha Beach, e as suas experiências e da maneira como aconteceu – que eu vi nas fotografias dos poucos sobreviventes, feitas pelo grande correspondente de guerra Robert Capa. E juntei aquelas fotografias para tentar achar vinte e quatro frames por segundo equivalentes à mostragem daquele terror e daquele caos sem fazer um filme que parecesse elegante e bonito e com cores vivas, como a maioria dos filmes de guerra são feitos. Não é que estava tentando quebrar o molde dos velhos filmes de guerra, visualmente falando. Mas eu estava simplesmente tentando validar esses testemunhos, se você pode chamar assim, que nos foi passado com base nos jovens que viveram e sobreviveram àquela batalha. Eu não sabia que ia estabelecer o visual dos filmes de guerra. Mas era o que pensei ser certo para aquela história em particular.

Esse visual, contudo, tornou-se um referencial para filmes feitos depois de O Resgate. Isso é o que aconteceu em The Pacific, assim como em Band of Brothers?
STEVEN SPIELBERG: Demos a The Pacific um visual diferente, sem saturação, qualidade muito forte em relação a Band of Brothers. Em The Pacific, eles não estavam lutando em tempo nublado, já que o céu da região em totalmente azul. Às vezes, vinham monções e chovia terrivelmente, ficava lamacento e você não podia ver a mão na frente do seu rosto, mas foi uma guerra de céu azul. Era uma guerra quente, seca e de céu azul. Então, temos cores mais vivas em The Pacific do que em Band of Brothers porque é como foi, quando você lê os livros e conversa com sobreviventes.

Tom, você disse antes que tiveram liberdade de fazer o que quiseram nesta produção. Isso significa que há poucos homens na HBO que podem dizer a Tom Hanks e Steven Spielberg o que fazer?
STEVEN SPIELBERG: Posso simplesmente dizer que Tom Hanks e eu somos colaboradores maravilhosos. E também eles estavam nos dando um monte de dinheiro. (risos) Não a nós, mas à produção.
TOM HANKS: Tivemos um grande relacionamento. E sim, brigamos provavelmente sobre cada um desses momentos ao longo do curso, incluindo os títulos de encerramento, que descrevem onde todos foram.
STEVEN SPIELBERG: Se eu puder acrescentar algo…
TOM HANKS: Não fique tímido agora… (risos)
STEVEN SPIELBERG: Era inevitável que fizéssemos The Pacific com a HBO, porque tivemos uma resposta esmagadora, não só do público em geral que ficou muito envolvido com Band of Brothers, mas também de tantas cartas positivas. Cartas que diziam: “Eu era um veterano nas Ilhas Salomão.” “Lutei em Tarawa.” Recebemos muitas cartas de veteranos do Teatro de Operações do Pacífico nos perguntando se poderíamos absorver as suas histórias da mesma maneira que absorvemos as histórias do teatro europeu de operações.
TOM HANKS: E também a HBO disse: “As coisas estão indo bem por aqui. Fazemos mais dinheiro do que todas as redes comerciais combinadas. Temos duzentos e cinquenta milhões de dólares para gastar. Vocês querem fazer alguma coisa com isso?” (risos) Então, pegamos e corremos. Corremos para a Austrália, colocamos algumas balas na arma e fizemos o filme. (risos)
STEVEN SPIELBERG: Acho que o que nos levou a contar essas histórias baseadas nesses sobreviventes, nesses veteranos, foi, em essência, para ver o que acontece com a alma humana ao longo dessa batalha em particular. Essas ilhas eram trampolins para o continente do Japão. Todas as ilhas eram trampolins. E a guerra que fomos treinados para lutar, exceto o que pegamos da historia recente. Fomos treinados pelo inimigo, como lutar contra o inimigo. Eles nos treinaram a lutar como eles. E nós lutamos de um jeito bem diferente da nossa luta contra os italianos, os alemães e o eixo na Europa. Não quero comparar uma guerra com a outra em termos de selvageria. Mas há um nível quando a natureza e os humanos conspiram contra um individuo. E, para ver o que acontece com esses indivíduos durante todo o curso, até a explosão das duas bombas atômicas, é algo que foi muito, muito difícil para os atores e para os roteiristas… e para todos nós que pusemos na tela. Mas nós sentíamos que devíamos tentar.

Tom Hanks e Steven Spielberg homenageiam os veteranos em cerimômia emocionante.

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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2 thoughts on “[Entrevista] As Guerras de Hanks e Spielberg

  1. É emocionante o envolvimento deles nestas produções, que não são movidas apenas por dinheiro senão uma homenagem ao seu país. Cada detalhe, do cenário ao gestual nos mostram uma obra grandiosa.
    Parabéns Fábio, e percebo o quão fanático por filmes de guerra você é.

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