[Entrevista] Julie Andrews

Silêncio e incapacidade de abrir a boca. Foi assim reagi quando Julie Andrews entrou na sala de entrevistas. São 15 anos de carreira e, pela primeira vez, fiquei imóvel, embasbacado pela beleza de Julie e pela simples razão de sua presença. Não esperava isso, confesso. Sempre gostei de A Noviça Rebelde e Mary Poppins, mas nunca antecipei tal reação. Mistério. E dos bons, afinal de contas, descobrir nutrir uma paixão subliminar mudou meus planos para o papo a seguir. Embora não tenha lido a biografia de Julie, sabia dos elogios recebidos e também de sua grande paixão por livros infantis, o que foi curioso, pois a razão da entrevista era o filme Meu Malvado Favorito (Despicable Me), um apaixonante filme familiar com Steve Carrell e Miranda Cosgrove, no qual Julie interpreta vocalmente a mãe de Gru, o personagem principal. Inevitável falar sobre musicais, mas me surpreendeu uma boa análise do atual momento da Broadway e a avaliação de Julie sobre os resultados do último Tony Awards. A conversa foi ótima, mas me peguei várias vezes de queixo caído ao apreciar aquele charme e beleza digna de realeza que Julie Andrews exibe sem esforço. Um verdadeiro paradoxo em meio aos modelitos fúteis e bizarros habitualmente escolhidos pelas atrizes mais novas. Julie Andrews é uma verdadeira dama e sua voz continua deliciosa de se ouvir.

Por Fábio M. Barreto, de Los Angeles

A sua personagem em Meu Malvado Favorito têm um gênio ruim, mas também é adorável. Quão difícil foi quebrar essa imagem ideal que temos?
Ela é a pior mãe do mundo. Foi difícil fazer com que ela fosse adorável. Ela era tão desprezível! Ela é terrível. A única coisa que consegui encontrar é que o fato de ela ser tão egocêntrica faz com que ela não seja cruel de propósito. Acho que não conseguiria fazer algo do tipo. Ela é tão voltada para si como mãe, tão centrada em si mesma.

Como foi a criação da personagem, como você conseguiu deixá-la má? Foi o sotaque?
A parte do sotaque foi fascinante porque eu não fazia idéia disso quando comecei. Eu dizia: “Acho que não consigo fazer isso. Eu não sei quem ela é, não consigo me identificar.” E o diretor disse: “Por favor, venha e apenas interprete. Tente. Se não der certo, nós te liberamos, se você não quiser fazer o papel. Mas venha e tente.” E uma das coisas que me levou a isso foi o Steve Carell. Em 30 segundos, ele fez dez vozes para o personagem. E quando ouvi o que ele fez, pensei: “Agora eu sei que, por ser a mãe do personagem dele, viemos de algum lugar do leste europeu ou algo do tipo.” Não tenho idéia como, não sou boa em sotaques, mas comecei a encontrar… Mudei minha voz. Tentei ser bem diferente, para mim. Foi um exercício interessante.

Por que nós amamos pessoas grandiosas e…
Pessoas más. É o que fazemos nos filmes. Você gosta do Capitão Gancho ou do Peter Pan?

Mas você prefere o Peter Pan!
Sim, é verdade. E a Sininho. Você sabe que os vilões vão fracassar. Em 90% das vezes. Como deixar um vilão vencer e dizer isso para uma criança? E eles são todos vilões… A mãe, do seu jeito, e Gru também. Mas ele encontra o caminho do coração, e essa é a parte doce da história. Três órfãs entram na sua vida e o transformam.

Mary Poppins tem um lado sombrio?
Sempre achei que, em algum nível, algumas das coisas que ela fazia eram muito sombrias. Mas graças a Deus, ela nunca seguiu esse caminho. Como posso dizer? Eu não sei.

Não precisa fazer média (risos)
(risos)Não, não é isso. Estou tentando dizer que ela se livrava das coisas, mas sempre sabia o que queria alcançar. É o que eu acho. É uma visão geral sobre ela. Não acho que ela era cruel. Nos livros, ela era mais cruel. Em P. L. Travers isso era mais acentuado.

Geralmente quando uma obra literária é transposta para o cinema, ela perde um pouco de seu lado sombrio.
Às vezes. Depende.

Você disse que nós sabemos que os vilões vão fracassar e que os bonzinhos vão se dar bem…
Principalmente em filmes infantis.

Acha que existe espaço para surpresas nos filmes? Há algo que possa nos surpreender?
Acho que Meu Malvado Favorito é uma surpresa deliciosa. É um filme com uma estética visual bem incomum. A animação é muito especial. Acho que será bem-sucedido. Desde que as coisas não sejam feitas de modo oportunista. Fazer as coisas apenas para chamar a atenção ou pensando nos lucros com a audiência é errado. Mas veja o que o Tim Burton faz. Ele faz coisas incrivelmente boas.

Viu Alice no País das Maravilhas?
Ainda não. Eu estou morrendo de vontade de ver, mas ainda não tive oportunidade.

E qual foi o último filme que te surpreendeu?
Acredito que nesse ano Avatar foi surpreendente, foi feito de um modo incrível. Eu não assisti a muitos filmes nesse ano, tenho viajado muito. Mas assisti a Avatar. Todos haviam me dito que esse filme iria me surpreender. A história não é tão surpreendente, mas sim a forma como o filme é feito.

Viu em 3D?
Sim.

O que você pensa sobre o cenário atual da comédia musical?
Assisti à última edição do Tony, e – quero ser muito honesta em relação ao que disser – acho que nesse ano a Broadway não está especialmente original. Existem dois… “Fela!” e “Memphis” são bons musicais novos. Mas de certa forma – especialmente em “Memphis” – a produção é baseada em materiais antigos. Não é criado da forma como os musicais antigos eram. Eu torci por musicais durante toda a minha vida, porque eles são um prazer. E acho que eles vão melhorar conforme os anos. Só que esse ano foi meio parado nesse sentido.

Você está interessada em trabalhar com musicais?
Sim, eu estou. Não necessariamente atuando tanto, porque eu não faço mais tanto isso. Mas minha paixão por música, minha missão na vida é levar alegria às crianças… Muitas pessoas não sabem quem Rodgers e Hammerstein [os responsáveis por musicais como South Pacific, O Rei e Eu, e A Noviça Rebelde] são ou eram. Mas é importante que as pessoas conheçam esses nomes e que a maravilha da sua música seja trazida novamente de tempos em tempos. Mas, por exemplo, dois dos livros dos meus filhos têm sido um presente maravilhoso para mim. Um deles chama-se “Simeon’s Gift”, e eu o incluo na apresentação como uma narração, com uma orquestra sinfônica. Eu nunca imaginei, quando escrevi aquela história com a minha filha, que esse seria o resultado. Outro livro que escrevemos foi “The Great American Mousical”. Não “musical”, mas “mousical”. É sobre uma trupe de ratos que moram em um teatro da Broadway e estão montando seu próprio show. É tudo o que você pode saber sobre teatros, mas com ratos.

E a sua autobiografia?
A autobiografia que saiu foi muito bem-sucedida. Minha filha Emma – minha filha biológica e do meio – é minha sócia em uma pequena editora e agora temos escrito e trabalhado juntas nessa editora por 13 anos. Escrevo há 35 anos, mas fundamos essa editora juntas e ela tem produzido muito bem. Publicamos cerca de 25 livros até agora.

Parabéns!
Eu sei! Nunca pensei que faria uma autobiografia. Fui juntando pedaços.

E como foi isso?
Profundamente satisfatório. Tentei ser o mais honesta possível, mostrar um panorama geral… Queria expor uma parte específica da minha vida, o primeiro um terço da minha vida, mas queria que as pessoas – se elas se interessassem por isso – soubessem o que foi, como criança, aparecer em musicais. Mostrar um pouco da história que elas não conhecem.


Você mencionou as conseqüências do tempo. A maioria dos filmes de sucesso é baseada em livros…
Sim, isso sempre ocorreu, na verdade.

Buscar material estabelecido é a garantia para ter filmes, ou musicais, bem-sucedidos hoje em dia?
Antigamente os grandes musicais eram adaptados a partir da Broadway. “O Rei e Eu” e “A Noviça Rebelde” eram peças da Broadway. Não sei se isso ocorre atualmente. Chicago é um filme e um musical, e o filme foi feito a partir do musical, bem como Nine. Então várias investidas musicais da Broadway chegam às telas do cinema, mas filmes clássicos como Guerra ao Terror são originais. E há muito disso. Um musical originalmente feito para o cinema é bem raro, e “Mary Poppins” foi um deles.

Qual foi o último musical original do qual você se lembra?

Essa é uma boa pergunta. Provavelmente O Calhambeque Mágico. Eu adoraria fazer um musical original para o cinema, mas não posso te dizer honestamente qual dos recentes se encaixa.

O último do qual me lembro é “Moulin Rouge – o amor em vermelho”. Era bem original.

Esse mesmo! Você está certo. Mas ainda assim, a música não era original.

Não a música, mas o conceito.

Sim, o conceito era muito interessante e lindamente filmado. Mas fiquei brava pelas músicas não serem originais (sorriso).

Nesse ano temos Denzel Washington, Scarlet Johannson na Broadway.
Não é bacana que eles estejam se dando bem na Broadway? É maravilhoso. Eles estão trocando de ambiente. Antigamente os artistas iam da Broadway para o cinema, e agora o caminho é inverso: do cinema para a Broadway. Isso é muito bom.

Mas exista uma necessidade de a Broadway atrair artistas de cinema?
Sim. E vários artistas da televisão também estão indo para a Broadway atualmente. Porque as pessoas os conhecem, então eles atraem público para o teatro.

Os musicais ficam, de certa forma, um pouco empoeirados às vezes. Você poderia comentar um pouco sobre isso e sobre o retorno dos musicais?
Eu espero que eles retornem. Tudo passa por ciclos. Isso acontece com qualquer coisa. Filmes passam por ciclos, as modas retornam, e retornam novamente.

É preciso ter sorte para conseguir um bom orçamento, não?
Sim, às vezes, se você tiver sorte. Se você tiver sorte. Mas sinceramente espero que os musicais continuem a aparecer. Eu lembro que antigamente eles diziam: “Você não pode mais fazer algo que precise de um grande orçamento. É ridículo.” Bem, olhe o que tem se feito atualmente! Mas por um tempo eram filmes de baixo orçamento. Não sei exatamente o que isso refletia na época, se era o momento… É tão caro fazer uma produção dar certo. É incrível para mim que algum filme grande ou que uma grande produção da Broadway seja realizada.

Por onde você tem viajado atualmente?
No começo desse ano, estive em Londres. No começo do ano que vem, vou viajar para um show que estou fazendo – não posso dizer que canto, mas que contribuo para um show incrível. Canto algumas canções, mas em uma voz que mistura o cantado e o falado, por causa da cirurgia que eu fiz. Mas a segunda parte da apresentação é de um livro meu que foi adaptado para o palco e para uma orquestra sinfônica, então eu narro. A apresentação se chama “The Gift of Music”. É antigo e novo. Na primeira metade, temos músicas com as quais sempre fui associada.

Qual música retrata sua personalidade?
Minha personalidade! Nossa, são tantas. Já me disseram – não sei se é verdade – que “A Noviça Rebelde” é o filme que mais captura parte da minha essência, mas eu realmente não sei. Acredito que cada projeto que fazemos tenha uma parte de nós. Como um pintor, ou seu estilo de escrita.

Você mencionou que adoraria participar de alguns musicais…
Eu adoraria contribuir. Por exemplo, meu livrinho, o “The Great American Mousical”, ser desenvolvido como um musical me deixaria muito feliz. E espero que haja outros também. E o fato de que o outro livro que escrevi foi desenvolvido é um milagre. Para mim, escrever incorpora a parte musical também. Quando eu escrevo, vejo a peça e penso no tipo de música, na entrada que o personagem teria. É baseado em tudo o que eu sei, mas em formato de livro.

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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9 thoughts on “[Entrevista] Julie Andrews

  1. Absoluta diva de todos os tempos, amo de paixão! Morreria (de felicidade) se tivesse que ficar cara a cara com a Julie Andrews. Agora, ficar cara a cara e ainda ser coerente? Ou uma coisa ou outra, os dois, não. Meus parabéns a você, por tamanha honra e sorte!

    A propósito, adorei a entrevista. 🙂

  2. Arrepiei só de imaginar! Nem consegui ler a entrevista ainda! Sempre me pego cantando as múricas dw Mary Poppins! O filme é fantástico e mágico até hoje! Mais tarde eu leio e volto a comentar.

  3. Poxa Barreto, que orgulho de termos um repórter tão “alto nível” como você ai em LA. Você tem o dom de tirar dos entrevistados fatos e opiniões que nunca tínhamos visto eles comentado. Julie Andrews é uma lenda, uma dama, uma verdadeira rainha do cinema, é muito legal ver você conduzindo uma entrevista tão bem realizada como essa. Parabéns, você é um nível superior de jornalista.
    Abraço.

  4. Julie Andrews é maravilhosa, jamais será esquecida. Admiro sua arte, sua beleza natural, sua capacidade de comunicar com a dança, com a música, com o teatro, com a ARTE de SER. Gostei demais da entrevista. conheci um pouco mais sobre esta mulher, dom de Deus.

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